Pequenas luzes... simplicidade... Pirilampos iluminavam a noite piscando; eram pontinhos brilhantes de vida na escuridão em noite de Lua Nova, como as estrelas! Pintassilgos são passarinhos comuns (ainda existem), de muitos tipos, e representam as coisas mais simples... selvagens, são livres!
4 de jul. de 2019
Traduções da Bíblia e Ética Cristã
29 de jun. de 2015
Homoafetivos e Banqueiros.
É público e notório o ódio às pessoas homo-afetivas esparramado por gente que se diz “cristã” e manipula a Bíblia para justificar esse preconceito que se torna ódio irracional.
Até há 60 anos atrás, nos Estados Unidos (já que a maioria dos brasileiros é fascinado por aquela nação) cristãos brancos exibiam descaradamente seu ódio às pessoas negras, fossem elas cristãs ou não. Claro, justificavam suas posições usando a Bíblia… De fato, a Bíblia pode justificar qualquer coisa quando usada de má fé e de forma ignorante, aliás, como a ciência.
Há alguns anos, eu atuava como Secretário Regional do CLAI* para o Brasil, fui convidado para apresentar uma palestra em evento nacional de uma das igrejas membros do Conselho. O tema, até mesmo devido à minha função, era Relações Ecumênicas e Cooperação. Terminei a palestra, cerca de 25 minutos, e convidei ao plenário apresentar perguntas. Para minha surpresa, recebi três perguntas por escrito, as três com o mesmo teor, que pode ser resumido assim: “Parece que a sua Igreja tem discutido o tema da homossexualidade, pode explicar como tem sido isso?” Entendi, então, porque eu havia sido convidado e que o assunto preocupante para aquelas pessoas era a questão da homossexualidade na Igreja, e não necessariamente as relações ecumênicas...
Não fugi do assunto. Pelo contrário, expliquei que a Igreja Episcopal estava dando início à discussão sobre o tema de maneira pública, a exemplo do que vinha acontecendo em outras Igrejas da Comunhão Anglicana. Informei que a Igreja estava ainda em fase de debates teológicos sobre o tema, e ao mesmo tempo colhendo subsídios através de outros campos do conhecimento humano, mas que a discussão evoluiria até chegar ao nível das comunidades locais, as Dioceses e suas paróquias e missões; informei ainda que mais detalhes de como andam as discussões e documentos já produzidos poderiam ser obtidos com a Secretaria Geral da Igreja ou com o Centro de Estudos Anglicanos.
Seguiu-se então um tremendo debate. Muitos pastores se pronunciaram contrários, e alguns que eu sabia serem favoráveis temiam manifestar-se. Eu apenas ouvia os comentários, distribuindo a palavra a quem pedia. Resolvi não me pronunciar porque percebi que aquele era um tema que estava criando possibilidades de divisão da Igreja. Mas eu não resisti comentar a fala de um jovem pastor que afirmou estar no início de seu ministério.
Demonstrando uma certa ira, ele esbravejou contra as pessoas homoafetivas, citando a bíblia a torto e a direito, especialmente pedaços de versículos, e reparei que ele estava usando uma versão da bíblia de péssima tradução, muito antiga e hoje em dia irrelevante.
Em certo momento ele afirmou categoricamente e apresentando até uma certa arrogância: “Eu jamais darei a Santa Ceia a um homossexual!”. Eu não resisti, o interrompi e larguei a pergunta: “Você daria a Santa Ceia a um banqueiro?” .
Ele respondeu que sim, se fosse um banqueiro cristão, claro que poderia receber a Ceia. Então eu respondi a ele: “Interessante a tua postura pastoral e teológica. Você esbravejou versículos bíblicos fora de contexto, até mesmo modificou o sentido de alguns, para justificar que não daria a Ceia a uma pessoa homossexual. Todavia um banqueiro vive de usura, e a Bíblia, ai sim, está cheia de afirmações condenatórias da usura e do usurário. Então, eu não entendo teu critério de ler a bíblia.”
Acabei de dizer isso, o plenário explodiu em aplausos de pé e o rapaz se retirou cabisbaixo…
Pois é, caro leitor. E você, daria a comunhão, ou a tomaria ao lado de um banqueiro? Tomaria a comunhão das mãos de um pastor preconceituoso e semeador de ódio aos diferentes?
A quem, afinal, tu serves, ó cristão? ao preconceito ou ao Cristo?
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* CLAI – Conselho Latino-Americano de Igrejas.
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4 de abr. de 2015
Racionalidade, Religião e Fé
Hoje em dia existem muitos movimentos ditos “ateístas” que atacam o cristianismo questionando o que acham que seja a Fé Cristã. Engraçado que questionam muito pouco outras religiões.
Eu já fui ateu! mas eu apresentava argumentos melhores e mais inteligentes para defender meu ateísmo e questionar a religião do que a maioria das postagens vistas por ai nas redes sociais, mostrando atitude “religiosa” dado o caráter apologético e dogmático com que fundamentam suas afirmações e críticas.
Na verdade, criticam, como eu ainda faço, e com muita razão, a religião cristã! É preciso distinguir Fé de Religião, embora ambas se relacionem. A Fé dá sentido à Religião (que é cultural, uma construção racional que se desenvolve por gerações e gerações até chegar a um ponto mais ou menos definitivo); mas a Religião não produz a Fé, e sim práticas que buscam “ligar” (ou, etimologicamente, religar!) o ser humano à instância da “divindade” ou à percepção do que se define como “sagrado”.
O problema é que a Fé vivenciada pelas primeiras comunidades cristãs sofreu crescente degradação à medida em que deixou de ser a expressão de um movimento para se institucionalizar como uma religião, aliás, a religião do Império Romano. Surgiu o “Cristianismo”, uma religião de massa (e como tudo que é de massa, sem sabor nem profundidade); com o “Cristianismo” veio a “Cristandade”; a Igreja se tornou instituição religiosa e não mais comunidade de fé! Assim é compreensível que muitas pessoas questionam o Cristianismo.
A Igreja, no decorrer do tempo, acabou solidificando de forma dogmática e absoluta, dentro de um discurso pretensamente lógico, o que era percebido e vivenciado a partir da experiência da Fé. Isso começou com Constantino! O Imperador percebeu que os cristãos estavam em todas as partes do Império e seria necessário tê-los a seu lado para facilitar a governabilidade do Império (governabilidade e “base aliada” já era um problema naquela época!). Mas os cristãos não eram um bloco monolítico! Distribuíam-se em muitas facções e em muitos casos discordavam uns dos outros (quem acha que a Igreja Primitiva e Pós-Apostólica eram “unidas”, ou “tinham unidade confessional”, está muito enganado! precisa estudar História da Igreja!!!).
