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11 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (2. A Busca pela Transcendência)

(continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? parte 1)

Restringindo-me ao Cristianismo, e aqui me refiro exclusivamente ao Cristianismo no Brasil, há dois polos básicos distintos que se excluem mutuamente: de um lado, uma perspectiva cristã que se apresenta ecumênica, inclusiva,  reconhece e respeita as diferenças, atua de forma cidadã e  defende princípios éticos na política; todavia, não responde às questões existenciais mais simples e não consegue consolar, animar a esperança... perde-se no ativismo inconsequente.

De outro lado, temos o cristianismo dogmático, fundamentalista, cheio de regras e preconceitos, que se preocupa com o “espiritual” (sem deixar claro o que isso seja) e transforma a imanência da vida (a realidade, o “mundo”) em inimigo a ser negado e derrotado. Consegue trazer conforto a custa da alienação absoluta e da domesticação da inteligência através da moral exigente, para garantir uma “vida eterna” após a morte, sem se importar com a vida que a maioria das pessoas vive, cujos problemas e sofrimentos  são considerados "provação" que deve ser aceita "com fé" para merecer o amor de deus, o seu deus cruel e pagão de sempre. 

Entre os dois polos, está a religiosidade popular, que se manifesta em muitos  matizes diferentes, vinculados à cultura popular, ao folclore. É onde se encontra a maioria da população. São as crenças religiosas populares, herdeiras de uma catequese pobre e superficial para cumprir os ritos iniciáticos, seja no Catolicismo Romano, seja nas diferentes linhas do Protestantismo. Com isso, o povo vai levando a vida, com sua fé e honestidade, sempre na perspectiva de “agradar a Divindade” para receber seus favores, como no Paganismo! Promove a separação entre a vida cotidiana (profano) e os momentos de reza, culto, devoção (sagrado); recebe grande influência do Kardecismo e tradições africanas, criando sincretismos religiosos. Em muitos sentidos é uma expressão do conservadorismo e facilmente se alia aos grupos mais dogmáticos e fundamentalistas.

As facilidades de comunicação disponíveis atualmente, revelaram outros modelos religiosos e  muita gente foi buscar tais alternativas, mas a grande maioria ainda permanece no tradicional coquetel religioso da cultura brasileira.

O Islamismo, com suas diferentes nuances e ênfases, tem sido uma alternativa para pessoas cansadas do dogmatismo tradicional cristão, mas defrontam-se logo com um dogmatismo semelhante, além do que o Islã pressupõe uma disciplina que é estranha à cultura brasileira. 

Percebo no Budismo uma alternativa onde a Divindade não é necessária, e tem se tornado um caminho de espiritualidade para algumas pessoas que abandonaram o Cristianismo.  Para elas, especialmente aquelas com formação superior, o Budismo aparece como uma filosofia de vida sem necessidade de doutrinas sofisticadas e práticas rituais complexas. Por não estar centrado em uma Divindade específica, o Budismo permite maior liberdade de pensamento.

Para a pequena parte da população que ainda consegue pensar de forma independente, não há muitas alternativas. Talvez isso explique o ressurgimento do Deísmo, fruto do Iluminismo, divulgado por pensadores como Voltaire, por exemplo, e sendo radical no pensamento de Baruc Spinoza (que era judeu) sobre Deus. Em outras palavras, Deus existe, mas não se envolve. A vida humana transcorre sem necessitar que Deus faça qualquer coisa.

A partir das últimas décadas do século passado, surgem novas perspectivas de busca da transcendência, de certa forma similares ou próximas ao Deísmo. 

Movimentos unitários, que se apresentam pouco preocupados com sistematização doutrinária, tentam formulações consistentes a partir das tradições religiosas, especialmente a partir do modelo monoteísta judaico-cristão. A ênfase não é no sistema de crença, mas no convívio e partilha da vida, suas dores e alegrias, na solidariedade e compaixão, em busca da transcendência. Evitam a linguagem religiosa tradicional, mas mesmo assim têm um discurso religioso sutil. Tem atraído os desigrejados, gente que procura viver a fé sem se vincular à instituições e padrões.

Particularmente, desconfio disso pois seus missionários têm vindo dos EUA. Todavia, se caracteriza por pequenos grupos (pelo menos por enquanto) que se reúnem para compartilhar, orar, estudar, enfim, experimentar o convívio comunitário de forma saudável e sem imposições de usos e costumes. Ainda é um movimento inicial no Brasil, mas provavelmente, caso avance, acabará se institucionalizando (já está institucionalizado nos EUA, o que me causa incômodo, pois se assemelha a "mais uma igreja",  sutilmente proselitista, que usa uma linguagem diferente para afirmar-se como "nova forma de espiritualidade").

Na mesma direção, mas sem identidade estado-unidense, está a Fé Bahá'i, que vem crescendo no Brasil. Sua ecumenicidade notável, sua organização, tem reunido pessoas de bom senso e desigrejadas, desiludidas com o Cristianismo. 

A busca pela transcendência continua. A sensação de que há algo além da realidade tangível inquieta e exige que se pense nisso e se busque alternativas. Infelizmente, o Cristianismo,  como tem sido construído desde  o século II após o Cristo, acabou deixando de ser uma alternativa saudável para a maioria das pessoas que não se contentam com o senso comum. A Boa Nova acabou silenciada de tal forma que não é mais perceptível ao ser humano ocidental neste século XXI.

===/=== (continua >>> veja postagem seguinte)

9 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (1. O terrível deus pagão do Cristianismo)

“O amor de deus é incondicional!" é uma das falas preferidas que pregadores cristãos gostam de usar. Não se dão conta que estão contradizendo o que eles mesmo ensinam há séculos: “temos de cumprir a vontade de deus!”, “temos de obedecer aos seus mandamentos!” e coisas semelhantes. Ou seja, se você não cumprir a “vontade de deus” ou não “obedecer aos mandamentos” você está lascado. Portanto, há uma condição essencial para merecer o “amor” de deus, que, portanto, é amor condicional. Em outras palavras, o deus do Cristianismo em nada difere dos deuses pagãos da antiguidade: é preciso agradá-lo, bajulá-lo. Para não sofrer castigo, é preciso fazer um sacrifício, uma penitência. Ou seja, esse deus impõe a justiça retributiva, como os antigos deuses pagãos.

Os pregadores afirmam, ainda, que “deus é onisciente”, mas se contradizem quando explicam “deus está testando a sua fé” para alguém que está sofrendo, doente, na solidão, enfim, nas circunstâncias tristes da vida. Ora, se é onisciente, porque precisa “testar”? E ainda ensinam que, se a “fé” fraquejar, lá vem a retribuição: você está lascado; não cumpriu a condição para merecer o "amor incondicional". Tal como os deuses pagãos.

Pior ainda é a afirmação que quando tal e tal coisa acontece é pela a vontade de deus. Vejo muitos agentes pastorais dizendo isso a quem está feliz, mas também para quem está em situações complicadas, ou vivendo o luto, ou sofrendo diante de sua própria fragilidade ("vamos nos conformar com a vontade de deus, há um propósito nisso!"). Que deus cruel é esse, cuja vontade é o sofrimento de alguém? Então para uns, a vontade de deus é bênção, para outros é maldição? Qual o critério para tal “vontade“ se manifestar de uma ou outra maneira?

Honestamente falando, o discurso do Cristianismo, desde há muito tempo, não difere de qualquer outro discurso religioso. Vejo as mesmas contradições em outras tradições. Ou seja, os deuses pagãos continuam imersos na cultura cristã. O Cristianismo criou outra nomenclatura para o que sempre existiu. Não há "boa nova" alguma!

Essas colocações, que se apresentam como fundamentais na “doutrina cristã”, reduzem a ética do Evangelho a rígidos preceitos morais, o tal do “isso pode, aquilo não pode”, o método predileto das elites para manipular as pessoas usando uma presumível culpa/julgamento/punição/penitência/perdão como argumento. O mesmo faz a maioria dos líderes religiosos; afinal, religião é uma forma de poder.

Sinceramente, atrevo-me a indagar o que realmente significa “salvação”, palavra sempre presente nas pregações “cristãs”. Salvação de quê? Nisso, o Cristianismo difere do Paganismo. Os deuses pagãos da Antiguidade não pretendiam salvar ninguém!

Por exemplo, judeus e cristãos adoram se referir à libertação dos hebreus quando escravos no Egito. O deus demorou 400 anos para ouvir o clamor do povo! Quatrocentos anos! Foram 16 gerações de escravidão. Ou seja, "deus tarda, mas não falha!" O problema é que enquanto ele tarda, a gente se lasca, e até morre sem saber se ele chegou mesmo.

Religiões monoteístas afirmam a existência de um criador de tudo que existe. Portanto, se o tal Inferno de castigos eternos existe, foi criado pelo tal criador. Por que o tal criador criou um local de castigo eterno? Teria a intensão de criar os que seriam castigados??? Para que?

As religiões institucionalizadas criam suas doutrinas e as atribuem à Divindade. Ou seja, as religiões criam uma “divindade” à imagem e semelhança do ser humano. Por isso, a “divindade” tem vontade, manifesta ira e afetomata e dá vidajulga, condena e mostra misericórdia; exerce justiça de forma retributiva. Os deuses pagãos tinham até tesão; o deus judaico-cristão é casto e não tem simpatia alguma para com a sexualidade humana; nisso também é diferente! 

As religiões negam a transcendência, reduzindo-a à simples imanência, cheia de normas morais criadas pelos que controlam tudo, definindo como deus age na relação com os seres humanos. 

