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20 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? ( 3. Retorno ao Movimento de Jesus)


 (continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? - parte 2)

O Cristianismo derivou do Judaísmo farisaico e desenvolveu-se apoiado na filosofia grega e no mundo bizantino. Assim, a maneira de pensar a Divindade é profundamente determinada pelo Antigo Testamento, na perspectiva helenista.

Hoje, por influência do “politicamente correto”, muitos teólogos cristãos tendem a definir o Novo Testamento como Segundo Testamento e o Antigo como Primeiro Testamento.

A pregação cristã, por sua vez, sempre proclamou que, em Jesus Cristo, celebra-se uma Nova Aliança. Então, sendo Nova, a velha acabou. Se é um Novo Testamento, o Antigo deixou de ser realmente um testamento. A ideia de Primeiro e Segundo Testamento é, no meu entender, absurda, porque faz dos dois uma coisa só.  Assim, enormes contradições aparecem diante dos olhos de quem ainda consegue manter o pensamento analítico crítico diante dos dogmas "infalíveis" das instituições religiosas.

Embora os acadêmicos apresentem argumentos contrários,  fundamentados em si mesmos, eu entendo que o Antigo Testamento precisa ser relido e interpretado a partir do Novo e não o contrário. Ou seja, deve-se considerar o AT como referência para compreender o processo da Revelação que se manifestou a partir de Jesus, o Cristo, o Logos Encanado.

Isso tem sérias implicações na Missão, no Testemunho e na Pastoral. 

Por que se perdeu, no mundo inteiro, a  vontade de conhecer o Evangelho? Por que as novas gerações não conseguem perceber no Cristianismo uma Boa Nova e vivem na permanente ansiedade sufocante pelo futuro, apostando no hedonismo de balada em balada? O mundo hoje assiste a morte da esperança, que – dizia minha mãe – é a penúltima que morre (a última morte é a de quem já perdeu a esperança)!

A resposta, penso eu, é porque a maioria dos paradigmas do Cristianismo (basicamente moldados pelo Antigo Testamento e pelo mundo helenista) não respondem às necessidades humanas deste tempo. Mas isto não é de hoje, já era percebido nas últimas décadas do século passado. De que Salvação se fala? Que Reino realmente se anuncia?

Onde está, na prática e no ensino das igrejas cristãs, a Ética de Jesus, o Cristo, a ética simples e clara do Sermão do Monte? Onde está o olhar amoroso e compassivo de Jesus perante os pecadores, os tristes, os doentes, os estrangeiros, os diferentes?

Retornemos ao Movimento de Jesus, à Ética de Jesus e tenhamos coragem profética de questionar e denunciar a moral hipócrita das instituições religiosas ditas cristãs. Nesse sentido, essa coragem é latente no Anglicanismo devido ao seu ethos construído historicamente.

Reflita sobre isso, e encontrará um caminho adequado para liquidar com os ideais de Cristandade que sempre foram opostos aos ideais de Jesus, o Cristo, Logos Encarnado. Ilumine a reflexão levando a sério o Evangelho (o texto joanino é uma boa inspiração... é a dica que deixo para vocês).

Avancemos rumo a uma teologia realmente da Encarnação. Deixemos de lado velhos paradigmas nascidos em outros tempos e culturas. Sejamos missionários, não colonizadores culturais! Busquemos construir comunidades solidárias, não uma massa de fiéis clientes seguidores e consumidores de magia disfarçada em religião.

Então as pessoas saberão que Deus é esse revelado em Jesus Cristo!

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11 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (2. A Busca pela Transcendência)

(continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? parte 1)

Restringindo-me ao Cristianismo, e aqui me refiro exclusivamente ao Cristianismo no Brasil, há dois polos básicos distintos que se excluem mutuamente: de um lado, uma perspectiva cristã que se apresenta ecumênica, inclusiva,  reconhece e respeita as diferenças, atua de forma cidadã e  defende princípios éticos na política; todavia, não responde às questões existenciais mais simples e não consegue consolar, animar a esperança... perde-se no ativismo inconsequente.

De outro lado, temos o cristianismo dogmático, fundamentalista, cheio de regras e preconceitos, que se preocupa com o “espiritual” (sem deixar claro o que isso seja) e transforma a imanência da vida (a realidade, o “mundo”) em inimigo a ser negado e derrotado. Consegue trazer conforto a custa da alienação absoluta e da domesticação da inteligência através da moral exigente, para garantir uma “vida eterna” após a morte, sem se importar com a vida que a maioria das pessoas vive, cujos problemas e sofrimentos  são considerados "provação" que deve ser aceita "com fé" para merecer o amor de deus, o seu deus cruel e pagão de sempre. 

Entre os dois polos, está a religiosidade popular, que se manifesta em muitos  matizes diferentes, vinculados à cultura popular, ao folclore. É onde se encontra a maioria da população. São as crenças religiosas populares, herdeiras de uma catequese pobre e superficial para cumprir os ritos iniciáticos, seja no Catolicismo Romano, seja nas diferentes linhas do Protestantismo. Com isso, o povo vai levando a vida, com sua fé e honestidade, sempre na perspectiva de “agradar a Divindade” para receber seus favores, como no Paganismo! Promove a separação entre a vida cotidiana (profano) e os momentos de reza, culto, devoção (sagrado); recebe grande influência do Kardecismo e tradições africanas, criando sincretismos religiosos. Em muitos sentidos é uma expressão do conservadorismo e facilmente se alia aos grupos mais dogmáticos e fundamentalistas.

As facilidades de comunicação disponíveis atualmente, revelaram outros modelos religiosos e  muita gente foi buscar tais alternativas, mas a grande maioria ainda permanece no tradicional coquetel religioso da cultura brasileira.

O Islamismo, com suas diferentes nuances e ênfases, tem sido uma alternativa para pessoas cansadas do dogmatismo tradicional cristão, mas defrontam-se logo com um dogmatismo semelhante, além do que o Islã pressupõe uma disciplina que é estranha à cultura brasileira. 

Percebo no Budismo uma alternativa onde a Divindade não é necessária, e tem se tornado um caminho de espiritualidade para algumas pessoas que abandonaram o Cristianismo.  Para elas, especialmente aquelas com formação superior, o Budismo aparece como uma filosofia de vida sem necessidade de doutrinas sofisticadas e práticas rituais complexas. Por não estar centrado em uma Divindade específica, o Budismo permite maior liberdade de pensamento.

Para a pequena parte da população que ainda consegue pensar de forma independente, não há muitas alternativas. Talvez isso explique o ressurgimento do Deísmo, fruto do Iluminismo, divulgado por pensadores como Voltaire, por exemplo, e sendo radical no pensamento de Baruc Spinoza (que era judeu) sobre Deus. Em outras palavras, Deus existe, mas não se envolve. A vida humana transcorre sem necessitar que Deus faça qualquer coisa.

A partir das últimas décadas do século passado, surgem novas perspectivas de busca da transcendência, de certa forma similares ou próximas ao Deísmo. 

Movimentos unitários, que se apresentam pouco preocupados com sistematização doutrinária, tentam formulações consistentes a partir das tradições religiosas, especialmente a partir do modelo monoteísta judaico-cristão. A ênfase não é no sistema de crença, mas no convívio e partilha da vida, suas dores e alegrias, na solidariedade e compaixão, em busca da transcendência. Evitam a linguagem religiosa tradicional, mas mesmo assim têm um discurso religioso sutil. Tem atraído os desigrejados, gente que procura viver a fé sem se vincular à instituições e padrões.