Constantino entendeu que seria preciso controlar esse movimento. E isso aconteceu, de fato. O Imperador conseguiu uma unidade confessional e com isso, domesticou o movimento. Basta olhar a História!
As Igrejas do Oriente e do Ocidente (Roma), nesse processo de forte institucionalização, definiram dogmas absolutos e a a Fé Cristã perdeu sua dinâmica, tornando-se uma mera religião com práticas devocionais para agradar a Deus e proteger-se do diabo. Contra isso, em todas as épocas, especialmente no Ocidente, surgiram propostas de reforma, sendo que a do século XVI foi mais estável e conseguiu desligar-se do dogmatismo rígido da Igreja Institucional. Todavia, um século depois da Reforma Protestante, o Protestantismo estava cheio de dogmas doutrinários e construções escolásticas (acabou se constituindo naquilo que combateu!). Mas, ainda assim, continuaram a existir resistências reformadoras – não só no Protestantismo, mas também no Catolicismo. O princípio de Calvino – Igreja Reformada sempre se reformando – nunca foi realmente observado, nem mesmo por ele!
Nos tempos modernos, um movimento chamado Fundamentalismo, nascido nos Estados Unidos no século XIX, acabou criando, no mundo Protestante, um dogmatismo literalista da Bíblia que, aos olhos das pessoas esclarecidas, é ridículo. Foi o Fundamentalismo que criou a falsa divergência entre Fé e Ciência! E muita gente aceitou essa falácia, tanto de um lado quanto de outro.
Para quem acha que a verdade se expressa em termos científicos de forma positiva, absoluta e definitiva, não sabe como a Ciência procede e, provavelmente, não conhece – por exemplo – Mecânica Quântica, um grande exercício de imaginação para explicar o que não vemos, mas percebemos… (ou alguém já viu um bóson? ou um quark? viu-se o registro de um fenômeno em chapas sensíveis à radiações, e imaginaram o que chamam de bóson; ninguém viu um “buraco negro”, mas ele é uma boa explicação para o que podemos observar como colapso da gravidade).
O senso comum acha que tudo que se afirma no universo da Ciência é verdade absoluta. Não é! Quem assim pensa, não sabe o que é Ciência nem como ela funciona. Poucas coisas estão “cientificamente provadas”, ou seja, na linguagem dos cientistas, são “fatos científicos”! A maior parte das afirmações da Ciência, especialmente no campo da Mecânica Quântica ou da Física Relativista, são TEORIAS, ou seja, são formas consistentes de explicar o que se observa; todavia, o trabalho dos cientistas não é afirmar a Teoria de forma dogmática. Vão testando e refinando a teoria… e, em alguns casos, ela é derrubada e tudo tem de começar de novo, ou então, os cientistas sabem que determinada Teoria jamais será um “fato científico”, mas é instrumento útil para a compreensão da realidade,e enquanto é útil, é assumida como “verdade”. Cientistas não são fundamentalistas, mas muitos apologéticos do ateísmo o são!
O Fundamentalismo ganhou várias matizes, muitas delas histéricas, se infiltrou na cultura e acabou gerando maluquices sem sentido como a tal “teologia (ideologia) da prosperidade” e as tais “igrejas de massa”, que – estas sim – acabam por liquidar com o caráter único e exclusivo da Fé Cristã: a sua maneira de vivenciar a experiência com Deus, o Deus que se manifesta pela Graça e é Companheiro de Caminhada, transformando-o em um deus muito semelhante aos antigos deuses pagãos.
Acontece que, se olharmos a pregação original, Cristãos são ateus! Nos primeiros séculos da Igreja, no Império Romano, os cristãos eram chamados de ateus porque negavam a miríade de deuses que havia no território do Império. O Deus Cristão não é metafísico, mas Deus Encarnado. A transcendência surge na imanência... Ou seja, a Fé Cristã traz em seu bojo uma afirmação materialista: Deus se tornou matéria na História! “… e o Logos/Verbo/Palavra Criadora se fez Carne e habitou entre nós” (João 1.14).
Cristãos não creem em deuses que "cuidam" das forças naturais e precisam ser agradados o tempo todo... O Deus Cristão não é como uma criança mimada, ou um adulto inseguro, que precisa receber agrados permanentemente para não ficar “nervoso” e dar “piti”! Um recente filme completamente sem fundamento bíblico, seguindo a onda de desmoralizar a Fé Bíblica, apresentou Moisés se relacionando com um deus-menino nervosinho e egocêntrico, uma péssima leitura do Deus que se manifesta no Antigo Testamento. Mas, reconheço, que infelizmente, a Igreja ajudou em muito a acontecer tal redução, por ignorância teimosa e postura dogmática.
O Deus Cristão não precisa ser movido por sacrifícios e agradinhos... O Deus Cristão se manifesta e atua através da Graça, não como retribuição, mas como iniciativa amorosa. Tentar entender o Deus Cristão pelos critérios cartesianos de análise é como querer explicar a Lua enquanto objeto astronômico para a sua namorada em noite de luar, no jardim, ao som de música: não tem graça, nem apelo, e ela vai achar você um idiota completo, um babaca nada romântico…
O Deus Cristão só pode ser entendido e experimentado pela Fé. Ele é como poesia: para falar-se d’Ele, usa-se palavras, mas dando a elas um significado além do dicionário, porque fala-se do que se percebe!
Já tentou explicar a alguém o que é dor? ou o sabor da laranja? ou explicar o que é vermelho a um cego de nascença? É a mesma coisa falar da Fé a quem não se abre para uma realidade além da realidade cognitiva. Na verdade, só encontra quem busca… – “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Mateus 7.7)
Não é a Razão que conhece a Fé; é a Fé que dá nova luz à Razão (e Kant que se dane!) A Fé dá sentido à pratica religiosa enquanto prática comunitária, expressando o que se entende além da racionalidade, ação manifesta de solidariedade, identidade e pertença.
Ainda há aqueles que dizem que a maioria das narrativas bíblicas são mitos. São mesmo! E daí? quem reduz o argumento a essa simples frase, não sabe o que é Mito, muito menos entende o que a Bíblia é enquanto literatura. Do jeito que definem o mito, vão acabar afirmando também que a Mecânica Quântica é construída sobre mitos. Como físico, eu até acho que é, mas… e daí?
