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6 de fev. de 2019

A Falácia do Ecumenismo Institucional

O Ecumenismo Institucional, especialmente depois que a Igreja de Roma se redefiniu “ecumênica”, é o conceito de “diálogo”. Diálogo que veio substituir as ações concretas de cooperação e  ações solidárias entre pessoas de diferentes credos, como era o movimento ecumênico. 

O diálogo entre instituições pressupõe e mantém imutável as diferença e geralmente só move a ação por interesses políticos institucionais. 

O ecumenismo, enquanto movimento, mobiliza pessoas de diferentes culturas e experiências com a transcendência, para uma tomada de posição diante de situações concretas da realidade humana e não discussões teológicas intermináveis entre absolutos diferentes. A ação ecumênica enquanto movimento afirma não as diferenças, mas a possibilidade de agir juntos em favor de algo; é um chamado ao agir e não ao conversar sobre assuntos absolutos. São as diferentes percepções da transcendência que motivam a ação e não uma busca do que “se pensa em comum”. A transcendência não pode ser explicada nem mesmo pela racionalidade que a percebe. Mas é a possibilidade de agir e partilhar a ação que torna o movimento ecumênico possível e não uma percepção da transcendência, seja qual for. Até com quem nega a transcendência, como os ateus (que é uma forma de pensar a transcendência: negá-la) é possível se estabelecer laços de cooperação sem ser necessário qualquer “diálogo” sobre essas diferenças.

Eu me converti a Cristo no movimento ecumênico, entre pessoas de diferentes matizes cristãs; por isso foi muito difícil eu encontrar uma igreja onde eu podia pensar e atuar com liberdade sem me submeter a dogmas doutrinários ou formas de confessionalidade. Ninguém pode negar minha vivência e meu conhecimento sobre o ecumenismo. Atuei nos dois campos, o do movimento e o institucional.
Quando jovem havia apenas o Conselho Mundial de Igrejas como instância do ecumenismo institucional; sua ação era plural, e não se limitava a questões de doutrina; suas relações internas eram bastante dialéticas, mas sempre a partir de programas e projetos.

Participei do CLAI (Conselho Latino-Americano de Igrejas) , bem depois, que é (ou era, nem sei se ainda existe…) uma instituição que reúne igrejas da vasta e diversificada herança protestante, e fazia disso sua identidade, a ponto de incomodar a igreja romana  por ser um espaço fora de seu controle institucional.

Todavia, quando Roma chega ao movimento ecumênico, seu peso institucional muda os rumos e o ecumenismo institucional se torna forte e engessado. 

A postura das Igrejas do CLAI em defenderem seu conselho sem a presença de Roma, foi, como disse um Bispo Metodista em um evento onde a Igreja Romana questionava a existência de dois Conselhos  de Igrejas no Brasil (o CLAI e o CONIC, onde Roma participa), nosso espaço de falarmos entre nós o que não queremos ou não podemos falar com vocês pelas próprias imposições internas de vocês, como por exemplo, a ordenação de mulheres…”

O ecumenismo institucional só se justifica como ação das instituições eclesiásticas na defesa de seus interesses institucionais. Sob o véu do diálogo, se criam coisas sem nenhum sentido, como modelos ecumênicos de orações tradicionais, ou discussões intermináveis sobre um ou outro tema teológico,onde se chocam posturas dogmáticas diferentes.

Por isso o CLAI  se destacava, porque ao invés de “diálogo teológico” propunha programas de capacitações, cooperação  e atuação em situações específicas: saúde, sexualidade, gênero, mulheres, indígenas, economia e sociedade, etc. Encontros de teólogos era apenas um dentre muitos programas e o objetivo não era buscar definições comuns, mas troca de visões. Não haviam comissões de diálogo sobre assuntos doutrinários. Soube que o CLAI  está acabando… talvez  porque a luta interna de poder entre as diferentes igrejas levam a alianças conforme o momento político… até porque as instituições eclesiásticas estão cada vez mais voltadas para si mesmas e sua sobrevivência.