Particularmente, desconfio disso pois seus missionários têm vindo dos EUA. Todavia, se caracteriza por pequenos grupos (pelo menos por enquanto) que se reúnem para compartilhar, orar, estudar, enfim, experimentar o convívio comunitário de forma saudável e sem imposições de usos e costumes. Ainda é um movimento inicial no Brasil, mas provavelmente, caso avance, acabará se institucionalizando (já está institucionalizado nos EUA, o que me causa incômodo, pois se assemelha a "mais uma igreja",  sutilmente proselitista, que usa uma linguagem diferente para afirmar-se como "nova forma de espiritualidade").

Na mesma direção, mas sem identidade estado-unidense, está a Fé Bahá'i, que vem crescendo no Brasil. Sua ecumenicidade notável, sua organização, tem reunido pessoas de bom senso e desigrejadas, desiludidas com o Cristianismo. 

A busca pela transcendência continua. A sensação de que há algo além da realidade tangível inquieta e exige que se pense nisso e se busque alternativas. Infelizmente, o Cristianismo,  como tem sido construído desde  o século II após o Cristo, acabou deixando de ser uma alternativa saudável para a maioria das pessoas que não se contentam com o senso comum. A Boa Nova acabou silenciada de tal forma que não é mais perceptível ao ser humano ocidental neste século XXI.

===/=== (continua >>> veja postagem seguinte)

9 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (1. O terrível deus pagão do Cristianismo)

“O amor de deus é incondicional!" é uma das falas preferidas que pregadores cristãos gostam de usar. Não se dão conta que estão contradizendo o que eles mesmo ensinam há séculos: “temos de cumprir a vontade de deus!”, “temos de obedecer aos seus mandamentos!” e coisas semelhantes. Ou seja, se você não cumprir a “vontade de deus” ou não “obedecer aos mandamentos” você está lascado. Portanto, há uma condição essencial para merecer o “amor” de deus, que, portanto, é amor condicional. Em outras palavras, o deus do Cristianismo em nada difere dos deuses pagãos da antiguidade: é preciso agradá-lo, bajulá-lo. Para não sofrer castigo, é preciso fazer um sacrifício, uma penitência. Ou seja, esse deus impõe a justiça retributiva, como os antigos deuses pagãos.

Os pregadores afirmam, ainda, que “deus é onisciente”, mas se contradizem quando explicam “deus está testando a sua fé” para alguém que está sofrendo, doente, na solidão, enfim, nas circunstâncias tristes da vida. Ora, se é onisciente, porque precisa “testar”? E ainda ensinam que, se a “fé” fraquejar, lá vem a retribuição: você está lascado; não cumpriu a condição para merecer o "amor incondicional". Tal como os deuses pagãos.

Pior ainda é a afirmação que quando tal e tal coisa acontece é pela a vontade de deus. Vejo muitos agentes pastorais dizendo isso a quem está feliz, mas também para quem está em situações complicadas, ou vivendo o luto, ou sofrendo diante de sua própria fragilidade ("vamos nos conformar com a vontade de deus, há um propósito nisso!"). Que deus cruel é esse, cuja vontade é o sofrimento de alguém? Então para uns, a vontade de deus é bênção, para outros é maldição? Qual o critério para tal “vontade“ se manifestar de uma ou outra maneira?

Honestamente falando, o discurso do Cristianismo, desde há muito tempo, não difere de qualquer outro discurso religioso. Vejo as mesmas contradições em outras tradições. Ou seja, os deuses pagãos continuam imersos na cultura cristã. O Cristianismo criou outra nomenclatura para o que sempre existiu. Não há "boa nova" alguma!

Essas colocações, que se apresentam como fundamentais na “doutrina cristã”, reduzem a ética do Evangelho a rígidos preceitos morais, o tal do “isso pode, aquilo não pode”, o método predileto das elites para manipular as pessoas usando uma presumível culpa/julgamento/punição/penitência/perdão como argumento. O mesmo faz a maioria dos líderes religiosos; afinal, religião é uma forma de poder.

Sinceramente, atrevo-me a indagar o que realmente significa “salvação”, palavra sempre presente nas pregações “cristãs”. Salvação de quê? Nisso, o Cristianismo difere do Paganismo. Os deuses pagãos da Antiguidade não pretendiam salvar ninguém!

Por exemplo, judeus e cristãos adoram se referir à libertação dos hebreus quando escravos no Egito. O deus demorou 400 anos para ouvir o clamor do povo! Quatrocentos anos! Foram 16 gerações de escravidão. Ou seja, "deus tarda, mas não falha!" O problema é que enquanto ele tarda, a gente se lasca, e até morre sem saber se ele chegou mesmo.

Religiões monoteístas afirmam a existência de um criador de tudo que existe. Portanto, se o tal Inferno de castigos eternos existe, foi criado pelo tal criador. Por que o tal criador criou um local de castigo eterno? Teria a intensão de criar os que seriam castigados??? Para que?

As religiões institucionalizadas criam suas doutrinas e as atribuem à Divindade. Ou seja, as religiões criam uma “divindade” à imagem e semelhança do ser humano. Por isso, a “divindade” tem vontade, manifesta ira e afeto, mata e dá vida, julga, condena e mostra misericórdia; exerce justiça de forma retributiva. Os deuses pagãos tinham até tesão; o deus judaico-cristão é casto e não tem simpatia alguma para com a sexualidade humana; nisso também é diferente! 

As religiões negam a transcendência, reduzindo-a à simples imanência, cheia de normas morais criadas pelos que controlam tudo, definindo como deus age na relação com os seres humanos. 

Assim é o deus do Cristianismo que se ensina e se prega há séculos! um deus tão terrível quanto os antigos deuses pagãos, centrado em si mesmo, muito distante do Deus que Se revela em Jesus Cristo, o Deus que inspirou o Movimento de Jesus!

===/=== (continua) >>> veja postagem seguinte


24 de dez. de 2025

FELIZ NATAL? SIM! FELIZ NATAL!

Tratava-se de uma festa pagã, um culto ao Sol. Após Constantino, o Movimento de Jesus passa a ser controlado, amordaçado e se torna instituição, passa a ser instrumento do Império (hoje diríamos “aparelho do Estado”). Afinal, a religião é uma expressão de poder: o controle (e manipulação) das consciências.

É o começo da Cristandade, quando o “Cristianismo”, a nova religião oficial, se associa ao Império já decadente e começa a absorver sua base estrutural. Conversões em massa, disfarçadas de “missão”. são incentivadas a partir do poder imperial Os antigos santuários pagãos vão se transformando em “santuários cristãos”; os antigos deuses e deusas são substituídos por santos, santas, e a Mãe de Jesus, o próprio Jesus se torna ídolo. O paganismo ganha um novo nome: Igreja Católica, no Oriente e no Ocidente Imperial, desenvolvendo lutas internas pelo poder (como acontece em toda instituição e em todo império) e as disputas doutrinárias pelo controle da “verdade”. O Movimento não se move, perde sua originalidade, se torna um bloco sólido, em nome da unidade monolítica de afirmações doutrinárias inspirada na filosofia, perde noção da novidade e do desafio que representa o Evangelho. A Boa Nova deixa de ser boa, e nova; se reveste do mesmo de sempre com roupas remendadas.

A cultura popular vai absorvendo e assumindo as mudanças religiosas impostas; faz sua releitura, mas não adere ao Movimento de Jesus, o qual continua no pequeno mundo oculto das comunidades de fé. O movimento das pequenas e corajosas comunidades iniciais vai se transformando na massa que se chama Cristandade; mas a semente ainda permanece viva. Assim é o processo histórico da humanidade – a eterna tensão entre Movimento e Instituição.

De certa forma, isso acontece até os dias de hoje. O Império caiu (Impérios não são eternos), mas sua marca, sua essência, se manteve na cultura de boa parte mundo e na instituição eclesiástica, independentemente de sua denominação. No processo de expansão do poder europeu, a “missão” se confunde com o colonialismo.

