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20 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? ( 3. Retorno ao Movimento de Jesus)


 (continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? - parte 2)

O Cristianismo derivou do Judaísmo farisaico e desenvolveu-se apoiado na filosofia grega e no mundo bizantino. Assim, a maneira de pensar a Divindade é profundamente determinada pelo Antigo Testamento, na perspectiva helenista.

Hoje, por influência do “politicamente correto”, muitos teólogos cristãos tendem a definir o Novo Testamento como Segundo Testamento e o Antigo como Primeiro Testamento.

A pregação cristã, por sua vez, sempre proclamou que, em Jesus Cristo, celebra-se uma Nova Aliança. Então, sendo Nova, a velha acabou. Se é um Novo Testamento, o Antigo deixou de ser realmente um testamento. A ideia de Primeiro e Segundo Testamento é, no meu entender, absurda, porque faz dos dois uma coisa só.  Assim, enormes contradições aparecem diante dos olhos de quem ainda consegue manter o pensamento analítico crítico diante dos dogmas "infalíveis" das instituições religiosas.

Embora os acadêmicos apresentem argumentos contrários,  fundamentados em si mesmos, eu entendo que o Antigo Testamento precisa ser relido e interpretado a partir do Novo e não o contrário. Ou seja, deve-se considerar o AT como referência para compreender o processo da Revelação que se manifestou a partir de Jesus, o Cristo, o Logos Encanado.

Isso tem sérias implicações na Missão, no Testemunho e na Pastoral. 

Por que se perdeu, no mundo inteiro, a  vontade de conhecer o Evangelho? Por que as novas gerações não conseguem perceber no Cristianismo uma Boa Nova e vivem na permanente ansiedade sufocante pelo futuro, apostando no hedonismo de balada em balada? O mundo hoje assiste a morte da esperança, que – dizia minha mãe – é a penúltima que morre (a última morte é a de quem já perdeu a esperança)!

A resposta, penso eu, é porque a maioria dos paradigmas do Cristianismo (basicamente moldados pelo Antigo Testamento e pelo mundo helenista) não respondem às necessidades humanas deste tempo. Mas isto não é de hoje, já era percebido nas últimas décadas do século passado. De que Salvação se fala? Que Reino realmente se anuncia?

Onde está, na prática e no ensino das igrejas cristãs, a Ética de Jesus, o Cristo, a ética simples e clara do Sermão do Monte? Onde está o olhar amoroso e compassivo de Jesus perante os pecadores, os tristes, os doentes, os estrangeiros, os diferentes?

Retornemos ao Movimento de Jesus, à Ética de Jesus e tenhamos coragem profética de questionar e denunciar a moral hipócrita das instituições religiosas ditas cristãs. Nesse sentido, essa coragem é latente no Anglicanismo devido ao seu ethos construído historicamente.

Reflita sobre isso, e encontrará um caminho adequado para liquidar com os ideais de Cristandade que sempre foram opostos aos ideais de Jesus, o Cristo, Logos Encarnado. Ilumine a reflexão levando a sério o Evangelho (o texto joanino é uma boa inspiração... é a dica que deixo para vocês).

Avancemos rumo a uma teologia realmente da Encarnação. Deixemos de lado velhos paradigmas nascidos em outros tempos e culturas. Sejamos missionários, não colonizadores culturais! Busquemos construir comunidades solidárias, não uma massa de fiéis clientes seguidores e consumidores de magia disfarçada em religião.

Então as pessoas saberão que Deus é esse revelado em Jesus Cristo!

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11 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (2. A Busca pela Transcendência)

(continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? parte 1)

Restringindo-me ao Cristianismo, e aqui me refiro exclusivamente ao Cristianismo no Brasil, há dois polos básicos distintos que se excluem mutuamente: de um lado, uma perspectiva cristã que se apresenta ecumênica, inclusiva,  reconhece e respeita as diferenças, atua de forma cidadã e  defende princípios éticos na política; todavia, não responde às questões existenciais mais simples e não consegue consolar, animar a esperança... perde-se no ativismo inconsequente.

De outro lado, temos o cristianismo dogmático, fundamentalista, cheio de regras e preconceitos, que se preocupa com o “espiritual” (sem deixar claro o que isso seja) e transforma a imanência da vida (a realidade, o “mundo”) em inimigo a ser negado e derrotado. Consegue trazer conforto a custa da alienação absoluta e da domesticação da inteligência através da moral exigente, para garantir uma “vida eterna” após a morte, sem se importar com a vida que a maioria das pessoas vive, cujos problemas e sofrimentos  são considerados "provação" que deve ser aceita "com fé" para merecer o amor de deus, o seu deus cruel e pagão de sempre. 

Entre os dois polos, está a religiosidade popular, que se manifesta em muitos  matizes diferentes, vinculados à cultura popular, ao folclore. É onde se encontra a maioria da população. São as crenças religiosas populares, herdeiras de uma catequese pobre e superficial para cumprir os ritos iniciáticos, seja no Catolicismo Romano, seja nas diferentes linhas do Protestantismo. Com isso, o povo vai levando a vida, com sua fé e honestidade, sempre na perspectiva de “agradar a Divindade” para receber seus favores, como no Paganismo! Promove a separação entre a vida cotidiana (profano) e os momentos de reza, culto, devoção (sagrado); recebe grande influência do Kardecismo e tradições africanas, criando sincretismos religiosos. Em muitos sentidos é uma expressão do conservadorismo e facilmente se alia aos grupos mais dogmáticos e fundamentalistas.

As facilidades de comunicação disponíveis atualmente, revelaram outros modelos religiosos e  muita gente foi buscar tais alternativas, mas a grande maioria ainda permanece no tradicional coquetel religioso da cultura brasileira.

O Islamismo, com suas diferentes nuances e ênfases, tem sido uma alternativa para pessoas cansadas do dogmatismo tradicional cristão, mas defrontam-se logo com um dogmatismo semelhante, além do que o Islã pressupõe uma disciplina que é estranha à cultura brasileira. 

Percebo no Budismo uma alternativa onde a Divindade não é necessária, e tem se tornado um caminho de espiritualidade para algumas pessoas que abandonaram o Cristianismo.  Para elas, especialmente aquelas com formação superior, o Budismo aparece como uma filosofia de vida sem necessidade de doutrinas sofisticadas e práticas rituais complexas. Por não estar centrado em uma Divindade específica, o Budismo permite maior liberdade de pensamento.

Para a pequena parte da população que ainda consegue pensar de forma independente, não há muitas alternativas. Talvez isso explique o ressurgimento do Deísmo, fruto do Iluminismo, divulgado por pensadores como Voltaire, por exemplo, e sendo radical no pensamento de Baruc Spinoza (que era judeu) sobre Deus. Em outras palavras, Deus existe, mas não se envolve. A vida humana transcorre sem necessitar que Deus faça qualquer coisa.

A partir das últimas décadas do século passado, surgem novas perspectivas de busca da transcendência, de certa forma similares ou próximas ao Deísmo. 

Movimentos unitários, que se apresentam pouco preocupados com sistematização doutrinária, tentam formulações consistentes a partir das tradições religiosas, especialmente a partir do modelo monoteísta judaico-cristão. A ênfase não é no sistema de crença, mas no convívio e partilha da vida, suas dores e alegrias, na solidariedade e compaixão, em busca da transcendência. Evitam a linguagem religiosa tradicional, mas mesmo assim têm um discurso religioso sutil. Tem atraído os desigrejados, gente que procura viver a fé sem se vincular à instituições e padrões.

Particularmente, desconfio disso pois seus missionários têm vindo dos EUA. Todavia, se caracteriza por pequenos grupos (pelo menos por enquanto) que se reúnem para compartilhar, orar, estudar, enfim, experimentar o convívio comunitário de forma saudável e sem imposições de usos e costumes. Ainda é um movimento inicial no Brasil, mas provavelmente, caso avance, acabará se institucionalizando (já está institucionalizado nos EUA, o que me causa incômodo, pois se assemelha a "mais uma igreja",  sutilmente proselitista, que usa uma linguagem diferente para afirmar-se como "nova forma de espiritualidade").

Na mesma direção, mas sem identidade estado-unidense, está a Fé Bahá'i, que vem crescendo no Brasil. Sua ecumenicidade notável, sua organização, tem reunido pessoas de bom senso e desigrejadas, desiludidas com o Cristianismo. 

A busca pela transcendência continua. A sensação de que há algo além da realidade tangível inquieta e exige que se pense nisso e se busque alternativas. Infelizmente, o Cristianismo,  como tem sido construído desde  o século II após o Cristo, acabou deixando de ser uma alternativa saudável para a maioria das pessoas que não se contentam com o senso comum. A Boa Nova acabou silenciada de tal forma que não é mais perceptível ao ser humano ocidental neste século XXI.