Ao contrário do que muita gente pensa e apesar das grandes campanhas ateístas, observa-se no mundo o fortalecimento do comportamento religioso. A religião majoritária hoje em dia chama-se Consumismo! O Consumismo se tornou uma ideologia que induz comportamento religioso. Para entender, por exemplo, as “igrejas da prosperidade” é preciso perceber que elas promovem um consumo religioso e adotam técnicas de publicidade indutoras do Consumismo.
Quanto aos ateus, estão, como todo o mundo, diante do abismo em uma noite escura. Não podem dar um passo à frente, nem sabem como retornar. Ao contrário dos que vivem a realidade da Fé Cristã, não ouvem o “rumor de anjos vindo do abismo”, e por isso têm medo de dar o salto definitivo, porque não sabem que serão amparados…
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11 de out. de 2011
Inclusividade ou Diversidade?
Este texto pretende ser um ensaio inicial para partilhar algumas reflexões que tenho feito nestes últimos dois ou três anos. Trata-se portanto de uma reflexão em aberto, onde eu mesmo não tenho muita certeza do que estou dizendo. Aliás, alguém tem certeza de alguma coisa na pós-modernidade? ou “certeza” é um conceito cartesiano cada vez mais distante da realidade líquida que vivemos neste tempo?
Com efeito, em certos setores da sociedade, a palavra “inclusividade” está na moda. Na Igreja Episcopal, onde exerço o ministério pastoral, a palavra suscitou e suscita muitas discussões teológicas e algumas nada teológicas. Nós, de tradição anglicana, gostamos de nos definir como uma Igreja inclusiva, e na minha opinião isso é apenas arrogância retórica para passar uma ideia que somos algo que, na verdade, não somos! pelo menos da maneira ufanista como certos grupos na Igreja enfatizam.
Eu acho que quem é inclusivo não precisa dizer que é! basta ser! é o excluído que se sente acolhido e incluído quem deve dizer que somos inclusivos; mas isso virou uma espécie de propaganda ufanista. Se setores de vanguarda da Igreja realmente compreendem o significado de “inclusividade” e adotam posturas de acolhimento e simpatia ao diferente, a maioria da Igreja – o povo das nossas pequenas congregações – não tem clareza do que isso significa, e até mesmo olha com estranheza certas práticas que acontecem em uma ou outra comunidade.
O que estou dizendo é que, embora setores teológicos e clericais da Igreja tenham discutido o tema da inclusividade – especialmente a questão homoafetiva – essa discussão não chegou às bases da Igreja para afirmar-se que a Igreja como um todo adota a inclusividade (a reflexão está chegando agora, pela pressão dos acontecimentos e por isso mesmo nem sempre é bem orientada).
Na verdade, o fenômeno não é que a Igreja se tornou inclusiva, mas que grupos com identidade diferenciada do padrão, até o passado recente, mantinham tal qualidade em oculto e raramente demonstravam com clareza sua “identidade diferente”, exatamente para não serem excluídos. Entretanto, em muitas situações, tal condição era de fato conhecida e reconhecida pela comunidade, mas não precisava ser explicitada. Isso é verdade tanto para a Igreja Episcopal quanto para todas as outras denominações religiosas, cristãs ou não, no mundo ocidental.
O que acontece hoje é que os “diferentes” afirmam publicamente sua diferença, defendendo o seu direito de serem como são, e diante disso cada pessoa, cada grupo, tem de posicionar-se para relacionar-se com esses “diferentes”.
O grande mérito da Igreja Episcopal, a meu ver, não é ser uma Igreja inclusiva, mas assumir a discussão perante o público interno e o público externo, enfrentando abertamente e com coragem a questão, mesmo pagando um alto preço por isso internamente e diante das demais denominações cristãs, em uma sociedade marcada pelos ideais burgueses do séc. XVIII, presa a uma moralidade imutável e, por isso mesmo, excludente de tudo que dela discorde ou difere. O que para muita gente parece ser um afrouxamento moral, é na verdade uma mudança radical de paradigma ético!
Há uma distância temporal entre a reflexão e a prática, considerando-se a Igreja como um todo. Como afirmei acima, setores de vanguarda da Igreja já adotam uma prática inspirada em um novo paradigma ético (a inclusividade em seu sentido maior), mas a reflexão mal começou em nível das comunidades, do povo da Igreja.
Assim, há uma estranheza porque a maioria das pessoas comuns não percebe ainda a mudança de paradigma. E aqui sim, eu penso, a Igreja falhou e tem falhado no que se refere ao “aspecto pedagógico” da questão. Falta uma estratégia de formação para a superação de velhos paradigmas.
Eu penso que primeiro é necessário que as pessoas compreendam a diversidade humana – percebam que não há uniformidade, mas diversidade de costumes, de hábitos, de pontos de vista (a diversidade humana existe exatamente como diversidade cultural), e também percebam que conceitos como “verdadeiro” ou “falso” não se aplicam mais diante da diversidade explícita que surge com a rapidez da informação no mundo que se tornou uma aldeia onde os habitantes primam pela diversidade. Não há mais lugar para dogmatismos! mas há – é necessário que haja – lugar para valores a partir de novos paradigmas éticos.
A questão é muito mais profunda do que parece, porque toda a nossa formulação religiosa, herdada do mundo helenista e marcada pelo cartesianismo, fundamenta-se em um conceito dogmático de verdade – por ser dogmático, exclui tudo que com ele discorda ou dele difere.
Para os anglicanos de formação, o conceito de diversidade não é tão estranho. Afinal a principal característica de nossa identidade é exatamente a diversidade da Igreja em suas formulações e ênfases. A identidade fundamental dos anglicanos é que não há um padrão anglicano, mas o anglicanismo é exatamente essa diversidade de padrões. Aliás, essa abertura à diversidade é marca característica da forma anglicana de fazer missão: não se trata de pregar a nossa Igreja para que ela exista em outro lugar, mas anunciar o Evangelho para que a Igreja nasça em comunhão conosco em outro lugar: não a nossa Igreja, mas a Igreja daquele lugar! Nisso nós conseguimos manter o jeito da Igreja Apostólica, cuja unidade não vinha de um padrão, mas da comunhão: a Igreja dos primeiros séculos era na verdade diferentes Igrejas unidas em comunhão. Nesse sentido, a Igreja nunca foi única, mas sempre foi una! Esse é o ideal anglicano.
Assim, eu acredito que ao invés de darmos ênfase na inclusividade, deveríamos ajudar as pessoas compreenderem a riqueza da diversidade como obra de Deus, perceber que a Encarnação de Cristo se deu nessa diversidade e a maior prova disso é que o ministério apostólico do anúncio do Evangelho se abriu desde o início à diversidade característica do mundo conhecido de então.