Todavia, o Movimento de Jesus ainda existe, sempre existiu desde o tempo dos Apóstolos e Apóstolas de Jesus. O Movimento existe dentro da Instituição, existe dentro da massa, da mesma forma que o fermento está contido na massa – exatamente como Jesus havia dito. Em qualquer unidade da Instituição sempre há um pequeno núcleo de comunidade de fé, envolvido - mas não dirigido - pela massa da religiosidade supersticiosa.

De tempos em tempos, acontecem momentos de reforma e de mudança, e assim, o Movimento continua, embora acabe absorvido e reinterpretado pela Instituição; mas continuam a surgir núcleos de resistência! Porque movimento é ação do Espírito, que se move e vai aonde quer. Assim, dentro de toda denominação dita cristã, há o núcleo e o germe da Igreja de Cristo, há o Evangelho, a herança da primeira comunidade de pessoas que conheceram, e seguiram, Jesus, as primeiras testemunhas e guardiãs da Boa Nova.

Portanto, apesar do deus Mercado, que tornou o Natal uma festa ateia, apesar das hipocrisias festivas, apesar da pressão cultural e social, há sentido em celebrar o Natal, a Páscoa, as datas de memória do Movimento de Jesus. Pelo menos para os núcleos de comunidade que existem por aí, dentro e fora das Instituições Religiosas. O eclesial permanece apesar das tentativas do poder eclesiástico em controlá-lo.

Então, que se celebre o Natal! Com humildade, mansidão e misericórdia, se aceite a sinceridade das pessoas simples, que não conhecem a História, que foram ensinadas e convencidas pela religião a pensar e a manter suas crendices disfarçadas de Tradição. Há muita sinceridade apesar de tudo, há muita gente que não se esconde na hipocrisia. Há muita gente que, ao dizer “feliz natal!”, não está fingindo ou cumprindo um “dever social de boa educação”. O abraço é sincero, o presente é dádiva, e a tal da ceia, a festa, é momento de comunhão, não necessariamente religiosa, mas afetiva.

Olhe ao seu redor, talvez você veja o Logos Encarnado semeando o Mundo Novo que chamamos de Reino de Deus! Porque, como diz a música do Flávio Irala,

O cativeiro ficará apenas na memória 
dos povos de boa vontade numa nova história 
pois, um dia, uma estrela caiu num curral...
É Natal! È Natal!


Feliz Natal!

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17 de mar. de 2020

Céu e Inferno

     Os cristianismos têm muitas contradições. Uso “cristianismos” porque existem vários. Não estou falando da Fé em Jesus Cristo, mas das diversas modalidades da religião chamada Cristianismo. Algumas dessas contradições são comuns a todas modalidades do cristianismo; outras se aplicam a algumas modalidades.  Não identificarei as modalidades neste artigo, pois seria emitir julgamento sobre modalidades que não conheço em profundidade, embora eu conheça várias; caberá ao leitor fazer tal identificação se sentir habilitado para isso.Vou falar de uma dessas contradições.
     O cristianismo é dualista; afirma a dualidade “Bem” e “Mal”, e define dois “lugares” para a “vida” após morte, a “vida eterna”: 
   O chamado Céu, “lugar” onde Deus habita, é reservado às pessoas que em vida cumpriram a vontade de Deus, arrependeram-se de seus pecados, etc.; um prêmio. 
O Inferno, todavia, é o “lugar” onde o Diabo vive e preside, é o lugar do castigo; lá Deus não está. 
Em outras palavras, isso se baseia em merito – os bons vão para o céu, os maus para o inferno – a cada um o que merece! Parece um critério de justiça humana… 
     Afirmam, a maioria dos pregadores e catequistas, que – segundo as Sagradas Escrituras – no “final dos tempos” (entendido como “final do mundo”) Deus estabelecerá seu Reino definitivamente. Lá viverão os fiéis, ressuscitados em um corpo excepcional, os que praticaram o bem e aceitaram a salvação através da morte e ressurreição de Jesus, reconhecendo-O como Senhor e Salvador.  Já os maus, os que recusaram a Salvação (e ai se enquadram todos os fiéis de outras religiões, inclusive), viverão para sempre no fogo eterno do Inferno.
     Algumas tradições, originárias da Idade Média, afirmam ainda que existem mais dois “lugares” onde ficam as almas que não foram para o Céu, nem para o Inferno, por diversas razões: o Purgatório – reservado para as almas dos que não tendo sido muito bons, precisam ainda sofrer penalidades para serem limpos (purgados) e ganharem o céu – e  o Limbo, onde ficam as almas dos nascituros não batizados (cujo único pecado é o herdado por serem humanos), os bons ateus e fiéis de outras religiões que se comportaram de acordo com os princípios morais cristãos.
     Embora “Purgatório” e “Limbo” não fossem reconhecidos pela Reforma, hoje, onde fazem parte da doutrina, não estão mais sendo citados… estão sendo abandonados mas não desmentidos!

