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14 de jan. de 2025

A omelete do Joãozinho – uma fábula moderninha

omelete-simples
Joãozinho é um sonhador, e se acha um empreendedor. Daquele tipo de gente que  julga “pensar grande”! Tudo que Joãozinho se propõe a fazer, ele começa com muita vontade!

Joãozinho herdou um bom dinheiro, e resolveu que iria criar galinhas e vender ovos. Não seriam ovos quaisquer, mas “ovos de primeira”.  Para isso teria de criar “galinhas de primeira”, e tais galinhas não poderiam ficar soltas por ai no quintal, mereciam um galinheiro.

Não qualquer galinheiro! Mas um galinheiro especial, também “de primeira”.
_ “Eu penso grande e vejo longe, meu amigo, tenho uma grande experiência!”, costuma dizer Joãozinho sempre que inicia um novo empreendimento. E com muito ânimo expõe suas ideias e projetos, embora nunca tenha, de fato, mostrado um projeto a alguém!

Como dizíamos, Joãozinho anunciou que iria criar “galinhas de primeira” para produzirem “ovos de primeira”. Decidiu que teria de construir um galinheiro diferente desses que “andam por ai”. Contratou um arquiteto para fazer o projeto do galinheiro, mas acabou jogando fora o trabalho entregue porque achou que o arquiteto não havia entrado “no clima”; assim, ele mesmo desenhou o galinheiro, comprou os materiais e construiu o galinheiro, que dado à “complexidade” do projeto, demandou um bom tempo para ficar pronto. Joãozinho faz tudo, porque não consegue trabalhar em equipe.

Quando encontra os amigos, Joãozinho fala de seu “empreendimento”, e anuncia  que, no dia da inauguração, com a primeira postura de ovos, oferecerá uma grande omelete para o pessoal, para todos verem a grandeza de sua iniciativa.
Joãozinho pensou mais longe e pensou que, além de criar “galinhas de primeira” para produzir “ovos de primeira”, poderia também abrir o primeiro restaurante especializado em omeletes.  Isso mesmo, iria construir o restaurante ali, no terreno onde estaria o galinheiro. Já imaginava o anúncio luminoso: “Omeletaria Joãozinho – omeletes feitas com ovos colhidos na hora!”

Com o dinheiro que ainda existia, comprou o terreno do vizinho e construiu o restaurante, quero dizer, a Omeletaria, claro, com “tudo de primeira!”  O enorme galinheiro ficaria ao lado, cercado por um jardim e um parquinho para as crianças, filhas dos clientes, brincarem e observarem as galinhas… seria uma forma de desenvolver o senso ecológico nas crianças, contato direto com a natureza, essas coisas todas. Afinal, os empreendimentos de Joãozinho eram projetos de grande significado e engajamento social.

Ao mesmo tempo que a omeletaria e o galinheiro são construídos, Joãozinho fala a toda gente da grande inauguração com omeletes artesanais. Para garantir a qualidade das omeletes, Joãozinho contratou um “Chef” francês, vindo diretamente de um famoso restaurante em Paris, que chegará à cidade dias antes da inauguração, cuja data já está definida e amplamente anunciada. Divulgou a notícia que, após longas negociações, conseguiu a promessa de alguns capitalistas, seus conhecidos, que ajudariam a ampliar o “projeto” para uma rede de franquias, omeletarias com o mesmo formato, o mesmo modelo de galinheiro e as mesmas espécies de galinhas poedeiras, “tudo de primeira”, dizia sempre.

Pelo menos é o que Joãozinho anuncia: parceiros do exterior que estariam se envolvendo no empreendimento. Graças a negociações, pagou para estar presente em um famoso Talk Show na TV, onde afirmou que, no mês entrante, no dia tal, com o Chef vindo de Paris, “vamos inaugurar a primeira omeletaria da “Joãozinho’s  Eggs and Omelets” e que logo em seguida a rede estaria se desenvolvendo nas principais cidades do país e com compromissos já acertados de franquias na Europa e nos Estados Unidos, graças aos grandes parceiros, “meus amigos pessoais” dizia Joãozinho; afinal, em suas viagens ao exterior para conhecer modelos de galinheiros, ele fez muitos bons amigos, alguns até já estiveram aqui para visitar o projeto, quando pôde explicar melhor os detalhes do empreendimento.