Eu acho que a narrativa de Pentecostes, em Atos 2 é exatamente isso: os Apóstolos anunciam o Evangelho de forma compreensiva para todos os diferentes povos daquele mundo! O Concílio de Jerusalém (Atos 15), diante do testemunho de Pedro sobre os hábitos estrangeiros e o testemunho de Paulo sobre as Igrejas dos gentios, reconheceu a diversidade da Igreja nascente e não a condenou!
Reconhecendo a diversidade humana, é mais fácil ser inclusivo, porque se pode ver o outro, o diferente, não mais como um estranho, mas um igual a mim porém diferente, amado por Deus e redimido por Cristo, como eu!
Só mais uma palavrinha neste já longo artigo: é preciso refletir muito para que o discurso da diversidade não se torne uma apologia do relativismo. Também é necessário reformular conceitos como salvação, revelação, pecado... Tudo isso tem de ser analisado a partir da teologia bíblica até chegar às formulações e práticas pastorais. A Igreja Episcopal e as demais Igrejas têm ai o grande desafio para o pessoal da Teologia e para os pastoralistas cuja missão é tornar tudo isso acessível às pessoas para enriquecer e fortalecer sua fé, influenciando de forma concreta sua visão de mundo e atitudes de vida enquanto filhas e filhos de Deus, discípulos e discípulas de Cristo.
Caso contrário, ficaremos apenas em um ativismo “liberal”, sem conteúdo, um relativismo vazio de significado, um prato cheio para fortalecer as correntes fundamentalistas que primam em manter a velha e permanente ordem das verdades absolutas. Além disso, se a pastoral da inclusividade focar apenas o incluir os excluídos, acabará excluindo os antes incluídos, ou seja, permanece o gueto da exclusão. As pessoas continuarão separadas por simples classificações e perderão a percepção da unidade maior que é o fato de sermos humanos. A verdadeira inclusão só acontece quando percebemos que, apesar das diferenças, somos de fato todos irmãos e irmãs em comunhão pela Graça de Deus, Quem por si mesmo se revela como Diversidade (Trindade).
Como eu disse, é uma reflexão ainda cheia de pontos de interrogação… mas estou falando de fé e de ética, por isso continuo não incluindo, e nem tolerando, aquela corja de safados a que me referi no artigo anterior (abaixo). !!!!
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NOTA DO AUTOR (14 anos depois)
Relendo a postagem hoje, julho de 2025, devo dizer que a situação interna na IEAB é outra. Morosamente, a Igreja conseguiu, e tem conseguido, trazer essa reflexão para dentro das comunidades, e hoje há uma grande consciência da diversidade e da inclusividade nas congregações. Os mais reticentes se afastaram - o que estava previsto, mas não desejado - todavia as congregações conseguiram romper com os antigos paradigmas e tornaram-se mais acolhedoras e empáticas às realidades sociais e culturais.
Dou graças a Deus por isso e sinto-me feliz pelo caminho que conseguimos caminhar até o momento nesse sentido. Glória a Deus!
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25 de set. de 2011
Tolerância Religiosa, vírgula!
Antes que os politicamente corretos de plantão comam meu fígado, devo deixar claro que eu não defendo a guerra religiosa, nem tampouco considero a minha religião como a única verdadeira. Pelo contrário, meu encontro com a fé cristã se deu no contexto ecumênico, no tempo em que ecumenismo era mais que um chazinho entre hierarcas das Igrejas. Por isso, eu procuro viver a minha fé dentro do contexto da diversidade que o mundo globalizado nos impõe.
Também preciso dizer que defendo a liberdade de expressão e de opinião, e em tempos passados eu mesmo fui vítima de um regime que não permitia nem a liberdade de opinião e muito menos de expressão.
Todavia, eu não posso ficar calado, nem respeitar, certas práticas ditas religiosas que, na verdade são grandes enganações com a finalidade de explorar a boa fé das pessoas desesperadas e/ou ignorantes. Não posso concordar que haja liberdade em explorar o desespero alheio ou – o que é pior – usar o nome de Deus (seja lá qual for) para a venda descarada de “bênçãos" e graças” que simplesmente mantém as pessoas na total dependência de uma prática “religiosa” de compra e venda.
Um dos pontos essenciais da Reforma Protestante, no século XVI, foi a revolta contra o poder absoluto da instituição eclesiástica que se autoproclamava proprietária da graça divina e da “salvação”, verdadeira usurpação de poder, criando o círculo vicioso de dependência e lucro (dependência para os crentes e lucro para a instituição).
Com razão, os Reformadores e a Tradição que herdamos da Reforma, se manifestam contra qualquer tentativa de vincular o poder divino, de forma absoluta e exclusiva, a uma instituição ou pessoa humana (que não fosse o Senhor Jesus Cristo, claro).
Ainda há algumas décadas atrás, os pregadores protestantes proclamavam a falácia de ritos e práticas religiosas como necessárias à Salvação em Cristo. E tanto tinham razão que a própria Igreja de Roma, no seu Concílio Vaticano II, aboliu a maioria dessas práticas e adotou uma postura mais aberta ao diálogo e à cooperação com os diferentes. (Se hoje vemos a Igreja Romana retroceder em muitos desses pontos, é outra questão).
Por isso, em fidelidade à Tradição que aceitei como “background” para expressar a minha experiência pessoal de fé, não posso ser tolerante, nem respeitar o seguinte:
1. Todo tipo de fundamentalismo bíblico (ou com base em qualquer “texto sagrado”) que determine uma maneira exclusiva de comportamento moral e doutrinário como verdadeira fonte de salvação, e, por isso mesmo, demoniza, persegue ou segrega quem pensa de forma diferente ou não vive segundo tais preceitos. Não posso ser tolerante com os intolerantes!
2. Toda pregação religiosa que proclama a salvação através da venda de amuletos, ritos, bênçãos, etc., apresentados como necessários e fundamentais para a ação da Graça de Deus na vida de qualquer pessoa. Não posso ser tolerante com os vendedores de bênçãos e proprietários de supermercados da religião, porque transformam o Sagrado em mercadoria, uma blasfêmia – no meu entender.
3. Toda espiritualidade e religiosidade fundamentada exclusivamente no carisma pessoal de um pregador ou líder religioso, que se autoproclama escolhido (e de forma exclusiva) pelo Divino, detentor único da verdade e do poder celestial. Não posso ser tolerante com os que usurpam o nome de Deus e se confundem com Ele.