1. Contradições
    Os conceitos acima relacionados provocam várias contradições. Vejamos algumas:
1.1 – Empate: se sobrarão o Céu dos bons e o Inferno dos maus, o jogo da história terminará empatado: Deus com seu reino celestial e o Diabo com seu reino infernal. Ninguém ganhou! Será traçado uma linha divisória entre os dois reinos… um abismo… de modo que quem está em um não poderá passar para o outro. O Bem e o Mal permanecem para sempre! Venceu a meritocracia, Deus e o Diabo estão felizes…
1.2 – Onipresença de Deus: se Deus não está no Inferno, então não é Onipresente, como afirmam os catecismos. Há um “lugar” onde Deus não está!
1.3 – Almas perdidas: o que acontece com o Purgatório e o Limbo, no final dos tempos? Em relação ao Purgatório, parece fácil: os que sobraram lá não completaram a purgação, portanto vão para o Inferno. Quanto ao Limbo, ou ele permanece (ficaria um terceiro lugar no final dos tempos) ou as almas ficam em lugar nenhum, perdidas sei lá onde. Fica a pergunta: Deus estaria lá ou não? Se sim, então as alminhas iriam para  Céu, não precisava do Limbo; se não, então as alminhas iriam para o Inferno, também não precisaria do Limbo… que confusão!
     Fiz tais perguntas quando tinha 11 ou 12 anos, em uma aula de religião no colégio dos Irmãos Maristas onde estudei. Realmente, eu estava muito preocupado com essas alminhas, pois havia perdido um irmão que morreu antes de nascer. O bom Irmão que lecionava a matéria disse que isso ficaria por conta da misericórdia de Deus e seria um mistério….
     Ainda bem que os Reformadores do século XVI recusaram aceitar tais conceitos …
2. Afinal, o que é Inferno?
     A palavra “inferno” deriva do latim “infernum”, que significa “as profundezas”, o “mundo interior”.  Deriva de “inferus” no latim pré-cristão, significando “lugares baixos”.
    Essa palavra latina  foi utilizada como tradução da palavra grega “Hades”, lugar dos mortos, nome também da divindade pagã que o governa, o deus Hades (Plutão dos romanos), entendido como local escuro e insalubre.
    Por sua vez, Hades foi a palavra grega que traduziu o termo hebraico “sheol” – lugar dos mortos, cuja origem é incerta, com hipótese de ter origem nas línguas dos acádios e sumérios. A Bíblia Hebraica usa o termo sheol (65 vezes) para se referir ao submundo dos mortos retratado como um profundo e escuro abismo. Na Bíblia o termo está estritamente relacionado a abismo e sepultura. Segundo o pensamento israelita antigo, o “sheol” seria um abismo escuro e silencioso situado nas profundezas da terra, para onde todas as pessoas iam depois de morrer. “Sheol” é também a “sepultura” ou “morada de todos os mortos indistintamente”. Não é um local desejável de se ir, exceto quando preferível a um grande sofrimento aqui na terra dos vivos.
    Na Bíblia Hebraica, bem como em sua tradução grega (Versão dos LXX), e no Novo Testamento (onde aparece como Hades) não há o ensino de que era um local de fogo e tormento dos maus como na ideia medieval (e atual) de inferno. Em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento, Sheol (no NT grego, quando não traduzido por Hades) também se refere o local onde era jogado o lixo das cidades, permanentemente ardente de fogo por motivos óbvios de saneamento. Talvez venha daí a ideia medieval de inferno, que perdura até hoje. 
3. Penas Eternas e Maniqueísmo
    Por se recusarem a aceitar o conceito de “penas eternas” muitas pessoas foram classificadas como hereges e foram punidas pelas respectivas denominações. Por isso, para não dar margem aos oportunistas que não gostam de mim, afirmo que CREIO nas penas eternas… (será mesmo? rsrsrsrsrs)
    A dicotomia Bem e Mal é antiquíssima: vem do mundo persa, do Zoroastrismo; em resumo simples, afirmava haverem duas divindades: a divindade do Bem e a divindade do Mal. Também dai derivam os fundamentos para o conceito de Salvação, comum a vários credos religiosos desde a antiguidade, passando pelo judaísmo e pelo cristianismo, incluindo o pensamento mulçumano e as especulações Kardecistas.
    No meio cristão esse dualismo é conhecido como Maniqueísmo, devido ao ensino de Manes (ou Maniqueu), filósofo persa do século III, que associou  o Bem a Deus e o Mal ao Diabo. Manes juntou conceitos do zoroastrismo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo, considerando Zoroastro, Buda e Jesus como "pais da Justiça", e pretendia, através de uma revelação divina, purificar e superar as mensagens individuais de cada um deles, anunciando uma verdade completa1.
    Embora repudiado como pensamento herético, o maniqueísmo se firmou de forma sutil no pensamento cristãos, servindo de referencial ainda hoje, e – inspirando interpretações da bíblia – acabou criando, no cristianismo, o triste conceito dualista de sagrado e profano, vida do mundo e vida do espírito, e ainda hoje muitos cristãos e cristãs se afirmam fugir do mundo para não se contaminar por ele… (contradição: Jesus orou ao Pai para não nos tirar do mundo, mas nos livrar do Maligno! – João 17).
    O pensamento maniqueísta gera um conceito de justiça significando castigo para os maus, criando assim uma escala de valores que hoje seria chamada de meritocracia. Nesse conceito, é justo que os maus sofram para sempre (sentimento de vingança!) e os bons sejam premiados. E o cristianismo foi criando uma enorme diversidade de “quem é mau”: os que não obedecem à Lei de Deus os que não aceitam Jesus Cristo, os que morrem em “estado de pecado” (quem define o que é pecado?), os crentes de outros credos, ateus, quem foge da “moral sexual”, e por ai…
    Assim, como Deus é justo, Ele pune os maus de forma cruel! sem misericórdia! Em total contradição com o significado de Justiça apregoado na Bíblia, que é sempre paralelo ao de misericórdia e  de graça. Quando ouço certos pregadores fazendo a apologia do inferno, especialmente condenando quem pensa ou se comporta diferente, penso cantar o Hino: “Tu é cruel, Senhor, meu Pai Celeste…” ao invés de “Tu és fiel…” Nesse caso, Deus não se diferencia do Diabo, o qual, aliás, seria mais bondoso, pois “premia” sem exigências…
     Na lógica maniqueísta, se os maus não forem castigados, que adianta fazer o bem?
4. Então, vai todo mundo para o Céu?
    Não penso assim! aliás, não penso nisso!
    Creio em Jesus Cristo e vejo seu Reino como horizonte utópico 2 , creio que o alegado “Tribunal de Deus” não se baseia em direito penal, mas em paternidade carinhosa e misericordiosa. Quanto aos mortos… e a vida após a morte… isso é simplesmente uma questão de fé!
    A Igreja dos primeiros séculos compreendia o “Inferno” como Hades. Assim, o Credo de Nicéia afirma que Jesus, depois de ser crucificado, desceu ao Hades (Inferno), não ao reino de Satanás, o qual foi vencido na Cruz.
    Para finalizar quero dizer que no NT há várias passagens que fala da morte eterna. em contraposição à vida eterna. Assim,  não se refere a Infernos, locais de castigo, mas simplesmente à não vida eterna. Ainda assim… parece meritocracia!
    Você dirá: se não há mérito, então por que fazer o bem? Porque, simplesmente, fazer o bem é realizar aquilo para que fomos criados por Deus: sermos bons porque Ele é bom! Fez algo mau? arrependimento, colocar-se diante do Senhor confessar e pedir perdão, quando possível, reparar o mal feito… pelo menos, pedir desculpas… e não fazer mais!
    Ah! vc é ateu? não crê em Deus? então perdeu tempo lendo este texto. I am so sorry!
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Notas:
1 - para mais esclarecimentos, pesquise ´na internet; o texto da Wikipédia é muito bom.
2 – u-topos: não lugar ainda; diferente de a-topos: nunca lugar.

4 de jul. de 2019

Traduções da Bíblia e Ética Cristã

Em muitas partes do Novo Testamento, os cristãos e cristãs são estimulados a viverem de forma diferente em relação aos incrédulos, e também em relação aos judeus, especialmente nas Cartas de Paulo. Infelizmente, costuma-se dar atenção apenas aos versículos que se referem à sexualidade, com uma interpretação limitada e repressora, como se o Apóstolo fosse um inimigo da sexualidade e da feminilidade.

Dentro de sua cultura, ele, de fato, tinha lá seus problemas e limitações, mas a mensagem que o Apóstolo deixa, a qual aceitamos como Palavra de Deus, vai muito além de uma coleção de regras do tipo “isso pode, aquilo não pode”.

Quero fazer com você um exercício antes de prosseguir o assunto. Tente traduzir para o inglês a seguinte frase: “No alto da coxilha, índio velho, montado em seu baio, contempla a estância onde está sua prenda.”

O tradutor do Google traduz assim: “At the top of the cross, old Indian, mounted on his bay, contemplate the resort where your gift is”, o que, revertido para o português, pelo próprio Google, resulta no seguinte: "No topo da cruz, índio velho, montado em sua baía, contempla o ‘resort’ onde está o teu presente". Como o Google é esperto, ele propõe uma alternativa que é: “At the top of coxilha, old Indian, astride his bay, includes the resort where is your gift”, e revertido para o português resulta:  "No topo da coxilha, velho índio montado em sua baía, inclui o ‘resort’ onde está o teu presente”.

Mais inteligente que muitos “pregadores” do Evangelho, o Google pede para você melhorar a tradução proposta, ou seja, não é um literalista.  (se vc for testar, pode ser que ele acerte: fiz a correção on line! rsrsrsrsrs)

Será que você consegue traduzir para o português mais comum? e para o inglês? Você precisa conhecer o vocabulário regional gaúcho. Só assim, você poderá verter para o inglês, desde que você também conheça a cultura e a linguagem norte-americana ou a inglesa, ou a australiana, etc. (não é tudo igual, não!).

Dependendo para quem seja a tradução, talvez ela seja diferente. No português mais comum, essa frase significa: “No alto da colina, o sujeito, montado em seu cavalo, contempla a fazenda onde vive sua namorada”. Agora o Google não vai errar; com uma pequena correção, ele traduz: "Up on the hill, a man on horseback, contemplates the farm where his girlfriend lives", que retraduzindo fica: “No alto da colina, um homem a cavalo, contempla a fazenda onde vive sua namorada.”

Em Lisboa, ouvi a seguinte frase: “Manoel, de facto, gosta de fatos mas, cá em casa, veste fato de dormir”. Você consegue colocar isso em português brasileiro? Seria assim: “Manoel, de fato, gosta de ternos mas, aqui em casa, fica de pijamas.”