===/=== (continua >>> veja postagem seguinte)

9 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (1. O terrível deus pagão do Cristianismo)

“O amor de deus é incondicional!" é uma das falas preferidas que pregadores cristãos gostam de usar. Não se dão conta que estão contradizendo o que eles mesmo ensinam há séculos: “temos de cumprir a vontade de deus!”, “temos de obedecer aos seus mandamentos!” e coisas semelhantes. Ou seja, se você não cumprir a “vontade de deus” ou não “obedecer aos mandamentos” você está lascado. Portanto, há uma condição essencial para merecer o “amor” de deus, que, portanto, é amor condicional. Em outras palavras, o deus do Cristianismo em nada difere dos deuses pagãos da antiguidade: é preciso agradá-lo, bajulá-lo. Para não sofrer castigo, é preciso fazer um sacrifício, uma penitência. Ou seja, esse deus impõe a justiça retributiva, como os antigos deuses pagãos.

Os pregadores afirmam, ainda, que “deus é onisciente”, mas se contradizem quando explicam “deus está testando a sua fé” para alguém que está sofrendo, doente, na solidão, enfim, nas circunstâncias tristes da vida. Ora, se é onisciente, porque precisa “testar”? E ainda ensinam que, se a “fé” fraquejar, lá vem a retribuição: você está lascado; não cumpriu a condição para merecer o "amor incondicional". Tal como os deuses pagãos.

Pior ainda é a afirmação que quando tal e tal coisa acontece é pela a vontade de deus. Vejo muitos agentes pastorais dizendo isso a quem está feliz, mas também para quem está em situações complicadas, ou vivendo o luto, ou sofrendo diante de sua própria fragilidade ("vamos nos conformar com a vontade de deus, há um propósito nisso!"). Que deus cruel é esse, cuja vontade é o sofrimento de alguém? Então para uns, a vontade de deus é bênção, para outros é maldição? Qual o critério para tal “vontade“ se manifestar de uma ou outra maneira?

Honestamente falando, o discurso do Cristianismo, desde há muito tempo, não difere de qualquer outro discurso religioso. Vejo as mesmas contradições em outras tradições. Ou seja, os deuses pagãos continuam imersos na cultura cristã. O Cristianismo criou outra nomenclatura para o que sempre existiu. Não há "boa nova" alguma!

Essas colocações, que se apresentam como fundamentais na “doutrina cristã”, reduzem a ética do Evangelho a rígidos preceitos morais, o tal do “isso pode, aquilo não pode”, o método predileto das elites para manipular as pessoas usando uma presumível culpa/julgamento/punição/penitência/perdão como argumento. O mesmo faz a maioria dos líderes religiosos; afinal, religião é uma forma de poder.

Sinceramente, atrevo-me a indagar o que realmente significa “salvação”, palavra sempre presente nas pregações “cristãs”. Salvação de quê? Nisso, o Cristianismo difere do Paganismo. Os deuses pagãos da Antiguidade não pretendiam salvar ninguém!

Por exemplo, judeus e cristãos adoram se referir à libertação dos hebreus quando escravos no Egito. O deus demorou 400 anos para ouvir o clamor do povo! Quatrocentos anos! Foram 16 gerações de escravidão. Ou seja, "deus tarda, mas não falha!" O problema é que enquanto ele tarda, a gente se lasca, e até morre sem saber se ele chegou mesmo.

Religiões monoteístas afirmam a existência de um criador de tudo que existe. Portanto, se o tal Inferno de castigos eternos existe, foi criado pelo tal criador. Por que o tal criador criou um local de castigo eterno? Teria a intensão de criar os que seriam castigados??? Para que?

As religiões institucionalizadas criam suas doutrinas e as atribuem à Divindade. Ou seja, as religiões criam uma “divindade” à imagem e semelhança do ser humano. Por isso, a “divindade” tem vontade, manifesta ira e afetomata e dá vidajulga, condena e mostra misericórdia; exerce justiça de forma retributiva. Os deuses pagãos tinham até tesão; o deus judaico-cristão é casto e não tem simpatia alguma para com a sexualidade humana; nisso também é diferente! 

As religiões negam a transcendência, reduzindo-a à simples imanência, cheia de normas morais criadas pelos que controlam tudo, definindo como deus age na relação com os seres humanos. 

Assim é o deus do Cristianismo que se ensina e se prega há séculos! um deus tão terrível quanto os antigos deuses pagãos, centrado em si mesmo, muito distante do Deus que Se revela em Jesus Cristo, o Deus que inspirou o Movimento de Jesus!

===/=== (continua) >>> veja postagem seguinte


24 de dez. de 2025

FELIZ NATAL? SIM! FELIZ NATAL!

Tratava-se de uma festa pagã, um culto ao Sol. Após Constantino, o Movimento de Jesus passa a ser controlado, amordaçado e se torna instituição, passa a ser instrumento do Império (hoje diríamos “aparelho do Estado”). Afinal, a religião é uma expressão de poder: o controle (e manipulação) das consciências.

É o começo da Cristandade, quando o “Cristianismo”, a nova religião oficial, se associa ao Império já decadente e começa a absorver sua base estrutural. Conversões em massa, disfarçadas de “missão”. são incentivadas a partir do poder imperial Os antigos santuários pagãos vão se transformando em “santuários cristãos”; os antigos deuses e deusas são substituídos por santos, santas, e a Mãe de Jesus, o próprio Jesus se torna ídolo. O paganismo ganha um novo nome: Igreja Católica, no Oriente e no Ocidente Imperial, desenvolvendo lutas internas pelo poder (como acontece em toda instituição e em todo império) e as disputas doutrinárias pelo controle da “verdade”. O Movimento não se move, perde sua originalidade, se torna um bloco sólido, em nome da unidade monolítica de afirmações doutrinárias inspirada na filosofia, perde noção da novidade e do desafio que representa o Evangelho. A Boa Nova deixa de ser boa, e nova; se reveste do mesmo de sempre com roupas remendadas.

A cultura popular vai absorvendo e assumindo as mudanças religiosas impostas; faz sua releitura, mas não adere ao Movimento de Jesus, o qual continua no pequeno mundo oculto das comunidades de fé. O movimento das pequenas e corajosas comunidades iniciais vai se transformando na massa que se chama Cristandade; mas a semente ainda permanece viva. Assim é o processo histórico da humanidade – a eterna tensão entre Movimento e Instituição.

De certa forma, isso acontece até os dias de hoje. O Império caiu (Impérios não são eternos), mas sua marca, sua essência, se manteve na cultura de boa parte mundo e na instituição eclesiástica, independentemente de sua denominação. No processo de expansão do poder europeu, a “missão” se confunde com o colonialismo.

Todavia, o Movimento de Jesus ainda existe, sempre existiu desde o tempo dos Apóstolos e Apóstolas de Jesus. O Movimento existe dentro da Instituição, existe dentro da massa, da mesma forma que o fermento está contido na massa – exatamente como Jesus havia dito. Em qualquer unidade da Instituição sempre há um pequeno núcleo de comunidade de fé, envolvido - mas não dirigido - pela massa da religiosidade supersticiosa.

De tempos em tempos, acontecem momentos de reforma e de mudança, e assim, o Movimento continua, embora acabe absorvido e reinterpretado pela Instituição; mas continuam a surgir núcleos de resistência! Porque movimento é ação do Espírito, que se move e vai aonde quer. Assim, dentro de toda denominação dita cristã, há o núcleo e o germe da Igreja de Cristo, há o Evangelho, a herança da primeira comunidade de pessoas que conheceram, e seguiram, Jesus, as primeiras testemunhas e guardiãs da Boa Nova.

Portanto, apesar do deus Mercado, que tornou o Natal uma festa ateia, apesar das hipocrisias festivas, apesar da pressão cultural e social, há sentido em celebrar o Natal, a Páscoa, as datas de memória do Movimento de Jesus. Pelo menos para os núcleos de comunidade que existem por aí, dentro e fora das Instituições Religiosas. O eclesial permanece apesar das tentativas do poder eclesiástico em controlá-lo.

Então, que se celebre o Natal! Com humildade, mansidão e misericórdia, se aceite a sinceridade das pessoas simples, que não conhecem a História, que foram ensinadas e convencidas pela religião a pensar e a manter suas crendices disfarçadas de Tradição. Há muita sinceridade apesar de tudo, há muita gente que não se esconde na hipocrisia. Há muita gente que, ao dizer “feliz natal!”, não está fingindo ou cumprindo um “dever social de boa educação”. O abraço é sincero, o presente é dádiva, e a tal da ceia, a festa, é momento de comunhão, não necessariamente religiosa, mas afetiva.