Assim é o deus do Cristianismo que se ensina e se prega há séculos! um deus tão terrível quanto os antigos deuses pagãos, centrado em si mesmo, muito distante do Deus que Se revela em Jesus Cristo, o Deus que inspirou o Movimento de Jesus!

===/=== (continua) >>> veja postagem seguinte


29 de jun. de 2015

Homoafetivos e Banqueiros.

Bandeira Homoafetiva

É público e notório o ódio às pessoas homo-afetivas esparramado por gente que se diz “cristã” e manipula a Bíblia para justificar esse preconceito que se torna ódio irracional.

Até há 60 anos atrás, nos Estados Unidos (já que a maioria dos brasileiros é fascinado por aquela nação) cristãos brancos exibiam descaradamente seu ódio às pessoas negras, fossem elas cristãs ou não. Claro, justificavam suas posições usando a Bíblia… De fato, a Bíblia pode justificar qualquer coisa  quando usada de má fé e de forma ignorante, aliás, como a ciência.

Há alguns anos, eu atuava como Secretário Regional do CLAI* para o Brasil, fui convidado para apresentar uma palestra em evento nacional de uma das igrejas membros do Conselho. O tema, até mesmo devido à minha função, era Relações Ecumênicas e Cooperação. Terminei a palestra, cerca de 25 minutos, e convidei ao plenário apresentar perguntas.  Para minha surpresa, recebi três perguntas por escrito, as três com o mesmo teor, que pode ser resumido assim: “Parece que a sua Igreja tem discutido o tema da homossexualidade, pode explicar como tem sido isso?”  Entendi, então, porque eu havia sido convidado e que o assunto preocupante para aquelas pessoas era a questão da homossexualidade na Igreja, e não necessariamente as relações ecumênicas...

Não fugi do assunto. Pelo contrário, expliquei que a Igreja Episcopal estava dando início à discussão sobre o tema de maneira pública, a exemplo do que vinha acontecendo em outras Igrejas da Comunhão Anglicana. Informei que a Igreja estava ainda em fase de debates teológicos sobre o tema, e ao mesmo tempo colhendo subsídios através de outros campos do conhecimento humano, mas que a discussão evoluiria até chegar ao nível das comunidades locais, as Dioceses e suas paróquias e missões; informei ainda que mais detalhes de como andam as discussões e documentos já produzidos poderiam ser obtidos com a Secretaria Geral da Igreja ou com o Centro de Estudos Anglicanos.

Seguiu-se então um tremendo debate. Muitos pastores se pronunciaram contrários, e alguns que eu sabia serem favoráveis temiam manifestar-se.  Eu apenas ouvia os comentários, distribuindo a palavra a quem pedia. Resolvi não me pronunciar porque percebi que aquele era um tema que estava criando possibilidades de divisão da Igreja. Mas eu não resisti comentar a fala de um jovem pastor que afirmou estar no início de seu ministério.

Demonstrando uma certa ira, ele esbravejou contra as pessoas homoafetivas, citando a bíblia a torto e a direito, especialmente pedaços de versículos, e reparei que ele estava usando uma versão da bíblia de péssima tradução, muito antiga e hoje em dia irrelevante.

Em certo momento ele afirmou categoricamente e apresentando até uma certa arrogância: “Eu jamais darei a Santa Ceia a um homossexual!”. Eu não resisti, o interrompi e larguei a pergunta:  “Você daria a Santa Ceia a um banqueiro?” . 

Ele respondeu que sim, se fosse um banqueiro cristão, claro que poderia receber a Ceia. Então eu respondi a ele:  “Interessante a tua postura pastoral e teológica. Você esbravejou versículos bíblicos fora de contexto, até mesmo modificou o sentido de alguns, para justificar que não daria a Ceia a uma pessoa homossexual. Todavia um banqueiro vive de usura, e a Bíblia, ai sim, está cheia de afirmações condenatórias da usura e do usurário. Então, eu não entendo teu critério de ler a bíblia.”

Acabei de dizer isso, o plenário explodiu em aplausos de pé e o rapaz se retirou cabisbaixo…

Pois é, caro leitor. E você, daria a comunhão, ou a tomaria ao lado de um banqueiro? Tomaria a comunhão das mãos de um pastor preconceituoso e semeador de ódio aos diferentes?

A quem, afinal, tu serves, ó cristão? ao preconceito ou ao Cristo?
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* CLAI – Conselho Latino-Americano de Igrejas.
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30 de nov. de 2012

Comunidade ou clientela?

Rev. FulanoMuitas vezes aparecem pessoas visitando a São Paulo Apóstolo, e travam comigo ou com alguém um diálogo assim:

“_ Esta igreja aqui é a mesma do Rev. Fulano, lá de (cidade)? a gente é de lá, frequenta lá. É que disseram que é a mesma!”

“_ Sim, é a mesma Igreja, somos parte da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil”

“_ Não sei se é essa, mas é a mesma coisa né? porque a gente gosta muito do Rev. Fulano, sabe, né, ele é muito bom, faz muita coisa boa!”

“_ Sim, eu sei…”

“_ Mas é tudo igual à igreja de lá, né?”

“_ Vocês são Episcopais Anglicanos?”

“_ É, acho que é isso, Anglicana, né? mas é a igreja do Rev. Fulano, em (cidade). A gente gosta muito dele, sabe? ele fala bonito, muito espiritual, e faz muita coisa boa pros outros…”

“_ Sei…”

“_ Aqui não tem muita gente, né? é que lá todo mundo gosta do Rev. Fulano… muita gente vai lá… ele é muito conhecido, né? Inclusive ele casou o Vice Síndico do meu prédio e batizou o filho da amiga da minha prima de segundo grau, foi assim que a gente conheceu ele.”

“_ Sei… mas vocês são bem vindos, em nome do Senhor Jesus Cristo!”

“_ Como é mesmo o seu nome? é que a gente quer telefonar lá pra Igreja do Rev. Fulano para ter certeza que é a mesma coisa; é que não é igual, sabe? lá não tem aquela coisa ali na mesona…” (ou “não tem vela”, ou “tem muito mais vela”, ou “tem a foto da avó do Rev. Fulano com ele no colo quando bebezinho, no lado do altar” – coisas desse tipo).

Já ouvi isso em outras comunidades onde trabalhei, e mesmo no meio ecumênico, gente que se refere à uma Igreja ou uma Denominação se referindo a um determinado pastor (vi isso em diferentes denominações).

Uma das coisas que sempre peço a Deus em meu ministério é que a Paróquia onde sirvo não venha a ser conhecida como a Igreja do Rev. Caetano, para que eu não peque por Soberba ou Orgulho. Eu pretendo servir ao Povo de Deus em Cristo, na comunidade episcopaliana onde esteja servindo e exercendo meu ministério, em comunhão com o Bispo Diocesano, e não a uma clientela que me idolatre! Eu tento sempre apontar ao Senhor, não a mim mesmo.

É o Espírito Santo de Deus quem deve fazer a Igreja, não a minha simpatia pessoal ou as sugestões do meu personal promoter, ou a minha enorme capacidade de bajular quem aparenta ser “pessoa de bem” (bens!).

É claro que as pessoas têm no pastor sua primeira referência, especialmente se são novos na comunidade. Mas o convívio com a comunidade acolhedora, a pregação, o ensino e – principalmente o não ter pressa para confirmar ou receber formalmente em comunhão uma pessoa a fim de mostrar crescimento estatístico – deve fazer aos poucos  que as pessoas se identifiquem com a Comunidade, e com a denominação. 

Que Deus me ajude! e que Deus salve a Igreja dos que se autopromovem usurpando o nome do Senhor! daqueles que, ao divulgarem a si mesmos, pensam estar divulgando a Igreja e o Evangelho, nas relações pessoais e, principalmente na mídia.

Como disse o Apóstolo São Paulo, “ […] de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. (1. Cor 3.7)

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26 de ago. de 2012

VOTO DE CABRESTO OU RESPONSABILIDADE PASTORAL?

FALE

Fico feliz em ver o FALE assumindo essa campanha! O FALE foi uma iniciativa que começou quando eu era o Secretário Regional do CLAI para o Brasil, e foi exatamente o apoio institucional do CLAI que permitiu o surgimento do FALE. Por muitos anos fiz parte da equipe de assessores e redatores do FALE. Uma das mais belas iniciativas realmente evangélicas, inspirado no movimento SPEAK-UP da Inglaterra, o FALE do Brasil se tornou o maior grupo da Rede no mundo.

O posicionamento do FALE vai exatamente contra aquele tipo de clérigo que “vende” seu voto e o voto de sua congregação, em troca de favores políticos, escusos.

Isso não significa afirmar que clérigos devam esconder suas posições políticas! Exatamente por sermos um Estado Laico, os clérigos são primeiro Cidadãos (porque não nascem clérigos) e devem exercer sua cidadania com transparência e devem SIM, por serem formadores de opinião, ajudar o povo de suas comunidades a exercer sua cidadania, como princípio ético. Não se trata de "obrigar" o voto, mas levar à uma análise crítica da realidade à luz da Palavra de Deus, o que seria de fato seu papel como teólogo com a comunidade. O que não se deve fazer, por ser antiético, é atrelar seu ministério a um projeto eleitoral que implique em "benefícios para a igreja".

Calar-se diante de uma realidade por ser clérigo, seria na verdade apoiar uma situação existente e um núcleo de poder político. Nesse caso Dietrich Bonhoeffer, por exemplo, não poderia ser considerado uma referência ética cristã contemporânea. Seu posicionamento político foi bem claro e o levou a atitudes radicais diante de um poder diabólico que - exatamente em nome da neutralidade religiosa, foi apoiado pela Igreja oficial.