( A propósito, nesse ponto, alguém pode alegar incoerência de minha parte, pois sendo cristão, minha espiritualidade se fundamenta essencialmente no carisma pessoal de Jesus de Nazaré. Todavia, diz a Tradição comum aos Cristãos, que Jesus não se anunciou como Deus, mas foi reconhecido como tal pela Igreja, e jamais fez uso desse fato para se impor a quem quer que fosse. Como diz o Apóstolo Paulo na carta aos Filipenses, “[…] a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem e reconhecido em figura humana; a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz[…]” ).
Bem é isso. Hoje é domingo, tenho de ir à Igreja para cumprir meu ofício e servir à congregação pela qual sou responsável como sacerdote em Cristo e pregador do Evangelho.
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31 de mai. de 2011
Sobre a Intolerância (religiosa, sexual, etc.)
Temos visto, recentemente, verdadeiros shows de intolerância frente à necessidade da sociedade brasileira adequar-se aos novos tempos e à percepção – cada vez maior – da diversidade humana.
Com efeito, cada vez mais se toma consciência que a sociedade humana – assim como toda a Criação – é de impressionante diversidade; fica quase impossível pensar-se em um “ser humano padrão”, se buscarmos padrões cartesianos. A diversidade se expressa em forma de cultura , etnia, língua, e em tudo aquilo que o ser humano cria e desenvolve com sua inteligência – e aqui me refiro inclusive às artes, às tecnologias e também às religiões.
Essa mesma diversidade percebemos em toda a Criação, o Jardim criado por Deus e entregue ao ser humano para ser cuidado; Jardim esse que o ser humano perdeu quando a cobiça de poder – o ser igual a Deus! – tomou conta de seu coração (cf. Gênesis 2.4-3.24 – uma interessante narrativa mitológica explicando a origem do mal inserido no seio da humanidade).
Entre os seres vivos, desde os seres unicelulares até os grandes mamíferos (o ser humano entre eles) a diversidade biológica é imensa. O mundo mineral, o próprio universo, tanto o macrocosmo quanto o microcosmo é de uma riqueza imensa em diversidade.
Assim é que temos visto nos últimos dias, ou melhor dizendo, nos tempos recentes, comportamentos e atitudes totalmente contrários à diversidade, uma demonstração de intolerância que chega a ser blasfema quando invocada em nome de Deus, o mesmo Deus que fez da diversidade a marca da Criação! Pior ainda quando entre os intolerantes aparecem ditos cristãos, nós que anunciamos e cremos em Deus que, por sua própria natureza, é diversidade (TRINDADE!!!!!!).
Os intolerantes cristãos – sejam eles ditos evangélicos ou católicos – justificam-se usando e ab-usando do texto da Bíblia, catando aqui e ali versículos para atribuírem a si mesmos o poder de “falar em nome de Deus”.
No que se refere à intolerância religiosa, a Igreja de Roma sempre assim procedeu, haja visto a (nada) Santa Inquisição, embora os protestantes e os cristãos orientais também não sejam santinhos; quando o Protestantismo chegou à América Latina, colonizada católico-romana, muitos dos nossos templos foram queimados, destruídos, pastores perseguidos, e - entre os episcopais, por exemplo – pessoas não podiam afirmar sua orientação religiosa sem colocar em risco seus empregos e a segurança de seus lares. Todavia hoje, os ditos “evangélicos” – a péssima herança deixada pelo Protestantismo nas terras Ameríndias – repetem o mesmo comportamento de intolerância para com as religiões de matriz africana e/ou indígena que insistem com muita fibra em permanecer na nossa sociedade.
Não vou ocupar espaço no servidor do blog falando da intolerância quanto à orientação sexual… é mais do que notório o preconceito e a intolerância para com pessoas cuja orientação sexual difere daquilo que os “puros” entendem como “padrão pela vontade de Deus”.
Interessante que a maioria dessas vozes intolerantes são profundamente tolerantes com a corrupção política, com a usura, com a injustiça e confundem a gananciosa e cruel prosperidade capitalista com “bênção” de Deus!!! O mesmo Deus que – ESTÁ ESCRITO – afirmou serem os pobres bem-aventurados, serem os pacificadores os herdeiros da terra, etc., etc., etc. Nesses casos não são fundamentalistas, pelo contrário, buscam exegeses que agridem o bom senso das pessoas e os padrões das ciências hermenêuticas; mas quando se trata da religião diferente, da orientação sexual diferente, ou seja, de tudo que seja diferente do padrão moral por eles definido como “vontade de Deus”, então ai, o texto bíblico é assumido sem interpretações... fundamentalismo de conveniência ideológica.
Assim vimos a vergonhosa aliança política no Congresso Brasileiro entre a bancada evangélica e a frente católica (aliança muito ecumênica por sinal – nessa hora é conveniente ser ecumênico), negociando com a situação o calar-se diante do caso Palocci em troca da permissão para a homofobia. Sabe-se lá o que rolou na questão do Código Florestal… e sabe-se lá que diabólicos acordos os parlamentares ditos “cristãos” não estão fazendo para manter o “direito” de ser intolerante e perseguir (segregar) os diferentes…
Convido vocês, que têm paciência em ler este blogue, a cerrar fileiras na intolerância: sejamos todos (e todas, vá lá) intolerantes com os intolerantes.
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14 de out. de 2010
Evangélicos e Política: muito interessante!
É muito interessante que líderes evangélicos se envolvam em política exigindo dos candidatos à Presidência da República um compromisso sério de vetar leis favoráveis ao aborto e à união civil de pessoas do mesmo sexo.
Interessante porque os evangélicos sempre pautaram por “não se envolver em política”, que eles consideravam “coisa do mundo”. Pelo menos tal era atitude da maioria deles no tempo da ditadura… evitavam entrar em conflito com o Estado (de exceção) alegando que tal atitude seria mundana ou contrariava Romanos 13:1-7
De certa forma o conservadorismo estreito e fundamentalista é "ecumênico": católicos romanos e a maioria evangélica concordam sempre em posturas conservadoras e reacionárias!
Interessante perceber que a maioria fundamentalista, estéricamente se posiciona contra o aborto e a homossexualidade, não move uma palha quando se trata de condenar a usura!!! A usura, condenada centenas de vezes na Escritura Sagrada, não merece nenhuma palavra profética da parte deles! Sobre a usura diz a Escritura:
“A teu irmão não emprestarás com juros, nem dinheiro, nem comida, nem qualquer coisa que se empreste com juros.” Deuteronômio 23:19
“O que aumenta os seus bens com usura e ganância ajunta-os para o que se compadece do pobre.” Provérbios 28:8
“… emprestar com usura e receber juros, porventura, viverá? Não viverá. Todas estas abominações ele fez e será morto; o seu sangue será sobre ele.” Ezequiel 18:13
“Não lhe darás teu dinheiro com juros, nem lhe darás o teu mantimento por causa de lucro.” Levítico 25:37
“Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor que impõe juros.” Êxodo 22:25
“Não tomarás dele juros, nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo.” Levítico 25:36
Todavia, o que hoje se vê são as Igrejas ditas evangélicas praticando a usura abertamente!