Olhe ao seu redor, talvez você veja o Logos Encarnado semeando o Mundo Novo que chamamos de Reino de Deus! Porque, como diz a música do Flávio Irala,

O cativeiro ficará apenas na memória 
dos povos de boa vontade numa nova história 
pois, um dia, uma estrela caiu num curral...
É Natal! È Natal!


Feliz Natal!

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5 de jul. de 2025

SOBRE MISSÃO - 5. Novas possibilidades: Desafios / Desigrejados

 

Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

Na postagem anterior comecei a apresentar o que considero como novas possibilidades para a Missão, nestes tempo em que o cristianismo parece perder o sentido. Assim, abordei o tema da Tradição. Agora, dou sequência ao que entendo ser as novas possibilidades.

2 - Dois desafios para a Missão

No processo de retorno ao Movimento de Jesus, temos de considerar situações bem específicas: 

2.1 - Recuperar a dinâmica de movimento e a mudança de paradigmas sobre a fé e sua vivência nas comunidades de fé existentes (vinculadas ou não a uma Instituição histórica). Ou seja, um processo de reeducação das comunidades existentes, para que compreendam e atuem como parte de um grande movimento evangelizador (anunciador do Reino de Deus – um novo mundo!). Não vou tratar disso aqui, mas é uma tarefa urgente: uma noiva catequese e um processo de educação cristã corajoso e insistente, buscando o real significado da Tradição.

2.2 - Buscar as pessoas ditas “desigrejadas”, e caminhar com elas, identificando seus anseios, suas frustrações e se apresentar como um espaço de cura e recuperação da esperança.  Uma atenção especial a esse grupo requer uma postura lúcida e renovadora.

3 - Pessoas Desigrejadas, Descrentes, Crentes Independentes, etc.

Essas categorias surgiram como tema sociológico (e teológico) mais recentemente, e cada uma delas é bem específica. Mas todas elas trazem, em seu inconsciente, a frustração com os modelos religiosos existentes. É preciso compreendê-las e colocar-se em diálogo com elas.

Não é uma fala apologética (apologias são monólogos), mas realmente diálogo (palavra compartilhada), sem preconceitos e sem segundas intensões de “conquista”.  Não mais o antigo desafio de “levar almas para Jesus”, mas ser sinal desse Cristo presente com essas pessoas, para que O vejam além das estruturas institucionais e doutrinárias. 

O diálogo deve partir do ponto de vista destas pessoas; não se trata de contradizer, mas considerar que tal posicionamento tem raízes que vão além de uma argumentação meramente racional. A negação da fé,  na maioria das vezes, advém da frustração de uma busca perdida, a busca pela transcendência. O que existe e é oferecido como resposta à essa busca, não satisfaz muitas pessoas que buscam com senso crítico. 

O problema é que, erroneamente, se leva o assunto para o campo filosófico, e então as respostas aparecem como doutrinas prontas; doutrinas dogmáticas. Exatamente o que aquelas pessoas NÃO estão buscando.

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22 de jun. de 2025

SOBRE MISSÃO - 3. Ecos da Cristandade hoje

Ainda hoje vemos a presença de conceitos típicos da Cristandade nas comunidades cristãs contemporâneas.

O paradigma para a Missão continua sendo o crescimento numérico da membresia, ou seja, o fortalecimento institucional, confundido com o conceito de “salvação para todas as pessoas”. 

Essa “necessidade de aumentar a clientela” cria situações que vão desde um radicalismo conservador extremo, passando por posturas mais liberais do ponto de vista comportamental, até modelos esdrúxulos de vida litúrgica e comunitária. Basta olhar para a maioria das denominações cristãs contemporâneas, cheias de novidades, vitrines simpáticas para atrair clientela, desde posturas morais superconservadoras até as mais aceitas como politicamente corretas (um conceito vago e ideológico, tão moralista quanto ao anterior, mais modismo que realmente posicionamento ético). Tudo depende do grupo que detém o poder institucional e do público-alvo como clientela.

Todavia, pouco se fala sobre o Evangelho do Reino, e se faz de Jesus uma espécie de super-herói, oposto ao galileu que realmente foi.

De uma forma ou de outra, permanece a ideia do “deus” justiceiro e castigador, que exerce a eterna vigilância sobre as pessoas, o “deus juiz implacável”, incapaz de qualquer demonstração de misericórdia, porque o critério é a justiça retributiva: “pecou, se lascou”! Também permanece a ideia do “deus” que testa a fidelidade dos seus “fiéis” através de situações de sofrimento, algumas além da capacidade humana de resistir; e, ainda, a falsa dialética de que se algo deu certo é porque “deus” abençoou, mas se deu errado é sua culpa por não ouvir a voz de “deus”. Ou seja, o mote do cristianismo tem sido, há séculos, a culpa permanente e o medo da “ira divina”!  Fica a pergunta subjacente: não seria esse o mote da maioria das religiões de massa?

Claro que não faltam textos inteiros na Bíblia que parecem afirmar a  culpa humana e a ira divina, possibilitando o grande repertório de sermões apelativos, principalmente hoje quando a pregação não se fundamenta na exegese, mas em atingir  emocionalmente as pessoas. Com a Bíblia, o texto pelo texto, se prova qualquer postura ideológica, à escolha do pretenso pregador.

Sendo hoje, desde Constantino, uma religião de massa, o cristianismo perdeu sua vocação profética de denúncia, anúncio e testemunho, reduzindo-se a uma proposta moral tacanha e hipócrita nas vitrines institucionais.

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Nota: este texto, assim como os dois anteriores, é parte de um artigo maior sobre Missão, ainda em fase de elaboração neste momento.

17 de mar. de 2020

Céu e Inferno

     Os cristianismos têm muitas contradições. Uso “cristianismos” porque existem vários. Não estou falando da Fé em Jesus Cristo, mas das diversas modalidades da religião chamada Cristianismo. Algumas dessas contradições são comuns a todas modalidades do cristianismo; outras se aplicam a algumas modalidades.  Não identificarei as modalidades neste artigo, pois seria emitir julgamento sobre modalidades que não conheço em profundidade, embora eu conheça várias; caberá ao leitor fazer tal identificação se sentir habilitado para isso.Vou falar de uma dessas contradições.
     O cristianismo é dualista; afirma a dualidade “Bem” e “Mal”, e define dois “lugares” para a “vida” após morte, a “vida eterna”: 
   O chamado Céu, “lugar” onde Deus habita, é reservado às pessoas que em vida cumpriram a vontade de Deus, arrependeram-se de seus pecados, etc.; um prêmio. 
O Inferno, todavia, é o “lugar” onde o Diabo vive e preside, é o lugar do castigo; lá Deus não está. 
Em outras palavras, isso se baseia em merito – os bons vão para o céu, os maus para o inferno – a cada um o que merece! Parece um critério de justiça humana… 
     Afirmam, a maioria dos pregadores e catequistas, que – segundo as Sagradas Escrituras – no “final dos tempos” (entendido como “final do mundo”) Deus estabelecerá seu Reino definitivamente. Lá viverão os fiéis, ressuscitados em um corpo excepcional, os que praticaram o bem e aceitaram a salvação através da morte e ressurreição de Jesus, reconhecendo-O como Senhor e Salvador.  Já os maus, os que recusaram a Salvação (e ai se enquadram todos os fiéis de outras religiões, inclusive), viverão para sempre no fogo eterno do Inferno.
     Algumas tradições, originárias da Idade Média, afirmam ainda que existem mais dois “lugares” onde ficam as almas que não foram para o Céu, nem para o Inferno, por diversas razões: o Purgatório – reservado para as almas dos que não tendo sido muito bons, precisam ainda sofrer penalidades para serem limpos (purgados) e ganharem o céu – e  o Limbo, onde ficam as almas dos nascituros não batizados (cujo único pecado é o herdado por serem humanos), os bons ateus e fiéis de outras religiões que se comportaram de acordo com os princípios morais cristãos.
     Embora “Purgatório” e “Limbo” não fossem reconhecidos pela Reforma, hoje, onde fazem parte da doutrina, não estão mais sendo citados… estão sendo abandonados mas não desmentidos!