Nada deve parecer natural
Se o pastor omitir-se, a mídia vinculada ao poder dominante atrela o povo... Os opressores poderosos não são invencíveis!


Meus paroquianos sabem com clareza minha posição política, ela está expressa de forma transparente até mesmo no FACEBOOK, e nem por isso sentem-se no cabresto do seu pastor. Aliás, aqui no Rio, eu voto FREIXO.

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25 de set. de 2011

Tolerância Religiosa, vírgula!

S.Paulo e S.Pedro - A Igreja nasce com diferenças, porém em comunhão!Antes que os politicamente corretos de plantão comam meu fígado, devo deixar claro que eu não defendo a guerra religiosa, nem tampouco considero a minha religião como a única verdadeira. Pelo contrário, meu encontro com a fé cristã se deu no contexto ecumênico, no tempo em que ecumenismo era mais que um chazinho entre hierarcas das Igrejas.  Por isso, eu procuro viver a minha fé dentro do contexto da diversidade que o mundo globalizado nos impõe.

Também preciso dizer que defendo a liberdade de expressão e de opinião, e em tempos passados eu mesmo fui vítima de um regime que não permitia nem a liberdade de opinião e muito menos de expressão.

Todavia, eu não posso ficar calado, nem respeitar, certas práticas ditas religiosas que, na verdade são grandes enganações com a finalidade de explorar a boa fé das pessoas desesperadas e/ou ignorantes. Não posso concordar que haja liberdade em explorar o desespero alheio ou – o que é pior – usar o nome de Deus (seja lá qual for) para a venda descarada de “bênçãos" e graças” que simplesmente mantém as pessoas na total dependência de uma prática “religiosa” de compra e venda.

Um dos pontos essenciais da Reforma Protestante, no século XVI, foi a revolta contra o poder absoluto da instituição eclesiástica que se autoproclamava proprietária da graça divina e da “salvação”, verdadeira usurpação de poder, criando o círculo vicioso de dependência e lucro (dependência para os crentes e lucro para a instituição).

Com razão, os Reformadores e a Tradição que herdamos da Reforma, se manifestam contra qualquer tentativa de vincular o poder divino, de forma absoluta e exclusiva, a uma instituição ou pessoa humana (que não fosse o Senhor Jesus Cristo, claro).

Ainda há algumas décadas atrás, os pregadores protestantes proclamavam a falácia de ritos e práticas religiosas como necessárias à Salvação em Cristo. E tanto tinham razão que a própria Igreja de Roma, no seu Concílio Vaticano II, aboliu a maioria dessas práticas e adotou uma postura mais aberta ao diálogo e à cooperação com os diferentes. (Se hoje vemos a Igreja Romana retroceder em muitos desses pontos, é outra questão).

Por isso, em fidelidade à Tradição que aceitei como “background” para expressar a minha experiência pessoal de fé, não posso ser tolerante, nem respeitar o seguinte:

1. Todo tipo de fundamentalismo bíblico (ou com base em qualquer “texto sagrado”) que determine uma maneira exclusiva de comportamento moral e doutrinário como verdadeira fonte de salvação, e, por isso mesmo, demoniza, persegue ou segrega quem pensa de forma diferente ou não vive segundo tais preceitos. Não posso ser tolerante com os intolerantes!

2. Toda pregação religiosa que proclama a salvação através da venda de amuletos, ritos, bênçãos, etc., apresentados como necessários e fundamentais para a ação da Graça de Deus na vida de qualquer pessoa. Não posso ser tolerante com os vendedores de bênçãos e proprietários de supermercados da religião, porque transformam o Sagrado em mercadoria, uma blasfêmia – no meu entender.

3. Toda espiritualidade e religiosidade fundamentada exclusivamente no carisma pessoal de um pregador ou líder religioso, que se autoproclama escolhido (e de forma exclusiva) pelo Divino, detentor único da verdade e do poder celestial. Não posso ser tolerante com os que usurpam o nome de Deus e se confundem com Ele.

( A propósito, nesse ponto, alguém pode alegar incoerência de minha parte, pois sendo cristão, minha espiritualidade se fundamenta essencialmente no carisma pessoal de Jesus de Nazaré. Todavia, diz a Tradição comum aos Cristãos, que Jesus não se anunciou como Deus, mas foi reconhecido como tal pela Igreja, e jamais fez uso desse fato para se impor a quem quer que fosse. Como diz o Apóstolo Paulo na carta aos Filipenses, “[…] a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem e reconhecido em figura humana; a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz[…]” ).

Bem é isso. Hoje é domingo, tenho de ir à Igreja para cumprir meu ofício e servir à congregação pela qual sou responsável como sacerdote em Cristo e pregador do Evangelho.

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2 de ago. de 2011

Uma reflexão sobre o Protestantismo Brasileiro

parte final do artigo “Fé e Tradição: um caminho para o protestantismo brasileiro”, de minha autoria, publicado em REFLEXUS: Revista Semestral de Estudos Teológicos –          ano IV, nº 04, maio 2010 – Vitória, Editora Unida [Faculdade Unida de Vitória], pp. 65-102.     Os números entre colchetes são notas de rodapé do artigo original, e se acham ao final deste texto

Celtic_Cross_Tattoo_by_willsketchPara entender o protestantismo brasileiro, sua evolução e sua situação presente, temos de conhecer o protestantismo norte-americano[1], porque o protestantismo na América Latina, e particularmente no Brasil, é totalmente dependente dos missionários, de diferentes denominações, que chegaram a partir de meados do século XIX, vindos dos Estados Unidos da América.

Nos Estados Unidos, o pietismo acaba se combinando com o puritanismo e com a Reforma Radical, dando origem ao denominacionalismo, ao legalismo e ao moralismo que marcam profundamente o pensamento protestante que chegou ao Brasil com os missionários, especialmente aqueles vindos do sul dos Estados Unidos. Nessa mistura está a marca da mentalidade protestante norte-americana.

Foi na América do Norte que o protestantismo assumiu a postura de isolamento do mundo, por influência de uma ideologia que permeia a sociedade e o pensamento protestante americano: o ideal de santidade aliado ao fundamentalismo bíblico.

O ideal de santidade exige que se prove a conversão e a ação da graça na vida da pessoa. Isso criou uma nova preocupação para cada crente: a de provar a si mesmo e aos outros que é um dos eleitos. Assim, é preciso afastar-se do “mundo”, a “evitar a contaminação pelo mundo”. Esse auto-isolamento rompe com a visão social do pietismo, pois obriga a espiritualidade pessoal dirigir sua atenção para dentro de si mesmo, buscando alcançar a santidade, desvinculando-a da realidade cotidiana e do compromisso social. Ao mesmo tempo, justifica a postura em condenar o diferente, pois o “diferente de mim” não é eleito de Deus [2]. Aqui estão as raízes do denominacionalismo e do moralismo de usos e costumes.

O Fundamentalismo Bíblico, mais conhecido simplesmente como fundamentalismo, é uma doutrina que nasce nos Estados Unidos, fruto da reação dos protestantes ultra-conservadores em defesa do que consideravam os “fundamentos” da fé cristã e bíblica, os quais, segundo eles, estavam ameaçados pelo liberalismo teológico do século XIX [3].

O fundamentalismo é uma ideologia que perpassa muitos campos da ação humana, não só o campo da religião. O “fundamentalismo” sempre existe a partir de um texto considerado paradigmático. O fundamentalismo é uma postura diante do mundo, a partir de uma ideia básica, oriunda da forma de interpretar ou entender um texto, considerado paradigmático, considerado absoluto. Qualquer raciocínio ou fato que negue o absoluto do texto é considerado falso a priori, sem análise, simplesmente com base na “autoridade” que se atribui ao texto. No caso do fundamentalismo bíblico, esse texto é a Bíblia.

Ser fundamentalista é adotar posturas fechadas diante da realidade, negando tudo aquilo que contraria sua forma de interpretar o texto. Ou seja, o fundamentalismo parte de uma leitura (hermenêutica) dogmática do texto, como se o texto não tivesse história, autoria, contexto de origem; como se a interpretação dogmatizada fosse a única maneira de ler o texto, sem crítica, aceitando apenas as palavras tais como estão escritas; enfim, o fundamentalismo trata o texto como se ele, por si mesmo, fosse o absoluto. É a idolatria do texto.

O fundamentalismo é uma postura intelectual muito difícil de ser sustentada; na verdade, o fundamentalismo se sustenta através de apelos emocionais. Diante de qualquer afirmação que ameace a interpretação literal do texto bíblico, o fundamentalista reage de forma emocional, considerando diabólica tal afirmação por ser contrária à “Palavra de Deus”. Assim se procede em relação às ciências naturais, às ciências sociais e à própria teologia bíblica. O grande problema do fundamentalismo, no Brasil, é que a maioria dos fundamentalistas não sabem, ou não admitem, que o são.

O estudo pormenorizado do protestantismo norte-americano nos permite entender vários aspectos daquela sociedade, seus fundamentos e valores e, assim, o tipo de protestantismo que chegou ao Brasil, trazido pelos missionários que de lá vieram, e que continua chegando hoje através do patrocínio de setores ultra-conservadores da sociedade americana. Ajuda-nos compreender os fundamentos da identidade evangélica brasileira, ou seja, porque somos o que somos e porque somos como somos.

O protestantismo brasileiro perdeu, a nosso ver, suas raízes da Reforma, tornando-se uma mescla confusa de ideologias e apresentando comportamento cada vez mais fundamentalista e sectário. Essa opção, consciente ou não, faz da atividade missionária mais um processo de arregimentação de clientela para o consumo de uma crença, do que o chamado à conversão e à vivência na fé.