Certa vez, estando eu ministrando uma palestra, um jovem pastor me interpelou violentamente dizendo que jamais daria a Ceia a um homossexual, citando as conhecidas passagens bíblicas usadas para condenar a homossexualidade. Eu perguntei a ele se daria a Ceia a um banqueiro, e diante da resposta afirmativa, citei muitos versículos contra a usura… o plenário me aplaudiu e o jovem pastor se retirou dizendo que eu manipulava as Escrituras!!!
É uma pena que, por causa de gente reacionária, o segundo turno da eleição presidencial acontecerá sem debates realmente profundos sobre propostas para o futuro do Brasil. A eleição se polariza e as candidaturas buscam agradar o eleitorado fundamentalista… uma pena!
Antes que me perguntem, abro meu voto: no primeiro turno, marinei; no segundo, sou Dilma!
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3 de jan. de 2010
Confissões de Lúcifer !!!
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10 de dez. de 2009
Ainda os Anglocatólicos...
Após muita discussão sobre a questão da aceitação na Igreja Romana de pastores anglicanos, um blog anglicano gerou discussão no Reino Unido e nos EUA.
O The Beaker Folk of Husborne Crawley chegou ao site da importante revista jesuíta America, dos EUA, e do jornal The Guardian (anglicano) por postar um gráfico-resumo sobre como funcionará essa “transferência” assinada tanto por Bento XVI quanto pelo Arcebispo Rowan Williams, primaz da Igreja da Iglaterra (The Church of England), e símbolo da unidade na Comunhão Anglicana. ( de uma vez por todas, volto a dizer que NÃO EXISTE uma Igreja chamada "Anglicana" em nível mundial)
De uma forma bem humorada, o autor tentou resumir a questão, publicando o gráfico dirigindo-se aos pastores anglicanos (anglocatólicos ou evangélicos) indecisos. Porém, ele teve que apagá-lo de seu blog, devido às reações. Diz ele:
“Em vez de uma piada compartilhada com poucas pessoas que entendem o meu senso de humor e a minha ‘real’ visão sobre as coisas (eu espero), comecei a receber centenas de visitantes que não sabiam nada de mim. Alguns podem ter sentido uma ofensa profunda, e eu nunca quis causar isso”.
“Muitos anglocatólicos – continua o autor – têm pela frente um tempo muito sério e perturbador. Um tempo em que suas crenças mais profundas sobre o que significa ser padre e sobre a função da Igreja serão mudadas. Em suas consciências, eles terão que contrabalançar seu chamado ao sacerdócio e suas crenças sobre a essência da Igreja com os potenciais sacrifícios de dinheiro e/ou do tempo mesmo que suas famílias poderão sofrer. Os anglicanos devem rezar por eles, concordando ou não.”Mantendo o seu senso de humor, publico aqui uma versão do gráfico traduzida para o português:
(clique na figura para vê-la em tamanho ampliado)
22 de out. de 2009
Acarajé Evangélico!!! era só o que faltava!!!
Você pode ler a notícia on line: clique aqui
Interessante é que um "pastor evangélico" se refere ao cuidado para não se comer pratos que sejam "oferendas". Além de demonizar o candomblé, agora demoniza-se também a cozinha bahiana.
Na verdade, esse pessoal tem muita confiança em Deus e no poder de Deus: acredita que um simples "acarajé" pode manifestar uma ação diabólica na vida "espiritual" do "crente". Afirmam, assim, que o Diabo é capaz de derrubar a graça de Deus... boa teologia!
Logo veremos por ai: restaurante evangélico servindo "macarronada crente" (já que é prato italiano, deve ser coisa da a Igreja de Roma), ou pizza gospel (que virá com versículo bíblico escrito em molho de tomate) ....
Aliás, ao ler essa reportagem, lembrei-me de um amigo, pastor (de fato pastor) e bom comediante, que em uma esquete, sobre programação gospel de rádio, anunciava o "Motel Bom Pastor", especial para evangélicos(as), distribuidor das "camisinhas El Shadai", as únicas com versículo bíblico do Salmo 23: "... o teu cajado me consola"!!!
Melhor parar por aqui. Os absurdos que aparecem todos os dias no dito "mundo evangélico" é de fazer qualquer cristão perder a fé, para não perder o bom senso. Um detalhe: a senhora que vende o "acarajé crente", é "evangélica" mas tem troco para R$ 50,00 (ver postagem abaixo).
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19 de out. de 2009
Deus não tem troco para R$ 50,00
Hoje trago a vocês uma história que aconteceu comigo há uns 5 anos.Pasmem, mas fui criado em um lar cristão,já fui santo, mas depois que sai da minha cidade natal para trabalhar descobri um outro mundo, nem pior nem melhor, mas alterantivo, fora da igreja. Houve uma época , logo que passei no vestibular, em que eu estava numa m..., é merda mesmo, pois sem patrocínio algum só com o meu salário, senti o peso das mensalidade e aluguel no bolso. Era hora de recorrer aos poderes divinos para tirar a corda do meu pescoço.
Então lembrei que havia uma igreja da denominação que eu frequentava quando mais jovem no bairro onde eu moro atualmente.Imaginei que a programação entre as igrejas devia ser a mesma, logo eu deveria ir na quinta-feira pois era a noite da benção financeira, ou algo do gênero.Me arrumei bem bonitinho, cabelo com gel bem arrumadinho, hoje nem sei onde esta o pente, peguei a minha farrapa carteira com os últimos R$ 50,00 que sobraram do massacre das contas e o qual eu deveria passar o mês inteiro.Mas como a esperança é a última que morre, mas morre... fiz um pensamento positivo que iria receber uma benção tão grande naquela noite que a famigerada onça iria sofre uma metamorfose e virar duas, três, quatro... uma mala de garoupas !UHUUULLL!!!!
Cheguei cedo na igreja, procurei um lugar próximo ao centro, sim pois eu me lembrava que na frente sentavam sempre os mais fanáticos e neuróticos e atrás os endomoiados, os bagunceiros, os atrasados e mais um pouco de neuróticos.Logo os aceclas do pastor vieram me cumprimentar e sondar-me para saber quem eu era, dei respostas vagas, pois se soubessem que eu era filho de pastor e tecladista...Jesus iriam pedir que eu pregasse naquela noite e tocasse um hino para alegrar a galera, mas eu só queria saber da multiplicação da oncinha!