1. Contradições
    Os conceitos acima relacionados provocam várias contradições. Vejamos algumas:
1.1 – Empate: se sobrarão o Céu dos bons e o Inferno dos maus, o jogo da história terminará empatado: Deus com seu reino celestial e o Diabo com seu reino infernal. Ninguém ganhou! Será traçado uma linha divisória entre os dois reinos… um abismo… de modo que quem está em um não poderá passar para o outro. O Bem e o Mal permanecem para sempre! Venceu a meritocracia, Deus e o Diabo estão felizes…
1.2 – Onipresença de Deus: se Deus não está no Inferno, então não é Onipresente, como afirmam os catecismos. Há um “lugar” onde Deus não está!
1.3 – Almas perdidas: o que acontece com o Purgatório e o Limbo, no final dos tempos? Em relação ao Purgatório, parece fácil: os que sobraram lá não completaram a purgação, portanto vão para o Inferno. Quanto ao Limbo, ou ele permanece (ficaria um terceiro lugar no final dos tempos) ou as almas ficam em lugar nenhum, perdidas sei lá onde. Fica a pergunta: Deus estaria lá ou não? Se sim, então as alminhas iriam para  Céu, não precisava do Limbo; se não, então as alminhas iriam para o Inferno, também não precisaria do Limbo… que confusão!
     Fiz tais perguntas quando tinha 11 ou 12 anos, em uma aula de religião no colégio dos Irmãos Maristas onde estudei. Realmente, eu estava muito preocupado com essas alminhas, pois havia perdido um irmão que morreu antes de nascer. O bom Irmão que lecionava a matéria disse que isso ficaria por conta da misericórdia de Deus e seria um mistério….
     Ainda bem que os Reformadores do século XVI recusaram aceitar tais conceitos …
2. Afinal, o que é Inferno?
     A palavra “inferno” deriva do latim “infernum”, que significa “as profundezas”, o “mundo interior”.  Deriva de “inferus” no latim pré-cristão, significando “lugares baixos”.
    Essa palavra latina  foi utilizada como tradução da palavra grega “Hades”, lugar dos mortos, nome também da divindade pagã que o governa, o deus Hades (Plutão dos romanos), entendido como local escuro e insalubre.
    Por sua vez, Hades foi a palavra grega que traduziu o termo hebraico “sheol” – lugar dos mortos, cuja origem é incerta, com hipótese de ter origem nas línguas dos acádios e sumérios. A Bíblia Hebraica usa o termo sheol (65 vezes) para se referir ao submundo dos mortos retratado como um profundo e escuro abismo. Na Bíblia o termo está estritamente relacionado a abismo e sepultura. Segundo o pensamento israelita antigo, o “sheol” seria um abismo escuro e silencioso situado nas profundezas da terra, para onde todas as pessoas iam depois de morrer. “Sheol” é também a “sepultura” ou “morada de todos os mortos indistintamente”. Não é um local desejável de se ir, exceto quando preferível a um grande sofrimento aqui na terra dos vivos.
    Na Bíblia Hebraica, bem como em sua tradução grega (Versão dos LXX), e no Novo Testamento (onde aparece como Hades) não há o ensino de que era um local de fogo e tormento dos maus como na ideia medieval (e atual) de inferno. Em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento, Sheol (no NT grego, quando não traduzido por Hades) também se refere o local onde era jogado o lixo das cidades, permanentemente ardente de fogo por motivos óbvios de saneamento. Talvez venha daí a ideia medieval de inferno, que perdura até hoje. 
3. Penas Eternas e Maniqueísmo
    Por se recusarem a aceitar o conceito de “penas eternas” muitas pessoas foram classificadas como hereges e foram punidas pelas respectivas denominações. Por isso, para não dar margem aos oportunistas que não gostam de mim, afirmo que CREIO nas penas eternas… (será mesmo? rsrsrsrsrs)
    A dicotomia Bem e Mal é antiquíssima: vem do mundo persa, do Zoroastrismo; em resumo simples, afirmava haverem duas divindades: a divindade do Bem e a divindade do Mal. Também dai derivam os fundamentos para o conceito de Salvação, comum a vários credos religiosos desde a antiguidade, passando pelo judaísmo e pelo cristianismo, incluindo o pensamento mulçumano e as especulações Kardecistas.
    No meio cristão esse dualismo é conhecido como Maniqueísmo, devido ao ensino de Manes (ou Maniqueu), filósofo persa do século III, que associou  o Bem a Deus e o Mal ao Diabo. Manes juntou conceitos do zoroastrismo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo, considerando Zoroastro, Buda e Jesus como "pais da Justiça", e pretendia, através de uma revelação divina, purificar e superar as mensagens individuais de cada um deles, anunciando uma verdade completa1.
    Embora repudiado como pensamento herético, o maniqueísmo se firmou de forma sutil no pensamento cristãos, servindo de referencial ainda hoje, e – inspirando interpretações da bíblia – acabou criando, no cristianismo, o triste conceito dualista de sagrado e profano, vida do mundo e vida do espírito, e ainda hoje muitos cristãos e cristãs se afirmam fugir do mundo para não se contaminar por ele… (contradição: Jesus orou ao Pai para não nos tirar do mundo, mas nos livrar do Maligno! – João 17).
    O pensamento maniqueísta gera um conceito de justiça significando castigo para os maus, criando assim uma escala de valores que hoje seria chamada de meritocracia. Nesse conceito, é justo que os maus sofram para sempre (sentimento de vingança!) e os bons sejam premiados. E o cristianismo foi criando uma enorme diversidade de “quem é mau”: os que não obedecem à Lei de Deus os que não aceitam Jesus Cristo, os que morrem em “estado de pecado” (quem define o que é pecado?), os crentes de outros credos, ateus, quem foge da “moral sexual”, e por ai…
    Assim, como Deus é justo, Ele pune os maus de forma cruel! sem misericórdia! Em total contradição com o significado de Justiça apregoado na Bíblia, que é sempre paralelo ao de misericórdia e  de graça. Quando ouço certos pregadores fazendo a apologia do inferno, especialmente condenando quem pensa ou se comporta diferente, penso cantar o Hino: “Tu é cruel, Senhor, meu Pai Celeste…” ao invés de “Tu és fiel…” Nesse caso, Deus não se diferencia do Diabo, o qual, aliás, seria mais bondoso, pois “premia” sem exigências…
     Na lógica maniqueísta, se os maus não forem castigados, que adianta fazer o bem?
4. Então, vai todo mundo para o Céu?
    Não penso assim! aliás, não penso nisso!
    Creio em Jesus Cristo e vejo seu Reino como horizonte utópico 2 , creio que o alegado “Tribunal de Deus” não se baseia em direito penal, mas em paternidade carinhosa e misericordiosa. Quanto aos mortos… e a vida após a morte… isso é simplesmente uma questão de fé!
    A Igreja dos primeiros séculos compreendia o “Inferno” como Hades. Assim, o Credo de Nicéia afirma que Jesus, depois de ser crucificado, desceu ao Hades (Inferno), não ao reino de Satanás, o qual foi vencido na Cruz.
    Para finalizar quero dizer que no NT há várias passagens que fala da morte eterna. em contraposição à vida eterna. Assim,  não se refere a Infernos, locais de castigo, mas simplesmente à não vida eterna. Ainda assim… parece meritocracia!
    Você dirá: se não há mérito, então por que fazer o bem? Porque, simplesmente, fazer o bem é realizar aquilo para que fomos criados por Deus: sermos bons porque Ele é bom! Fez algo mau? arrependimento, colocar-se diante do Senhor confessar e pedir perdão, quando possível, reparar o mal feito… pelo menos, pedir desculpas… e não fazer mais!
    Ah! vc é ateu? não crê em Deus? então perdeu tempo lendo este texto. I am so sorry!
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Notas:
1 - para mais esclarecimentos, pesquise ´na internet; o texto da Wikipédia é muito bom.
2u-topos: não lugar ainda; diferente de a-topos: nunca lugar.

21 de nov. de 2015

Pós-modernidade e Fé Cristã (I)

Society-of-the-spectacle

Não é fácil ser cristão nestes tempos pós-modernos.

Hoje as pessoas consomem  “produtos personalizados”, de forma hedonista e visando essencialmente sua autoimagem – narcisismo exacerbado! Iludidas com a ideia de uma pretensa “liberdade de escolha”, não percebem que a tecnociência, através dos meios mediáticos, programam todo o comportamento social em seus mínimos detalhes: desde o que é “certo” vestir e usar, até o “pensar”.

Não existem paradigmas, ou escala de valores. O indivíduo se torna fim em si mesmo, perde sua percepção social e seu horizonte histórico. Perde sua identidade à medida que necessita fazer um “self” a cada instante para dizer a si mesmo e aos outros quem é.

O sujeito hoje tem sua identidade fragmentada (esquizofrênica?); ele bebe a cerveja “X” (um “self” na rede social informa isso); come “sushi” no restaurante “Y” (outro “self”), faz compras na superloja “Z” (outro “self”), vai à praia “H” (outro “self”), quintas-feiras está na balada “R” (outro “self”), e seu filho fez cocô no colo da vovó pela primeira vez (um “self” com a criança e a fralda suja ao lado, no colo da avó constrangida)… e assim vai! O sujeito sente então que existe, que é alguém e que está por dentro de tudo; ele mede isso pela quantidade de curtidas que suas postagens recebem na rede social. É um sujeito inserido e atual. Vive feliz até a próxima crise de vazio (em cinco minutos) por falta de consumir alguma coisa e dizer para todo mundo que consumiu. 

