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20 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? ( 3. Retorno ao Movimento de Jesus)


 (continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? - parte 2)

O Cristianismo derivou do Judaísmo farisaico e desenvolveu-se apoiado na filosofia grega e no mundo bizantino. Assim, a maneira de pensar a Divindade é profundamente determinada pelo Antigo Testamento, na perspectiva helenista.

Hoje, por influência do “politicamente correto”, muitos teólogos cristãos tendem a definir o Novo Testamento como Segundo Testamento e o Antigo como Primeiro Testamento.

A pregação cristã, por sua vez, sempre proclamou que, em Jesus Cristo, celebra-se uma Nova Aliança. Então, sendo Nova, a velha acabou. Se é um Novo Testamento, o Antigo deixou de ser realmente um testamento. A ideia de Primeiro e Segundo Testamento é, no meu entender, absurda, porque faz dos dois uma coisa só.  Assim, enormes contradições aparecem diante dos olhos de quem ainda consegue manter o pensamento analítico crítico diante dos dogmas "infalíveis" das instituições religiosas.

Embora os acadêmicos apresentem argumentos contrários,  fundamentados em si mesmos, eu entendo que o Antigo Testamento precisa ser relido e interpretado a partir do Novo e não o contrário. Ou seja, deve-se considerar o AT como referência para compreender o processo da Revelação que se manifestou a partir de Jesus, o Cristo, o Logos Encanado.

Isso tem sérias implicações na Missão, no Testemunho e na Pastoral. 

Por que se perdeu, no mundo inteiro, a  vontade de conhecer o Evangelho? Por que as novas gerações não conseguem perceber no Cristianismo uma Boa Nova e vivem na permanente ansiedade sufocante pelo futuro, apostando no hedonismo de balada em balada? O mundo hoje assiste a morte da esperança, que – dizia minha mãe – é a penúltima que morre (a última morte é a de quem já perdeu a esperança)!

A resposta, penso eu, é porque a maioria dos paradigmas do Cristianismo (basicamente moldados pelo Antigo Testamento e pelo mundo helenista) não respondem às necessidades humanas deste tempo. Mas isto não é de hoje, já era percebido nas últimas décadas do século passado. De que Salvação se fala? Que Reino realmente se anuncia?

Onde está, na prática e no ensino das igrejas cristãs, a Ética de Jesus, o Cristo, a ética simples e clara do Sermão do Monte? Onde está o olhar amoroso e compassivo de Jesus perante os pecadores, os tristes, os doentes, os estrangeiros, os diferentes?

Retornemos ao Movimento de Jesus, à Ética de Jesus e tenhamos coragem profética de questionar e denunciar a moral hipócrita das instituições religiosas ditas cristãs. Nesse sentido, essa coragem é latente no Anglicanismo devido ao seu ethos construído historicamente.

Reflita sobre isso, e encontrará um caminho adequado para liquidar com os ideais de Cristandade que sempre foram opostos aos ideais de Jesus, o Cristo, Logos Encarnado. Ilumine a reflexão levando a sério o Evangelho (o texto joanino é uma boa inspiração... é a dica que deixo para vocês).

Avancemos rumo a uma teologia realmente da Encarnação. Deixemos de lado velhos paradigmas nascidos em outros tempos e culturas. Sejamos missionários, não colonizadores culturais! Busquemos construir comunidades solidárias, não uma massa de fiéis clientes seguidores e consumidores de magia disfarçada em religião.

Então as pessoas saberão que Deus é esse revelado em Jesus Cristo!

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24 de dez. de 2025

FELIZ NATAL? SIM! FELIZ NATAL!

Tratava-se de uma festa pagã, um culto ao Sol. Após Constantino, o Movimento de Jesus passa a ser controlado, amordaçado e se torna instituição, passa a ser instrumento do Império (hoje diríamos “aparelho do Estado”). Afinal, a religião é uma expressão de poder: o controle (e manipulação) das consciências.

É o começo da Cristandade, quando o “Cristianismo”, a nova religião oficial, se associa ao Império já decadente e começa a absorver sua base estrutural. Conversões em massa, disfarçadas de “missão”. são incentivadas a partir do poder imperial Os antigos santuários pagãos vão se transformando em “santuários cristãos”; os antigos deuses e deusas são substituídos por santos, santas, e a Mãe de Jesus, o próprio Jesus se torna ídolo. O paganismo ganha um novo nome: Igreja Católica, no Oriente e no Ocidente Imperial, desenvolvendo lutas internas pelo poder (como acontece em toda instituição e em todo império) e as disputas doutrinárias pelo controle da “verdade”. O Movimento não se move, perde sua originalidade, se torna um bloco sólido, em nome da unidade monolítica de afirmações doutrinárias inspirada na filosofia, perde noção da novidade e do desafio que representa o Evangelho. A Boa Nova deixa de ser boa, e nova; se reveste do mesmo de sempre com roupas remendadas.

A cultura popular vai absorvendo e assumindo as mudanças religiosas impostas; faz sua releitura, mas não adere ao Movimento de Jesus, o qual continua no pequeno mundo oculto das comunidades de fé. O movimento das pequenas e corajosas comunidades iniciais vai se transformando na massa que se chama Cristandade; mas a semente ainda permanece viva. Assim é o processo histórico da humanidade – a eterna tensão entre Movimento e Instituição.

De certa forma, isso acontece até os dias de hoje. O Império caiu (Impérios não são eternos), mas sua marca, sua essência, se manteve na cultura de boa parte mundo e na instituição eclesiástica, independentemente de sua denominação. No processo de expansão do poder europeu, a “missão” se confunde com o colonialismo.

Todavia, o Movimento de Jesus ainda existe, sempre existiu desde o tempo dos Apóstolos e Apóstolas de Jesus. O Movimento existe dentro da Instituição, existe dentro da massa, da mesma forma que o fermento está contido na massa – exatamente como Jesus havia dito. Em qualquer unidade da Instituição sempre há um pequeno núcleo de comunidade de fé, envolvido - mas não dirigido - pela massa da religiosidade supersticiosa.

De tempos em tempos, acontecem momentos de reforma e de mudança, e assim, o Movimento continua, embora acabe absorvido e reinterpretado pela Instituição; mas continuam a surgir núcleos de resistência! Porque movimento é ação do Espírito, que se move e vai aonde quer. Assim, dentro de toda denominação dita cristã, há o núcleo e o germe da Igreja de Cristo, há o Evangelho, a herança da primeira comunidade de pessoas que conheceram, e seguiram, Jesus, as primeiras testemunhas e guardiãs da Boa Nova.

Portanto, apesar do deus Mercado, que tornou o Natal uma festa ateia, apesar das hipocrisias festivas, apesar da pressão cultural e social, há sentido em celebrar o Natal, a Páscoa, as datas de memória do Movimento de Jesus. Pelo menos para os núcleos de comunidade que existem por aí, dentro e fora das Instituições Religiosas. O eclesial permanece apesar das tentativas do poder eclesiástico em controlá-lo.

Então, que se celebre o Natal! Com humildade, mansidão e misericórdia, se aceite a sinceridade das pessoas simples, que não conhecem a História, que foram ensinadas e convencidas pela religião a pensar e a manter suas crendices disfarçadas de Tradição. Há muita sinceridade apesar de tudo, há muita gente que não se esconde na hipocrisia. Há muita gente que, ao dizer “feliz natal!”, não está fingindo ou cumprindo um “dever social de boa educação”. O abraço é sincero, o presente é dádiva, e a tal da ceia, a festa, é momento de comunhão, não necessariamente religiosa, mas afetiva.

Olhe ao seu redor, talvez você veja o Logos Encarnado semeando o Mundo Novo que chamamos de Reino de Deus! Porque, como diz a música do Flávio Irala,

O cativeiro ficará apenas na memória 
dos povos de boa vontade numa nova história 
pois, um dia, uma estrela caiu num curral...
É Natal! È Natal!


Feliz Natal!

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22 de jun. de 2025

SOBRE MISSÃO - 3. Ecos da Cristandade hoje

Ainda hoje vemos a presença de conceitos típicos da Cristandade nas comunidades cristãs contemporâneas.

O paradigma para a Missão continua sendo o crescimento numérico da membresia, ou seja, o fortalecimento institucional, confundido com o conceito de “salvação para todas as pessoas”. 

Essa “necessidade de aumentar a clientela” cria situações que vão desde um radicalismo conservador extremo, passando por posturas mais liberais do ponto de vista comportamental, até modelos esdrúxulos de vida litúrgica e comunitária. Basta olhar para a maioria das denominações cristãs contemporâneas, cheias de novidades, vitrines simpáticas para atrair clientela, desde posturas morais superconservadoras até as mais aceitas como politicamente corretas (um conceito vago e ideológico, tão moralista quanto ao anterior, mais modismo que realmente posicionamento ético). Tudo depende do grupo que detém o poder institucional e do público-alvo como clientela.

Todavia, pouco se fala sobre o Evangelho do Reino, e se faz de Jesus uma espécie de super-herói, oposto ao galileu que realmente foi.