No decorrer da noite chegou a hora dos desesperados e aquele pessoal que senta nos últimos bancos da igreja irem até a frente do altar para receber as orações e imposição das mãos por parte do pastor e da equipe dele.
Eu fui, claro, pois escutei as palavras multiplicação, prosperidade e finanças, e lá estava eu, um dos primeiros bem na frente! Fechei os olhos e comecei a orar,Deus me ajuda,Deus me ajuda,Deus me ajuda, também é uma oração, recebi a imposição de mãos sobre a minha cabeça, abri os olhos e virei para voltar para o meu lugar...Meu pai do céu!De onde surgiu todo este povo???? Era impossível voltar ! E como o pastor havia iniciado mais uma rodada de oração em prol dos desesperados na parte amorosa resolvi ficar, fechei os olhos e comecei a minha oração de novo, a mesma Deus me ajuda.
A hora da benção já havia acabado e eu ainda não conseguia voltar para o meu lugar, fui indo aos poucos e procurei um caminho "alternativo" para voltar ao meu lugar, no corredor que havia entre os bancos e as paredes da igreja .Como sou esperto, nem tanto, pois o pastor anunciou no microfone que havia uma última benção:
-"Irmãos, hoje estaremos fazendo a campanha da flâmula sagrada para Deus abençoar a sua casa e família!Façam uma fila do lado esquerdo e venham pelo corredor receber a benção e pegar a sua flâmula!Irmãos para receber a sua flâmula (uma bandeirola de feltro bordo com o salmo 91), estamos pedindo uma oferta volutária mínima de R$ 10,00" - não lembro ao certo das palavras dele, mas lembro do preço da flâmula e deste novo contexto de "oferta voluntária".
PQP!!! Advinhem aonde é que o lerdo aqui estava ? Bem no corredor esquerdo , tentando ainda voltar para o meu banco ! Lógico que não consegui voltar pois tive que entrar na fila para receber a benção e pagar pela flâmula.Foi só o que restou a fazer com 200 pessoas em fila num corredor apertado e eu na contra mão!
Lá foi este fervoroso alteradinho receber mais uma oração.Recebi a oração passando por um corredor humano formado pelo povo que senta nos bancos da frente, eu não disse que na frente sentam os fanáticos e neuróticos, saindo de dentro deste corredor havia uma senhora que segurava uma bandeja de inox com as flâmulas uma sobre as outras e outra senhorinha com cara de brava que cobrava a "oferta voluntária" e anotava o nome de cada um num caderno de orações.Passei pela flâmula sem nem olhar para ela, até que um senhor veio e me puxou pelo braço com leveza me apontando para a bandeja com as flâmulas.
Me ferrei !!!Logo pensei vendo o sorriso da senhora com a bandeja com as flâmulas para mim.Me levaram até a metade do corredor de novo, recebi mais uma oração, passei pela flâmula peguei uma, ainda me perguntaram se eu eu não queria presentear alguém com mais uma, lógico que não, talvez depois de ver a minha onça virar um monte de garoupas eu pdoeria fazer uma oferta maior para a igreja.
Na hora de pagar entreguei o meu último puto tostão no bolso para a senhora com cara de poucos amigos , ela rapidamente pegou o dinheiro anotou o meu nome e desandou a cantar de olhos fechados junto com o grupo gospel que se apresentava naquela noite enquanto a fila indiana de desesperados passava pelo corredor.E eu fiquei ali parado na frente dela esperando meus R$40,00, nesta altura do campeonato a fila já estava parada por minha causa, lembram que me levaram de volta ao corredor humano.
A velha parecia ser uma vitrola , só cantava de olhos fechados e toda vez que procurava chamar atenção dela para pedir o meu troco, mais alto ela cantava, e a fila parada. Foi então que dois homens que terminavam o corredor humano , sairam e vieram a minha direção e colocaram a mão na minha cabeça e fizeram mais duas orações fervorosas, até que um deles falou próximo ao meu ouvido: o irmão pode sentar, pois já recebeu a sua benção!
Ok, entendi o recado, Deus não tinha troco para R$ 50,00 e já vislumbrava mais um mês de perrengue! E foi exatamente o que aconteceu !
19 de set. de 2009
Os donos da verdade e a Verdade
São aquelas pessoas para as quais quem pensa diferente delas, está errado. Só elas estão certas, só suas idéias são as corretas, só sua maneira de agir é que serve. Isso fica pior quando se trata do assunto “religião”.
Porque a experiência religiosa é algo muito pessoal, algo muito íntimo.
Imagine que eu te dê algo para comer, e te diga: “tem gosto de laranja”. Se você conhece o gosto da laranja, tudo bem, vai entender e até já imagina o sabor. Mas tente explicar para alguém que nunca viu ou provou uma laranja qual é o gosto da laranja.
Tente dizer: é meio azedo! O outro pergunta “meio azedo como o limão?” Você vai dizer, “depende, tem umas que são, mas outras são doces”... Ou seja, você só poderá explicar o sabor da laranja por semelhanças, por aproximações. O melhor mesmo é dar uma laranja ao outro, para que ele prove. E, para que ele possa realmente conhecer o sabor de laranja, terá de provar várias, de várias qualidades: as mais doces, as mais azedas... até que ele tenha em sua mente o conceito claro do sabor da laranja.
Mas jamais alguém poderá dizer que “minha experiência com Deus foi melhor que a tua” , assim como dizer que “quem não viveu exatamente a mesma coisa que eu, não encontrou a Deus ainda”. Quem disser isso apenas está comprovando que jamais teve uma experiência com Deus. Viveu lá uma emoção qualquer, mas um encontro com o Senhor, isso com certeza não!
Sabe por que?
Porque o Senhor sabe que somos diferentes (ele nos criou como indivíduos particulares) e conhece cada um de nós melhor que nós mesmos. Só Ele sabe como atingir a cada pessoa no coração e na mente. Aquilo que para mim foi um grande sinal do amor de Deus, talvez para você seja desapercebido ou mesmo algo meio “bobo”.