Mas hoje, cada vez mais se vê morrer o movimento ecumênico em troca de estruturas ecumênicas a serviço de instituições como fins em si mesmas… e “diálogos bilaterais” buscam uma pretensa unidade da Igreja ignorando que a Unidade da Igreja se dá em Cristo e não em definições teológicas. No movimento ecumênico de minha juventude, se orava junto a forma protestante de orar, sem necessidade de liturgias mirabolantes que mais parecem coreografias; orávamos de forma espontânea e quando juntos dizíamos o Pai Nosso cada um da sua forma; as liturgias celebravam a diversidade e a comunhão e não determinadas posturas políticas…

Tenho para mim que a chegada de Roma ao ecumenismo trouxe o engessamento que é peculiar àquela denominação religiosa… mas isso é outra heresia, para outro artigo…

…///…

30 de jan. de 2015

Fulano de Tal

Fulano de Tal

Fulano de Tal nasceu em algum lugar em certo dia de certo mês de determinado ano. Filho de seu pai e de sua mãe, nasceu em um lar de classe média baixa. Foi um neném comum, como todos encheu o saco de seus pais com manhas, cólicas, fazia cocô em horas impróprias…

Na infância frequentou um colégio estadual, sentava na turma do fundão da classe, reprovou no 4º ano, mas como não podia reprovar, passou de ano… Aprendeu muitos palavrões e sua mãe colocava pimenta em sua boca, denunciou a mãe ao Conselho Tutelar, que deu uma espinafrada na mãe. Xingou a mulher do Conselho Tutelar, levou uma bordoada… não tinha pra quem reclamar. Teve sarampo, catapora, rubéola, caxumba e bronquite. Foi vacinado contra um monte de coisa, e sempre berrava muito na hora da vacina.

Chegou na puberdade, estranhou seu corpo mudando, perguntou para seu pai, o qual disse que é assim mesmo. Um amiguinho ensinou a manipular certas partes, gostou muito. Caiu da bicicleta, quebrou o braço. Descobriu que existem meninas, as quais são chatas.

Na adolescência começou a fumar escondido. Chegava tarde em casa nas noites de sábado, levava esporro do pai, mas não dava a mínima porque não podia ser castigado. Continuou no mesmo colégio. Descobriu que as meninas não são tão chatas, afinal. Aprimorou as técnicas de manipulação de certas partes, agora pensando em meninas.

Acabou o Curso Médio, fez o ENEM, foi mal em redação, em matemática, em história, em geografia, em tudo.  Acabou em faculdade particular no curso de Direito, trancou matrícula porque era chato e o pai achava caro, foi estudar computação em um desses cursos avulsos, quebrou o computador do pai, levou esporro, mas não deu a mínima. Voltou para a faculdade, acabou o curso, conseguiu uma dessas bolsas do governo, não passou no exame da OAB, arrumou emprego numa loja, foi demitido porque chegava atrasado sempre e faltava. Continuou vivendo de mesada do pai. Nunca devolveu o dinheiro da bolsa do governo. Ficou com CPF sujo, mas e daí?

O pai e a mãe se separaram, teve de ficar morando com a mãe, porque o pai se mandou com uma garota e foi morar em outra cidade. Não tinha mais mesada, mas recebia pensão do pai. Arrumou um emprego, mas ainda dependia da mãe. A mãe se ajeitou com um antigo amigo do pai.

Conheceu a Rosinha, menina vivida pacas, fez um filho nela, acabou casando e foi morar na meia-água no fundo da casa dos pais dela. Brigava com a sogra, levou porrada do sogro, arrumou emprego em uma oficina mecânica e acabou se mudando para um bairro na periferia, abandonando a Rosinha, o sogro, a sogra e o filho. Rosinha arrumou um outro cara.

Parou de fumar por causa da bronquite, mas continuou bebendo, “socialmente”, dizia.

Virou sócio da oficina. Acabou ganhando um bom dinheiro, comprou uma casa em conjunto habitacional e trouxe a Juliana para morar com ele, ela e seus três filhos de pais desconhecidos. Adotou os moleques.

Um dia, bebeu mais que podia, e ao voltar para a casa, foi vítima de uma bala perdida, que depois a polícia descobriu que não era tão perdida, mas tinha a ver com uma briga de uns dois anos antes, e um lance de certos pacotinhos dos quais ele não prestou contas.  Foi levado às pressas para o hospital.

Morreu antes de chegar lá. Juliana foi buscar o corpo no IML, e fez o enterro.

Fulano morreu assim, em certo dia de certo mês de certo ano, pelas três da madrugada.  Foi pro céu? Não sei, era ateu.
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29 de dez. de 2014

O Logos (o Verbo) e a Festa de Mamona

jesus nascimento
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. […] O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (Ev. de João 1.1-5, 10-14 – Almeida, R.A.)