Claro, nem tudo saiu de maneira perfeita. Joãozinho explica que algumas complicações surgiram com os recursos que viriam dos investidores estrangeiros, mas nada que impedisse a grande omeletada de inauguração; aliás, um deles – proprietário de uma grande rede de Fast Food nos Estados Unidos, ficou adoentado, mas garantiu que logo enviaria o dinheiro, faltando apenas assinar o convênio de parceria. Os demais estavam ainda em conversações finais para resolver pequenos detalhes. Talvez, por isso, o lançamento da franquia demoraria mais um ou dois meses.

Naturalmente, uma ou outra coisinha ainda não estaria pronta, mas a omeletaria abriria as suas portas na data e hora já anunciada. Afinal, o Chef vindo de Paris já havia chegado e estava provisoriamente instalado em um hotel (“nada de luxo, porque não podemos jogar dinheiro fora!”) até que sua casa esteja pronta, pois será construída no terreno recém adquirido de outro vizinho.

Joãozinho afirma sempre que pretende inspecionar pessoalmente o serviço, desde a compra da ração para as galinhas até a omelete servida à mesa do cliente. “Não abro mão da qualidade e estarei cuidando rigorosamente que tudo saia nos conformes!”, ele diz. “Aliás, a Adega já está abastecida com vinhos chilenos, portugueses, franceses e italianos”.

Chegou o grande dia  esperado! Pela manhã a imprensa local já está mobilizada para a cobertura do grande evento, a primeira e única omeletaria do país, que produziria sua primeira omelete exatamente ao meio-dia. “Como eu disse, e repito, as primeiras 250 omeletes serão gratuitas! um carinho reservado aos meus inúmeros amigos e parceiros!”

Pouco antes das onze chegaram alguns telegramas e correios eletrônicos, do país  e do exterior, com justificativas de ausência. “É natural”, diz Joãozinho, “são pessoas muito ocupadas e nem sempre se consegue ajustar a agenda, não é mesmo?”

Às onze e meia, estando já as pessoas presentes, cerca de 30% dos convidados, Joãozinho estourou a Champanhe e começou um emocionado discurso, que foi interrompido por um auxiliar de cozinha informando que “Le Monsieur” (assim era tratado o Chef) exigia a presença de Joãozinho na cozinha.

Joãozinho disse, interrompendo o discurso, “Estou sendo chamado à cozinha, naturalmente para a prova da primeira omelete!”. Com toda a pompa e circunstância, entra na cozinha, estando todos os cozinheiros e ajudantes perfilados e “ Le Monsieur”, afilando o bigode, perguntou:
“Monsieur Joansino! où sont les oeufs? Je suis allé au poulailler pour les obtenir, mais je ne trouve pas même les poulets!”.

Foi quando Joãozinho se deu conta que não havia comprado as galinhas! Olhou para seu contador geral, que explicou:
“Como eu havia prevenido ao senhor, os recursos dos parceiros do exterior não chegaram, então não tivemos mais dinheiro para comprar as galinhas!”

Moral da estória: não anuncie a omelete antes de ter as galinhas!
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NOTAS: 
1 .Qualquer semelhança com pessoas ou instituições não é coincidência. Veste a carapuça quem acha que lhe serve!
2. O original foi publicado em junho 2015. Texto revisado nesta data de republicação;

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11 de fev. de 2016

Durante o Carnaval em Santa Teresa, Rio de Janeiro.

Ilhado em Santa Teresa durante os intermináveis dias de carnaval (hoje é quinta-feira, já é Quaresma, mas um bloco anda por aqui enchendo o saco desde a madrugada!), com dificuldades para sair do bairro ou mesmo caminhar por ele, andei pela vizinhança; estou compartilhando um pouco do que vi e ouvi aqui pelas ruas próximas de casa.