Conheço alguém que se converteu quando, caminhando pelo centro de São Paulo, em meio ao concreto e o asfalto, viu uma flor brotando de uma fresta num muro. Essa pessoa me contou que naquele momento sentiu uma paz profunda e conseguiu entender o amor de Deus: “é como essa flor, no meio de tanta pedra e concreto, ela desponta ... Deus sempre encontra uma brecha para mostrar seu amor...” Muita gente passou por aquela flor, mas nem a percebeu... Eu mesmo me surpreendi quando essa pessoa me procurou para dizer-me “Pastor, uma florzinha me convenceu do amor de Deus... quero agora estudar mais a Bíblia e me tornar um verdadeiro cristão...” e me contou essa história. Hoje, essa pessoa é ministro ordenado de uma Igreja! E têm um belo ministério.
Por isso, é muito triste quando a gente vê, na Igreja, pessoas dizendo que uma outra não tem Deus no coração porque ora de olhos abertos, ou não inclina a cabeça... ou porque usa roupa de certa cor, ou porque não gosta de certos corinhos do grupo de louvor...
Pior ainda é quando as pessoas dizem que tal Igreja não é verdadeira porque é diferente da sua... criticam negativamente outras Igrejas sem conhecerem sua História, sua Tradição... detestam a diferença!
Leia Marcos 9.38-41 e também João 10,14-16. E reflita: é correto pensar que o diferente de mim não é amado por Deus? é correto pensar que Igrejas diferentes da minha não conhecem a salvação? será que para ovelhas estarem no mesmo rebanho têm de ser todas iguais, como se uma fosse clone da outra?
Tem gente por ai querendo que a Igreja seja uma enorme comunidade de clones... por isso é tão intolerante. São “donos da verdade”, mas será que conhecem a Verdade?
21 de abr. de 2009
Fé e Tradição

A tentação do crescimento rápido a qualquer custo está hoje presente nas igrejas, talvez mais que nunca, conforme a ideologia individualista e consumista que caracteriza a pós-modernidade.
Nestes tempos de consumismo religioso, a pregação é mera apresentação de um produto que pode ser consumido com muita facilidade: Jesus – já não mais referido como Cristo – um nome mágico que, quando invocado, realiza todos os sonhos de prosperidade (saúde, dinheiro, bens materiais, estabilidade financeira, harmonia familiar, etc.). Não há ênfase na necessidade de conversão, de metanóia, mas cobrar a graça, exigir a graça, pressionar a Deus para que cumpra sua promessa. Diante de uma crença assim fundamentada, não há mais necessidade de ensino e catequese, nem mesmo de conversão (metanóia).
A religião se torna produto e há de se garantir o aumento permanente de consumidores. É a lógica capitalista de mercado e do resultado. O que importa é vender o produto! Por isso não há lugar para a tradição, pois o produto tem de atrair a atenção dos consumidores, e agradá-los. Isso vem ocorrendo rapidamente no seio de todas as Igrejas Cristãs, sejam Evangélicas, Protestantes e na Igreja Romana.
Além do próprio fenômeno ideológico, esse modo de pensar começa a ser institucionalmente justificado, em nome do sustento financeiro da Igreja e da “Missão”, bem como a garantia de seu futuro institucional. A necessidade de cobrir os custos institucionais força, de certa maneira, a busca pelo aumento da arrecadação; o crescimento do número de membros se torna chave nessa lógica, e tal crescimento se torna fim em si mesmo.
Não se trata de fervor missionário, embora muitos, de boa fé, assim entendem, mas de uma ideologia religiosa que chegou à Igreja ao final do século IV, com o advento da Cristandade; enfraqueceu e se fortaleceu durante a Idade Média e, na Modernidade; é reforçada sobremaneira pelos avivalismos do século XIX, fruto da reação, primeiro pietista e depois fundamentalista, à teologia crítica que começa ensaiar seus passos.
Tal ideologia religiosa ganha, ao final do século XX, sua configuração pós-moderna: a chamada teologia da prosperidade e suas variações. O resultado dessa ideologia é o abandono das práticas pastorais, da catequese doutrinária e bíblica, da educação cristã, da vida em comunidade, da espiritualidade e da liturgia, em troca do “louvor”, da pregação de resultados pelo imediatismo da “bênção” e da demonização do diferente, com ênfase fundamentalista.
Não há senso de congregação ou comunidade, mas sim multidão de indivíduos; não há conversão e metanóia, mas consumo do sagrado. Deixa de existir a ecclesia tou Theou para surgir, em seu lugar, a clientela da igreja, do pastor fulano, do missionário cicrano ou do apóstolo beltrano. Nas igrejas brasileiras do tempo presente, com raras exceções que só confirmam a regra, não mais importa afirmar a fidelidade a Deus, mas cobrar a fidelidade de Deus!
Rejeita-se a Tradição[1], erroneamente considerada como não bíblica. Tradição é o tesouro que uma geração recebe das anteriores, a utiliza como fundamento, fonte de reflexão e sentido de identidade, e a atualiza. Por sua vez, cada geração coloca sua contribuição na “arca do tesouro”, e assim a Tradição é sempre reinterpretada, enriquecida, renovada.
A Bíblia, em si mesma, é um mosaico de tradições de diferentes épocas e culturas e nem por isso deixamos de considerá-la como revelação sagrada, Palavra de Deus. Rejeitar simplesmente a Tradição como idéia e construção humana, porque não está no cânon bíblico [2] é considerar que o Espírito Santo não mais habita a Igreja e não inspira mais a percepção e a compreensão da fé em nosso Senhor Jesus Cristo. É, de fato, negar o mistério de Pentecostes.
É preciso que os cristãos reassumam sua própria identidade, recordando pontos fundamentais da história de nossa fé e doutrina. No momento histórico em que vivemos, diante da diversidade religiosa da pós-modernidade, onde antigos conceitos de fé são tratados de maneira displicente, e vemos as Igrejas cada vez mais mergulhadas na ideologia do consumo religioso, é preciso registrar, relembrar e reafirmar com força e clareza – contextualizando sempre – os fundamentos da “Fé que vem dos nossos Pais”, para que ela – como sempre fez – “nos alente a estar de pé"[3].
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[1] Tradição vem do latim traditio, um bastão que – até hoje – é utilizado por equipes em competições de atletismo, nas corridas de revezamento. Cada atleta carrega o bastão durante a sua corrida e o passa para a mão do companheiro que prosseguirá a jornada.
[2] Devemos lembrar que a inclusão ou a exclusão de um texto na Bíblia (definição do cânon bíblico) foi uma decisão humana, seja ao final do século I através do concílio rabínico de Israel em Jamnia (AT), seja através das Igrejas Cristãs do século II (NT), reunidas em diferentes concílios até chegarem ao consenso, modificada depois pelos Reformadores os quais, em relação ao Antigo Testamento, acataram a decisão de Jamnia.
[3] Cf. Hino 268– Hinário Episcopal (1962) , A Fé que Professamos
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