De uma forma ou de outra, permanece a ideia do “deus” justiceiro e castigador, que exerce a eterna vigilância sobre as pessoas, o “deus juiz implacável”, incapaz de qualquer demonstração de misericórdia, porque o critério é a justiça retributiva: “pecou, se lascou”! Também permanece a ideia do “deus” que testa a fidelidade dos seus “fiéis” através de situações de sofrimento, algumas além da capacidade humana de resistir; e, ainda, a falsa dialética de que se algo deu certo é porque “deus” abençoou, mas se deu errado é sua culpa por não ouvir a voz de “deus”. Ou seja, o mote do cristianismo tem sido, há séculos, a culpa permanente e o medo da “ira divina”!  Fica a pergunta subjacente: não seria esse o mote da maioria das religiões de massa?

Claro que não faltam textos inteiros na Bíblia que parecem afirmar a  culpa humana e a ira divina, possibilitando o grande repertório de sermões apelativos, principalmente hoje quando a pregação não se fundamenta na exegese, mas em atingir  emocionalmente as pessoas. Com a Bíblia, o texto pelo texto, se prova qualquer postura ideológica, à escolha do pretenso pregador.

Sendo hoje, desde Constantino, uma religião de massa, o cristianismo perdeu sua vocação profética de denúncia, anúncio e testemunho, reduzindo-se a uma proposta moral tacanha e hipócrita nas vitrines institucionais.

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Nota: este texto, assim como os dois anteriores, é parte de um artigo maior sobre Missão, ainda em fase de elaboração neste momento.

16 de jun. de 2025

SOBRE MISSÃO - 2. A Cristandade: mudança de paradigma na missão

Na postagem anterior expliquei como a Igreja Primitiva entendia sua Missão: a partir do testemunho dos discípulos e discípulas de Jesus, o anúncio do Reino de Deus e o entendimento que a ação do Messias não seria de conquista, mas de misericórdia e para todos os povos. Um novo mundo era anunciado.

A mudança de entendimento do que seria a Missão começa a partir do momento em que a Igreja vai se tornando mais aceita e tolerada no Império Romano e inicia-se a Cristandade.

A Cristandade surge a partir do século IV, à medida em que a Igreja vai se tornando aparelho do Estado (Império Romano); ela continua e se fortalece ao substituir o Império, na Idade Média, e – apesar de todas as críticas – ainda sobrevive em nosso tempo.

A Cristandade é um ideal missiológico: tornar o mundo todo cristão. Na verdade, é tornar a Igreja uma instituição mundial com grande poder nas decisões mundiais. Não deixa de ser um Imperialismo, haja visto que foi modelada a partir do Império, de forma, talvez, inconsciente – afinal era o modelo conhecido.

Na Cristandade, o mote da missão e da pregação é o crescimento da Igreja; à medida em que a Igreja foi se tornando – cada vez mais – uma instituição poderosa, a missão se torna a ferramenta para isso.

Entretanto, a Cristandade hoje não tem sentido real, apesar de estar infiltrada na mentalidade do povo cristão. É natural que membros de uma instituição desejem seu crescimento e fortalecimento. Isso deu origem ao denominacionalismo, ou seja, as diferentes instituições eclesiásticas assumindo, cada uma a seu modo, a Cristandade.

O que vemos hoje é a notória redução de membresia e esforços desesperados para recuperar o crescimento, ou manter a membresia existente. A globalização e o volume de informações foi diluindo as identidades, antes tão seguras; a diversidade humana, cultural e social mostrou que inexistem absolutos – tudo ficou relativo.

Não! Não vou combater o relativismo. Pelo contrário! Sempre fui adepto à negação de absolutos; minha formação nas ciências factuais tornou isso uma certeza: a certeza de que não existem verdades absolutas – a dúvida move a ciência em sua lógica dialética porque  questionado os modelos vigentes se permite surgir novos modelos; inclusive esta afirmação também deve ser questionada!

O imperativo fundamental da Cristandade é a Igreja como absoluto, independentemente de sua diversidade denominacional.

Por isso, a grande maioria das ações missionárias é... anunciar a Igreja, promover crescimento da Igreja; isto é, fortalecer a instituição, não necessariamente anunciar o Evangelho (cf. Mc 16.15).

Uma reflexão séria sobre a Missão da Igreja deve começar pelo questionamento dos paradigmas da Cristandade. Isso pode ser doloroso.

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Nota: este texto, assim como o anterior, é parte de um artigo maior sobre Missão, ainda em fase de elaboração neste momento.

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9 de jun. de 2025

SOBRE MISSÃO - 1. O que era Missão na Igreja Primitiva

O movimento que surge após a morte (e ressurreição) de Jesus, pela iniciativa dos seus discípulos e discípulas mais próximos, surge em ambiente de dúvida e esperança, medo e coragem, sem planejamento e pela ação pessoal daquelas pessoas e das que as seguiram (pela fé, dizemos que impulsionados pelo Espírito Santo...).

Inicialmente preocupados com o anúncio messiânico aos judeus, já na segunda geração de convertidos a compreensão que o Evangelho (Boa Nova) do Reinado de Deus (anunciado por Jesus) ia além do mundo cultural judaico, mas era uma Boa Nova para todos os povos. O surgimento de comunidades gentílicas e comunidades multiculturais logo foi compreendido como ação do Espírito Santo (Veja por exemplo, o envio de Paulo e Barnabé pela Igreja de Antioquia, em Atos 13.1-3).

A ação missionária começava na sinagoga, mas ia além, incluindo os prosélitos e os gentios. Assim, desde o início, a missão foi entendida como “apresentar a Boa Nova do Reinado de Deus ao mundo”, onde quer se se vá. Ao mesmo tempo, o cuidado diaconal com os mais pobres, as viúvas, os órfãos, os enfermos. Assim, a "martiria" e a "diaconia" criavam a "koinonia"!

A missão não se baseava em realizar ritos, mas em testemunho profético e pregação do ensino de Jesus. As comunidades nascentes eram bem diversas, não havia rigor de ritual, usos e costumes ou qualquer postura dogmática sobre “verdade”; tudo se resumia no “kerygma” (cf. Atos 2.14-36; Atos 3.11-26; Atos 7.1-53 e outros) e a nova visão de mundo que o kerygma apresentava.  

As pequenas comunidades resultantes desse anúncio se organizavam de forma diversa e procuravam desenvolver sua ação através da solidariedade (diakonia), do testemunho (martiria) e das reuniões de partilha e comunhão (koinonia), ao mesmo tempo sob as tensões da perseguição e exclusão social que padeciam.

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Nota: este texto é parte de um artigo maior sobre Missão, ainda em fase de elaboração neste momento.

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28 de fev. de 2017

Pensamentos Heréticos!?!?