1. "Si divertir"
Um bando de patricinhas e mauricinhos, tipo Leblon/Barra, por volta de uma da madrugada, ao lado de um Honda Civic cinza, com auto-falantes daqueles dignos de um Teatro Municipal, tocando aquelas músicas ridículas que incentivam a baixaria, quase aqui na esquina de casa. Fui lá pedir que abaixassem o som, uma moça mais pra nua que pra vestida, me diz:
_ "Todo mundo tem o direito de si divertir!"
_ " Mas sem incomodar os outros, mocinha!"
Um sujeito com cara de quem tinha tomados umas e muitas, e os olhos de quem tinha dado uma boa cheirada, me encarou feio e me mandu tomar lá no fundo da casa da Mãe Joana. Voltei pra casa (a minha, não a da mãe Joana), e usando da tecnologia modernosa, mandei um "zap-zap" para a PM, que veio rapidamente e acabou com o direito de "si divertir" dos babacas.

Uma coisa legal que a PM (5º Batalhão) fez aqui para Santa Teresa foi disponibilizar um celular e grupo no "zap-zap" para os moradores denunciarem todo tipo de delinquência, arruaça, assalto, etc. Um oficial fica de plantão recebendo as denuncias e toma as providências necessárias. Mais eficiente e eficaz que o "1-9-0", onde a atendente nos manda ir ao local e aguardar a polícia (como se bandido, assaltante e outros pentelhos fossem ficar ali esperando comigo a PM chegar).

2 .  Mijões
a) No jardim da igreja, surpreendo um sujeito urinando. Chamei sua atenção, ele me disse:
_ "Eu tenho o direito de mijar, pô"!
_ "Não no jardim da igreja, cara!"
Ele saiu, ainda apertado, virou a esquina da igreja eu fui atrás... lá estava ele dando a sua mijada!
_ "Nem no muro da Igreja, amigo!"
_ "Pô! nessa m... de bairro não tem onde mijar!"
b) Saio no portão de casa para um cigarrinho, e vejo uma moça agachada, urinado, ao lado do muro da igreja e tentando se ocultar atrás de um carro estacionado (na calçada).
_ "Menina! não faça isso! respeite você mesma!", eu disse virando o rosto para não constrangê-la mais.
A resposta dela foi idêntica à do mijão acima: 
_"Não tem outro lugar e estou apertada, padre".

Realmente, ambos tinham razão. Aliás, não só em Santa Teresa! a maioria dos botecos e lanchonetes no Rio não têm banheiro, e quando tem ou cobram para usar (se não for cliente - inclusive idosos) ou não deixam usar (alegam que é para evitar do sujeito ir lá para dar uma cheirada de pó ou fumar uma maconha).
A eficientíssima  Prefeitura do Rio, que está a serviço das máfias do transporte público, das empreiteiras e da industria do turismo, colocou pouquíssimos banheiros químicos pelas ruas da cidade, especialmente onde passariam os blocos carnavalescos. E, para completar, decretou uma multa de R$ 500,00 (quinhentos reais) para quem fosse flagrado urinando em logradouro público, pela Guarda Municipal (que aliás, nunca aparece por aqui a não ser para ... deixa pra lá!). Ou seja: "como o consumo de cerveja é astronômico e as bexigas milhares, vamos faturar um pouco porque é ano eleitoral e o Partido precisa de grana para as negociatas naturais em busca de votos..."