Não é a toa que a Organização Mundial de Saúde prevê a Depressão como a maior epidemia global dentro de uma ou duas décadas, para a alegria dos laboratórios multinacionais que manipulam as drogas antidepressivas. Ou então, não duvido de nada, é bem possível que a mídia venha, com o tempo, apresentar as vantagens da depressão, insuflando assim o consumo de “turismos antidepressivos” e então milhares de selfs serão postados mostrando sujeitos curtindo sua depressão fazendo turismo em algum shopping no Oriente, comprando tudo que lhes é desnecessário, mas paliativos para a depressão epidêmica.

Melhor comprar que viciar em remédio”, vai dizer dona Maria de Tal, microempresária (faz coxinha de frango para festas), 35 anos, mãe de dois filhos (um adotado), à entrevistadora da Globo, contando que comprou seu turismo antidepressivo em 25 pagamentos sem juros no cartão – que aliás está em atraso, e por isso ela está deprimida.  Com certeza, o PT vai criar o programa Bolsa Depressão, afinal fluoxetina, bupropiona e escitalopram é direito de todo cidadão brasileiro. Claro que a direita vai protestar, afirmando que depressão não é coisa de pobre, e que, portanto, tem alguma jogada eleitoreira no lance… Porque os pobres não têm depressão, têm tristeza e frustração porque não podem comprar, e é bom que a polícia fique atenta porque vão querer assaltar…

Seja como for,  fato é que hoje vive-se de simulacros; abstrai-se a realidade que é transfigurada pela mídia, vive-se da fantasia e da vontade manipulada disfarçada de liberdade. Não há mais inteligência nem imaginação. Não se distingue verdadeiro do falso, vive-se do “achismo” onde todo mundo se sente do direito de proferir as verdades que “acha” serem verdadeiras e enchem de merda as redes sociais.

O volume de informação é enorme e, na verdade, vazio, pois a informação é tratada como mercadoria, que se consome.  Janta-se e assiste-se , com muita naturalidade  terroristas cortando cabeças na TV, e depois decide-se mandar umas garrafas de água para Minas Gerais, coitados, por causa do “acidente” das barragens de lama (mas tem de ter um lugar perto para recolher as ofertas, se não vai dar muito trabalho). 

De fato, não é fácil ser cristão hoje em dia. Aliás, algum dia foi? Fica fácil quando se vive o simulacro da fé expresso através do consumismo religioso – a fé como mercadoria, a graça deixando de ser graça para ser comprada e consumida!
Deus tenha piedade de nós!
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29 de dez. de 2014

O Logos (o Verbo) e a Festa de Mamona

jesus nascimento
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. […] O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Ev. de João 1.1-5, 10-14 – Almeida, R.A.)

“Verbo”: do Latim, Verbum (= palavra); do Grego, Logos (λόγος), palavra. No grego, significa a palavra escrita ou falada; mas os filósofos gregos, com o tempo, estenderam o significado tendo o Logos como a razão ou o princípio de beleza e de ordem cósmica: a própria essência do universo.

No Evangelho de João, os manuscritos mais antigos, em grego, dizem “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus” (1.1), (em grego εν αρχη ην ο λογος και ο λογος ην προς τον θεον και θεος ην ο λογος).

Por isso, algumas edições contemporâneas da Bíblia adotam tradução mais literal e trazem “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus…”

O início do texto, “No princípio…”, recorda o primeiro capítulo do Gênesis, no Antigo Testamento: “No princípio, criou Deus os céus e a terra. […] Disse Deus: Haja luz; e houve luz. […]”. Deus fala (pronuncia a palavra! = Logos) e tudo se cria. Ou seja, o início do Evangelho de João nos remete à narrativa da Criação, onde é a Palavra de Deus que cria o universo!

[Astrofísica à parte, não estou tratando disso! estou falando de um texto! os idiotas logo vem perguntar se eu “acredito” no que diz Gênesis, e eu respondo “eu creio” (o que é diferente de “eu acredito”), mesmo quando eu atuava como físico lidando com galáxias distantes muitos milhares de anos-luz da Terra; e explico que o “Big Bang” ou qualquer outra teoria plausível não é, para mim, a Palavra dita por Deus! os idiotas, que buscam coerência racional em tudo e não têm sensibilidade sequer para poesia, não entendem e fica por isso mesmo!]

João identifica essa Palavra Criadora com o Cristo de Deus, o Logos Encarnado: “E o Verbo (Logos) se fez carne e habitou entre nós, … ”!
Problemas exegéticos e hermenêuticos à parte – deixemos isso para os “nerds” da Teologia, quero focar o texto de João 1.1-14 na perspectiva da minha fé e, a partir dai, olhar a realidade ao meu redor. Neste terrível tempo natalino, ler João é uma excelente vacina contra a hipocrisia generalizada que nos assalta a cada instante.
 
No sermão de Natal em minha paróquia (São Paulo Apóstolo, Santa Teresa, Rio de Janeiro) eu disse que “… dezembro é o mês mais estressante e hipócrita do nosso calendário…”. É, de fato, um mês terrível: tudo fica muito complicado, a vida urbana se torna uma sucessão de aporrinhações e as pessoas se estressam por causa das “festas”, com a obrigação imbecil de “dar presentes” (e com a terrível esperança de “ganhar presentes”). O consumismo de inutilidades sobe exponencialmente, e a hipocrisia alimentada pela mídia inspiradora do consumo, caminha com toda a liberdade entre nós.

Aquela rede de TV de índole diabólica, coloca no ar aquela música totalmente insonsa de conteúdo raso, “Hoje é o novo dia de um novo tempo que começou…” , para em seguida anunciar o mesmo de sempre… e os jornais e toda a imprensa estão ai para dizer que não há novo dia algum, novo tempo algum, e que “tudo está como antes no quartel de Abrantes!”
 
A massa populacional se estressa nas “compras” e hipocritamente todas as pessoas se tornam boazinhas, de coração aberto, desejando “feliz Natal e feliz ano novo” até àquelas pessoas que passaram o ano odiando e tratando mal (e vão continuar fazendo isso no tal “novo ano”!). O décimo terceiro salário vai embora pelo ralo da futilidade, e a dívida do crediário, do cartão de crédito, se torna presente no decorrer do novo ano… que não será feliz… porque será sempre igual… e o comércio reclama que as vendas caíram em relação ao ano passado, e a culpa é da Dilma por causa da Petrobrás…

Assim, o Natal, que se originou de uma festa pagã celebrando o Sol Vitorioso – marcando o Solstício de Inverno do hemisfério Norte, incorporada pela Igreja desde sua antiguidade justamente porque entende Jesus Cristo como Sol da Justiça e Luz do Mundo – continua sendo uma grande festa pagã!
 
Eu acho profundamente cômicos os tais votos natalinos e de ano-novo, especialmente um que é muito usado: “Muita paz, alegria, prosperidade, saúde… saúde é que é importante, não é verdade? porque tendo saúde o resto a gente luta pra conseguir…” (apesar do SUS!) – como a gente sabe que paz, alegria, prosperidade é alguma coisa que pouca gente consegue, por mais que lute, então se insiste na saúde como prêmio de consolação…(afinal, o sistema não pode permitir que todo mundo se dê bem, porque o sistema é para que alguns se deem muito bem à custa do resto).

Para disfarçar o caráter mundano do tempo natalino, praças, lojas, bancos e até a cadeia pública, exibem presépios onde um bebê loiro de olhos azuis, com jeito de idiota, cercado por uma mulher com cara de inocente e um velho abismado, todos devidamente caucasianos, tendo em volta um burro, uma vaca, algumas ovelhas e alguns pastores palestinos brancos (uns até de olho azul)… O Presépio, ideia do Pobre de Assis para reviver simbolicamente o Nascimento do Cristo com os seus pobrezinhos e leprosos, o Presépio exibido nos templos de Mamona, de Baal, onde o sangue é exaurido através do consumo histérico! Isso sem contar a figura do São Nicolau, travestido de velhinho bondoso com roupa inspirada na Coca-Cola, patrono das compras absurdas…

Nas redes sociais, pessoas demonstrando um elevado nível de consciência, querem lembrar a todos do “Aniversariante”… mas acabam na mesmice dos votos vazios e das palavras enjoativas de tão doces…

Quase ninguém se recorda, na verdade, que o Logos veio habitar entre nós, que há uma Luz brilhando nas trevas (e não é a estrela do topo da árvore de natal)… como disse João, já naquele tempo, como no tempo de agora, “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”.

O Logos, o Cristo, o Senhor do Universo, ali, na fragilidade de absoluta dependência de uma criança recém nascida… cheio de graça e de verdade! Ele se rebaixa ao totalmente humano, para que o humano não se separe mais do absolutamente Divino (cf. Filipenses 2.5-11)! Deus conosco sempre (Emanuel)!