Conhecer a Tradição Cristã, desde seus fundamentos no kerigma apostólico, passando pela reflexão da Igreja de todas as épocas, é fundamental para criar o senso de identidade que possibilita visão crítica diante do mundo e, ao mesmo tempo, fortalece o desempenho da missão no seu real sentido apostólico: o anúncio da revelação do mistério de Deus em Jesus Cristo, a boa notícia da salvação.


Notas:

[1] Sempre estamos nos referindo aos Estados Unidos da América, quando falamos “norte-americano”.

[2] Curioso notar que essa era, exatamente, a postura dos escribas e fariseus, e contra a qual Jesus se pronunciou muitas vezes.

[3] Cf. MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da Teologia Histórica. São Paulo:Mundo Cristão, 2008 [Teologia Brasileira].  p. 222.

31 de mai. de 2011

Sobre a Intolerância (religiosa, sexual, etc.)

Cosme e DamiãoTemos visto, recentemente, verdadeiros shows de intolerância frente à necessidade da sociedade brasileira adequar-se aos novos tempos e à percepção – cada vez maior – da diversidade humana.

Com efeito, cada vez mais se toma consciência que a sociedade humana – assim como toda a Criação – é de impressionante diversidade; fica quase impossível pensar-se em um “ser humano padrão”, se buscarmos padrões cartesianos. A diversidade se expressa em forma de cultura , etnia, língua, e em tudo aquilo que o ser humano cria e desenvolve com sua inteligência – e aqui me refiro inclusive às artes, às tecnologias e também às religiões.

Essa mesma diversidade percebemos em toda a Criação, o Jardim criado por Deus e entregue ao ser humano para ser cuidado; Jardim esse que o ser humano perdeu quando a cobiça de poder – o ser  igual a Deus! – tomou conta de seu coração (cf. Gênesis 2.4-3.24 – uma interessante narrativa mitológica explicando a origem do mal inserido no seio da humanidade).

Entre os seres vivos, desde os seres unicelulares até os grandes mamíferos (o ser humano entre eles) a diversidade biológica é imensa. O mundo mineral, o próprio universo, tanto o macrocosmo quanto o microcosmo é de uma riqueza imensa em diversidade.

Assim é que temos visto nos últimos dias, ou melhor dizendo, nos tempos recentes, comportamentos e atitudes totalmente contrários à diversidade, uma demonstração de intolerância que chega a ser blasfema quando invocada em nome de Deus, o mesmo Deus que fez da diversidade a marca da Criação! Pior ainda quando entre os intolerantes aparecem ditos cristãos, nós que anunciamos e cremos em Deus que, por sua própria natureza, é diversidade (TRINDADE!!!!!!).

Os intolerantes cristãos – sejam eles ditos evangélicos ou católicos – justificam-se usando e ab-usando do texto da Bíblia, catando aqui e ali versículos para atribuírem a si mesmos o poder de “falar em nome de Deus”.

No que se refere à intolerância religiosa, a Igreja de Roma sempre assim procedeu, haja visto a (nada) Santa Inquisição, embora os protestantes e os cristãos orientais também não sejam santinhos; quando o Protestantismo chegou à América Latina, colonizada católico-romana, muitos dos nossos templos foram queimados, destruídos, pastores perseguidos, e  - entre os episcopais, por exemplo – pessoas não podiam afirmar sua orientação religiosa sem colocar em risco seus empregos e a segurança de seus lares. Todavia hoje, os ditos “evangélicos” – a péssima herança deixada pelo Protestantismo nas terras Ameríndias – repetem o mesmo comportamento de intolerância para com as religiões de matriz africana e/ou indígena que insistem com muita fibra em permanecer na nossa sociedade.

Não vou ocupar espaço no servidor do blog falando da intolerância quanto à orientação sexual… é mais do que notório o preconceito e a intolerância para com pessoas cuja orientação sexual difere daquilo que os “puros” entendem como “padrão pela vontade de Deus”.

Interessante que a maioria dessas vozes intolerantes são profundamente tolerantes com a corrupção política, com a usura, com a injustiça e confundem a gananciosa e cruel prosperidade capitalista com “bênção” de Deus!!! O mesmo Deus que – ESTÁ ESCRITO – afirmou serem os pobres bem-aventurados, serem os pacificadores os herdeiros da terra, etc., etc., etc. Nesses casos não são fundamentalistas, pelo contrário, buscam exegeses que agridem o bom senso das pessoas  e os padrões das ciências hermenêuticas; mas quando se trata da religião diferente, da orientação sexual diferente, ou seja, de tudo que seja diferente do padrão moral por eles definido como “vontade de Deus”, então ai, o texto bíblico é assumido sem interpretações...  fundamentalismo de conveniência ideológica.

Assim vimos a vergonhosa aliança política no Congresso Brasileiro entre a bancada evangélica e a frente católica (aliança muito ecumênica por sinal – nessa hora é conveniente ser ecumênico), negociando com a situação o calar-se diante do caso Palocci em troca da permissão para a homofobia. Sabe-se lá o que rolou na questão do Código Florestal… e sabe-se lá que diabólicos acordos os parlamentares ditos “cristãos” não estão fazendo para manter o “direito” de ser intolerante e perseguir (segregar) os diferentes…

Convido vocês, que têm paciência em ler este blogue, a cerrar fileiras na intolerância: sejamos todos (e todas, vá lá)  intolerantes com os intolerantes.

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14 de out. de 2010

Evangélicos e Política: muito interessante!

É muito interessante que líderes evangélicos se envolvam em política exigindo dos candidatos à Presidência da República um compromisso sério de vetar leis favoráveis ao aborto e à união civil de pessoas do mesmo sexo.

Interessante porque os evangélicos sempre pautaram por “não se envolver em política”, que eles consideravam “coisa do mundo”. Pelo menos tal era atitude da maioria deles no tempo da ditadura… evitavam entrar em conflito com o Estado (de exceção) alegando que tal atitude seria mundana ou contrariava Romanos 13:1-7

De certa forma o conservadorismo estreito e fundamentalista é "ecumênico": católicos romanos e a maioria evangélica concordam sempre em posturas conservadoras e reacionárias!

Interessante perceber que a maioria fundamentalista,  estéricamente se posiciona contra o aborto e a homossexualidade, não move uma palha quando se trata de condenar a usura!!! A usura, condenada centenas de vezes na Escritura Sagrada, não merece nenhuma palavra profética da parte deles! Sobre a usura diz a Escritura:

“A teu irmão não emprestarás com juros, nem dinheiro, nem comida, nem qualquer coisa que se empreste com juros.” Deuteronômio 23:19

“O que aumenta os seus bens com usura e ganância ajunta-os para o que se compadece do pobre.”  Provérbios 28:8

“… emprestar com usura e receber juros, porventura, viverá? Não viverá. Todas estas abominações ele fez e será morto; o seu sangue será sobre ele.”  Ezequiel 18:13

“Não lhe darás teu dinheiro com juros, nem lhe darás o teu mantimento por causa de lucro.” Levítico 25:37

“Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor que impõe juros.” Êxodo 22:25

“Não tomarás dele juros, nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo.” Levítico 25:36

Todavia, o que hoje se vê são as Igrejas ditas evangélicas praticando a usura abertamente!

Certa vez, estando eu ministrando uma palestra, um jovem pastor me interpelou violentamente dizendo que jamais daria a Ceia a um homossexual, citando as conhecidas passagens bíblicas usadas para condenar a homossexualidade. Eu perguntei a ele se daria a Ceia a um banqueiro, e diante da resposta afirmativa,  citei muitos versículos contra a usura… o plenário me aplaudiu e o jovem pastor se retirou dizendo que eu manipulava as Escrituras!!!

É uma pena que, por causa de gente reacionária, o segundo turno da eleição presidencial acontecerá sem debates realmente profundos sobre propostas para o futuro do Brasil. A eleição se polariza e as candidaturas buscam agradar o eleitorado fundamentalista… uma pena!

Antes que me perguntem, abro meu voto: no primeiro turno, marinei; no segundo, sou Dilma!

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18 de fev. de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (IV)

(conclusão: Educação Teológica e Formação Pastoral I, II e III)