dedo-no-nariz-iiTrês advertências:  a) eu disse HERÉTICOS, não eróticos. Pode ser que você esteja no blogue errado! Se for me mandar para a fogueira, mande pelo motivo certo!  b) se você é daquelas pessoas que não consegue ler um texto maior que meia página, não comece a ler. Ele é muito maior que isso! Mas se você é daquelas que gosta de ler e refletir, mas não tem tempo para isso agora, salve o artigo ou copie seu link temporariamente nos “favoritos do teu navegador” e retorne ao texto quando tiver disponibilidade para ler e refletir. Como sou matemático não confundo síntese com resumo, nem acredito em síntese sem análise.   c) este texto é, essencialmente, parte de um processo de auto crítica a que estou voluntariamente me submetendo há alguns anos. Não pretende ser uma manifestação de oposição (embora será assim interpretado) às instituições eclesiásticas, mas um convite à reflexão, uma partilha do que tenho pensado ultimamente, na esperança de ajudar a encontrar caminhos novos, embora eu saiba, por experiência, que vão arrumar mil justificativas para dizer que não mereço ser levado a sério (não sou doutor em teologia – nenhum dos Doze o era) ou que “quero tomar o poder”... rsrsrsrs! Estas e outras são justificativas dos insensatos que se julgam o máximo, ou melhor, defendem seus interesses pessoais!
Há muito anos, um teólogo conhecido meu disse que “Ortodoxia é a Heresia de quem ganhou!” Eis ai uma grande verdade, se formos olhar cruamente a História Eclesiástica (que muita gente confunde com a História da Igreja).  Portanto, de acordo com o Cálculo de Predicados (para os menos versados em Matemáticas e Linguística, significa simplesmente Lógica), conclui-se que Heresia seria a Ortodoxia caso seus adeptos fossem maioria em alguma Reunião Conciliar (que por ser “conciliar” devia buscar o consenso e não a vontade da maioria, que muitas vezes é burra!). Como quase sempre sou ignorado pela Ortodoxia vigente, me considero um herético teimoso e frustrado.
Bem, este é o primeiro pensamento herético:a Ortodoxia não é absoluta, mas como é Tradição, deve estar em permanente avaliação! .
Com o Imperador Constantino, a Instituição Eclesiástica nasceu de fato e se globaliza; apesar de algumas oposições no Império, foi se fortalecendo a ponto de se auto definir como a Igreja de Cristo! À medida que o Império se esfacelava e decaia, a Instituição Eclesiástica vai assumindo funções que a identificam mais como continuidade do Império do que com o Movimento de Jesus. Tanto no Oriente quanto no Ocidente, a Instituição Eclesiástica foi assumindo a burocracia, o modelo do Direito e a ideologia de poder do Império. E isso continua até nossos dias. Nesse sentido, a Reforma Protestante e outras reformas foram essencialmente reformas da Instituição, (e por isso repetiram os mesmos erros) mas não foram,  necessariamente ou exclusivamente, avanços do Movimento de Jesus. 
É claro que todo movimento se destina a institucionalizar-se ou não sobrevive. Afinal, institucionalização é algo inerente à vida humana que é uma vida em coletividade e não em cavernas isoladas. Basta existirem duas pessoas reunidas para termos uma situação institucional: regras são definidas explicita ou implicitamente, decisões de “consenso” (geralmente não é tão consenso assim, mas…)  são assumidas de forma imediata, quase que de forma inconsciente. Surge a Cultura, que dá significado a estas institucionalizações. A vida em coletividade precisa, assim, de limites e definições de conduta e formas de comunicação, que acabam sendo impostas por quem domina a coletividade. Por isso o poder é erótico! E acaba se tornando pornográfico quando se torna fim em si mesmo![i]
É obvio que o movimento iniciado a partir de Jesus de Nazaré por seus discípulos, teria de se institucionalizar, não havia outra alternativa, até mesmo para preservar sua identidade dentro da diversidade do mundo onde surgiu. Mas institucionalizar-se é um risco muito grande! Necessita constante vigilância! Porque a Instituição é assassina de movimentos. Instituição tem forte senso de auto preservação e aspira pela perpetuidade! Movimento, pelo contrário, é sempre movimento histórico, e abertura para a mudança, superar temores e construir pontes para atravessar precipícios. Instituições se pretendem estáticas, só admitindo mudanças que na verdade não alterem seu “status quo”. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mateus 26:41)
Eu me pergunto se a Igreja de hoje (falo de todas as instituições eclesiásticas, não de uma específica) ainda tem alguma identidade com o Movimento de Jesus, ou seja, se ainda pode ser entendida como a Igreja do Senhor ou Igreja de Deus (Ekklesia tou Kyrius ou Ekklesia tou Theou). Felizmente, eu acredito que sim! apesar de tudo, ainda permanece o Espírito que move o Movimento. Tanto é que a Igreja vive hoje sobre uma enorme pressão de desconfiança, da falta de recursos financeiros, da ausência de membros (e membras, para agradar as feministas) conscientes e testemunhais, da crise de autoridade, e do seu significado no mundo em pleno século XXI. E isso é obra do Espírito Santo! É um anúncio de que alguma coisa saiu errado nessa história… 
Este é o segundo pensamento herético: a crise da Igreja como obra do Espírito Santo![ii]
Sempre é bom lembrar que muitas tentativas de reformar a Igreja aconteceram na História, e muitas delas eram contrárias ao status quo institucional. O Movimento Monástico, por exemplo, foi uma dessas ações de protesto contra a institucionalização. Porém, a força da Instituição (de qualquer instituição) é tão forte que acaba contaminando e cooptando os movimentos de renovação. Hoje, o movimento monástico não é movimento, mas uma instituição a serviço da instituição eclesiástica maior, exceto naquelas “Ordens” que não buscaram nem pretendem buscar seu “reconhecimento” ou legitimação pela instituição eclesiástica (sim elas existem, tanto no Ocidente quanto no Oriente). Movimentos “carismáticos” estão hoje totalmente sob o controle das respectivas instituições eclesiásticas… Movimentos de Renovação e Avivamento idem… em alguns casos, esses movimentos acabaram “tomando o poder” na Instituição e com isso se tornaram tão absolutos quanto era a Instituição tomada.[iii]
Eu desconfio (é cutucar com vara curta dizer “tenho certeza”!) que a maioria das Eclesiologias são, na verdade, doutrinas que buscam justificar as normas institucionais, e garantir sua preservação. Acabam se tornando “doxa”, ou seja, dogma, e assim se tornam absolutas e incontestáveis. Como fazem muitas linhas de pensamento teológico, busca-se nas Escrituras justificativas para a manutenção daquilo que surgiu por necessidade histórica e não por determinação absoluta do Senhor. Tais modelos se consideram identidade institucional e são confundidos com a Tradição construída pelo caminhar do movimento.[iv]
Com isso, está aqui o terceiro pensamento herético: muita coisa da doutrina sobre a Igreja é justificativa ideológica para que as decisões e modelos institucionais se tornem padrões absolutos e perpétuos!
Não sou ingênuo a ponto de propor que joguemos tudo pro alto, fechemos as instituições eclesiásticas e vivamos um “cristianismo anárquico”. Mas eu acredito piamente, e já defendi essa ideia muitas vezes, que temos o dever histórico de mudar os paradigmas que estão orientando a Igreja desde meados do século XVII, o advento da modernidade. A modernidade está morrendo em alta velocidade e, com isso, os paradigmas por ela inspirados têm prazos de validade vencidos, e alguns já venceram há muito tempo!
Não defendo que liquidemos com tudo para criar o novo, até porque não seria novo! “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol!(Eclesiastes 1:9). Tenho muito respeito por todas essas coisas pois são construções históricas, têm seu mérito e foram desenvolvidas para atender necessidades específicas do Movimento de Jesus. O que não defendo é que sejam absolutas e definitivas, porque o Espírito Santo não é propriedade de qualquer modelo institucional, e – me parece – nunca foi muito simpático a essas coisas (por isso, um exemplo, Jesus não foi da classe sacerdotal, nem se dava bem com ela).
A Igreja do século XXI carrega uma herança pesadíssima, acumulada pelos os séculos, herança hoje que tem mais valor – digamos – afetivo e sentimental do que uma objetividade útil para a sua Missão (no significado do Evangelho, não dos promotores de planejamentos estratégicos). Herdamos uma estrutura caríssima e sem sentido além da preservação e perpetuação de esquemas de poder e de modelos institucionais como absolutos. O processo histórico institucional fez do Movimento de Jesus uma “religião de massa” ao invés de uma experiência de espiritualidade e comunhão com Deus que constrói comunidades solidárias e de testemunho diante do mundo, pessoas regeneradas pela graça de Deus em Jesus o Cristo.
Muitos recursos humanos, financeiros e de tempo são gastos exclusivamente para a manutenção de uma instituição que – pela sua forma – já não tem sentido no mundo contemporâneo, uma instituição que perdeu o rumo e o conteúdo da mensagem que lhe foi dada a proclamar e que se fechou ao redor do próprio umbigo e da autopreservação, e fica inventando modismos vanguardistas para tentar se mostrar relevante.
Pensando agora a partir da minha denominação, da Igreja onde procuro vivenciar comunitariamente a minha fé e o meu chamado, o episcopalismo (está bem, aceito dizer “anglicanismo”), eu me pergunto se realmente precisamos ser como somos e manter tudo que consideramos como parte de nossa Tradição. Vem ai meu quarto pensamento herético!
Será que precisamos mesmo do Episcopado (êpa!)? ou de um extenso manual de cânones? Ou de um livro de liturgia muitas vezes idolatrado? Ou de tantas instituições internas, departamentos, mantidas a um custo financeiro e de recursos humanos altíssimo? Será que precisamos, realmente, de grande templos, construções de custo caríssimo que se deterioram por falta de recursos para sua manutenção, quando não são irresponsavelmente alienados para “fazer caixa” a fim de manter a instituição por mais um tempo? Será que ainda cabe, ou caberá em futuro próximo, termos um clero de dedicação exclusiva, cuja tarefa acaba se tornando mais burocrática que pastoral?
Três ideias para aprofundamento da “heresia”:
1) No caso do clero, imagino que algum dia chegaremos à obrigação do clero masculino ou feminino ao celibato, caso seja de dedicação exclusiva, para reduzir custos de manutenção e sustento... ou cairemos na esparrela dos “pastores de sucesso” que vendem bênçãos e sacramentos, sobrevivendo (alguns até muito bem!) a custa de seu carisma personalista.
2) No caso do Episcopado, sou Episcopal, certo? Não vejo uma Igreja Episcopal sem Bispos e Bispas. Mas será que o Episcopado precisa ser um cargo meramente administrativo, cada vez mais gerencial e menos pastoral? Não há outras formas de exercer o Episcopado, até mesmo mais de acordo com nossa visão e sonho utópico de autoridade compartilhada e dispersa? O Episcopado é uma concentração de poder ou uma dimensão maior de serviço? Não há outra forma de administrar a instituição religiosa, aquela que seja realmente relevante, sem oprimir o Episcopado com tal encargo?
3) No caso da estrutura eclesiástica, onde realmente acontece a Missão? Nos escritórios das dioceses ou das províncias? ou, de fato, no cotidiano das comunidades? Como colocar toda a estrutura institucional como infraestrutura para que as comunidades possam realmente executar a Missão? “Quem faz ovelha é ovelha”, disse certa vez um professor do Seminário. Eu completaria: o gerente da fazenda pode até comprar ovelhas, mas fazê-las, não; mas pode criar as condições de crescimento do rebanho de forma natural e garantir boa nutrição, de forma que as ovelhas continuem gerando ovelhas de qualidade. E sempre é preciso que os gerentes se recordem que o Dono da fazenda é um Outro!