Por isso, eu dou mais importância à Festa da Anunciação, quando de fato se celebra o Logos se tornando carne em Maria. Pelo menos, ninguém vai me cobrar um presente nesse dia, nem vai ter de se aporrinhar para me dar um presente… Nem temos de hipocritamente desejar felicidade a todo mundo… Quero apenas celebrar o que tento ser: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”

Nos versos do Flávio Irala, ost , agora Bispo na Igreja de Deus (que Deus seja misericordioso e o inspire!), a única razão para celebrar o Natal é que:
“O cativeiro ficará apenas na memória / Dos homens de boa vontade, numa nova história, / Pois um dia uma estrela caiu num curral:/ É Natal! É Natal!”(Nova Canção de Natal, Flávio Irala)
O resto… é mera idolatria, ideologia… e, claro, hipocrisia!

“Feliz Ano Novo”, se é que isso faz algum sentido para você!

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30 de nov. de 2012

Comunidade ou clientela?

Rev. FulanoMuitas vezes aparecem pessoas visitando a São Paulo Apóstolo, e travam comigo ou com alguém um diálogo assim:

“_ Esta igreja aqui é a mesma do Rev. Fulano, lá de (cidade)? a gente é de lá, frequenta lá. É que disseram que é a mesma!”

“_ Sim, é a mesma Igreja, somos parte da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil”

“_ Não sei se é essa, mas é a mesma coisa né? porque a gente gosta muito do Rev. Fulano, sabe, né, ele é muito bom, faz muita coisa boa!”

“_ Sim, eu sei…”

“_ Mas é tudo igual à igreja de lá, né?”

“_ Vocês são Episcopais Anglicanos?”

“_ É, acho que é isso, Anglicana, né? mas é a igreja do Rev. Fulano, em (cidade). A gente gosta muito dele, sabe? ele fala bonito, muito espiritual, e faz muita coisa boa pros outros…”

“_ Sei…”

“_ Aqui não tem muita gente, né? é que lá todo mundo gosta do Rev. Fulano… muita gente vai lá… ele é muito conhecido, né? Inclusive ele casou o Vice Síndico do meu prédio e batizou o filho da amiga da minha prima de segundo grau, foi assim que a gente conheceu ele.”

“_ Sei… mas vocês são bem vindos, em nome do Senhor Jesus Cristo!”

“_ Como é mesmo o seu nome? é que a gente quer telefonar lá pra Igreja do Rev. Fulano para ter certeza que é a mesma coisa; é que não é igual, sabe? lá não tem aquela coisa ali na mesona…” (ou “não tem vela”, ou “tem muito mais vela”, ou “tem a foto da avó do Rev. Fulano com ele no colo quando bebezinho, no lado do altar” – coisas desse tipo).

Já ouvi isso em outras comunidades onde trabalhei, e mesmo no meio ecumênico, gente que se refere à uma Igreja ou uma Denominação se referindo a um determinado pastor (vi isso em diferentes denominações).

Uma das coisas que sempre peço a Deus em meu ministério é que a Paróquia onde sirvo não venha a ser conhecida como a Igreja do Rev. Caetano, para que eu não peque por Soberba ou Orgulho. Eu pretendo servir ao Povo de Deus em Cristo, na comunidade episcopaliana onde esteja servindo e exercendo meu ministério, em comunhão com o Bispo Diocesano, e não a uma clientela que me idolatre! Eu tento sempre apontar ao Senhor, não a mim mesmo.

É o Espírito Santo de Deus quem deve fazer a Igreja, não a minha simpatia pessoal ou as sugestões do meu personal promoter, ou a minha enorme capacidade de bajular quem aparenta ser “pessoa de bem” (bens!).

É claro que as pessoas têm no pastor sua primeira referência, especialmente se são novos na comunidade. Mas o convívio com a comunidade acolhedora, a pregação, o ensino e – principalmente o não ter pressa para confirmar ou receber formalmente em comunhão uma pessoa a fim de mostrar crescimento estatístico – deve fazer aos poucos  que as pessoas se identifiquem com a Comunidade, e com a denominação. 

Que Deus me ajude! e que Deus salve a Igreja dos que se autopromovem usurpando o nome do Senhor! daqueles que, ao divulgarem a si mesmos, pensam estar divulgando a Igreja e o Evangelho, nas relações pessoais e, principalmente na mídia.

Como disse o Apóstolo São Paulo, “ […] de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. (1. Cor 3.7)

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19 de set. de 2012

Eu não sou “anglicano”!

Já fui! não sou mais! Prefiro ser o que era antes, desde que entrei na Igreja, que na época chamava-se Igreja Episcopal do Brasil (IEB), e alguns anos antes do meu ingresso ainda era Igreja Episcopal Brasileira. 

Sou Episcopaliano, ou como se dizia antigamente, sou Episcopal.  Estou com saudades da Igreja que eu conheci e que hoje parece estar moribunda!

Saudosismo decorrente da idade? Não! indignação por ver deteriorarem-se os valores que tocaram meu coração e me fizeram um apaixonado pela Igreja Episcopal, meu espaço de comunhão íntima com Deus, em comunidade!

(Aqui novamente peço a compreensão dos leitores não episcopalianos ou anglicanos por tratar de um assunto muito específico… mas talvez essa reflexão possa ajudá-los a refletir sobre suas próprias denominações)

O problema é que sob o substantivo (ou seria adjetivo?) “anglicano” se identificam muitas coisas, denominações e seitas, e adjetivos complementares sem qualquer nexo (anglo-qualquer-coisa)! Ou seja, não sei mais o que significa “anglicano” hoje! Antes era uma Comunhão! mas agora parece ser uma confusão!

Não nasci na Igreja Episcopal, mas a descobri por indicação de um Bispo Romano, amigo de minha família, aos 19 anos. Conheci a Igreja Episcopal e nela encontrei acolhida e espaço para desenvolver minha espiritualidade de recém convertido a Jesus Cristo, isso há 43 anos. Cresci muito na minha fé e espiritualidade graças à saudável combinação de Sacramento e Palavra, Liturgia e Escritura. Fui me tornando episcopaliano lentamente, de forma sadia, descobrindo as imensas riquezas da Igreja em sua diversidade. Não havia a frieza protestante da concentração racional na Palavra, nem o vazio de conteúdo dos ritos romanos cujos padres, à época, tratavam o povo como criança nos “sermões”.  Aprendi a conviver com os diferentes dentro do espírito de comunhão em Cristo e pertença a uma Comunidade cuja diversidade é sua identidade.

As diferenças não eram partidarismos, mas expressões de diferentes maneiras de viver a espiritualidade cristã, e isso não criava muros de separação nem de discriminação. Convivíamos todos em meio a um saudável clima de amizade solidária e bons debates teológicos sem que houvesse qualquer teor de personalismos e individualismos. Ninguém se autoproclamava dono da verdade, mas a Verdade se expressava em meio à diversidade de compreensões e experiências.

Era uma igreja ufanista, infantilmente ufanista! não era um ufanismo de poder, mas de imitação e auto identificação com a Igreja dos EUA; mas, ao mesmo tempo, havia o fato que, em nosso meio, todos eram bem acolhidos – antes mesmo de inventarem a tal inclusividade. Uma Igreja que crescia lentamente pela adesão de pessoas inteligentes que buscavam uma alternativa de vivência cristã engajada e espiritualidade solidária. Havia muitos problemas, falta de visão e planejamento e alguns personalismos, mas isso não nos afastava uns dos outros. Nós brincávamos com as nossas diferenças em clima de real amizade e verdadeira solidariedade. Nas reuniões litúrgicas ou de estudo das diferentes comunidades percebia-se claramente forte piedade e senso de compromisso.

Eu costumo dizer – e isso aprendi com meus mestres – que o nosso “ethos” não se aprende pela razão através de manuais ou confissões doutrinárias, mas através da vivência com a diversidade da Igreja, tendo o Quadrilátero de Lambeth-Chicago como pano de fundo. Apesar de toda pompa que havia em alguns cerimoniais das comunidades mais litúrgicas, havia uma simplicidade que se traduzia no acolhimento carinhoso de todos por todos. E apesar da simplicidade de comunidades mais próximas ao universo protestante, havia uma profunda piedade e reflexão a partir da Palavra de Deus e da Tradição Cristã com suas muitas vertentes. 

O clero não era arrogante, mas quase todos eram bons pastores, curas de almas como se dizia. Os Bispos eram homens simples, próximos, com senso paternal e ao mesmo tempo exerciam sua autoridade de forma segura e madura, embora em sua grande maioria tentassem centralizar a administração e não estavam preparados para isso; todavia, não estavam contaminados pelo espírito de príncipes ou da verticalidade hierárquica romanista. A Igreja se expressava através das dioceses, e o conceito de Província era muito mais um símbolo de unidade eclesial que burocracia estrutural eclesiástica e curial!