As alternativas para a Igreja
Diante do quadro e das reflexões apresentadas nas três postagens anteriores, resta agora analisar as várias alternativas que, ao meu entender, são oferecidas à Igreja para definir o projeto de formação pastoral sem abrir mão da educação teológica de qualidade, e garantir que o clero futuro (nas três Ordens do Sagrado Ministério) tenha a competência necessária para apoiar e fortalecer as comunidades na Missão, cujos desafios são cada vez mais complexos.
Aqui vou dedicar minha reflexão particularmente à Igreja que eu amo e da qual faço parte, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB). Peço a compreensão dos leitores e leitoras membros de outras Igrejas, na esperança que, de alguma forma, estas reflexões sejam úteis também para elas. 
A IEAB precisa definir e adotar, com urgência,  uma nova política para a formação e capacitação do seu clero, incluindo ai a revisão dos critérios canônicos para as Ordenações e, principalmente, o reconhecimento de Ordens e recepção de clérigos advindos de outras confissões.
É responsabilidade da Igreja, especialmente do Episcopado, permitir e criar condições para que cada pessoa vocacionada possa refletir e compreender com clareza as implicações do Ministério Ordenado em sua vida; e também decidir com clareza pelo ministério ordenado nesta Igreja – com nossa identidade e especificidade, ou seja, nossa Tradição, nossa Doutrina, nosso Rito e nossa Disciplina, valores que considero inegociáveis sob o risco de perda da identidade (sobre isso espero em breve publicar um artigo, já em preparo, neste blog).
Por isso, lanço aqui, mais uma vez, o desafio que tenho proposto em várias ocasiões: a IEAB precisa urgente de uma Pastoral de Vocações, uma linha de trabalho pastoral voltada especialmente para as pessoas vocacionadas, ou que se sentem vocacionadas, ao Sagrado Ministério, ou que venham de outras denominações aspirando o exercício do Sagrado Ministério nesta Igreja. Não me refiro a mais uma esfera burocrática; para isso já temos as Comissões de Ministério em diversas dioceses. Falo de uma ação pastoral adequadamente planejada e sob supervisão direta dos Bispos, aproveitando a experiência dos clérigos mais antigos, muitos já aposentados mas ainda com capacidade física, mental e espiritual para atuarem pastoralmente. Temos de recuperar o conceito de ancestralidade e de respeito pela sabedoria dos antigos, sabedoria esta que não vem das academias mas da vida.
Quanto às alternativas para a educação teológica e formação pastoral, percebo, para a IEAB, as seguintes possibilidades:
    1. Criar sua própria Academia Teológica – A(s) Faculdade(s) de Teologia da Igreja.
É uma alternativa possível, de lenta construção e com efeitos a longo prazo,  exigindo um investimento financeiro considerável. Mas vejo sérios inconvenientes para tal solução, além da questão dos recursos financeiros a serem investidos:
A Igreja teria de cumprir uma enormidade de exigências burocráticas do Estado, sem ter a infra-estrutura adequada para atender a isso;
A Igreja teria de entender e aceitar que um empreendimento dessa monta precisa ser assumido como empreendimento empresarial e comercial; assim, teria de atender às demandas do mercado, que não são necessariamente compatíveis com a demanda específica da Igreja; isso significa, ainda, que o curso de Teologia terá de ser aberto e não exclusivamente confessional; e o empreendimento terá de ser administrado profissionalmente, de acordo com as regras dinâmicas do mercado, ou seja, eticamente estéril; no mundo do mercado, as regras são duras e aéticas, oscilando conforme as tendências dos modismos e das demandas.
A Igreja não dispõe de quadros suficientes com a capacitação acadêmica exigida pela legislação – teria de descobrir vocações para isso e investir em sua capacitação técnica e acadêmica ; além disso, a Igreja teria de concentrar geograficamente esse pessoal, dificultando assim as possibilidades de integração entre o mundo acadêmico e o mundo eclesial da nossa realidade enquanto Igreja brasileira e parte de uma Comunhão Mundial;
A possibilidade de desenvolver um projeto de Educação à Distância, nova tendência do mercado, não elimina a exigência de campus e corpo docente habilitado, além disso, a legislação exige que hajam disciplinas presenciais; ou seja, o investimento seria maior ainda, mas criaria a ilusão ufanista de que estaríamos atendendo a uma clientela maior. Todavia, tenho minhas dúvidas se a cultura brasileira possibilita realizar tal iniciativa com seriedade... O que tenho visto é a expansão do mercado de diplomas, com raras exceções, e não me refiro apenas à área da Teologia.
    2. Fortalecer os Seminários Teológicos e os Centro Diocesanos de Teologia
No presente momento, a IEAB tem dois Seminários Teológicos: o de Porto Alegre e o de Recife, organizando a demanda por área geográfica; além deles, cada Diocese tem seu Centro de Teologia. Um desses centros, o da Diocese de São Paulo, é um sério candidato a se tornar o terceiro Seminário Teológico da Igreja, para atender as dioceses da Região Sudeste, seja pela proximidade geográfica, seja pela sua identidade cultural.
Na verdade, o modelo de Seminário Teológico vem desde o tempo dos fundadores, e embora tenha sofrido algumas mudanças no decorrer da história, o princípio é o mesmo. A criação dos centros diocesanos foi uma alternativa adotada para atender seminaristas que não poderiam deslocar-se para as cidades onde estão os seminários.
Este modelo foi enriquecido com a criação do CEA – Centro de Estudos Anglicanos, há pouco menos de 15 anos. Eu era membro da JUNET – Junta Nacional de Educação Teológica – quando o projeto do CEA foi desenvolvido (na mesma época, o Centro da Diocese de Recife foi elevado a Seminário Nacional, tirando assim a hegemonia do Seminário de Porto Alegre).  O princípio fundante do CEA, se me recordo bem, era que o Centro atuaria em duas frentes:
a) subsidiando os Seminários Teológicos e os Centros de Teologia para a formação específica confessional (história, teologia, doutrina, liturgia, etc.);
b) desenvolvendo e realizando o processo de formação permanente e atualização teológica do clero e lideranças da Igreja.
Na verdade, apesar dos poucos recursos e quase nenhuma infra-estrutura, o CEA vem desenvolvendo, e bem, a segunda frente; mas há uma dificuldade intrínseca e política para atender à primeira. O CEA é, hoje, praticamente o seu Coordenador, que demanda um esforço considerável para cumprir os programas de reciclagem do clero e capacitação da liderança leiga, além da publicação de uma revista (Inclusividade) cada vez mais reconhecida e respeitada no mundo acadêmico e não acadêmico.
Todavia, os dois Seminários, até o presente momento, seguem filosofias educacionais muito diferentes e inclusive nas respectivas opções teológicas e metodológicas. Por um lado, isso é muito bom, pois atesta a diversidade da Igreja brasileira, mas por outro lado pode ser sinal de que a igreja não tem uma política de educação teológica bem formulada. Não tenho elementos para avaliar isso com segurança.
Quanto aos Centros Diocesanos de Teologia, também não tenho elementos para uma avaliação segura, uma vez que cada um tem suas próprias características, à imagem e semelhança da própria Diocese.
O que se precisa avaliar, neste momento é se os Seminários Teológicos e os Centros Diocesanos atendem seu propósito. Com efeito, vejo aqui três dificuldades:
Os Seminários Teológicos se entendem como academias teológicas da Igreja, ou seja, funcionam como se fossem faculdades. Todavia, são cursos livres, não reconhecidos, e as pessoas por eles formados não são reconhecidas como bacharéis pela legislação; para tanto, devem cumprir um curso de “convalidação” do seu diploma – o Brasil cria jeito para tudo – de custo razoável e, geralmente, de qualidade duvidosa, com notáveis exceções;
Os Seminários necessitam de um corpo docente habilitado mas dispõem de poucos recursos financeiros para isso. Em outras palavras, há muita improvisação. Não falo isso de forma pejorativa – eu mesmo fui reitor do Seminário de Porto Alegre e sou muito agradecido pela dedicação, competência, espírito de voluntariado e capacidade de improvisação dos docentes e dos estudantes, pois conseguimos – como comunidade educativa – realizar muito e  com qualidade. Mas carecemos de maturidade acadêmica, e isso é uma conquista a longo prazo e pressupõe uma Congregação Docente em permanente processo de atualização e capacitação, envolvidos não só com aulas, mas com pesquisa e produção de conhecimento.
Quanto aos Centros Diocesanos, segundo percebo, lhes faltam recursos, corpo docente adequado e geralmente dependem, exclusivamente, de um(a) coordenador(a) que, apesar do imenso esforço, da boa vontade e dedicação, nem sempre é uma pessoa realmente habilitada profissionalmente para atuar em Educação.
A grande vantagem dos Seminários (e por extensão, dos Centros Diocesanos) é que podem ser espaço adequado para a formação clerical e laica dentro dos padrões da nossa identidade e confessionalidade, e também espaço para o desenvolvimento de uma espiritualidade vocacional.  A grande desvantagem é que, para atenderem com qualidade e competência à sua finalidade, o custo de manutenção – tal como hoje funcionam – é muito alto e além das possibilidades reais da Igreja.
    3. A solução híbrida – proposta para ser melhor discutida e aprofundada
A questão, no fundo é: como poderia a Igreja manter controle sobre a formação do seu clero futuro e formação permanente do clero existente, sem prejudicar a qualidade da educação teológica? Para mim, a solução seria fazer uma distinção operacional entre educação teológica e formação pastoral.
Assim, a Igreja deveria selecionar no mercado boas Faculdades de Teologia, dentro das regiões diocesanas, por exemplo, e criar meios para que os seminaristas possam cumprir ali sua formação teológica com qualidade.  Ao mesmo tempo, os Centros Diocesanos e os Seminários poderiam cumprir com a exclusiva tarefa da formação pastoral e denominacional, além de estimular a reflexão pessoal e a espiritualidade de cada seminarista. Ao mesmo tempo, os nossos seminaristas poderiam conviver em um espaço de discussão acadêmica de qualidade e dentro da diversidade cristã. O custo de bolsas de estudos em boas faculdades é, com certeza, bem menor que a manutenção de uma instituição teológica própria que seja competente e eficaz, e cumpra as exigências legais para um curso superior.
Há muitas possibilidades para uma solução desse tipo. Várias Faculdades de Teologia, por exemplo, possibilitam a criação do “Departamento da Igreja”, que sob os auspícios desta, daria a formação teológica exclusiva da denominação aos seus seminaristas, através de balanceamento com a grade curricular padrão. Ainda assim, a formação pastoral e a espiritualidade vocacional ficaria a cargo dos Centros e Seminários, ou seja, dentro da Igreja.
Deveria haver uma integração entre o CEA, os Seminários Regionais e os Centros Diocesanos, penso até mesmo em uma equipe multidisciplinar que atuaria nacionalmente ou regionalmente dentro de uma grade curricular e conteúdos padronizados para a formação específica do nosso clero, dos que chegam de outras denominações e mesmo das lideranças leigas.  A médio prazo teríamos uma equipe de bons teólogos e teólogas, de fato episcopais- anglicanos, atuando em nível nacional e integrados com as diferentes realidades regionais e diocesanas.
Não tenho respostas prontas, apenas estas idéias que necessitam ser aprofundadas, e discutidas pela Igreja. É neste espírito de colaboração que deixo aqui estas reflexões livres, sem formalismos acadêmicos, apenas tentando dar alguma luz com simplicidade, como o vôo de pirilampos e de pintassilgos.