“Verbo”: do Latim, Verbum (= palavra); do Grego, Logos (λόγος), palavra. No grego, significa a palavra escrita ou falada; mas os filósofos gregos, com o tempo, estenderam o significado tendo o Logos como a razão ou o princípio de beleza e de ordem cósmica: a própria essência do universo.

No Evangelho de João, os manuscritos mais antigos, em grego, dizem “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus” (1.1), (em grego εν αρχη ην ο λογος και ο λογος ην προς τον θεον και θεος ην ο λογος).

Por isso, algumas edições contemporâneas da Bíblia adotam tradução mais literal e trazem “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus…”

O início do texto, “No princípio…”, recorda o primeiro capítulo do Gênesis, no Antigo Testamento: “No princípio, criou Deus os céus e a terra. […] Disse Deus: Haja luz; e houve luz. […]”. Deus fala (pronuncia a palavra! = Logos) e tudo se cria. Ou seja, o início do Evangelho de João nos remete à narrativa da Criação, onde é a Palavra de Deus que cria o universo!

[Astrofísica à parte, não estou tratando disso! estou falando de um texto! os idiotas logo vem perguntar se eu “acredito” no que diz Gênesis, e eu respondo “eu creio” (o que é diferente de “eu acredito”), mesmo quando eu atuava como físico lidando com galáxias distantes muitos milhares de anos-luz da Terra; e explico que o “Big Bang” ou qualquer outra teoria plausível não é, para mim, a Palavra dita por Deus! os idiotas, que buscam coerência racional em tudo e não têm sensibilidade sequer para poesia, não entendem e fica por isso mesmo!]

João identifica essa Palavra Criadora com o Cristo de Deus, o Logos Encarnado: “E o Verbo (Logos) se fez carne e habitou entre nós, … ”!
Problemas exegéticos e hermenêuticos à parte – deixemos isso para os “nerds” da Teologia, quero focar o texto de João 1.1-14 na perspectiva da minha fé e, a partir dai, olhar a realidade ao meu redor. Neste terrível tempo natalino, ler João é uma excelente vacina contra a hipocrisia generalizada que nos assalta a cada instante.
 
No sermão de Natal em minha paróquia (São Paulo Apóstolo, Santa Teresa, Rio de Janeiro) eu disse que “… dezembro é o mês mais estressante e hipócrita do nosso calendário…”. É, de fato, um mês terrível: tudo fica muito complicado, a vida urbana se torna uma sucessão de aporrinhações e as pessoas se estressam por causa das “festas”, com a obrigação imbecil de “dar presentes” (e com a terrível esperança de “ganhar presentes”). O consumismo de inutilidades sobe exponencialmente, e a hipocrisia alimentada pela mídia inspiradora do consumo, caminha com toda a liberdade entre nós.

Aquela rede de TV de índole diabólica, coloca no ar aquela música totalmente insonsa de conteúdo raso, “Hoje é o novo dia de um novo tempo que começou…” , para em seguida anunciar o mesmo de sempre… e os jornais e toda a imprensa estão ai para dizer que não há novo dia algum, novo tempo algum, e que “tudo está como antes no quartel de Abrantes!”
 
A massa populacional se estressa nas “compras” e hipocritamente todas as pessoas se tornam boazinhas, de coração aberto, desejando “feliz Natal e feliz ano novo” até àquelas pessoas que passaram o ano odiando e tratando mal (e vão continuar fazendo isso no tal “novo ano”!). O décimo terceiro salário vai embora pelo ralo da futilidade, e a dívida do crediário, do cartão de crédito, se torna presente no decorrer do novo ano… que não será feliz… porque será sempre igual… e o comércio reclama que as vendas caíram em relação ao ano passado, e a culpa é da Dilma por causa da Petrobrás…

Assim, o Natal, que se originou de uma festa pagã celebrando o Sol Vitorioso – marcando o Solstício de Inverno do hemisfério Norte, incorporada pela Igreja desde sua antiguidade justamente porque entende Jesus Cristo como Sol da Justiça e Luz do Mundo – continua sendo uma grande festa pagã!
 
Eu acho profundamente cômicos os tais votos natalinos e de ano-novo, especialmente um que é muito usado: “Muita paz, alegria, prosperidade, saúde… saúde é que é importante, não é verdade? porque tendo saúde o resto a gente luta pra conseguir…” (apesar do SUS!) – como a gente sabe que paz, alegria, prosperidade é alguma coisa que pouca gente consegue, por mais que lute, então se insiste na saúde como prêmio de consolação…(afinal, o sistema não pode permitir que todo mundo se dê bem, porque o sistema é para que alguns se deem muito bem à custa do resto).