Como na maioria das Igrejas Históricas, a reflexão teológica existia e se expandia a partir do Seminário, ao qual fui admitido como estudante avulso (e pagava regularmente minha mensalidade sem descontos) quase ao mesmo tempo em que fui recebido na Igreja, porque eu pretendia estudar Teologia e buscar horizontes vocacionais – razão pela qual o Bispo amigo de minha família, um bom pastor, me sugeriu conhecer a Igreja Episcopal. O STIEB (Seminário Teológico da Igreja Episcopal do Brasil), na época sediado em São Paulo, era espaço ecumênico por excelência, tanto em nível docente quanto discente.

O lento aprendizado sobre o ser da Igreja Episcopal (“ethos”), a sabedoria pastoral do clero e dos Bispos com quem convivi, em verdadeiro espírito de companheirismo, fez minha vocação amadurecer por 14 longos anos de postulantado, mais um ano como Candidato às Sagradas Ordens. O fechamento do Seminário complicou minha formação teológica regular, mas graças ao carinho dos antigos professores e do Bispo Takatsu, fui estudando Teologia em diferentes instituições, e no então nascente IAET, sob a tutela do próprio Bispo, sempre às minhas próprias expensas (nunca fui bolsista da Igreja). Na mesma época eu estudava filosofia, economia e depois matemática;  trabalhava para me manter (fui analista de sistemas da primeira geração no Brasil); militava no movimento estudantil e no movimento ecumênico que era pouco institucional. Tempos da repressão e da ditadura militar, a Igreja (a bem da verdade, uma boa parte das Igrejas, não só a IEB) era espaço de resistência política, de reflexão ética e também de refúgio para os perseguidos.

Os tempos mudaram, a Igreja também…

Perdemos, cada vez mais, o senso salutar de diversidade em comunhão; aquilo que deveria ser simplesmente estilo e ênfase decorrentes de uma vivência pessoal ou comunitária ("churchmanship") vem se tornando movimento partidário provocador de desunião e antipatias, sendo profundamente segregacionista; já nos trouxe um cisma (Recife) e nos coloca sob risco de outros.  Tenho visto clérigos e seminaristas assumindo modismos e "tradições" sem realmente terem clareza do conteúdo - muita pompa e pouca igreja! Aproveitando uma ideia de Kierkegaard,
“A fé não é, pois, um impulso de ordem estética; é de outra ordem muito mais alta, exatamente porque pressupõe resignação. (...) Pois é necessário possuir força, energia e liberdade espiritual para efetuar o movimento de fé.” (in Temor e Tremor)
tenho para mim que preocupações exageradas quanto à forma indicam pouco ou nenhum conteúdo...

O problema da IEAB, e das Igrejas Históricas em geral, é que estão se tornando Igrejas Histéricas e Estéreis (e incluo também a Igreja de Roma) diante da onda neoliberal do individualismo e da prosperidade a qualquer preço. As Igrejas tentam compreender e enfrentar o mundanismo da pós-modernidade a partir de análises “científicas",  esquecendo-se que antes é preciso colocar-se de joelhos, e clamar pela Luz que vem do Alto...

Precisamos recuperar o senso de piedade salutar, ao invés de buscarmos modismos estéreis; deixar de catar a esmo riquezas do baú da Tradição Herdada sem refletir sobre as origens da Tradição; e parar de brincar com identidades que mal compreendemos ou são estranhas à nossa história e formação cultural como brasileiros e membros de uma Igreja que se enquadra historicamente no conceito de Protestantismo de Missão, embora tenhamos algo a ver também com o Protestantismo de Imigração, especialmente na região de São Paulo e Norte do Paraná (comunidades de origem japonesa).

Aposta-se hoje no crescimento da Igreja em termos da quantidade de gente atraída pelos artifícios do “marketing da bênção” e da venda de sacramentos para a vaidade da classe média decadente (“casar na Igreja do casamento do Príncipe!”), crescimento rápido sem conteúdo, clientela consumidora de rituais e de personalismos clericais ao invés de fiéis a Jesus Cristo. Há uma necessidade de expandir o mercado e atingir novas clientelas, bem de acordo com a proposta do neoliberalismo que assola o mundo. Tudo isso em busca de “recur$o$”  para garantir a sobrevivência de uma instituição que, nos últimos 35 anos, foi incompetente na gestão do enorme patrimônio legado pelas gerações passadas!

Eu entendo que a IEAB precisa se libertar de estruturas tacanhas que servem a interesses pessoais no "jogo de poder" insensato. É necessário fortalecer os ambientes diocesanos ao invés de, por exemplo, uma pretensa cúria nacional centralizadora e altamente estruturante que pretende vincular a si toda as articulações e ações da Igreja; o conceito de Igreja Nacional, na tradição que herdamos dos nossos fundadores diretos (missionários da hoje TEC – The Episcopal Church, E.U.A.), é mais voltado ao senso de unidade solidária que estruturas burocráticas. 

Note-se que a própria TEC está revendo suas opções estruturais retornando gradualmente ao conceito fundante do séc. XVIII: Igrejas Diocesanas com forte senso missionário, abrindo mão da enorme estrutura, caríssima, que por muitas décadas desenvolveu. Interessante ver esse senso de autocrítica na TEC, um exemplo para sua mais dileta filha na América do Sul... O excesso de burocracia estrutural, naquilo que deveria ser infra-estrutura, acaba gerando espaços ilusórios de centralização do poder em diferentes níveis e cultivam a cobiça...  (sobre isso veja meu relatório transformado em documento conciliar da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, datado de 2011 < clique aqui > 

Eu gostaria de propor que tivéssemos oportunidades de encontros do clero, em caráter sacramental, não para ouvirmos sumidades teológicas, sociológicas, técnicas ou de caráter social, mas como oportunidade de partilha em oração, intercessão mútua, troca de experiências pastorais e dividir a carga entre nós todos, não deixando apenas nas costas do episcopado, "suportando-nos (dando suporte) uns aos outros em amor..." (cf. Efésios 4.2).

Eu até estava me animando com a ideia de um futuro Encontro Nacional do Clero, mas isso acabou se tornando um evento formal, criado pela boa vontade de algumas pessoas, mas dentro da estrutura burocrática e hierárquica, com uma agenda elaborada a partir de velhos paradigmas. Eu esperava que houvesse um processo a partir dos grupos clericais locais e diocesanos, para exercitar a partilha e a convivência fraterna há muito perdida, até chegarmos ao momento da partilha ampla e nacional; um processo que estava surgindo de forma espontânea mas que foi atropelado pela burocracia institucional viciada em fazer as coisas estruturalmente, apesar da boa vontade e boa intenção das pessoas que tomaram à frente na organização do evento. Agora teremos mais um evento na agenda da estrutura nacional, profundamente artificial, do qual não me sinto animado em participar: já tem até uma agenda de atividades totalmente elaborada, tudo muito bem enquadrado… não questiono a boa intenção, mas a forma como a coisa foi encaminhada,

Parece que a Igreja, orgulhosamente auto identificada como “anglicana” e lamentando a existência de tantos outros “anglicanos”, acabou perdendo sua identidade mais original, de comunhão na diversidade, de autoridade dispersa e compartilhada, de vocação profética, de dons e ministérios geridos pelo Espírito Santo que – na minha maneira de percebê-Lo – é adverso a toda burocracia, pois sopra onde quer! (será que estou ficando pentecostal??? em tempos de neo-pentecostalismos histéricos, é até profético ser pentecostal!).

A Igreja está se perdendo na confusão dos partidarismos e da mesquinharia personalista de disputas internas: o poder não para o exercício da autoridade como serviço, mas como afirmação de poder pelo poder! E ninguém se dá conta que tal poder é tão ínfimo e sem consistência a não ser a ilusão da pompa e da circunstância!

Com tristeza leio Amós 4.4-13 e vejo ai um paralelismo com nossa história mais recente; temos deixado de lado a oração e a penitência, a busca de Deus e a santa obediência, seduzidos pelo demônio do sucesso a qualquer preço aliado ao desespero da auto $ustentação! Nessa busca desesperada, caçamos inspiração não em nossa própria Tradição, mas na cópia de receitas pouco salutares dentro do baixo evangelicalismo ou em imitações tacanhas de um romanismo velho e caduco, cheio de símbolos vazios, deslocados de nossa realidade e história, tudo para aumentar a clientela.

Mas eu confio no movimento do Espírito. Deus está se movendo e não nos deixará naufragar no mar de nossas própria confusões. Portanto, preparemo-nos todos para encontrarmo-nos com nosso Deus e Senhor (cf. Amós 4.12), mas confiemos também em Sua misericórdia e promessa quando afirmou que estará conosco para sempre (Mateus 28.20).