Tais “pensamentos heréticos” são apresentados como mais uma contribuição pessoal em uma reflexão que a Igreja vem adiando sempre, e sobre a qual tenho chamado a atenção há quase dez anos!
Como toda a Instituição, a Igreja adora pegar novas ideias para, através de subterfúgios inconscientes (e às vezes conscientes!), incorporar sua forma adequando o conteúdo à manutenção do status quo. Igrejas, ou melhor, Instituições Eclesiásticas, são mestres em transformar o novo na mesmice.
Que o Espírito Santo nos guie apesar das Instituições! Amém!
 

[i] Estou falando em “coletividade”  e não em “sociedade” porque o conceito de sociedade não é muito claro, especialmente nestes tempos onde a individualidade ultrapassa os limites do bom senso e da vivência solidária. As “sociedades” humanas de hoje são, na verdade coletividades, onde as pessoas apenas estão juntas, se aturam e vivem, cada uma, sua vidinha individualista e escrava de si mesma! Falar em comunidade, então, nem pensar! A grande maioria das instituições, sejam eclesiásticas ou não, estão contaminadas pelo individualismo, pela luta pelo poder (efêmero, mas profundamente erótico!) e a lógica de que “os fins justificam os meios”; estão tomadas por moralidades e perderam o senso da Ética.  O coletivo humano hoje é o Império do Mercado, e que se dane o resto, porque tudo que contraria os interesses do Mercado, é heresia e pecado.
[ii] Se de fato acreditamos na Palavra e promessa de Jesus que as “portas do Inferno” não poderão vencer a Igreja de Cristo (cf. Mateus 16.18 – que não se refere a dar poder ao Pedro especificamente – essa foi a interpretação da instituição), então é obvio que o Senhor da Igreja, através do Espírito Santo a estará corrigindo sempre, para defendê-la das tentações que a levariam a sucumbir diante das ”portas do inferno”! A institucionalização absoluta  e a subordinação ao Mercado são duas dessas tentações, porque pretendem enquadrar o próprio Espírito nas normas institucionais e às pressões do Mercado.
[iii] Obviamente não vou citar exemplos, pois temos visto isso acontecer especialmente hoje. Não vou citar nomes nem instituições porque já devo estar irritando muitos “sucessores de Pedro” por ai. Se você não é um bom entendedor, lamento, caro leitor.
[iv] Como já afirmei muitas vezes, Tradição não é algo absoluto, mas um reservatório de práticas e de respostas dadas pelo movimento às situações concretas na história a partir do seu senso de identidade.
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4 de abr. de 2015

Racionalidade, Religião e Fé

Vitral 2
Hoje em dia existem muitos movimentos ditos “ateístas” que atacam o cristianismo questionando o que acham que seja a Fé Cristã. Engraçado que questionam muito pouco outras religiões.

Eu já fui ateu! mas eu apresentava argumentos melhores e mais inteligentes para defender meu ateísmo e questionar a religião do que a maioria das postagens vistas por ai nas redes sociais, mostrando atitude “religiosa” dado o caráter apologético e dogmático com que fundamentam suas afirmações e críticas.

Na verdade, criticam, como eu ainda faço, e com muita razão, a religião cristã! É preciso distinguir Fé de Religião, embora ambas se relacionem. A Fé dá sentido à Religião (que é cultural, uma construção racional que se desenvolve por gerações e gerações até chegar a um ponto mais ou menos definitivo); mas a Religião não produz a Fé, e sim práticas que buscam “ligar” (ou, etimologicamente, religar!) o ser humano à instância da “divindade” ou à percepção do que se define como “sagrado”.

O problema é que a Fé vivenciada pelas primeiras comunidades cristãs sofreu crescente degradação à medida em que deixou de ser a expressão de um movimento para se institucionalizar como uma religião, aliás, a religião do Império Romano. Surgiu o “Cristianismo”, uma religião de massa (e como tudo que é de massa, sem sabor nem profundidade); com o “Cristianismo” veio a “Cristandade”; a Igreja se tornou instituição religiosa e não mais comunidade de fé! Assim é compreensível que muitas pessoas questionam o Cristianismo.

A Igreja, no decorrer do tempo, acabou solidificando de forma dogmática e absoluta, dentro de um discurso pretensamente lógico, o que era percebido e vivenciado a partir da experiência da Fé. Isso começou com Constantino! O Imperador percebeu que os cristãos estavam em todas as partes do Império e seria necessário tê-los a seu lado para facilitar a governabilidade do Império (governabilidade e “base aliada” já era um problema naquela época!). Mas os cristãos não eram um bloco monolítico! Distribuíam-se em muitas facções e em muitos casos discordavam uns dos outros (quem acha que a Igreja Primitiva e Pós-Apostólica eram “unidas”, ou “tinham unidade confessional”, está muito enganado! precisa estudar História da Igreja!!!).

Constantino entendeu que seria preciso controlar esse movimento. E isso aconteceu, de fato. O Imperador conseguiu uma unidade confessional e com isso, domesticou o movimento. Basta olhar a História!

As Igrejas do Oriente e do Ocidente (Roma), nesse processo de forte institucionalização, definiram dogmas absolutos e a a Fé Cristã perdeu sua dinâmica, tornando-se uma mera religião com práticas devocionais para agradar a Deus e proteger-se do diabo. Contra isso, em todas as épocas, especialmente no Ocidente, surgiram propostas de reforma, sendo que a do século XVI foi mais estável e conseguiu desligar-se do dogmatismo rígido da Igreja Institucional. Todavia, um século depois da Reforma Protestante, o Protestantismo estava cheio de dogmas doutrinários e construções escolásticas (acabou se constituindo naquilo que combateu!). Mas, ainda assim, continuaram a existir resistências reformadoras – não só no Protestantismo, mas também no Catolicismo. O princípio de Calvino – Igreja Reformada sempre se reformando – nunca foi realmente observado, nem mesmo por ele!

Nos tempos modernos, um movimento chamado Fundamentalismo, nascido nos Estados Unidos no século XIX, acabou criando, no mundo Protestante, um dogmatismo literalista da Bíblia que, aos olhos das pessoas esclarecidas, é ridículo. Foi o Fundamentalismo que criou a falsa divergência entre Fé e Ciência! E muita gente aceitou essa falácia, tanto de um lado quanto de outro.

Para quem acha que a verdade se expressa em termos científicos de forma positiva, absoluta e definitiva, não sabe como a Ciência procede e, provavelmente, não conhece – por exemplo – Mecânica Quântica, um grande exercício de imaginação para explicar o que não vemos, mas percebemos… (ou alguém já viu um bóson? ou um quark? viu-se o registro de um fenômeno em chapas sensíveis à radiações, e imaginaram o que chamam de bóson; ninguém viu um “buraco negro”, mas ele é uma boa explicação para o que podemos observar como colapso da gravidade).

O senso comum acha que tudo que se afirma no universo da Ciência é verdade absoluta. Não é! Quem assim pensa, não sabe o que é Ciência nem como ela funciona. Poucas coisas estão “cientificamente provadas”, ou seja, na linguagem dos cientistas, são “fatos científicos”! A maior parte das afirmações da Ciência, especialmente no campo da Mecânica Quântica ou da Física Relativista, são TEORIAS, ou seja, são formas consistentes de explicar o que se observa; todavia, o trabalho dos cientistas não é afirmar a Teoria de forma dogmática. Vão testando e refinando a teoria… e, em alguns casos, ela é derrubada e tudo tem de começar de novo, ou então, os cientistas sabem que determinada Teoria jamais será um “fato científico”, mas é instrumento útil para a compreensão da realidade,e enquanto é útil, é assumida como “verdade”. Cientistas não são fundamentalistas, mas muitos apologéticos do ateísmo o são!

O Fundamentalismo ganhou várias matizes, muitas delas histéricas, se infiltrou na cultura e acabou gerando maluquices sem sentido como a tal “teologia (ideologia) da prosperidade” e as tais “igrejas de massa”, que – estas sim – acabam por liquidar com o caráter único e exclusivo da Fé Cristã: a sua maneira de vivenciar a experiência com Deus, o Deus que se manifesta pela Graça e é Companheiro de Caminhada, transformando-o em um deus muito semelhante aos antigos deuses pagãos.

Acontece que, se olharmos a pregação original, Cristãos são ateus! Nos primeiros séculos da Igreja, no Império Romano, os cristãos eram chamados de ateus porque negavam a miríade de deuses que havia no território do Império. O Deus Cristão não é metafísico, mas Deus Encarnado. A transcendência surge na imanência... Ou seja, a Fé Cristã traz em seu bojo uma afirmação materialista: Deus se tornou matéria na História! “… e o Logos/Verbo/Palavra Criadora se fez Carne e habitou entre nós” (João 1.14).