Para disfarçar o caráter mundano do tempo natalino, praças, lojas, bancos e até a cadeia pública, exibem presépios onde um bebê loiro de olhos azuis, com jeito de idiota, cercado por uma mulher com cara de inocente e um velho abismado, todos devidamente caucasianos, tendo em volta um burro, uma vaca, algumas ovelhas e alguns pastores palestinos brancos (uns até de olho azul)… O Presépio, ideia do Pobre de Assis para reviver simbolicamente o Nascimento do Cristo com os seus pobrezinhos e leprosos, o Presépio exibido nos templos de Mamona, de Baal, onde o sangue é exaurido através do consumo histérico! Isso sem contar a figura do São Nicolau, travestido de velhinho bondoso com roupa inspirada na Coca-Cola, patrono das compras absurdas…

Nas redes sociais, pessoas demonstrando um elevado nível de consciência, querem lembrar a todos do “Aniversariante”… mas acabam na mesmice dos votos vazios e das palavras enjoativas de tão doces…

Quase ninguém se recorda, na verdade, que o Logos veio habitar entre nós, que há uma Luz brilhando nas trevas (e não é a estrela do topo da árvore de natal)… como disse João, já naquele tempo, como no tempo de agora, “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”.

O Logos, o Cristo, o Senhor do Universo, ali, na fragilidade de absoluta dependência de uma criança recém nascida… cheio de graça e de verdade! Ele se rebaixa ao totalmente humano, para que o humano não se separe mais do absolutamente Divino (cf. Filipenses 2.5-11)! Deus conosco sempre (Emanuel)!

Por isso, eu dou mais importância à Festa da Anunciação, quando de fato se celebra o Logos se tornando carne em Maria. Pelo menos, ninguém vai me cobrar um presente nesse dia, nem vai ter de se aporrinhar para me dar um presente… Nem temos de hipocritamente desejar felicidade a todo mundo… Quero apenas celebrar o que tento ser: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”

Nos versos do Flávio Irala, ost , agora Bispo na Igreja de Deus (que Deus seja misericordioso e o inspire!), a única razão para celebrar o Natal é que:
“O cativeiro ficará apenas na memória / Dos homens de boa vontade, numa nova história, / Pois um dia uma estrela caiu num curral:/ É Natal! É Natal!”(Nova Canção de Natal, Flávio Irala)
O resto… é mera idolatria, ideologia… e, claro, hipocrisia!

“Feliz Ano Novo”, se é que isso faz algum sentido para você!

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29 de mar. de 2014

Civilização da Idiotice


Estado idiotizador(um desabafo politicamente incorreto, graças a Deus,  sem qualquer prudência literária!)
Grande parte da população ocidental (não tenho conhecimento ou experiência suficiente para analisar a população oriental)  é composta por gente idiota, pessoas que agem sem pensar; que, pela ignorância induzida, se deixam levar pelas mais vergonhosas formas de publicidade, convencidas, por exemplo, que precisam comprar o último modelo de um simples telefone celular (que na verdade é muita coisa junta, inclusive telefone) para serem reconhecidas e respeitadas pelas outras pessoas idiotas que, por isso mesmo, debocham e manifestam seu desgosto porque alguém não tem o último modelo… que, até então não lhes fazia falta e realmente não lhes faz falta a não ser para ficarem “por dentro”… ou seja serem reconhecidas e acolhidas pelas outras pessoas  como “normal”, “atual”, “moderno”, “in”, … essas babaquices todas!

A economia capitalista necessita do consumo para crescer; o consumo, para se manter crescente e cada vez mais produtor de riqueza (que não é distribuída, mas acumulada por poucos), necessita de produtos que durem pouco, porque afinal a quantidade de consumidores não é infinita… ou seja, o mercado precisa que a gente re-consuma as coisas para se manter ativo… e por isso inventa necessidades que não temos para que pensemos que as temos (para isso serve a publicidade indutora de “valores de felicidade”) e com isso, consumir aquilo que nos convencem ser realmente necessário para sermos felizes! É mais ou menos isso que se chama “realidade líquida” (cf. Bauman).

A massa idiota se encanta com as “novas” tecnologias, que se apresentam no mercado como surgidas de forma mágica, do nada, massa muito admirada com a capacidade científica do Império… Na verdade, quando uma “nova” tecnologia surge no mercado, ela já está ultrapassada e com prazo contado para durar (hoje em dia, algo em torno de seis meses no máximo). 