Eu quero que você compreenda que fazer a tradução de uma língua para outra (ou mesmo para a mesma língua falada em regiões diferentes) não é algo tão simples. Há dialetos locais, regionalismos, expressões populares que, traduzidas ao pé da letra (at the foot of the letter ???), não fazem sentido algum em outra língua. 

Por isso, o bom tradutor faz uma versão e não uma tradução literal, pois adapta a linguagem ao contexto cultural do destinatário da tradução, sua época, sua cultura, e busca expressões que signifiquem, na tradução, o que o texto original diz.

Em outras palavras, uma tradução, ou melhor dizendo, uma versão, depende da interpretação do tradutor e seu conhecimento antropológico das culturas envolvidas, pois traduzir textos é, também, traduzir culturas.

Os textos bíblicos originalmente foram escritos em várias línguas, muito diferentes das línguas modernas, especialmente em sua estrutura gramatical: hebraico antigo, grego koiné, aramaico e em alguns casos, siríaco. Além disso, o que temos disponível como originais são coletâneas de cópias manuscritas, muitas vezes diferentes entre si. Digo diferentes em sua estrutura, em sua gramática e sintaxe, em palavras e significados de palavras que variam conforme o tempo, conforme a cultura. 

A fim de garantir fidelidade ao texto recebido, a tradução da Bíblia é revisada de tempos em tempos, sempre por equipes de pessoas cristãs, especialistas em diferentes áreas de conhecimento, para adequar a linguagem ao tempo presente. Mesmo assim, são várias versões diferentes, várias edições diferentes, dependendo da editora e sua postura teológica.

A grande maioria das traduções (versões) que se costuma usar nas Igrejas do Brasil são tendenciosas, fortemente marcadas pelo preconceito e sem considerar o contexto histórico do texto, mas olhando o passado a partir de valores positivos ou negativos do tempo em que acontece a tradução. Hoje, novas versões procuram trazer o texto mais perto de nossa realidade cultural e histórica, sem violentar as culturas onde o texto foi gerado, graças ao aprimoramento das técnicas de exegese.

Por isso, é muito importante que as comunidades de fé mantenham a prática de realizar estudos bíblicos, com a participação de pessoas que conhecem o texto e suas variações dos originais (pastores e pastoras bem formados, conhecem!). E, no estudo, olhar com honestidade o texto e seu contexto, para, a partir dai, fazer a releitura dentro do contexto presente. Assim a Palavra se revela!

Quem faz a leitura literalista da Bíblia, ao invés de buscar na Palavra de Deus uma mensagem para a vida hoje, preserva preconceitos moralistas do presente (ou do passado), manipulando a Palavra de Deus, e trazendo contradições conceituais absurdas, as quais parece não perceber ou, de má fé, força uma interpretação.

Um exemplo claro é, por exemplo, a interpretação inconsistente que muitos fazem do livro de Levíticos, onde o literalismo oportunista comete contradições descaradas quanto à “obediência da Lei”. Basta ler Levíticos e verifica-se que grande parte dele não é ensinado pelos literalistas, exceto o que se refere à sexualidade e algumas relações entre as pessoas. O resto é considerado “costumes dos judeus”, “situações que eram necessárias na vida no deserto”, e outras babaquices.. Os fariseus do tempo de Jesus eram, realmente, mais honestos, pois procuravam seguir tudo à risca.

Com essa rigidez moral, “fundamentada nas Escrituras”, perde-se o cerne da mensagem ética contida nos escritos, qual seja, a proposta de uma postura crítica diante de si mesmo e da sociedade, a partir do Amor de Deus.

É isto que torna o povo cristão distinto dos demais, não como povo superior, mas como povo obediente, que pertence a Deus, e se oferece ao mundo como anunciador da Boa Nova: Deus é justo, misericordioso e se revela como Ser Amoroso em Jesus, o Cristo, Seu Filho, o Qual fez o único, completo, perfeito e suficiente sacrifício pelo pecado de todo o mundo e nos convida a uma nova vida, a partir dos valores do Reino de Deus.

Este é um bom resumo da Ética cristã. A Ética que nasce a partir do Evangelho e não de uma moralidade tida como absoluta e moldada por regras de controle e repressão. A ética que propicia a organização da Lei Moral moldada na perspectiva do Amor, que gera partilha, relações saudáveis, vida em comunidade, sinalizando o Reinado de Deus e não em um código de usos e costumes, comportamentos regidos pelo medo da punição. É a Lei da Liberdade, da qual nos fala Tiago (cf. Tiago 1.22-25).

A Ética Cristã não se limita a um código moral, mas resulta do confronto da Palavra de Deus com a realidade do mundo onde estamos inseridos. A Ética de quem ouve e pratica a Palavra de Deus, não em cega obediência, mas como fruto de uma reflexão consciente e um desejo de colocar-se diante de Deus e, a partir daí, adotar atitudes consistentes diante de si mesmo e da sociedade.

A Ética da Liberdade e do Amor é a postura diante do mundo a partir da nossa vivência pessoal com Cristo, praticando a Palavra revelada..
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8 de jun. de 2019

Novo Tempo em tempos obscuros

A música popular brasileira, no tempo da minha juventude, significou para muita gente o mesmo que o Apocalipse de São João significou (e significa) para as comunidades da Igreja sob dura perseguição do Império de Roma: a afirmação da certeza de um Novo Tempo, de um Novo Mundo no horizonte da História.
A fé cristã era politicamente criminosa
Ao contrário do que muita gente pensa, o Império Romano não perseguiu discípulos e discípulas de Jesus, as pequenas comunidades da Igreja nascente, por razões religiosas, mas por razões políticas. É puro idealismo romântico achar que os mártires foram mártires por causa de sua “religião”; eles morreram por causa da sua fé, que –  em certo sentido – ameaçava o poder do Império.e as bases de seu alicerce ideológico.
Lamento se você é daquelas pessoas que pensam que fé e política não se misturam. Lamento mesmo! Porque, goste você ou não, elas se misturam e muito! Especialmente a fé que afirma a Encarnação de Deus na História Humana para criar uma nova humanidade a partir da própria humanidade.
O Império Romano tinha, como um dos alicerces de seu imenso e absoluto poder, o conceito de divindade imperial, ou melhor, do senhorio absoluto do Imperador, a encarnação do Império. Ao Imperador era dado o título exclusivo de “Senhor” (no grego, “Kyrios”) significando que o Imperador é o Senhor Absoluto. Sua autoridade era divina, e muitas vezes eles mesmos se autodenominavam divinos e eram homenageados nos templos de todas as religiões do Império. 
Aliás, o Império Romano foi o espaço da liberdade religiosa absoluta, desde que o Imperador fosse considerado o Pontífice Máximo, o Sumo Sacerdote, de todas elas.  Nenhum ser humano poderia receber o título de Kyrios a não ser o Imperador, que era “supra-humano”.
Ora, eis que, de repente, um bando de pessoas simples, e até mesmo pessoas importantes da sociedade, começaram a dizer, aqui e ali, que um tal de Jesus – um galileu que fora condenado à morte em Jerusalém, acusado pela liderança judaica de ser inimigo de César – é o Kyrios. Isso não podia ser tolerado! Dai as perseguições que aconteciam em diferentes regiões do Império e as grandes perseguições gerais que aconteceram em todo o território imperial. E, verdade seja dita, muita gente abandonava a fé por causa do medo (não os julguemos! já vi muito “corajoso” se calar diante da injustiça, por medo! e muito “religioso” que não se interessa por política – por burrice ou medo mesmo!).
Os juízes romanos não exigiam que cristãos negassem sua fé, mas que negassem o senhorio de Jesus, o Cristo. Podiam crer da forma que quisessem, desde que respeitassem o poder absoluto do Imperador; ao afirmarem o senhorio (poder maior) de Jesus, cometiam um crime político, pois tal afirmação significava, na lógica do Império, que havia um senhor maior que Cesar.