Cristãos não creem em deuses que "cuidam" das forças naturais e precisam ser agradados o tempo todo... O Deus Cristão não é como uma criança mimada, ou um adulto inseguro, que precisa receber agrados permanentemente para não ficar “nervoso” e dar “piti”! Um recente filme completamente sem fundamento bíblico, seguindo a onda de desmoralizar a Fé Bíblica, apresentou Moisés se relacionando com um deus-menino nervosinho e egocêntrico, uma péssima leitura do Deus que se manifesta no Antigo Testamento. Mas, reconheço, que infelizmente, a Igreja ajudou em muito a acontecer tal redução, por ignorância teimosa e postura dogmática.

O Deus Cristão não precisa ser movido por sacrifícios e agradinhos... O Deus Cristão se manifesta e atua através da Graça, não como retribuição, mas como iniciativa amorosa. Tentar entender o Deus Cristão pelos critérios cartesianos de análise é como querer explicar a Lua enquanto objeto astronômico para a sua namorada em noite de luar, no jardim, ao som de música: não tem graça, nem apelo, e ela vai achar você um idiota completo, um babaca nada romântico…

O Deus Cristão só pode ser entendido e experimentado pela Fé. Ele é como poesia: para falar-se d’Ele, usa-se palavras, mas dando a elas um significado além do dicionário, porque fala-se do que se percebe!

Já tentou explicar a alguém o que é dor? ou o sabor da laranja? ou explicar o que é vermelho a um cego de nascença? É a mesma coisa falar da Fé a quem não se abre para uma realidade além da realidade cognitiva. Na verdade, só encontra quem busca… – “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Mateus 7.7)

Não é a Razão que conhece a Fé; é a Fé que dá nova luz à Razão (e Kant que se dane!) A Fé dá sentido à pratica religiosa enquanto prática comunitária, expressando o que se entende além da racionalidade, ação manifesta de solidariedade, identidade e pertença.

Ainda há aqueles que dizem que a maioria das narrativas bíblicas são mitos. São mesmo! E daí? quem reduz o argumento a essa simples frase, não sabe o que é Mito, muito menos entende o que a Bíblia é enquanto literatura. Do jeito que definem o mito, vão acabar afirmando também que a Mecânica Quântica é construída sobre mitos. Como físico, eu até acho que é, mas… e daí?

Ao contrário do que muita gente pensa e apesar das grandes campanhas ateístas, observa-se no mundo o fortalecimento do comportamento religioso. A religião majoritária hoje em dia chama-se Consumismo! O Consumismo se tornou uma ideologia que induz comportamento religioso. Para entender, por exemplo, as “igrejas da prosperidade” é preciso perceber que elas promovem um consumo religioso e adotam técnicas de publicidade indutoras do Consumismo.

Quanto aos ateus, estão, como todo o mundo, diante do abismo em uma noite escura. Não podem dar um passo à frente, nem sabem como retornar. Ao contrário dos que vivem a realidade da Fé Cristã, não ouvem o “rumor de anjos vindo do abismo”, e por isso têm medo de dar o salto definitivo, porque não sabem que serão amparados…

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3 de out. de 2012

Unidade e Diversidade, a nossa Identidade Episcopaliana

S. Pedro e São Paulo: A Igreja Judáica e a Igreja Gentílica se abraçam!Uma dificuldade que as pessoas hoje têm de compreender o sentido de unidade da Igreja de Cristo deve-se ao fato de haverem muitas denominações cristãs, diferentes Igrejas. Entretanto, essa diversidade é salutar!
A gente precisa entender bem essa questão da “divisão” da Igreja. Não é verdade que a Igreja Primitiva era uma coisa só. Não era! Havia uma variedade na forma de organização, na teologia em construção e na liturgia.
Desde do início da expansão missionária a partir da Igreja de Antioquia, que envia Paulo e Barnabé em Missão por ordem do Espírito Santo (cf. Atos 13.1-3), o cristianismo começou a dialogar com culturas e povos diferentes daquele ambiente nativo dos primeiros apóstolos.  Nesse sentido, o Apóstolo Paulo logo compreendeu que a grandeza do Evangelho não se limitava aos preceitos do judaísmo, e que o Evangelho é de fato uma Boa Nova para todos os povos. A expansão do Evangelho entre os povos pagãos do Império Romano, especialmente no ambiente marcado pelo helenismo, obrigou a Igreja em Jerusalém rever suas posições em relação às práticas judaicas; tal revisão aconteceu no que chamamos de Concílio de Jerusalém, narrado em Atos dos Apóstolos (15.1-33), provocada pela própria Igreja de Antioquia, a grande igreja missionária que, movida pelo Espírito Santo, deu início à evangelização do mundo gentílico: as comunidades que surgem a partir do movimento de Antioquia já não eram formadas apenas por pessoas de tradição judaica, mas também por gentias, ou seja, não judias.

Assim, cerca de 40 anos após a Ressurreição de Jesus já haviam “duas igrejas”: a Igreja de Jerusalém e suas comunidades filhas, de forte orientação judaica, que se confundia inclusive com as sinagogas; e a  Igreja Gentílica, cujos procedimentos, especialmente em relação aos usos e costumes, eram bem distintos. Todavia, não eram “duas igrejas” mas uma única Igreja, com características diferentes. Por volta do ano 90 uma terceira Igreja vem dar origem à literatura Joanina, com outro enfoque e distinto dos Evangelhos Sinóticos.
Nem sempre o convívio entre as duas (ou três) correntes era pacífico. Haviam, naturalmente, escaramuças, mas o senso de unidade era assegurado pela relação afetiva e companheira entre os apóstolos (não só os 12, mas todos aqueles que pregavam o Evangelho sendo testemunhas da Ressurreição). Varias fontes não bíblicas, mas reconhecidamente validadas pela Historiografia, relatam o surgimento de comunidades cristãs fora do Império Romano, no interior da Ásia e até na Índia. Isso amplia muito nossa percepção da diversidade da Igreja ao final do primeiro século cristão.
Ao final do séc. III e início do IV, a Igreja estava organizada, pelo menos dentro do Império Romano, com as ordens clericais e a divisão territorial das dioceses (uma unidade territorial do Império), sendo que os Bispos das cidades maiores eram chamados Arcebispos ou Metropolitas, e a eles se subordinavam, de forma afetiva e pastoral os bispos das cidades menores circunvizinhas; em caso de discordância doutrinária, por exemplo, os Metropolitas serviam como árbitros e convocavam concílios regionais para acertar o passo.

A Igreja do Ocidente
Com a derrocada do Império no ocidente, a Igreja se tornou a única instituição estável dentro do caos social e político que se criou. Os Metropolitas ganharam força política e o Metropolita da antiga Capital Imperial, Roma, acabou se tornando o mais importante. A agregação hierárquica a partir do Bispo de Roma acabou se consolidando em meados do século VI, e a Igreja Ocidental foi se tornando cada vez mais monolítica e padronizada. Vários concílios foram consolidando as formas estruturais e o corpo doutrinário, fixando a identidade da Igreja Latina, que hoje conhecemos como Igreja Católica Romana.
No Oriente, onde ainda sobrevivia o Império, a Igreja se manteve dentro do antigo padrão dos Patriarcados organizados em arquidioceses e dioceses interdependentes, mas distintos. O Patriarca Romano se tornou, todavia, o Chefe absoluto da Igreja Ocidental assumindo a Igreja o papel político de polo unificador do Ocidente retalhado em feudos.
Todavia, no Ocidente, essa concentração hierárquica vertical e o corpo doutrinário fechado, não foi bem acolhida entre os diferentes povos que então ocupavam, de forma autônoma, o antigo território imperial. No seio das dioceses havia o descontentamento e movimentos de defesa da autonomia, bem como diferentes formas de pensar teológico, nem sempre fiéis à dogmática imposta.
Assim, por exemplo, a antiga Igreja dos Celtas, na Grande Bretanha, submeteu-se sob a força dos exércitos saxões ao Bispo de Roma, mas manteve em seus porões sua antiga tradição que provinha da Igreja do Oriente, mesclada com a cosmovisão da Antiga Religião. O mesmo aconteceu entre os povos da Gália (hoje parte da França), e no interior da Europa Central, que ao contrário dos eslavos a nordeste e sudeste, não foram evangelizados pelos Orientais (essa a origem da Igreja Ortodoxa Russa, por exemplo).
No decorrer da Idade Média houveram muitos movimentos de reforma da Igreja Ocidental. A Reforma do século XVI foi a que obteve maior êxito, criando novas formas de ser Igreja: a Igreja Evangélica (alemã) e a Igreja Reformada (suíça). É preciso ter claro que tais Igrejas não saíram da comunhão com Roma, mas foram excomungadas por Roma, criando assim a divisão que perdura até hoje no Ocidente.
Todavia, as diferentes Igrejas que, a partir dai, surgiram, de cunho nacional e/ou étnico, sempre tiveram a consciência de serem partes da Igreja Una, Santa, Católica(no sentido de ser de todo o mundo = ecumênica = oikomene)  e Apostólica de Jesus Cristo.