Por exemplo, a NASA colocou os primeiros astronautas na Lua no início dos anos 60 do século passado, e isso foi possível porque já estava disponível (secretamente) uma tecnologia computacional em máquinas de tamanho reduzido, ou seja, um possante computador com a incrível capacidade de 16 Kb  que cabia nos menos de 10 m2 das cabines das naves espaciais das séries Mercury e Apolo1. Ou seja, o micro-computador, que só chegou ao mercado cerca de 30 anos depois, já existia quando se tornou consumível. Não chegou antes porque era considerado tecnologia militar e a Guerra Fria comia solta (os soviéticos, aliás, tinham uma tecnologia computacional muito avançada também, e não mandaram homens à Lua porque seus robôs eram muito mais eficazes, conseguiam pousar em terra firme e no ponto determinado previamente; além disso, conseguiram pousar em Vênus, onde os americanos quase sempre falharam). 

Nos anos 90 os Computadores Pessoais (PC’s, já que a gente adora anglicismos) duravam alguns anos; hoje a cada ano, no máximo, se tornam obsoletos, estão cada vez mais reduzidos e com maior capacidade (simplesmente para facilitar a interface humana, não para processar os dados). Caíram na gandaia do mercado… e lá vai a massa idiota consumir…

Uma das afirmações do tipo “auto ajuda imbecil” que se partilha e re-partilha aos milhares nas redes sociais (na verdade, o consumo de banalidades que gera milhões de dólares para a dita “indústria da informação”) é a afirmação de que somos responsáveis pelas nossas escolhas… e sofremos as consequências delas! Isso é totalmente idiota! Simplesmente porque, na maioria das vezes não temos escolha ou somos enganados, levados pelas mais sutis formas de indução e controle externo da vontade pessoal…

É fácil dizer que se fez escolha errada quando, na verdade, não havia escola pública de qualidade para que o pai pobre pudesse matricular seu filho; que opção ele tinha? Tanto que o Governo, para aliviar a consciência do Estado, cria normas imbecilizantes como aprovação compulsória nas escolas, quotas na Universidade para estudantes da rede pública e outros paternalismos que impedem o desenvolvimento de uma massa crítica na sociedade e de uma consciência cidadã.

Essa é a sutil maneira encontrada pelo “sistema de dominação” para nos manter na permanente sensação de culpa pelas mazelas que acontecem em nossas vidas e na própria sociedade, e aliviar-nos com o consumo de coisas realmente das quais não precisamos. 

A Culpa, aliás, tem sido a base da cultura ocidental devido à nossa herança trágica do mundo judaico-cristão utilizada de forma muito esperta pelas elites dominantes desde o Império Romano dito cristianizado (a famosa “cristandade”, ou seja, cristianismo de massa, e como tudo que é massa, plenamente maleável e ajustado, sem vontade própria). Sentindo-se culpado pela própria impossibilidade de viver com dignidade, o sujeito fica cego para a baderna política do toma-lá-dá-cá, e fica retido em um curral eleitoral com medo de perder as benesses do paternalismo estatal!

Pão e Circo era o esquema do Império Romano… hoje, o circo é eletrônico, o pão está envenenado pela indústria alimentícia  e é pouco! 

A culpa é sua por ter escolhido nascer; tá reclamando do quê?

Nota de Rodapé:
1 Note Bem: você acha que os astronautas eram capazes de pilotar uma nave, como se fosse um avião, movida à gravidade? a complexidade dos cálculos necessários e a velocidade que devem de ser feitos para conduzir a navegação adequadamente, estão além da velocidade de processamento do cérebro humano. Tanto que cada nave levava dois computadores exatamente iguais para em caso de pane em um, o outro continuar pilotando a nave em contato via rádio com os computadores em Huston.
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21 de dez. de 2012

O Fim do Mundo (2)

andre_mansur_fim_do_mundoEstava tudo bem planejado, o cronograma definido para o mega evento.

O Calendário Maia estava bem aferido, testado que foi pela NASA que comparou os átomos de carbono e os isótopos 14, e dava uma margem de erro de 0,004 nano segundos. Em vários países do Hemisfério Norte cidadãos abastados construíram abrigos subterrâneos enganados pela falsa propaganda que garantia a sobrevivência em caso do mundo acabar (o que é uma asneira, pois acabando o mundo acabam também os abrigos subterrâneos, mas como novos ricos geralmente são idiotas e compram qualquer merda, um monte deles comprou abrigos subterrâneos). Apóstolos, super-evangelistas, mega-pastores, e outros picaretas do tipo, encheram o bucho de dinheiro fácil vendendo passes de salvação para os incautos de sempre.