O Apocalipse como mensagem de esperança
É nesse contexto que surge o Livro da Revelação, que nós conhecemos por Apocalipse (apocalipse é uma palavra grega que significa exatamente revelação). Uma mensagem de esperança que afirma a presença de Deus na História, que Ele não está ausente, mas está comprometido com Seu povo até o fim do tempo. (1)

A esperança em tempos de resistência
Quando o poder da opressão é grande, gera medo e obediência servil, paralisando o pensamento de muita gente.  A frase “é melhor obedecer para evitar problemas!” é ouvida nesses tempos, como conselho sábio e prudente.
Mas o Espírito Santo sempre toca em pessoas que não decidem por emoções imediatas, mas ousam refletir sobre a realidade e se indignam diante da opressão e do poder colocado como absoluto por um grupo ou uma elite.
Nesses tempos a resistência se manifesta, geralmente, pela arte: a literatura, a música, e até mesmo artes plásticas.  Porque a linguagem da Arte é incompreensível para aqueles que, do alto de suas certezas absolutas, não enxergam nada além de sí mesmos e seus interesses mesquinhos ou os mesquinhos interesses de quem os manipula.  Como não compreendem, ou censuram ou consideram “coisa boba”.
Assim, as cópias manuscritas do Livro da Revelação, texto riquíssimo em simbologia e linguagem do Antigo Testamento,  circulavam livremente entre as comunidades, sem risco de serem compreendidas pelos “guardiães” do Império.  Afinal, pensavam as elites romanas, “é um texto cheio de visões de algum alucinado, nada que possa nos ameaçar!”
No tempo da minha juventude, em meio à minha militância política como cidadão e como cristão, a Arte falava o que não podia ser dito livremente, e os órgãos de segurança eram burros o suficiente para não perceberem a resistência se manifestando. A Música, o Teatro, o Cinema eram portadores das mensagens de esperança e de luta, eram a resistência agindo.

A esperança em tempos de incertezas e medo
Quando pensávamos que os tempos de obscurantismo haviam terminado e não voltariam mais, ei-los de volta. As elites tacanhas encontraram a brecha que procuravam para trazer de volta tudo aquilo que lhes convém: os interesses do grande Capital, a gestão da Educação manipulada para aumentar a ignorância e a burrice ( e a dependência servil), a derrubada dos direitos conquistados pela luta popular, o fechamento do mercado para os mais pobres, o descompromisso do Capital com o Trabalho, e tudo que temos visto neste país (e neste continente) desde os últimos  anos.
Espero que a Arte desperte para ser, novamente a voz da resistência. Espero que uma nova geração de artistas independentes se manifeste com a mesma criatividade e inteligência daqueles dos anos '60 e '70 do século passado.
Enquanto isso, vamos nos ajudando a sobrevier com aquelas músicas. Uma delas me agrada muito, e deixo aqui com você, leitor, para animar e fazer renascer a esperança, ‘pra nos socorrer, pra sobreviver’:

Novo Tempo
Vitor Martins / Ivan Lins
No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos
De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
De todos os pecados, de todos enganos, estamos marcados
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
Não perca a esperança, resista de forma inteligente!
Não se deixe levar pela “coxinhagem” que permeia o país; ela está ficando cada vez mais fraca, porque – convenhamos – há coxinhas inteligentes…
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(1) - Se você quer conhecer mais sobre o Livro do Apocalipse,   acesse diretamente os estudos em  ESTUDOS ÍBLICOS.
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3 de jan. de 2019

O Deus de Toda a Graça e a Meritocracia

Jesus e PedroVamos lembrar três importantes conceitos que sempre temos ressaltado nos nossos textos e pregações: Justiça é dar a cada um o que merece; Misericórdia é não dar a cada um a punição que merece; Graça é dar a cada um o que não merece.

O Antigo Testamento revela o Deus da Justiça e da Misericórdia. O Deus que estabelece o pacto com um povo mediante uma Lei e por tal Lei julga, castiga ou age com misericórdia. Os Profetas e Profetizas foram os porta vozes desse Deus de Justiça, e ao mesmo tempo que anunciavam o julgamento, também falavam que a misericórdia divina é sem limites.

Herdeira da cultura Greco-Romana e dos princípios do Judaísmo tardio, nossa cultura se fundamenta nos princípios do Direito, ou seja, da Justiça, a qual deve ser executada e garantida pelo Estado. Nossa visão de sociedade se define a partir da Justiça e da Lei. Nada de mal quanto a isso, embora, ao contrário do Deus do Antigo Testamento, a Misericórdia quase não é exercida nem pelo Estado, nem pela maioria das pessoas, que buscam, muitas vezes, na Justiça o sentido oculto de vingança...

Todavia, o Novo Testamento traz uma nova revelação sobre Deus, que se manifesta em Jesus, o Cristo, o próprio Deus que se torna ser humano abrindo mão de todas as prerrogativas e sendo humano até na morte e morte de cruz (cf. Filipenses 2.5-8). O Novo Testamento, e a Igreja dos Apóstolos, fala de um conceito novo e estranho ao seu tempo (e inclusive ao nosso tempo): o Deus que se revela em Jesus o Cristo é o Deus da Graça. O Deus que oferece a Vida em plenitude não mais pela obediência à Lei, mas pela infinitude de Seu amor; o Deus que julga com misericórdia e pela Graça concede a Vida em abundância (cf. João 10.10b) a todos que se abrem à Sua Graça.


Deus escolhe quem não merece
Já no Antigo Testamento vemos sinais disso, que Deus não atua em função do mérito, mas em função de sua inigualável bondade: Deus não escolheu pessoas especiais, mas escolheu pessoas comuns e muitas vezes consideradas más pessoas: escolheu Jacó que enganou seu pai Isaac e roubou a primogenitura de seu irmão Esaú; escolheu Salomão, filho de um adultério e um assassinato; escolheu Oséias, um homem amargurado pela esposa adúltera porém muito amada; marcou Caim, fratricida, com um sinal para que ninguém o perseguisse; escolheu Davi, um pirralho por quem ninguém dava nada; escolheu Moisés, homem gago e foragido, como seu porta-voz diante do Faraó; e muitos outros casos podemos ver examinando o texto sagrado.

Essas escolhas imerecidas de Deus continuam no Novo Testamento: chamou Maria, jovem prometida em casamento a um homem idoso, que vivia em um vilarejo longe de tudo e na Galiléia, local considerado de segunda categoria pelos judeus; revelou-se aos magos do oriente, gentios e pagãos, que cultuavam deuses siderais, e revelou-se aos pastores, homens rudes e ignorantes; mas não se revelou ao rei Herodes, ou ao governador romano, e tampouco aos religiosos daquele tempo; entre os antepassados de Jesus havia uma prostituta; Jesus escolheu como discípulos, um pecador público (Mateus), pescadores simples e iletrados como Pedro, Tiago e João, um guerrilheiro zelote (Simão); confiou a Saulo de Tarso, que participou do assassinato de Estevão e matava cristãos, a tarefa de ser Seu anunciador aos povos fora da Palestina...

Em outras palavras, tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus escolheu pessoas que não tinham nenhum mérito, nenhuma qualidade apreciável, ninguém considerado uma pessoa respeitável e de confiança. Deus não dá pelota para a meritocracia! Mas todas as pessoas que foram escolhidas e chamadas por Ele se tornaram merecedoras do respeito e da admiração até os dias de hoje.