Quaresma, 2010.
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15 de fev. de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (III)

[continuação – veja antes s: Educação Teológica e Formação Pastoral (I) e (II)]

O Clero: pessoas chamadas e separadas para servir à e na Igreja
Como disse no texto anterior (Educação Teológica e Formação Pastoral II – vide abaixo), quero agora prosseguir dentro da perspectiva da minha identidade confessional, ou seja, enquanto episcopal-anglicano, falando com o olhar para a minha Igreja no Brasil, a Tradição por ela herdada e recebida, sua doutrina e rito.  Espero que, de alguma forma, os que estejam lendo mas têm outra identidade denominacional, procurem fazer as equivalências possíveis para refletirem sobre a sua própria comunidade confessional e tradição.
Na tradição episcopal-anglicana, o título “Pastor” é atribuído ao Bispo; as pessoas que pastoreiam as comunidades o fazem na comunhão com seu Bispo (ou Bispa) e são chamadas de Presbíteros(as).  Nesse sentido, o anglicanismo e o episcopalismo seguem a tradição Patrística, focando no Episcopado a totalidade e a unidade da Igreja.
O povo da Igreja trata a nós do clero, de forma carinhosa e respeitosa, pelo título de “Reverendo” ou “Reverenda”, e raramente de “Pastor” ou “Pastora”. Em poucos lugares no Brasil, mas comum nos países de língua inglesa, os presbíteros são chamados de “Padre” (Father) – da mesma forma que o clero católico-romano – e as presbíteras,  “Madre” (Mother).
Não se pode esquecer, jamais, que as Sagradas Ordens de Presbítero e de Bispo são dadas sobre a Sagrada Ordem de Diácono. Todo Presbítero, e todo Bispo, é antes de tudo Diácono. Portanto, receber a ordenação presbiteral ou a sagração episcopal não é honra, nem mérito, mas – exclusivamente – encargo de serviço dado a alguém que já fora separado da e na Comunidade para servir a essa Comunidade e, com a Comunidade, ser – para o mundo – o sinal do amor de Deus, em nome de Jesus Cristo. 
Assim, ninguém é Presbítero ou Bispo por si e para si mesmo, mas para toda a Igreja de Cristo – não só entendida como instituição religiosa, mas principalmente como comunidade de comunhão, proclamação e serviço, obediente a Deus, em Jesus Cristo, o Verbo Encarnado. E, com a Igreja, denunciar o Príncipe deste mundo, proclamar o Evangelho da Salvação e testemunhar ao mundo a graça amorosa oferecida por Deus em Jesus Cristo.
É preciso ter claro que o clero é formado por pessoas que já não são mais iguais às outras da comunidade. Isso pode parecer estranho nestes tempos de “democratismos” e “inclusividades”. Mas assim o é, de fato. Na minha geração, no seminário, gostávamos de afirmar que os clérigos são pessoas comuns, iguais às outras, em nada especiais ou diferentes. Isso fazia parte de nossa ideologia libertária diante de um mundo cheio de exclusão e opressão, como é ainda hoje. Todavia hoje sei que afirmar as pessoas do clero como diferentes não significa colocá-las acima ou abaixo das demais, não significa negar sua humanidade e fraqueza, nem significa  diminuir em dignidade as pessoas que não sejam parte do clero. Significa, sim, compreender a diversidade de dons e ministérios na Igreja.
O Espírito Santo concede à Igreja, ou melhor, às pessoas batizadas que compõem a Comunidade Confessante, uma grande variedade de dons e ministérios. Isso já era compreendido pela Igreja Primitiva, e o Apóstolo Paulo dá muita ênfase nisso, sendo quem primeiro sistematizou tal compreensão. É muito importante compreender que os dons são dados ao mesmo tempo que o chamado ao exercício de um ministério. Nenhum dom é dado para a pessoa em si, para seu próprio benefício, mas para que ela o empregue a serviço e para o bem das demais. Nesse sentido, todas as pessoas são chamadas e separadas para servirem umas às outras no amor e na comunhão com Jesus Cristo.
O ministério clerical é dado às pessoas chamadas para serem servos dos servos na Comunidade de Cristo e, com a Comunidade de Cristo, servirem a todas as pessoas. Assim, o clero é chamado ao ministério especialmente para o benefício da Igreja, para fortalecê-la na Fé através da pregação, do ensino e dos sacramentos, como sinal e símbolo da presença permanente do Senhor no seio de Sua Santa Igreja. A percepção desta identidade especial do clero é que faz o povo conceder aos clérigos e clérigas, e só a estes, o título carinhoso, porém afirmando a vocação específica de serviço, de “Reverendo”, “Reverenda”.
Por isso o Clero, quando no exercício formal de seu ministério perante a comunidade reunida, usa vestes próprias, os chamados paramentos.
Os paramentos não servem para a glorificação de quem os veste, mas para recordar, em primeiro lugar a tal pessoa, que ela está revestida do poder e da autoridade de Cristo que lhe foi delegada pela Comunidade quando a ordenou às Sagradas Ordens (o Sacerdócio é único e pertence a Cristo; é patrimônio concedido à Comunidade por Cristo, através da comunhão com Ele; é dado como encargo para alguns a fim de ser exercido para o benefício de todos). Por isso, quem coloca as vestes litúrgicas deve vestí-las em oração, para evitar a tentação de glorificar-se a si mesmo.
Em segundo lugar, os paramentos recordam à comunidade o Senhorio de Cristo. Quem veste os paramentos, naquele momento, não é mais a pessoa, mas o sinal e símbolo da presença amorosa e da presidência de Jesus Cristo, o único sacerdote e Sumo Sacerdote, o bom Pastor.
Por isso, é importante que seminaristas, aqueles e aquelas chamados para o ministério clerical, desenvolvam essa compreensão durante o período em que se preparam para isso. É importante que vejam a vida clerical além de uma carreira profissional dentro de uma instituição, que poderá trazer glória e sucesso futuro. Caso contrário, se tornarão escravos das ideologias e valores do mercado, e farão da Igreja o seu negócio particular. É fazendo tal reflexão que alguém poderá avaliar com segurança se tal é a sua Vocação ou não.
Tal compreensão jamais  será desenvolvida na academia teológica secularizada.
Profecia, Sacerdócio e Teologia
Penso que as duas características que marcam, nas Tradições Episcopaliana e Anglicana, o exercício do Presbiterado (e do Episcopado – não esqueçamos que Bispos e Bispas são, também, Presbíteros e Presbíteras) é que, nós – presbíteros e presbíteras – servimos à Igreja enquanto Profetas e Sacerdotes.
O ministério profético se manifesta através da denúncia, do anúncio e do testemunho. Esse ministério, aliado ao serviço (diakonia), é o ministério fundamental da Igreja, é a síntese de sua Missão, da Igreja como um todo: a Igreja é comunidade profética, a serviço no mundo, em nome de Jesus Cristo
Mas cabe aos encarregados do cuidado pastoral serem, eles mesmos, profetas para a comunidade, através da pregação e do ensino, além de seu testemunho de vida – vida de pecador movido pelo arrependimento e pela certeza da misericórdia de Deus.  Nesse sentido, cada pastor, cada pastora, deve ser o teólogo, a teóloga, para a comunidade, não como um acadêmico, mas como quem fornece à comunidade as chaves de entendimento e compreensão para avaliar o momento histórico presente, situando-a e instrumentalizando-a para o exercício do ministério profético, fortalecendo a comunhão e o espírito diaconal.
Por isso, o estudo da Teologia enquanto conhecimento é importante para o clero, não como mera formalidade, mas como instrumental para o exercício de seu próprio papel e ministério.  Não só o estudo, mas também a produção de uma teologia adequada ao momento e à realidade da comunidade. Essa produção é o que se espera no momento litúrgico da Pregação e também nas reuniões de estudo e formação da comunidade, ou pelo menos na formação dos catequistas e docentes da comunidade. Assim, a Teologia é uma ferramenta que fortalece o ministério profético do clero.
Na tradição herdada pelo Anglicanismo, o sacerdócio é parte do múnus pastoral.  Tal sacerdócio não é entendido pela Igreja como “intermediação” da Graça. Nesse sentido, o Anglicanismo segue a Tradição da Reforma Protestante do século XVI.  Os presbíteros e presbíteras anglicanos exercem o sacerdócio universal de todos os crentes em Cristo, como serviço à comunidade. Isso lhes é delegado como encargo pela própria comunidade ao separá-los, recomendá-los e apresentá-los para a Ordenação, cerimônia da qual a comunidade participa e afirma seu compromisso para com o ordinando e este afirma, solenemente, seu compromisso para com a Igreja. 
O ofício especial dos presbíteros e presbíteras é nutrir a comunidade com os sacramentos, não por um poder próprio, mas pelo poder do Espírito Santo presente na comunidade reunida em adoração e oração – na liturgia. O exercício do sacerdócio, nessa perspectiva, não existe por si mesmo, independente da comunidade. Mas é exatamente a presença da comunidade que legitima a ação do sacerdote.
Ao contrário dos sacerdotes do Antigo Testamento, eu – enquanto presbítero, e portanto, sacerdote – não ofereço sacrifícios em favor da comunidade. Não posso fazer aquilo que já foi feito uma vez por todas por Jesus Cristo: o Sacrifício Único, Perfeito, Completo e Suficiente em favor de todo o mundo. Também não celebro os sacramentos para mim mesmo; por exemplo, não tem sentido eu sozinho celebrar a Ceia do Senhor, como se tal celebração fosse eficaz por si mesma (há situações extremas em que isso não só é possível, como recomendado; mas não vem ao caso neste texto).  Também não tenho o encargo de “oferecer diariamente o sacrifício”, porque o Cristo já o fez de forma definitiva e final.
Assim, ao exercer o sacerdócio, presbíteros e presbíteras exercem o sacerdócio da Igreja e para a Igreja, sacerdócio que é de Cristo, o único Sumo-Sacerdote. Nesse sentido, o sacerdócio do clero anglicano é sinal e símbolo do sacerdócio de Cristo, é exercido com a comunidade reunida ou a partir da reunião da comunidade, porque é a Comunidade quem lhe dá legitimidade. Por exemplo, ao levar o Santo Sacramento a um doente, se o presbítero ou diácono não puder estar acompanhado por outras pessoas da comunidade, deve ter claro e expressar que tal ministração é parte daquele momento koinônico da comunidade, reunida em adoração ao Senhor sob a Presidência do mesmo Senhor.
A compreensão adequada do significado do sacerdócio e da ministração pastoral é necessária aos seminaristas, para que possam ter clareza sobre o significado de sua ordenação, seja como diáconos, seja posteriormente como presbíteros e bispos.
Essa reflexão deve ser iluminada pela Tradição própria da Igreja, e isso não é parte do conteúdo acadêmico; quando o tema surge, as diferentes tradições são estudadas como “diferentes formas de pensar” – ou seja, o tema é desvinculado da vivência comunitária e confessional do estudante, a menos que seja em uma faculdade confessional de Teologia.
Formação permanente do clero
Obviamente, a formação teológica do clero tem de ser formação permanente. Não bastam as antigas lições do curso formal, mas é preciso estar em dia com a reflexão que se realiza na academia e também com aquela teologia elaborada pelos demais clérigos em sua atividade de ministração e ensino da Palavra.
Por isso é importante que o clero se reúna com frequência para partilhar a experiência pastoral, as leituras e estudos pessoais, as dores e as alegrias do ministério de cada um e cada uma. Talvez este seja um dos maiores serviços que o Episcopado pode prestar à Igreja: propiciar aos membros de seu clero as oportunidades para estarem juntos, em comunhão e oração, partilhando o ministério, e o próprio Episcopado participando desses momentos como um primus interpares – a reunião dos diáconos, já que todo clero é formado por diáconos!!!
A atualização teológica do clero também deve ser uma tarefa permanente e formal, regida pelos padrões da academia. Por isso é fundamental para a Igreja o ministério das pessoas que se dedicam ao estudo permanente da Teologia, seja por ofício, seja pelo prazer de estudar. Teólogas e teólogos, sejam parte do clero ou do laicato, devem ver a formação e capacitação permanente do clero como um dos pontos fundamentais de seu ministério específico. Cabe ao Episcopado, por ser o colegiado dos Pastores de pastores, cuidar disso com especial atenção e carinho; se necessário, com o poder de sua autoridade, porque o que está em jogo é a qualidade da  pregação e do ensino da Igreja, ou seja, o que está em jogo é a própria qualidade da comunidade na execução de sua missão. 
(continua)
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10 de fev. de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (II)