Após uma ferrenha concorrência, a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar o Grande Impacto que daria início ao fim-do-mundo. A Prefeitura do Rio, com apoio do Governo do Estado e do Governo Federal (afinal alianças políticas servem para essas coisas) construiu três fim-do-mundródomos, porque várias pendengas judicias impetradas por diferentes grupos de interesse, determinavam que o evento deveria acontecer em locais diferentes.

Setores ligados à FIFA e à CNBB (um acordão envolvendo a bancada evangélica em off) impetraram mandato de segurança para que o evento acontecesse no novíssimo Maracanã (cujo projeto final foi aprovado pela Sagrada Comissão Ecumênica da Volta de Jesus); todavia, outros mandatos de segurança e liminares determinavam que seria em frente ao Copacabana Palace onde ficariam hospedadas as autoridades mundiais que celebrariam o acordo internacional do fim-do-mundo, perdoando as dívidas externas de todos os países, inclusive a dos EUA, uma vez que sendo o fim-do-mundo ninguém ia pagar mesmo e se pagassem, os que recebessem não teriam onde gastar; esse era o Projeto Original da Prefeitura que contaria com o patrocínio exclusivo da Petrobrás, do Eike Batista e do Bradesco (o Banco  oficial do Fim-do-Mudo). 

Um terceiro grupo, liderado pelo lobby das Escolas de Samba exigia que o evento acontecesse na Praça da Apoteose após o desfile da União Geral de Grêmios Recreativos e Escolas de Samba do Rio de Janeiro (um mega desfile juntando todas as escolas de todos os grupos); esse grupo tinha o apoio de vários ministros do STF, que alegando o excesso de trabalho devido ao Mensalão, não pode julgar tudo que estava rolando sobre o fim-do-mundo; assim até dia 15 de dezembro, não estava judicialmente decidido o local do impacto.

Para não perder a oportunidade política, a Presidenta da República consultou o Ministério da Ciência e Tecnologia sobre a possibilidade de se conseguir mais dois asteroides, de forma que o evento aconteceria nos três locais  simultaneamente, e seria assim um evento popular onde todos poderiam participar; a Presidenta assinou Medida Provisória definindo recursos para que o INPE providenciasse dois asteroides em caráter de urgência urgentíssima em benefício do interesse público. Todavia, graças a rápida manobra política, a Oposição conseguiu  bloquear a MP no Congresso alegando que os recursos extraordinários fariam falta aos setores de saúde e educação do país; para garantir, os Partidos de Oposição, com a cobertura da mídia empresarial, impetraram mandato de segurança no STF, apesar das explicações do Ministro Presidente do Egrégio Tribunal informar que o Mandato só poderia ser apreciado pela Casa duas semanas ou três após o fim-do-mundo.

Fora do Brasil, na ONU, com a Assembleia Geral reunida, povos de outras culturas e religiões contestavam, através de seus diplomatas, a realização do fim-do-mundo em um país cristão, uma vez que ninguém além dos cristãos esperam a volta de Jesus, e que isso não poderia ser imposto; assim, o mundo não poderia acabar com a volta de Jesus pois seria uma afronta aos povos de outros credos. O representante dos EUA informou que seu país não vai tolerar ingerências terroristas no fim-do-mundo e já colocou todo seu aparato militar em prontidão de alerta laranja, pronto para invadir qualquer país que se oponha ao fim-do-mundo na forma que foi definida, a fim de garantir a liberdade e a democracia mundial mesmo no fim-do-mundo.

Grupos ativistas de todas as cores, do mundo inteiro, especialmente ambientalistas e promotores dos direitos humanos, decidiram realizar um fim-do-mundo alternativo, que aconteceria no Aterro do Flamengo, com o slogan “Um outro fim-do-mundo é possível!”, determinando que o mundo terminaria não por um impacto de asteroide, que danificaria o meio ambiente, mas de forma bem natural, convocando a humanidade inteira e todos os animais a darem um tremendo peido coletivo à hora marcada, alterando rapidamente a atmosfera para o mundo acabar pela falta momentânea de oxigênio, o qual seria rapidamente reposto pelos vegetais em menos de dois séculos através da fotossíntese. O Peido do Novo Mundo foi estampado em camisetas, bandeiras, cartazes… e foram distribuídos à toda humanidade feijões pretos, repolhos e bata-doce, a fim de garantir o evento.