A origem da Igreja Episcopal
Quando, por razões de Estado, a Igreja da Inglaterra se torna autônoma em relação ao Papado, o processo de sua reorganização só se consolida no reinado de Elizabete I, formando-se assim a Igreja Nacional e Estatal que é, até hoje, a Church of England, acolhendo em seu seio as diversas tonalidades cristãs que existiam na Inglaterra, e ao mesmo tempo permitindo a organização de “Igrejas Livres” (sem a tutela do Estado), dando origem por exemplo, às Igrejas Congregacionais e às Igrejas Batistas.  Assim, se em seu início a Igreja da Inglaterra era muito marcada pela diversidade teológica, também preservou a riqueza litúrgica herdada da Igreja Latina, mas com as adaptações decorrentes da Tradição Celta que, de certa forma, veio do Oriente.
Na Escócia, a Igreja lá existente no século XVI era profundamente influenciada pelo calvinismo. Assim, organiza-se a Igreja Presbiteriana, que ficou sendo chamada de Igreja da Escócia (The Church of Scotland) . Todavia, nem todos aceitaram uma organização presbiteriana-congregacional e adotaram o episcopado histórico. Surge assim a Igreja Episcopal da Escócia (The Scottish Episcopal Church ou na língua original, Eaglais Easbaigeach na h-Alba), fortemente marcada pela teologia de Genebra, mas também buscando manter seu laço com o episcopado histórico, a exemplo da Igreja da Inglaterra.  Essa Igreja acaba adotando o Livro de Oração Comum escrito pelo Arcebispo Laud, o qual contém muito do Livro original elaborado pelo Arcebispo Cranmer e se afasta do modelo presbiteriano definitivamente. Todavia, ainda hoje na Escócia, as duas Igrejas Nacionais convivem e em muitas situações se articulam de forma conjunta.
Quando as Colônias Inglesas na América do Norte se tornam independentes, dando origem aos Estados Unidos da América, houve a preocupação de organizar-se uma Igreja Protestante Nacional, porém não dependente do Estado recém fundado. Naquele tempo, nos territórios coloniais, haviam diferentes denominações cristãs, traduzindo, de certa forma a mesma diversidade que existia na Metrópole. Houve um movimento procurando unir tais diferentes denominações em uma Igreja Nacional, e chegou-se ao consenso de adotar-se o modelo episcopal, mas manteve-se a liberdade dos grupos que não aceitaram unir-se à Igreja Nacional nascente.
Uma vez decidido que a Igreja Nacional teria um governo episcopal, necessário foi buscar a sagração de seu primeiro bispo de modo a garantir o Episcopado Histórico à nova Igreja. Naturalmente, isso foi buscado junto à Igreja da Inglaterra, mas devido às circunstâncias da Independência e o fato da Igreja inglesa ser estatal – isto é, vinculada à Coroa Britânica e ao Parlamento – os norte-americanos foram aconselhados a buscar o Episcopado Histórico entre os escoceses, sendo prontamente atendidos. Assim, o primeiro bispo da Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América foi sagrado por bispos escoceses. Mas o segundo e o terceiro bispo já foram sagrados por ingleses, de forma que conseguiu-se manter uma certa unidade de comunhão apostólica entre a nova Igreja e a Igreja da antiga metrópole, e também com a Igreja escocesa. Ai está a gênese da Comunhão Anglicana, que se consolida no século XX!
Como a Igreja da Inglaterra, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos nasceu com uma rica diversidade de formas e compreensões teológicas em seu seio, pois incorporou diversas tendências teológicas e litúrgicas, decorrentes do processo de união da qual nasceu. Sua unidade, como na Igreja da Inglaterra, é fundamentada no Livro de Oração Comum como manual litúrgico aberto (uma diversidade de formas cerimoniais para executar seu conteúdo ritual) e no pacto estabelecido no século XIX conhecido como Quadrilátero de Lambeth-Chicago; tal unidade garante a diversidade, que se torna parte de sua própria identidade.  Hoje essa Igreja Nacional (mas não estatal) dos Estados Unidos, é chamada The Episcopal Church (TEC).
Há várias formas de expressão dentro da Igreja Episcopal. Há os evangélicos, os evangelicais, os mais conservadores, os mais liberais, os mais litúrgicos, os teologicamente mais próximos de Roma, os mais próximos da Tradição Reformada e todas os possíveis entrelaçamentos dessas expressões. Sempre houveram tensões entre as diferentes ênfases; não é de hoje, e isso às vezes causou rupturas na unidade, através de cismas e formação de novas denominações. Outras vezes grupos se deligaram da Igreja mas decorrido o tempo de uma ou duas gerações retornaram… essa dinâmica é própria de uma Igreja que se recusa adotar posturas dogmáticas e depender de uma hierarquia absolutista verticalizada.
É essa Igreja que chegou ao Brasil em 1890, através de Morris e Kinsolving, dando origem à Igreja Protestante Episcopal no Rio Grande do Sul, depois Igreja Episcopal Brasileira, depois Igreja Episcopal do Brasil e agora Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que é autóctone, autônoma e independente de sua Igreja Mãe (The Episcopal Church) ou de sua Igreja Avó (The Scottish Episcopal Church) ou ainda de sua Igreja Tia-Avó (The Church of England). É parte da Comunhão Anglicana; é uma Igreja Nacional que incorpora a cultura brasileira, e um espaço de diversidade e liberdade de pensamento que acolhe todas as pessoas que buscam a fé sem negar sua inteligência.

O momento presente da Igreja do Brasil
O mundanismo da pós modernidade vem invadindo a Igreja nos últimos tempos. O personalismo e o generalismo (em lugar da erudição e conhecimento) começa a minar o senso de identidade e de unidade da Igreja. As ênfases e tendências que garantem a diversidade começam a apresentar-se como “partidos” que disputam espaço e poder institucional.
Por estar inserida na sociedade brasileira, a Igreja sofre o mesmo fenômeno de “emburrecimento” das novas gerações decorrentes de um sistema escolar deficiente e organizado para não educar. Ao mesmo tempo, há um pragmatismo dogmático de formar mão-de-obra, como no mundo secular, sem conhecimento real, apenas prático.  A formação do clero se torna cada vez mais deficiente, seguindo o modelo da sociedade, e estuda-se a Teologia em termos acadêmicos, mas dissociada da prática pastoral e principalmente do estímulo à piedade pessoal. O estudo da Teologia passa a ser uma formalidade a ser cumprida; a piedade pessoal é descuidada em nome de uma pretensa secularização de “imersão no mundo”; o convívio vocacional não existe e assim os membros do clero se entendem como “colegas” e muitas vezes concorrentes entre si.
Há uma histérica necessidade de afirmar uma “identidade” anglo-isso, anglo-aquilo; o que eu vejo é muita gente se preocupando com detalhes da forma sem aprofundar conteúdo, uma coisa do tipo “garantir espaço”, “marcar território”.  Perde-se o senso da eclesiologia e da catolicidade da Igreja quando o Episcopado se torna alvo de disputas de poder institucional sem a perspectiva real do pastorado e do serviço – o péssimo estilo brasileiro de fazer política se torna comportamento na Igreja quando há a necessidade de uma eleição episcopal – o poder pelo poder!

Perspectivas de esperança
O Apóstolo Paulo, escrevendo aos Efésios, diz:
Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo,
um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo.
(Efésios 4:1-7 – Nova Versão Internacional)
É necessário suportar uns aos outros, não como tolerância, mas como suporte, sustentação uns dos outros.
É urgente retornarmos ao convívio da oração coletiva, do estudo da Bíblia e da partilha pastoral, não só nas comunidades, onde isso ainda acontece, mas entre o clero e as lideranças leigas.
É urgente que reestabeleçamos a formação teológica vinculada à formação pastoral e ao desenvolvimento da piedade e disciplina pessoal.
É urgente que deixemos a administração dos negócios financeiros e patrimoniais da Igreja nas mãos de pessoas realmente competentes e profissionais, de preferência leigos, e que a hierarquia e o clero se submetam às recomendações técnicas de saneamento econômico da Igreja. É urgente que nossos Bispos e o clero se dediquem mais ao Pastorado, à Missão, à Evangelização, ao Ensino e à Cura de almas que à administração institucional; que liderem o caminhar do Povo de Deus e não da instituição humana.
É fundamental que se invista em infraestrutura (comunidades locais e dioceses) que em estruturas (provinciais e diocesanas).
É fundamental o fortalecimento do laicato, não só nos serviços ministeriais, mas também como poder autônomo na Igreja, atuando como espaço crítico-reflexivo que possa ajudar o clero e o episcopado a perceber as tendências do mundo e, assim, produzirem a reflexão teológico-pastoral adequada aos desafios do tempo presente. Nesse sentido, o ministério dos Diáconos ganha um significado importantíssimo!
Tais buscas, se realmente começarem a acontecer, me darão a esperança que minha Igreja ainda está viva e consciente de sua dependência do Espírito Santo de Deus e subordinada em obediência ao Senhor Jesus Cristo.
[Nota: comentários com a devida correção de detalhes e imprecisões históricas ou de interpretação da história serão muito bem vindos, pois o artigo foi escrito sem uma pesquisa profunda, baseada apenas nos meus poucos conhecimentos adquiridos no decorrer dos anos]
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22 de set. de 2012

O que está acontecendo na Igreja?