A Graça Operante
Todas as pessoas tocadas por Deus deixam sua zona de conforto, abandonam sua visão estreita do mundo e se abrem para uma dimensão maior, a dimensão iluminada pelo Espírito Santo.
Deus age pela Graça! Movido pelo Seu imensurável Amor, e Seu coração Misericordioso, Deus não mede as pessoas pelo mérito, mas pela misericórdia de Seu inefável coração.
Sob o ponto de vista da Justiça, a Graça é injusta, pois dá a cada pessoa o que não merece. Por isso, quem ouve a voz de Deus e atende ao Seu chamado, não é mais deste mundo. Seus valores são outros! A solidariedade não é dever legal, mas demonstração de gratidão pelo que recebemos, sem merecer, de nosso Pai Materno. A Lei não mais impera, mas impera o referencial ético do Evangelho que não se limita a certo ou errado, mas à questão do que convém e não convém em cada momento (cf. 1 Coríntios 6.12), a partir do critério da Graça, não do mérito.

Consequência
Abrir-se à Graça de Deus é reconhecer que nada poderá fazer para merecer o Amor que Deus oferece. É reconhecer que recebemos o perdão e por isso perdoamos; é reconhecer que de graça recebemos e por isso, de graça damos. É permitir e reconhecer que Deus está no controle, cabe a Ele, e somente a Ele, definir Sua relação com cada pessoa; por isso, não julgamos, nem buscamos ver o pecado nas outras pessoas u avaliar o mérito para que recebam a salvação.

O Deus da Graça abomina a meritocracia. A meritocracia é contrária ao Seu agir! Porque é diabólica, divide as pessoas em categorias excludentes.
Portanto, meu irmão ou minha irmã, se você acha que merece algo, então, pode esquecer, porque acabou de desmerecer. Seja teu mérito a obediência à Palavra de Deus e a sua vida de oração e serviço em Nome do Senhor. Você, desde que aceitou a soberania de Deus em sua vida, deixou de ser deste mundo, embora continue nele, mas você está aqui para testemunhar e proclamar a Graça de Deus e não para receber reconhecimento dos valores mundanos.
Você não merece, mas Deus lhe dá! Agradeça e em tudo daí graça.
E o Deus de toda a graça, que em Cristo os chamou à sua eterna glória, depois de vocês terem sofrido por um pouco, ele mesmo irá aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar vocês. A ele seja o domínio para sempre. Amém! (1 Pedro 5.10-11)
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PS – Aproveita esta oportunidade: como exercício, busque na Bíblia os exemplos de pessoas chamadas por Deus imerecidamente. É uma oportunidade para você gastar um tempo examinando as escrituras, e perceber que todas as pessoas merecem a Graça. Basta aceita-la!
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17 de out. de 2018

O que será de nós?

Protomartires da Igreja de Roma
Uma conversa com um amigo quase em pânico, no Facebook….
Ele me diz: “ (…) já to bem desesperado afirmo.” Pergunto: “ Porque? o que vc teme? e porque teme?”
Ele: “ O fascismo e o apoio evangélico aos mesmos, com o poder financeiro, politico e religioso.”
Então fiz a seguinte reflexão, aqui um pouco mais melhorada,  que quero partilhar com vocês que têm paciência em ler esses pirilampos e que talvez estejam numa situação semelhante. Advirto que não fiz pesquisa profunda para este texto, porque a urgência da hora não pode esperar procedimentos acadêmicos, os quais – quase sempre – chegam atrasados demais devido sua formalidade. Se você quiser se aprofundar, pesquise e faça as devidas correções no texto… o importante é a reflexão.

“ Mano, vamos refletir:
1- não é uma maioria de evangélicos que apoia o diabólico.  Apenas três tipos: aquela maioria pobre, mal formada, que é massa de manobra de Lobo vestido de Pastor; aqueles que fazem de Deus (o deus deles) sua máquina de prosperidade e bem estar e dizem que “o resto é vagabundo”; e aqueles que “não se metem em politica porque é coisa do mundo”, se tornando, assim, cúmplices e apoiadores silenciosos do Mal.
2 - poder financeiro sempre foi a marca dos adoradores de Mamona. (lembra o episódio do jovem rico?). E Jesus mesmo disse que não se serve a dois senhores: ou a Deus ou ao Dinheiro. Dinheiro é Potestade, pode dominar pessoas!
3 - poder político é exatamente a força do Anticristo. O Poder é outra Potestade: sobre à cabeça e domina pessoas, transformando-as em algozes (quem não leu, leia George Orwell – A Revolução dos Bichos -  para não dizerem que defendo a esquerda radicalmente!)
4 - poder religioso o tinham os saduceus e fariseus que, aliados ao poder político e econômico do Império Romano, foram os acusadores de Jesus diante do Império;
5 - Eu acredito que chegou o momento da hora da verdade. Deus está separando para nós as ovelhas dos cabritos. Deus está permitindo isso para despertar sua VERDADEIRA IGREJA para deixar de lado querelas doutrinárias e religiosas e para voltar-se à Sua Palavra que é o “Logos tou Theou” - Aquele que se fez  sarkis (carne física) e HABITA entre nós.
6 - Deus está acabando com a lenda da "índole pacífica do povo brasileiro", tão exaltada pela ditadura militar; Deus está revelando - de uma vez por todas - que "não é brasileiro" e que a tal índole é ódio reprimido causado pela eterna dependência do colonialismo. Deus está nos permitindo a oportunidade de RENOVAR A FÉ, MANTER a ESPERANÇA e continuarmos a pregar o Evangelho no espírito de SOLIDARIEDADE (Comunhão).

7 - O que será de nós? a pergunta da Igreja primitiva durante as perseguições...  e então vemos a história :
a) o Império caiu - demorou mais de mil anos, mas caiu duas vezes: 4 séculos depois de Cristo no Ocidente e 15 séculos depois de Cristo no Oriente;
b) o judaísmo dos saduceus e fariseus foi destruído pelo próprio Império, 70 anos depois de Cristo;
c) A Igreja de Cristo continua, aos trancos e barrancos, 21 séculos depois de Cristo.

8 - o que será de nós? pergunta do povo hebreu durante o exílio da Babilônia.
a) Babilônia caiu;
b) boa parte do povo retornou à sua terra; reconstruiu sua capital e seu templo...
c) outra parte do povo ficou na Babilônia e acabou formando lá um novo judaísmo, renovado, que gerou o Talmude e se tornou um dos mais importantes rabinatos do mundo.

PORTANTO:
a) mantenhamos firmes a nossa FÉ NO CRISTO RESSUSCITADO;
b) lembremos que não somos deste mundo mas estamos neste mundo - Jesus pediu (João 17) que não fôssemos tirados do mundo, mas que estejamos livres do Mal;
c) sejamos resistência, sem porra-louquice , sem  insanidade, sem se deixar levar pelo pânico, mas com sabedoria:  somos enviados ao mundo e aconselhados a sermos mansos como as pombas e prudentes como as serpentes;
d|) mantenhamos firmes na oração e no estudo da Palavra, porque Deus ama seu povo.

Assim a gente resistiu no passado, assim resistiremos no futuro.
Desanimar é a nossa tentação.  Lembre-se, todavia, que as portas do Inferno não se sobreporão sobre a Igreja de Cristo.
Mantenhamos contato uns com os outros, com mansidão e prudência, em solidariedade e comunhão, e nunca nos esqueçamos dos três jovens na fornalha e de Daniel na cova dos leões . Os anjos de Deus estarão sempre conosco, mesmo nos momentos de dor e sofrimento. Nossa geração já passou por isso antes… eles se foram, nós permanecemos; eles estão voltando, nós permaneceremos; eles voltarão a cair, nós permaneceremos! porque estamos em Cristo!

Jesus Cristo venceu o mundo! Com Ele, nós venceremos sempre!
Paz e Bem! O amor sempre venceu o ódio! #elenão
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21 de set. de 2018

Resistam ao diabo…

Tentação de Jesus 6Há muito tempo que a Igreja deixou de falar sobre o diabo; e isso, na minha modesta opinião, não tem feito bem às comunidades de fé. Obviamente, o “esquecimento” do diabo é parte de um processo histórico.