Apesar desses contratempos todos, o Governo Brasileiro garantiu o fim-do-mundo oficial no dia e hora marcada.

De fato, à hora prevista, no dia 21 de dezembro, três enormes asteroides entram na atmosfera da terra, mas se desintegram em poucos segundos, dando como resultado um miserável chuvisco de meteoros, que mal foi visto devido à intensa luz do sol. As autoridades no Copacabana Palace mantiveram o sorriso cínico como se nada realmente tivesse acontecido (e realmente, nada aconteceu). 

No Maracanã, para disfarçar, organizou-se um joguinho amistoso entre Corinthians e Flamengo com as bênçãos do Papa  (que daria a Bênção Final Urbi et Orbi no centro do gramado); enquanto isso, na Praça da Apoteose, terminado o desfile, e nada tendo acontecido, uma briga entre as baterias animou o pessoal sendo que até o momento em que escrevo essas linhas, o pau continua comendo solto por lá.

No Aterro do Flamengo, todavia, o Fim-do-Mundo alternativo também não deu certo: não conseguiram sincronizar o horário do Grande Peido Mundial, de forma que uns peidaram muito cedo, outros mais tarde mas isso não foi suficiente, e ainda tem gente peidando pelo mundo todo…

A Globo, pouco depois do fracasso dos asteroides, colocou no ar o Boal, com as chamadas para o Big Brother Brasil e o Jornal Hoje informou que a CIA suspeita que terroristas albaneses conseguiram danificar o asteroide oficial quando ainda estava por trás da Lua, por isso ele falhou, mas não emitiu nenhum parecer sobre a falha dos dois asteroides brasileiros  extras. Seja como for, uma frota norte-americana estacionou no litoral da Albânia, e logo em seguida o Iran anunciou seu apoio ao valente povo albanês.

No elevador do Copacabana Palace, a Primeira Ministra Alemã comenta com o Rei da Suécia: “Eu bem avisei àquela senhora Dilma que encomendar asteroides chineses não era a coisa mais adequada, mas eles ganharam a concorrência e deu no que deu!”.

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26 de out. de 2012

Propostas em favor de “minorias oprimidas”…

Uma vez que a nossa sociedade é repleta de políticas afirmativas, quotas e bolsas por conta do Estado, e que o politicamente correto é hoje a ditadura da mediocridade, me atrevo a apresentar algumas sugestões de políticas afirmativas em defesa de alguns grupos sociais ainda não privilegiados, já que este é o país dos direitos sem deveres. 

1. Quota para alun@s obes@s no Ensino Superior:  veja bem, o sujeito/a sujeita é gordinh@, estuda em escola pública, mas é branc@, não tem afro-antepassad@, e por isso – por ser gordinh@ – disputa vestibular em desvantagem flagrante diante dos saudáveis mauricinhos e patricinhas que frequentam academias. Veja só: o/a infeliz  gordinh@ tem de subir e descer escadas no colégio, o que no seu caso, o/a faz chegar mais cansad@ que @s demais na sala de aula, geralmente com dor nas pernas e no pé, e isso afeta seu aprendizado, pois já sofreu um estresse antes de começar a aula. Considere-se que normalmente gordinh@s caminham mais devagar e por isso acabam chegando atrasad@s à escola devido a terem de caminhar desde o ponto de ônibus… Portanto, nada mais justo que se ofereça uma quota para gordinh@s a fim de que possam cursar uma faculdade e disputarem o mercado de trabalho de camelô com os demais estudantes magr@s. E é muito simples caracterizar um/uma gord@: basta olhar! Não precisa trazer documento, árvore genealógica, retrato editado no Photoshop, etc. O/A funcionári@ que receber a inscrição, olha bem o/a candidat@ e, como tem fé pública, atesta imediatamente que o/a candidat@ é gord@.