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Este artigo é resultado de uma reflexão que temos feito na Paróquia São Paulo Apóstolo, como companheiros de ministério e partilhado com algumas lideranças leigas da paróquia, no contexto do Clamor pela Igreja que a comunidade tem realizado dominicalmente desde o Pentecostes.  Trata-se de um texto pessoal de nossa exclusiva responsabilidade, e não reflete, necessariamente, o pensamento da comunidade paroquial, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro ou até mesmo da Ordem de São Tiago de Jerusalém, na qual partilhamos esperanças e temores.
Depois dos últimos acontecimentos na IEAB, resolvemos partilhar nossa reflexão sobre a eclesiologia em que se fundamenta a nossa Igreja, que – nos parece – vem sendo esquecida por setores do clero e do laicato.
Primeiramente, temos que esclarecer o que é Eclesiologia? (do grego ekklesia= Igreja; Logia= Discurso). É o ramo da Teologia Sistemática que trata da Igreja: seu papel na salvação, sua origem, sua doutrina, sua disciplina, sua forma de se relacionar com o mundo, sua presença social; e também as mudanças ocorridas, as crises enfrentadas, a relação com outras denominações e sua forma de governo.
A Igreja é objeto e sujeito da fé, institucional e carismática (dons), sociedade visível e comunhão invisível, comunidade fraterna e hierárquica, santa e pecadora; a Igreja de Cristo se apresenta como diversidade de confissões e comunhão dialogal entre elas.
Levando em conta tal complexidade queremos, de início, identificar as questões mais importantes que surgem dos contextos episcopal e anglicano. Tais questões ajudam a reconhecer a pertinência desta reflexão: atualizar o tema “Igreja” neste emaranhado de realidades e conceitos.
Nessa perspectiva, lembramos Dom Sumio Takatsu que, brilhantemente, nos recorda que a Igreja Episcopal Anglicana não caiu do Céu; foram anos de construção, idas e vindas, uma identidade “católica” e “protestante”, chegando à via média que tentamos ser.
Em se tratando do anglicanismo, sua auto compreensão não pode passar por cima da Reforma do século XVI nem de sua continuidade com a Igreja da antiguidade, vista sob a ótica do conhecimento disponível nos séculos XVI e XVII.Desde o seu começo, o anglicanismo tem sido formado na forja da controvérsia eclesiológica. De fato, o primeiro Sínodo da Igreja da Inglaterra em Whitby (664) foi uma controvérsia em torno da data da Páscoa entre a Igreja celta e romana representada por Agostinho, enviado pelo bispo de Roma, Gregório Magno. Muito mais tarde, no século XIV, John Wycliff e seus seguidores desafiaram o conceito do domínio que cada pessoa e ofício têm recebido do seu superior imediato. (Takatsu, Eclesiologia Anglicana, pg. 1)
Neste aspecto queremos salientar que a tensão entre Igreja Celta e Igreja de Roma no séc. VII foi o final  de um processo que vem de mais longe, do início da cristianização das Ilhas Britânicas.
Se alguém pensa que somos filhos somente da Igreja Ocidental, está enganado. Somos, também, filhos da Igreja Oriental. Foram missionários da Igreja do Oriente que converteram, de início, os celtas, passando para eles a eclesiologia e a teologia cristã orientais. Assim, nossa percepção teológica e cosmovisão, têm origem nas concepções orientais, cheias de misticismo e variações, enfatizando a relação com a natureza de maneira bastante séria e encarnada.
Quem, no séc.VII, vence a polêmica na região sul e sudeste da Grã-Bretanha, sob domínio saxão, é a Igreja de Roma, mas o oeste e o norte, (habitados majoritariamente pelas diversas tribos celtas que resistiram ao Império Romano) mantiveram as concepções  teológicas do oriente cristão. Por isso vamos falar um pouco da Eclesiologia Oriental para entender nossa pluralidade de conceitos.
As Igrejas Orientais (Ortodoxas), em geral, têm uma organização muito interessante e sadia, fundamentada no principio real da Catolicidade (Universalidade) da Igreja. Tais Igrejas se sobrepõem através de diversas jurisdições eclesiásticas (como por exemplo a Igreja Ortodoxa Grega, Igreja Ortodoxa Eslava, a Igreja Ortodoxa Siríaca, etc.) que professam a mesma fé e, com algumas variações culturais e étnicas, praticam basicamente os mesmos ritos. O líder espiritual das Igrejas Ortodoxas é o Patriarca de Constantinopla – chamado de Patriarca Ecumênico, embora este seja um título mais honorífico, uma vez que os patriarcas de cada uma dessas igrejas são independentes. A maior parte das Igrejas Orientais, em comunhão umas com as outras, usam o rito bizantino e suas variações.
Para eles, o Chefe Único da Igreja, e sem intermediários, representantes ou legatários, é o próprio Jesus Cristo. A autoridade suprema na Igreja Ortodoxa é o Santo Sínodo Ecumênico que se compõe de todos os patriarcas chefes das igrejas autocéfalas e os arcebispos primazes das igrejas autônomas, que se reúnem a chamado do  Patriarca Ecumênico de Constantinopla (cf. Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental, p. 103).
A autoridade suprema regional em todos os patriarcados autocéfalos e igrejas autônomas é da competência do Santo Sínodo Local. Algumas igrejas autocéfalas possuem o direito de resolver todos os seus problemas internos com base em sua própria autoridade, tendo também o direito de ter seus próprios bispos, incluindo o próprio patriarca, arcebispo ou metropolita que presida essa Igreja.
Este característica foi herdada pela nossa Tradição oriunda da Igreja Celta: o mesmo princípio que nos rege como Igreja sinodal e o exercício do Primado. O Arcebispo de Cantuária, por exemplo, não é o Vigário de Cristo nem chefe supremo da Comunhão Anglicana; da mesma forma, nosso Bispo Primaz é o “primus inter pares” (primeiro entre iguais) com os demais Bispos Diocesanos.
A Igreja Oriental nos legou outro aspecto eclesiológico através da Igreja Celta: um tipo de comunhão que estamos esquecendo, a Comunhão (koynonia) em Amor a Deus e a Unidade Eucarística. Temos dificuldade em vivermos, hoje, uma comunhão em Amor, pois ficamos sempre lembrando da nossa raiz ocidental, hierarquizada, monarquista e clericalista ao extremo, e esquecemos de nossos pés no oriente, primeiro em Jesus, e depois na Tradição Oriental, através dos cristãos celtas vencidos no Sínodo de Withby (séc.VII).
A Igreja Celta expressava sua comunhão com Deus e os outros, no amor e respeito mútuo, sem hierarquia absolutas. Assim, o bispo era bispo para fundar comunidades e ordenar, os abades organizavam e conduziam a Igreja Diocesana, os monges e padres cuidavam das comunidades, os diáconos ajudavam os padres e monges neste cuidado e o centro da vida era o mosteiros junto às aldeias, onde todos se reuniam para partilhar a suas experiências e traçar suas metas missionárias. Foi uma tentativa de resistir ao avanço da cosmovisão de Roma, marcada pelo Império. Assim, os cristãos celtas buscavam a colegialidade em amor e respeito mútuo, oriundo da eclesiologia oriental que, conforme Dom Koubetch nos explicita:
Do amor surge a comunidade como adesão pessoal e livre à fé professada de todo o povo. Provem do amor (que reúne, assemelha-se) […]. O ideal que está na base do conceito de amor é a realidade da comunhão, daquele fato resultante da unitotalidade e da unipluralidade, pela qual muitos são um, mas permanecendo pessoas diversas e livres. (Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental; p. 116).
Tal é nosso legado: uma relação de amor entre iguais, apesar de diferentes. Cada um com sua função e ministério diferente, mas sua ação e respeito eram únicos, visando a evangelização aos não cristãos e respeitando a diversidade cultural de cada localidade.
Isso significa ainda que a Igreja é simultaneamente uma reflexão que motive o ser humano a ser mais amoroso (ágape) em relação ao outro, ao cosmos e a Deus. A linguagem mais adequada para se aproximar deste mistério fundamental é a Teologia da Encarnação, algo específico para a comunidade cristã oriental. A teologia que nós herdamos do oriente através dos celtas, vive a tensão entre poder falar de Deus, pois Ele mesmo se revelou (dimensão katafática = revela-se a Si mesmo), e reconhecer que todo discurso sobre o Senhor não consegue abranger a grandeza e a profundidade do Divino (dimensão mysterium = o que está oculto, porém presente e perceptível).
Por ser uma reflexão sobre o Amor, a partir da diversidade, visando tornar o ser humano mais amoroso, a Teologia não pode lidar somente com conceitos. A história da Igreja, especialmente a partir das igrejas orientais, mostra uma grande conquista: o refletir sobre Deus a partir de conceitos abalizados no mistério. A Igreja necessita recorrer ao seu passado (Tradição) para lembrar do caráter testemunhal e lançar mão das analogias entre vida e fé. Só assim, numa pluralidade de linguagens e abordagens, deixar-se-á tocar pelo mistério amoroso de Deus.
Assim, não correremos o risco de cometer o erro de pensar em absolutos imperiais, os quais nunca fizeram parte da nossa Tradição Herdada, mas nos mantemos firmes em seu aspecto mais puro e embrionário, uma comunidade (comum-união) de amor, que expandiu o cristianismo não só nas ilhas britânicas, mas também entre os povos germânicos, francos e parte dos povos nórdicos. É interessante notar onde houve um contato com os monges missionários cristãos celtas  de alguma forma foi criado um cristianismo independente de Roma através de vários movimentos de reforma até chegar na Reforma no século XVI, uma renúncia ao Tomismo que marcou profundamente a Igreja Romana.
Por isso, é estranho perceber, em nossa Igreja Episcopal Anglicana, tendências de entender o Episcopado como poder centralizador e absoluto, disputado por grupos de interesse, partidarismos e encobrindo vaidades e projetos pessoais.
Mesmo a Igreja da Inglaterra, que não é nossa ancestral direta, mas indireta, que se expandiu através do Império Britânico, expansionista e colonialista, a partir do século XVII, teve o bom senso de estabelecer nas colônias Igrejas indígenas promovendo o desenvolvimento de clero local, inclusive episcopado, não vinculando a Missão à autoridade absoluta da Igreja Imperial. Segregacionista ou não, nas colônias inglesas sempre houve uma diferenciação entre a “igreja dos ingleses” e as nascentes igrejas de influência “anglicana” nas colônias, fiéis à sua concepção de não admitir ingerência estrangeira nas igrejas locais (cada povo, sua igreja).
Esse espírito marcou a formação da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, que não foi uma simples mudança de nome, mas uma união de diferentes confissões nas 13 Colônias, dando origem a uma Igreja de identidade nacional, respeitando inclusive a liberdade daqueles que preferiram manter-se independentes, em sua própria identidade confessional. Assim, ao surgirem como nação independente, os Estados Unidos já nascem com uma diversidade religiosa marcada pela liberdade de culto. É essa a visão eclesiástica que chega ao Brasil em 1889 com Morris e Kinsolving. Fiel ao seu próprio princípio fundante, a Igreja Mãe logo providencia o episcopado próprio para o Brasil, mesmo na pessoa dos missionários e ainda atrelado à estrutura da Igreja Mãe, mas sempre apontando o horizonte da emancipação, que começa de fato em 1950, com a eleição dos primeiros bispos nacionais (Pithan, Simões e Krischke).
Portanto, choca-nos perceber, nas recentes disputas pelo Episcopado, a incidência de projetos personalistas e de interesses pessoais, forçando inclusive interpretações das normas canônicas, aparentando uma visão absolutista do poder e/ou querendo impor padrões e dinâmicas de comportamento que são até mesmo estranhos à nossa Tradição Herdada. Perde-se o referencial evangélico, “o maior aquele que serve” (cf. Marcos 9.30-37 e par). Neste 17º Domingo depois de Pentecostes, Tiago o Justo, irmão de nosso Senhor, nos recorda em sua epístola:
   Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de "sabedoria" não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. (Tg 3.13-18 – Nova Versão internacional).
Rev. Daniel Rangel Cabral Jr,ost+  e  Rev. Luiz Caetano Grecco Teixeira, ost +
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2 de ago. de 2011