A partir da Idade Média, a Igreja do ocidente cultivou e divulgou uma imagem do diabo que ainda hoje persiste no imaginário de muita gente. Um ser bem definido, com uma cara parecida com a de um bode, chifres, um longo rabo, vermelho, e circundado pelo fogo infernal. Uma imagem assustadora e terrível, ameaçadora e, assim, um bom instrumento de controle social. Qualquer coisa contra o status quo era considerada “coisa do diabo”.  A Reforma Protestante, ao início da Idade Moderna, não mudou essa imagem; pelo contrário a aperfeiçoou.

Pela segunda metade do século passado, o pensamento teológico já havia evoluído bastante com a interdisciplinaridade da reflexão, fazendo  para uma análise teológica crítica da sociedade; surgiram assim as diferentes ênfases chamadas de Teologias da Libertação.  Se tal passo livrou as pessoas do medo de um ser terrível, ao mesmo tempo transformou o diabo em um mero problema sócio-político, identificado com o “sistema opressor”.


Ao mesmo tempo, tal revolucionária visão do Evangelho, foi minando as práticas devocionais de piedade pessoal, apresentando uma nova chave hermenêutica para a leitura bíblica e o estudo da Palavra; isso aconteceu no universo do catolicismo romano e também no universo protestante clássico. Nada contra isso, e devemos ser gratos a Deus pela valiosíssima contribuição que aquela escola teológica legou à Igreja contemporânea.
Todavia, sempre houve um movimento de oposição, podemos dizer de inspiração fundamentalista, contra aquelas novas ideias, o qual mantinha a antiga visão da separação entre  “mundo espiritual e mundo terreno”. Nesse universo, o diabo medieval continuou existindo no imaginário das pessoas.

Hoje em dia, vemos igrejas onde o diabo ainda é aquele sujeito terrível ou então ele simplesmente não tem qualquer relevância, se tornando o símbolo de todo um contexto político, econômico e social, muito mais útil para a reflexão política do que para a vida comunitária na fé.

Afinal,  o que ou quem é o diabo?
A palavra “diabo” é tradução do grego “diabalon” (“dia” = dividir; balon = movimento), aquele ou aquilo que promove a divisão. Ao contrário da palavra “diácono” (aquele que promove a divisão para a distribuição, aquele que promove a partilha), diabo é aquele que promove a ruptura, o desentendimento, a separação entre as pessoas.

A Bíblia identifica seres diabólicos que recebem diferentes nomes. Segundo a tradição recebida do judaísmo, tratam-se de “Anjos Decaídos”, lançados por Deus no abismo profundo por sua rebeldia e desobediência, sendo seu líder o Arcanjo Lúcifer (portador de Luz) o qual se pretendia igual a Deus em poder – ser um “quem como Deus”!). No Novo Testamento, é também chamado Príncipe deste Mundo, ou Príncipe das Trevas!
Ora, não devemos dar ao diabo mais importância do que ele merece, mas também não podemos viver como se ele não existisse. Não me refiro a um ser angelical apenas, mas às situações diabólicas que vivemos em nosso mundo e nossas vidas – a presença do diabólico em nossas vidas.

O diabo promove, através das tentações, o afastamento das pessoas em relação a Deus, conduzindo a comportamentos que geram discórdia, arrogância, maledicências, decorrendo daí o egoísmo e o egocentrismo, tão característicos dos tempos contemporâneos devido à publicidade que nos incentiva ao consumismo, criando a sensação de que, para existir em plenitude,  é importante o “ter” e não o “ser”. É a Luz que cega, e não ilumina.

Interessante isso! Lúcifer, o Portador da Luz se torna a Luz que cega, e – em contraposição, falamos de Cristo como a Luz do Caminho, a Luz do Mundo.  Portanto, como já dizia a antiga sabedoria celta, há duas luzes: a que ilumina e a que cega, mas são luzes! Uma ilumina a vida, outra gera as trevas da cegueira.

Que temos com isso?
Fala-se pouco ou nada do diabo hoje em dia; quando se fala, lhe é dada mais importância que merece, usando-o como ameaça e criando pavor nas pessoas. Parece que as igrejas esqueceram que existe uma realidade diabólica que se projeta em oposição à Vontade Soberana de Deus, em nível da vida pessoal e da vida social. Dá-se ênfase ao terror ou então ao social, esquecendo que um cristão é um ser-em-relação com Deus e comunitário, um ser que experimenta a transcendência, uma pessoa que cultiva a espiritualidade, seja pessoal, seja comunitária; pelo menos deveria ser, pois sem essa relação com Deus, o ser cristão se torna apenas o ser adepto de uma filosofia mais ou menos humanista.

Assim, acredito que a simplificação ou a quase total exclusão do diabo na linguagem da pregação e do ensino cristão é também – em grande parte – responsável pelo esmaecimento da espiritualidade. Hoje as pessoas praticamente se dividem entre os piedosos realmente piegas, mais ligados a superstições, e os sem piedade pessoal, ativistas de uma mensagem ético-política.  Há pouca gente entre um extremo e outro.
Como se fala pouco sobre o diabo, fala-se pouco em conversão, palavra que que significa uma mudança de caminho, uma ruptura com o diabólico e um novo caminhar na direção de Deus em companhia de Jesus o Cristo.

Nós vivemos mergulhados em um modelo social onde o diabólico é muito ativo – de fato, coisa do demônio!  Mas além dos danos coletivos desse modelo,  não se deve esquecer do diabólico agindo em nível existencial, na vida de cada pessoa. Porque, gostemos ou não, o diabo existe e anda solto e reinando neste mundo, fazendo discípulos e seguidores, inclusive dentro das igrejas!

Reflita, meu irmão, minha irmã. Você já passou por situações de desagregação e rupturas; examine-se até que ponto você mesmo não as provocou, resultado de uma tentação aceita... dando lugar ao diabólico.

Tiago de Jerusalém, o irmão do Senhor, em sua Epístola às Igrejas da Diáspora, em certo momento, condenando a amizade com o mundo,  diz
“Portanto, sujeitem-se a Deus, mas resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês. Cheguem perto de Deus, e ele se chegará a vocês. Limpem as mãos, pecadores! E vocês que são indecisos, purifiquem o coração.” (Tiago 4.7-8 – Nova Almeida Atualizada/ S.B.B.)
Isso vale para todas as pessoas que se identificam como cristãs. Não é apenas aos ricos, ou aos poderosos, como se pobres e grupos oprimidos fossem inocentes ou isentos do pecado e do diabólico.

No seminário, um velho e querido professor,  já falecido, respeitadíssimo no meio teológico ainda hoje, nos dizia sempre: “uma das grandes artimanhas de Satanás é fazer-nos acreditar que ele não existe”. O professor falava isso como crítica a certos radicalismos teológicos que já estavam se manifestando nos anos 70 do século passado. E, devo dizer, esse professor não era um conservador, pelo contrário, era muito ousado em sua formulação teológica.  

Concluindo
Este artigo pretende ser, apenas, uma provocação. O tema precisa ser aprofundado do ponto de vista da teologia bíblica, da reflexão teológica séria, e – profundamente – em comunhão com a Pastoral e a Missão.
Deixo isso por conta dos teólogos profissionais, teólogos acadêmicos, para que se animem e apresentem à Igreja uma reflexão realmente útil sobre o diabólico e suas manifestações, e um chamado à conversão, porque – penso eu – a Teologia, se não servir à Pastoral e à Missão Evangelizadora, é apenas um discurso sobre uma realidade imaginária a partir de um texto sagrado.
Cristo, Deus Conosco, venceu o Príncipe deste mundo! com Cristo, e em Cristo, temos vitória! 
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