(Continuação -   Educação Teológica e Formação Pastoral (I), postado mais  abaixo)

Que tipo de teologia está formando o clero do futuro?
Essa reflexão é importante para o contexto evangélico brasileiro; tenho visto, inclusive nas faculdades mais renomadas, estudantes que fazem a separação entre sua formação teológica e a sua vocação, quase exclusivamente entre os estudantes evangélicos e protestantes.
Várias vezes, conversando com estudantes de teologia que se destinam ao pastorado, ouvi coisas assim: “Eu estudo teologia porque a Igreja exige, para me ordenar! mas depois eu só preciso dos 66 livros da Bíblia e do Espírito Santo”. Também me surpreende muito existirem entre os estudantes de teologia, aberrações conceituais como “teologia da prosperidade”, “crescimento numérico da Igreja por qualquer meio” e “fundamentalismos cruéis” (vi em muitos carros parados nos estacionamentos das faculdades aquele famoso decalque: “em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado”), além, é claro, do pensamento fascista de excluir ou querer “converter” o diferente.
Além de blasfemo e herético, este estado de coisas me preocupa muito, pois temo pelo futuro das Igrejas no Brasil.  Temo que o futuro das Igrejas seja a multidão de consumidores de um sagrado adaptado às massas, cristianismo sem conversão, sem adesão à Pessoa de Jesus Cristo; um protestantismo – generalizado como “povo evangélico” – decadente, que nega sua própria origem, e faz da religiosidade popular manipulada a superstição disfarçada de doutrina e consolo. Não seria isso a forma contemporânea da venda de indulgências e de lugares no “céu”?
Ou seja, há uma diferença entre o conteúdo dos estudos,  a compreensão da vocação e o significado de missão.

Em parte, isso é consequência do próprio estado das Igrejas. Em sua maioria, as instituições eclesiásticas se vêem forçadas a assumir seus custos, ampliar seus investimentos, fortalecer-se institucionalmente (mostrar uma imagem de instituição sólida e forte), ou seja, as Igrejas entraram na lógica do mundo capitalista, a busca de “bons resultados”: diversificar a produção, crescer a qualquer preço, conquistar mercados, expor a prosperidade como sinônimo de bênção e graça. 

Nessa lógica, a qualificação da “mão-de-obra” está centrada na capacitação técnica diante dos resultados a serem alcançados; assim  importa mais conhecer técnicas de marketing que exegese; utilizar a mídia de forma eficiente (aumentar as “vendas”) que homilética; técnicas de relações públicas que o exercício da misericórdia e da compaixão.  Os estudantes pensam assim porque, de certa forma, sofrem influência da “ideologia de prosperidade” dominante na sociedade de consumo capitalista e adotada por grande parte das lideranças eclesiásticas, sejam leigas ou clericais. As próprias congregações estão mergulhadas nessa ideologia, de forma a exigirem “resultados objetivos” como critério de sucesso dos seus pastores.
Em busca de caminhos
Diante do quadro atual, em que as Igrejas estão à mercê da lógica de mercado e a  formação teológica está vinculada ao sistema legal do ensino superior (currículos e programas obedecem diretrizes do MEC; há uma burocracia normativa complexa a ser cumprida, de forma que as Igrejas não têm o controle real do processo educativo), quais os caminhos possíveis para a formação dos futuros pastores e pastoras, do clero da Igreja?
É evidente que a qualidade acadêmica não pode ser desprezada. O bom conhecimento teológico é fundamental para garantir o bom resultado da pregação, do ensino e do fortalecimento da vida em comunhão nas comunidades .
Por outro lado, há conteúdos que não estão devidamente incluídos nos currículos acadêmicos atuais, uma vez que a maioria das faculdades de teologia são Inter denominacionais ou vinculadas a universidades particulares.
Refiro-me ao específico da identidade denominacional e confessional de quem está se preparando para o pastorado: a história, os ritos, as tradições, as doutrinas e os aspectos canônicos, ou seja tudo aquilo que confere à cada denominação, a sua identidade específica. No específico da discussão acadêmica em sala de aula, onde a diversidade de identidades poderia ser algo útil e enriquecedor, essa mesma diversidade é desconsiderada na reflexão teórica a partir dos contextos de cada disciplina, algumas vezes até sob a justificativa de respeito pelas características individuais de cada denominação religiosa. A reflexão acadêmica torna-se acrítica ou, quando muito, generalista em sua crítica, sem estimular que o estudante faça a auto-crítica pessoal e denominacional (até porque os estudantes de teologia, como a maioria dos estudantes universitários brasileiros, carecem de formação escolar prévia competente e estimuladora da reflexão – mas isso é um problema além da amplitude deste texto)
Há também de se considerar os aspectos da formação pessoal inerente a quem se destina ao ministério ordenado: a vida de piedade, o senso da vocação, a busca permanente da comunhão com Deus, o sentido de serviço que o ministério confere. Isso também não pode ser esperado das faculdades de teologia, uma vez que não se destinam a formar clero, mas teólogos. A teologia, trabalhada enquanto discurso acadêmico, está desligada da vida pessoal e comunitária do estudante.  Na verdade, como discurso elaborado com consistência e coerência interna, a teologia, por si só, não pressupõe a fé.
Considero fundamental que o clero seja teologicamente formado, e bem formado. Não estou caindo na falaciosa separação entre pastores e/ou teólogos; também não vou recorrer a outra falácia, o conceito de teólogo-pastor  ou pastor-teólogo, que há alguns anos serviu para bons debates acadêmicos estéreis, e justificou muitos equívocos na formação do clero das Igrejas.
Talvez seja necessário pensar sobre a relação entre pastoral e teologia, ou melhor, entre pastorado e teologia. Qual o papel da teologia no exercício do pastorado? Como a teologia pode dar significado e conteúdo ao pastorado?  Como o pastorado pode desafiar a reflexão teológica a partir da realidade de vida dos cristãos?
Não posso, e não quero, responder a essa questão de forma genérica. Então, a partir daqui, falarei como episcopal-anglicano e minha reflexão estará dirigida e fundamentada pelos conceitos de identidade e de doutrina da minha própria denominação. Ir além disso exigiria uma pesquisa mais aprofundada para discernir o específico de cada identidade denominacional e obrigaria a apresentar propostas generalizadas de forma a incluir a maior parte das diferentes Igrejas e suas tradições específicas.
(continua)
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8 de fev. de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (I)