Uma reflexão sobre o Protestantismo Brasileiro

parte final do artigo “Fé e Tradição: um caminho para o protestantismo brasileiro”, de minha autoria, publicado em REFLEXUS: Revista Semestral de Estudos Teológicos –          ano IV, nº 04, maio 2010 – Vitória, Editora Unida [Faculdade Unida de Vitória], pp. 65-102.     Os números entre colchetes são notas de rodapé do artigo original, e se acham ao final deste texto

Celtic_Cross_Tattoo_by_willsketchPara entender o protestantismo brasileiro, sua evolução e sua situação presente, temos de conhecer o protestantismo norte-americano[1], porque o protestantismo na América Latina, e particularmente no Brasil, é totalmente dependente dos missionários, de diferentes denominações, que chegaram a partir de meados do século XIX, vindos dos Estados Unidos da América.

Nos Estados Unidos, o pietismo acaba se combinando com o puritanismo e com a Reforma Radical, dando origem ao denominacionalismo, ao legalismo e ao moralismo que marcam profundamente o pensamento protestante que chegou ao Brasil com os missionários, especialmente aqueles vindos do sul dos Estados Unidos. Nessa mistura está a marca da mentalidade protestante norte-americana.

Foi na América do Norte que o protestantismo assumiu a postura de isolamento do mundo, por influência de uma ideologia que permeia a sociedade e o pensamento protestante americano: o ideal de santidade aliado ao fundamentalismo bíblico.

O ideal de santidade exige que se prove a conversão e a ação da graça na vida da pessoa. Isso criou uma nova preocupação para cada crente: a de provar a si mesmo e aos outros que é um dos eleitos. Assim, é preciso afastar-se do “mundo”, a “evitar a contaminação pelo mundo”. Esse auto-isolamento rompe com a visão social do pietismo, pois obriga a espiritualidade pessoal dirigir sua atenção para dentro de si mesmo, buscando alcançar a santidade, desvinculando-a da realidade cotidiana e do compromisso social. Ao mesmo tempo, justifica a postura em condenar o diferente, pois o “diferente de mim” não é eleito de Deus [2]. Aqui estão as raízes do denominacionalismo e do moralismo de usos e costumes.

O Fundamentalismo Bíblico, mais conhecido simplesmente como fundamentalismo, é uma doutrina que nasce nos Estados Unidos, fruto da reação dos protestantes ultra-conservadores em defesa do que consideravam os “fundamentos” da fé cristã e bíblica, os quais, segundo eles, estavam ameaçados pelo liberalismo teológico do século XIX [3].

O fundamentalismo é uma ideologia que perpassa muitos campos da ação humana, não só o campo da religião. O “fundamentalismo” sempre existe a partir de um texto considerado paradigmático. O fundamentalismo é uma postura diante do mundo, a partir de uma ideia básica, oriunda da forma de interpretar ou entender um texto, considerado paradigmático, considerado absoluto. Qualquer raciocínio ou fato que negue o absoluto do texto é considerado falso a priori, sem análise, simplesmente com base na “autoridade” que se atribui ao texto. No caso do fundamentalismo bíblico, esse texto é a Bíblia.

Ser fundamentalista é adotar posturas fechadas diante da realidade, negando tudo aquilo que contraria sua forma de interpretar o texto. Ou seja, o fundamentalismo parte de uma leitura (hermenêutica) dogmática do texto, como se o texto não tivesse história, autoria, contexto de origem; como se a interpretação dogmatizada fosse a única maneira de ler o texto, sem crítica, aceitando apenas as palavras tais como estão escritas; enfim, o fundamentalismo trata o texto como se ele, por si mesmo, fosse o absoluto. É a idolatria do texto.

O fundamentalismo é uma postura intelectual muito difícil de ser sustentada; na verdade, o fundamentalismo se sustenta através de apelos emocionais. Diante de qualquer afirmação que ameace a interpretação literal do texto bíblico, o fundamentalista reage de forma emocional, considerando diabólica tal afirmação por ser contrária à “Palavra de Deus”. Assim se procede em relação às ciências naturais, às ciências sociais e à própria teologia bíblica. O grande problema do fundamentalismo, no Brasil, é que a maioria dos fundamentalistas não sabem, ou não admitem, que o são.

O estudo pormenorizado do protestantismo norte-americano nos permite entender vários aspectos daquela sociedade, seus fundamentos e valores e, assim, o tipo de protestantismo que chegou ao Brasil, trazido pelos missionários que de lá vieram, e que continua chegando hoje através do patrocínio de setores ultra-conservadores da sociedade americana. Ajuda-nos compreender os fundamentos da identidade evangélica brasileira, ou seja, porque somos o que somos e porque somos como somos.

O protestantismo brasileiro perdeu, a nosso ver, suas raízes da Reforma, tornando-se uma mescla confusa de ideologias e apresentando comportamento cada vez mais fundamentalista e sectário. Essa opção, consciente ou não, faz da atividade missionária mais um processo de arregimentação de clientela para o consumo de uma crença, do que o chamado à conversão e à vivência na fé.

Conhecer a Tradição Cristã, desde seus fundamentos no kerigma apostólico, passando pela reflexão da Igreja de todas as épocas, é fundamental para criar o senso de identidade que possibilita visão crítica diante do mundo e, ao mesmo tempo, fortalece o desempenho da missão no seu real sentido apostólico: o anúncio da revelação do mistério de Deus em Jesus Cristo, a boa notícia da salvação.


Notas:

[1] Sempre estamos nos referindo aos Estados Unidos da América, quando falamos “norte-americano”.

[2] Curioso notar que essa era, exatamente, a postura dos escribas e fariseus, e contra a qual Jesus se pronunciou muitas vezes.

[3] Cf. MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da Teologia Histórica. São Paulo:Mundo Cristão, 2008 [Teologia Brasileira].  p. 222.