2. Assentos especiais para hemorreicos/hemorriecas: isso é importantíssimo, pois é assunto de saúde pública! Quem tem hemorroidas sabe (não é meu caso, mas eu penso muito n@s coitadinh@s). O/a infeliz vai ao cinema, teatro, restaurante, pega ônibus, taxi, metrô, trem urbano, viaja de avião, vai na escola, e mais uma porrada de coisas, onde tem de se sentar (claro que no caso do transporte público, é preciso que ele/ela tenha sorte em achar um banco vazio). E então, sentar-se é um suplício! Por isso, tudo que seja local onde hajam assentos, deve haver um percentual de assentos especiais para os infelizes, com um vazio no meio a fim de possibilitar a esses/essas coitad@s um conforto. Ainda não resolvi como o/a sujeit@ prova que tem direito a usar o tal assento e exigir que o/a adolescente boca-aberta, que adora usar os assentos reservados, desocupe o acento furado reservado ao/à portador(a) de hemorroidas (que seria politicamente mais correto chamar de trabalhador(a) com necessidades especiais para sentar-se, a fim de não ser pejorativo). Não será necessário desenvolver nenhuma tecnologia especial, basta equipar os locais com uma percentagem de cadeiras cujo assento seja uma tábua de privada, que é baratinho no mercado (não precisa ser almofadado, porque ai já seria um luxo e o governo não vai subsidiar isso!). Atenção: alguns locais públicos já reservam assentos especiais para obes@s, então tem de lembrar que alguns obes@s são também trabalhadores(as) com necessidades especiais para sentar-se apesar da bunda grande.

3. Faixa exclusiva para motoboy/motogirl em todas as ruas e avenidas e vielas: é realmente aterrador ver os/as trabalhadores(as) motoboys/girls oprimid@s pelo transito e pel@s desalmad@s motoristas que insistem em não dar brecha para eles/elas passarem, obrigando-os/as a sofrerem colisões nas solas dos pés contra espelhos retrovisores externos, por exemplo. É preciso lembrar que motoboy/girl ganha por produção, por isso, não pode perder seu precioso tempo em engarrafamentos, nem perder sua concentração em chegar logo por causa de pedestres mal intencionad@s que surgem por trás de carros e ônibus, inclusive nas faixas de pedestre com sinal aberto para os tais. Com a faixa exclusiva em qualquer via pública, os motoboys/girls não precisariam machucar os pés com retrovisores, nem fazerem uma ginástica danada para passar entre veículos parados em congestionamentos. Veja bem: qualquer pedestre tem faixa exclusiva que se chama calçada; por que os motoboys/girls não têm sua faixa exclusiva? isso é uma opressão burguesa contra os/as pobres rapazes/rapazas de capacete em duas rodas.

4. Bolsa-Família para solteir@s, solitári@s e casais estéreis: nem preciso argumentar muito neste caso, pois a tal Bolsa-Família oferecida apenas a quem tenha filh@s menores é um insulto ao princípio que tod@s os/as cidadãos(ãs) são iguais perante o Estado. No que se refere às mulheres, principalmente, pois uma mãe-solteira, só por ser mãe, tem direito à bolsa família. Cabe o adendo da pergunta se pai solteiro tem o mesmo direito (embora não seja politicamente correto exigir-se direitos especiais para pessoas do gênero masculino; a menos que seja uma homossexual ativa ou devo dizer lésbica ativa? não é ofensivo?).
Estas são algumas propostas… tenho mais…

---- IMPORTANTE----
Observações sobre algumas questões semânticas que podem ser levantadas  ao ler-se  este artigo. Para evitar que os/as politicamente corret@s fiquem mais enfurecid@s que de costume, apresento a chave hermenêutica para certas palavras e expressões utilizadas no texto acima:

a) quando falo em ditadura da mediocridade, não é pejorativo. Medíocre significa median@, médi@, ou seja dentro do padrão da maioria. O/A politicamente corret@, exatamente por considerar-se corret@ (os/as diferentes são, então, incorret@s) é uma ditadura, ou seja, um totalitarismo.
b) bunda: no Brasil não é palavrão (baixo calão), mas em Portugal sim. Portugueses/as politicamente correct@s, por favor, lembrem-se que falo brasileiro.
c) mãe-solteira refere-se à mulher que tenha filhos e não é casada nem vive com um companheiro (assumindo ou não a paternidade); vale inclusive para aquelas adeptas da produção independente. Afinal, são solteiras. Isso não é pejorativo. Mas talvez fosse melhor, ao invés de mãe-solteira, referir-se às tais como “mulher emancipada que tenha prole”.  Não sei dizer se, no caso, prole seria politicamente correto. Talvez fosse melhor dizer “mulher emancipada que reproduziu parte de seu material genético com masculino oculto”.
d) se você é politicamente corret@ e ficou irritad@ com este artigo, então atingi meu objetivo.

Note que estou sendo politicamente correto ao ser idiotamente sincero.
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