Introdução
Durante muito tempo, quando fui seminarista por exemplo, estas duas expressões eram sinônimas. Afinal, o Seminário era a “escola de profetas” ou seja, preparava-nos para sermos pregadores da Palavra e pastores do Povo de Deus. Por maior ou menor que fosse o nível acadêmico, a formação era centrada no pastorado.
Haviam exceções, por exemplo, algumas instituições de ensino teológico fortemente influenciadas (e patrocinadas) pelas igrejas protestantes do norte europeu. Que eu me recordo, só a Escola dos luteranos (sinodais) em São Leopoldo era realmente uma academia teológica e não um seminário, mas posso estar equivocado. Também me parece que o ISEDET (uma instituição interdenominacional), em Buenos Aires, tinha esse caráter quase exclusivamente acadêmico. Naquele tempo, as distâncias geográficas eram realmente distâncias e as possibilidades de contato eram raras e caras.
Na Europa e, por extensão, nos Estados Unidos, as academias teológicas são parte do contexto universitário, onde a Teologia é trabalhada  de acordo com os critérios acadêmicos de fazer ciência e produzir conhecimento (não vou discutir se Teologia é ciência! estou apenas registrando um fato).  Quero dizer que, na Tradição do antigo ocidente, a Teologia  - desde a Idade Média – é enquadrada como carreira acadêmica, enquanto aqui era - quase exclusivamente - parte da carreira eclesiástica.  Uma coisa, porém, não exclui a outra, mas isso não é o assunto.
Não posso avaliar como é feita a formação pastoral na Europa ou nos Estados Unidos, como era e como é hoje; não tenho dados suficientes para uma análise responsável.  Mas posso refletir sobre a realidade presente no Brasil, a partir da minha experiência enquanto estudante de teologia brasileiro nos anos ‘70 do século passado, e como professor nos dias de hoje.
A Educação Teológica da minha geração
Na maioria das igrejas cristãs brasileiras, o seminário era a Igreja formando seu clero, seu corpo pastoral.  A Teologia, bem trabalhada e de muita exigência, era ferramenta básica para iluminar o fundamento da vocação, a qual provinha da experiência de fé e da vida eclesial  do estudante (seminarista).  A Teologia, enquanto conhecimento acadêmico, não era o objetivo principal dos seminários, mas sim como instrumental indispensável para o exercício do pastorado.  Em alguns seminários protestantes, nem todos os estudantes destinavam-se ao ministério ordenado. Sempre havia, aqui e ali, aqueles que - pretendendo manter-se no estado laico - buscavam o conhecimento teológico para melhor desenvolver seu ministério (por exemplo, catequese, ensino, etc...), mas nem por isso deixavam de receber a mesma formação voltada ao pastorado.
O fato é que, naquele tempo e até há poucos anos atrás, o curso de Teologia não existia formalmente no sistema educacional brasileiro. Era considerado assunto das igrejas e não havia nenhuma intervenção do Estado nas definições curriculares, sistema de ensino, etc.... Era exclusivamente do âmbito de cada Igreja definir a formação do seu clero.
Assim sendo, os seminários eram mais que academias. Além do estudo sério e profundo das diferentes áreas teológicas, da leitura dos teólogos contemporâneos, da reflexão a partir das novas linhas teológicas que vinham surgindo desde o pós-guerra, e das Ciências Humanas que completavam o currículo escolar, a vida do seminarista era envolvida por outras atividades essenciais para o desenvolvimento de sua vocação específica.
Havia, por exemplo, a formação básica em Música, porque esperava-se dos pastores serem capazes de usar o hinário mesmo quando a congregação não tivesse um grupo de música.
Mas quero chamar a atenção para as muitas atividades extra-curriculares. Cada seminarista devia estar envolvido na vida de uma comunidade eclesial, como um estágio; mas não exatamente um estágio, mas um serviço. Os dias de retiro, pelo menos a cada semestre, forçavam a reflexão sobre a relação com Deus, a obediência a Deus, o desenvolvimento da espiritualidade e piedade pessoal. A vida comunitária (mesmo quando os alunos não eram internos) era estimulada e assim se desenvolvia a capacidade de ouvir e de dialogar, de exercer a misericórdia, de perdoar, de conviver dentro de uma regra de disciplina, e a prática da solidariedade.
A presença de um Capelão, um clérigo, docente ou não, era fundamental para acompanhar pastoralmente cada estudante e também o corpo docente. O seminário era mais que uma escola; era, sim, uma comunidade de convívio, partilha, reflexão e oração. Afinal, um seminário formava pregadores da Palavra e pastores para o Povo de Deus, não intelectuais para a comunidade acadêmica (embora alguns até faziam ou fizeram sucesso lá!).
Obviamente estou falando em termos ideais e - por que não? - com saudosismo. É claro que haviam as intrigas, as brigas, as deficiências, os egos docentes e discentes, as deficiências curriculares … afinal, esse é o preço do convívio humano; sem falar da repressão pelas cúpulas eclesiásticas comprometidas com a ditadura militar. Mas que fique claro que  todo o contexto do seminário visava formar pastores, pessoas chamadas para uma vocação muito específica: denunciar o pecado do mundo, anunciar a Palavra da Salvação, congregar e nutrir o Povo de Deus. Os seminários eram Escolas de Profetas.
A Educação Teológica Hoje
Não caberia aqui a história de como se deu esse processo, mas o fato é que hoje a Teologia está enquadrada no sistema de ensino superior no Brasil. Curiosamente, muito mais no contexto de escola isoladas ou centros universitários particulares do que nas instituições públicas de ensino superior.
Assim, hoje o estudante de Teologia não tem mais aquela identidade de seminarista, e muitas vezes não é visto como tal pela sua Igreja. É um universitário como qualquer outro, embora a maioria deles não tenha muita clareza para que serve o diploma de Teologia, além de trabalhar na Igreja.
Muitas Igrejas, especialmente no contexto do Mundo Evangélico, querendo garantir certa seriedade ao seu clero, exige a formação teológica universitária para seus pastores.
As Igrejas caíram na mesma falácia do mercado com o diploma universitário: é preciso ter diploma de curso superior para bons empregos. Assim, uma multidão começou a ingressar nos cursos universitários para conseguir o diploma e não o conhecimento. Isso levou à avacalhação do diploma de curso superior, e o mercado começou a exigir MBA’s, cursos de pós-graduação, e até mestrados. E hoje a gente vê a mesma esculhambação nas pós-graduações: todo mundo quer o papel, não o conhecimento. E como as escolas particulares dependem de clientela… bem esse é outro assunto!
Como o mercado religioso está em expansão no Brasil, as escolas de teologia ficaram cheias de alunos, visando “trabalhar” na Igreja, ou seja, negociar o Sagrado enquanto produto de consumo. Não se fala em vocação, não se fala em pastoral.  Não afirmo que não existam vocações, ou que se descuidou da pastoral, mas as escolas de teologia, em sua maioria, são como qualquer outra escola: aulas, avaliações, trabalhos e o objetivo final é o diploma.
Uma coisa tenho para mim: enquanto conhecimento, a Teologia é um discurso que não pressupõe a fé. Sim, sou pietista! Assim como eu não preciso ter um contato ou uma experiência pessoal com o méson-pi-zero para estudá-lo enquanto objeto das equações da física quântica, não preciso ter uma experiência de fé para tratar de temas teológicos enquanto conhecimento. Afinal, é um exercício da Razão, que tem seu método e forma.
Há faculdades de Teologia de excelente nível, assim como há faculdades de Direito ou de Educação Física de excelente nível. Mas também há muita faculdade de Teologia, como de Direito ou de Educação Física que é pura picaretagem, apesar dos “meticulosos controles” do Ministério da Educação. Da mesma forma, existem Igrejas e as "lojas de bênçãos”.
A pergunta que fica girando na minha cabeça, no convívio com estudantes de teologia, desde que eu era Secretário Regional do CLAI, e hoje no magistério, é a seguinte: onde está a vocação? onde está a consciência do Chamado?  onde está a piedade pessoal? onde está a preocupação em se estudar um Bultmann ou um Barth para além das avaliações escolares, mas para a formação na comunidade eclesial?
Onde estão as perguntas que meus professores no seminário faziam, não nas provas mas nas conversas e nos encontros de reflexão, traduzindo a nossa angústia porque tínhamos  - de certa forma – a consciência do Chamado: “como você falaria disso para a sua congregação?” e “O que significa essa visão teológica para o cristão contemporâneo?” ou ainda “Como isso poderá fortalecer a fé, a esperança e a vida pessoal do seu eclesiano?”
Fiz várias vezes essas perguntas aos meus alunos em Vitória durante o ano passado. A maioria deles respondia assim: “Professor, se eu disser isso na Igreja, serei colocado para fora! não posso dizer isso na Igreja, então guardo para mim” , ou então, “Professor, isso aí não enche igreja, é tudo bobagem! a gente estuda  porque tem de estudar, mas não tem nada a ver!
Chegaram as Faculdades de Teologia, mas as Escolas de Profetas quase não existem mais. Hoje temos diplomados, bacharéis, mestres e doutores em Teologia, com títulos brasileiros; mas onde está a profecia? onde está o cuidado pastoral?
(continua)
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