O Espírito Santo nos impele novamente a buscar as Escrituras e a estudar a Tradição Herdada, não como estética, mas como conteúdo reflexivo da caminhada de 20 séculos feita pela Igreja de Cristo entre acertos e erros, sempre sob a proteção de Deus e rendida (nem sempre) à Direção do Espírito Santo que nos foi enviado pelo Pai e pelo Filho!

Quanto a mim, não sou “anglo-isso” ou “anglo-aquilo” ou ainda “anglo-aquilo-outro”. Estou voltando a ser, cada vez mais, um Episcopaliano sem adjetivos complementares, como eu me tornei desde quando optei pela Igreja Episcopal e nela fui acolhido com carinho pastoral e solidariedade. 
Amém!
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13 de abr. de 2012

Velhos paradigmas fantasiados de novos.

Quaresma 3

È urgente buscar novos paradigmas para sermos uma Igreja Encarnada.

O modelo tradicional de se organizar a Igreja ao redor da vida no templo (paróquia), por exemplo, é uma visão rural de igreja, onde a comunidade dispersa se reúne no templo para o convívio, a troca de experiências, o estudo da Palavra, a oração comunitária; o senso de pertença se caracteriza pela presença na comunidade, na interação social entre os fiéis.

Hoje a humanidade se concentra nas grandes cidades, onde a dinâmica da vida, marcada pela pressa e pela velocidade da informação, desestimula o convívio entre as pessoas, menos para o lazer. Vive-se o estresse diário diante das enormes exigências do cotidiano, reforçado pelas dificuldades de locomoção (trânsito intenso, transporte público deficiente), a permanente cobrança pela eficiência no mercado de trabalho, e as próprias exigências desse mesmo mercado. Assim, o pouco tempo que resta para o convívio se resume na “balada”, no “sair para curtir alguma coisa”, sem tempo ou disposição para uma verdadeira partilha existencial. Relações frugais em um universo urbano marcado pelo individualismo e pela concorrência forçada de ser melhor que os demais.

Na contrapartida, velhos paradigmas continuam se afirmando disfarçados de “crescimento da igreja” a custa de filosofias que incitam o consumo religioso, como por exemplo, a ideologia da prosperidade, que insistem chamar de teologia – o que não é,  o discurso neoliberal levado ao extremo enquanto posicionamento religioso. Um discurso essencialmente promotor do moralismo individual e do “toma lá, dá cá!”, velha crendice em um deus ex machina que se move atendendo a vontade humana mediante o “pagamento” de promessas, votos, agora expressos em doações financeiras para sustentar os espertinhos que pirateiam as emoções das pessoas desnorteadas diante da dura realidade urbana.

Entretanto, estes velhos paradigmas se disfarçam de algo novo, incorporando uma característica da pós modernidade: o individualismo marcado pela liberdade de não criar vínculos institucionais. Frequenta-se tudo, sem pertencer-se a qualquer coisa.

Há uma resistência quase inconsciente a filiar-se a uma instituição, especialmente de cunho religioso. As mega-igrejas de mercado não apelam para a adesão institucional, mas para o “frequentar”. É a lógica do supermercado: o importante é que a clientela frequente a loja,e – naturalmente – compre! O “crescimento da igreja” é medido pela frequência e não pelo compromisso, resultado da conversão ao Cristo e adesão a uma comunidade de fé. Quando muito, se limita ao clientelismo de uma liderança realmente carismática que se sugere como “salvadora do mundo”, “ungida por Deus” para apresentar respostas para tudo e arrogantes detentoras da verdade.

Essa ideologia de “crescimento da Igreja” se propaga como um vírus letal. Vai de comunidade em comunidade, os pastores se sentem tentados a ela e são cobrados pelas lideranças que se preocupam com o fato de “a nossa igreja não cresce”, comparando-se com outras. Começa-se a atuar em função da demanda do mercado religioso, relativiza-se os parâmetros de fé e ordem, investe-se na estética do culto (e não na liturgia), adota-se um discurso emocional de efeito imediato ao invés do ensino e da reflexão sobre a Palavra de Deus, a Bíblia se torna um depósito de frases feitas que podem ser usadas como paliativo e analgésico diante das dores do mundo. Retira-se a Cruz e coloca-se no lugar dela o ufanismo do sucesso imediato e da bênção exigida!

Pastores e pastoras não mais se cansam por terem de visitar os enfermos, os idosos, acompanhar uma família em crise, preparar estudos, preparar sermões a partir da realidade de sua congregação. O estresse é outro, com forte conotação emocional e na autoestima do clero: a preocupação permanente de qual será a atração especial do próximo domingo para manter a clientela cativa… a angústia porque nesta noite vieram menos pessoas que na semana passada… perde-se a piedade pessoal, a percepção  da ação do Espírito Santo, confundido como agente de resultados imediatos. Não existe mais a relação entre Pastor e Comunidade, mas entre o Mercador e a Clientela.

Ao mesmo tempo, nas Igrejas que são resultado de movimentos na história e não se fundamentam no carisma de um líder “dono” (bispo, apóstolo, iluminado, vice-deus ou que seja), a lógica de perpetuidade da instituição eclesiástica se move muito bem dentro dessa nova maneira de manter o velho: o “crescimento” implica em mais recursos financeiros para a instituição, claudicante porque sua arrecadação caiu exatamente por falta de membros. E assim, está aberto o buraco negro gravitacional que atrai tudo e todos para o velho paradigma de missão (a igreja crescer) disfarçado de “movimento de renovação” a partir da promoção do individualismo e da “fé” sem compromisso (crendice).

Na contramão desse processo virulento, permanecem as antigas perguntas que sempre motivaram a reflexão da Igreja que se entende como Corpo de Cristo: como anunciar o Cristo no contexto onde se está? como nos organizamos para que a ação seja realmente eficaz e apresente o Evangelho na perspectiva de construir uma comunidade de vida nova? o que significa “Salvação” hoje? como compreender e apresentar o ensino de forma que tenha sentido e seja resposta aos desafios da vida?

Precisamos de novos paradigmas para a Missão. Quando falo em novos paradigmas não  pretendo a mudar a Tradição, mas mudar nossa forma de compreender e interpretar a Tradição. 

Conceituando melhor, Tradição é aquilo que herdamos dos nossos ancestrais (não confundir com antepassados) e nos dá identidade, é o que nos diferencia dentro da sociedade humana como um todo. É o conjunto mítico-simbólico, conceitual, ético, estético, cultural, que dá senso de identidade e significado às práticas de um grupo. A Tradição é como uma Arca do Tesouro, onde as joias estão guardadas e não precisam ser usadas todas ao mesmo tempo. É a reserva de significado e de identidade. Tradição é aquilo que recebemos dos ancestrais, das gerações anteriores, colocamos nossas marcas e passamos adiante às próximas gerações. Tradição, portanto, é um processo dinâmico que permanentemente se resignifica e se reorganiza sem perder seu vínculo histórico. Todo entendimento da Tradição como algo estático e imutável é, na verdade, idolatria da Tradição, um tipo de fundamentalismo e, como todo fundamentalismo, estéril e sem vida. E entendo como Paradigmas os princípios, os pontos de vista conceituais, os pontos de partida e pano de fundo das ações; na verdade, são as maneiras como interpretamos a Tradição e inspiram o nosso fazer. O grande perigo é quando os Paradigmas se tornam Tradição ou são com ela confundidos, perpetuando-se como valores intrínsecos, permanentes, estabelecendo-se como verdades inquestionáveis orientadoras da reflexão e da ação. Todavia, é a mudança de paradigma que enriquece a Tradição.

É urgente que as Igrejas – verdadeiramente Igrejas e não negócios – reflitam com coragem e determinação sobre si mesmas e separem o que é de fato Tradição e o que é paradigma. Uma reflexão dessas vai necessariamente levar à revisão dos modelos institucionais, dos modelos de gestão, dos modelos organizacionais. É urgente uma Nova Reforma!PÁSCOA PADRÃO 

É necessário seguir essa intuição a partir da releitura contextual e orante da Palavra de Deus, da oração e compartilhando ideias e experiências. Alguns caminhos nos levarão a questionar nossa organização como Igreja, nosso método de gestão, e até mesmo nossa forma de conceituar o que é “ser membro” da Igreja. 

Será preciso muita coragem, acreditando fielmente que estaremos seguindo o movimento do Espírito Santo, e com modéstia e vigilância para não sermos tentados pela arrogância intelectual das posturas fechadas, mesmo que sejam novas posturas.

Que o Senhor da Igreja se aproxime como peregrino e caminhe conosco nessa Estrada de Emaús, ensinando-nos a compreender Sua Palavra e Sua Vontade.

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NOTA: Este artigo texto foi reeditado em julho de 2025, retirando-se aquilo que  - à época de sua redação - era a realidade em uma comunidade onde eu servia como presbítero.