3. A rua é de quem mesmo?
Um bando de "foliões", enchendo a cara de cerveja e comendo croquete de bacalhau, sentados na calçada quase na esquina de casa. Para alguém passar por lá, tinha de se deslocar para a faixa de tráfego, porque a calçada havia se tornado a sala de estar dos idiotas. [Aliás, é comum isso por aqui: o pessoal ocupa as calçadas e os pedestres que se misturem aos carros; ficam em pé ou sentados e se você quiser passar ainda te olham feio! isso sem contar quando os botecos ocupam descaradamente as calçadas com mesas e chegam até a colocar cerca na rua - o que é comum na Lapa - para ninguém atrapalhar os clientes que saboreiam seus quitutes (e enchem a cara)!]
Eu estava indo ao Cine Santa  (assistir A Grande Aposta - recomendo) e tentei passar pela calçada; eu disse, para as pessoas sentadinhas com seus croquetes de bacalhau e sua cervejinha, que ali não era lugar de sentar,  e alguém do grupo me disse:
_ "A rua é do povo!"
_ "Pode ser lá na sua rua, amigo, mas aqui, a rua é dos seus moradores e de quem precisa passar por ela!"
O cara disse "passa por cima" e novamente fui recomendado a mandar lembranças à Mãe Joana (e ainda recebi uma encarada do dono do boteco ao lado, afinal eu estava chateando seus clientes). Então, a caminho da casa da Mãe Joana (passando antes pelo Cine Santa), segui em frente, passei por cima da perna de um deles e "sem querer" pisei de leve no pratinho de croquete... pois é, a rua é do povo! e eu sou um cara do povo que tem o corpo um pouco mais largo que o normal! Claro que ouvi belíssimas palavras de elogio à minha modesta pessoa, além de ameaças à minha integridade física.
É mole?
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Não sou contra o carnaval, nem que as pessoas busquem diversão, comam seus bolinhos de bacalhau, tomem sua cervejinha. Mas eu acho que as coisas tem um limite, o limite do bom senso e da boa educação.

Entretanto, nestes tempos de "direitos sem deveres", de manifestação exacerbada dos egos, e da autopromoção para lembrar a si mesmo que existe, o que vale mesmo é a já famosa frase "danem-se os outros!"

Mas, felizmente, ainda há pessoas com quem vale a pena conviver, partilhar e conversar. Apesar de tudo, Deus seja louvado. Amém!

PS: soube agora, pelo eficaz  sistema de informações de Santa Teresa - boca-a-boca, de vizinho pra vizinho - que o tal bloco que chateou o bairro desde a madrugada foi liquidado pela Polícia...

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30 de jan. de 2015

Fulano de Tal

Fulano de Tal

Fulano de Tal nasceu em algum lugar em certo dia de certo mês de determinado ano. Filho de seu pai e de sua mãe, nasceu em um lar de classe média baixa. Foi um neném comum, como todos encheu o saco de seus pais com manhas, cólicas, fazia cocô em horas impróprias…

Na infância frequentou um colégio estadual, sentava na turma do fundão da classe, reprovou no 4º ano, mas como não podia reprovar, passou de ano… Aprendeu muitos palavrões e sua mãe colocava pimenta em sua boca, denunciou a mãe ao Conselho Tutelar, que deu uma espinafrada na mãe. Xingou a mulher do Conselho Tutelar, levou uma bordoada… não tinha pra quem reclamar. Teve sarampo, catapora, rubéola, caxumba e bronquite. Foi vacinado contra um monte de coisa, e sempre berrava muito na hora da vacina.

Chegou na puberdade, estranhou seu corpo mudando, perguntou para seu pai, o qual disse que é assim mesmo. Um amiguinho ensinou a manipular certas partes, gostou muito. Caiu da bicicleta, quebrou o braço. Descobriu que existem meninas, as quais são chatas.

Na adolescência começou a fumar escondido. Chegava tarde em casa nas noites de sábado, levava esporro do pai, mas não dava a mínima porque não podia ser castigado. Continuou no mesmo colégio. Descobriu que as meninas não são tão chatas, afinal. Aprimorou as técnicas de manipulação de certas partes, agora pensando em meninas.

Acabou o Curso Médio, fez o ENEM, foi mal em redação, em matemática, em história, em geografia, em tudo.  Acabou em faculdade particular no curso de Direito, trancou matrícula porque era chato e o pai achava caro, foi estudar computação em um desses cursos avulsos, quebrou o computador do pai, levou esporro, mas não deu a mínima. Voltou para a faculdade, acabou o curso, conseguiu uma dessas bolsas do governo, não passou no exame da OAB, arrumou emprego numa loja, foi demitido porque chegava atrasado sempre e faltava. Continuou vivendo de mesada do pai. Nunca devolveu o dinheiro da bolsa do governo. Ficou com CPF sujo, mas e daí?

O pai e a mãe se separaram, teve de ficar morando com a mãe, porque o pai se mandou com uma garota e foi morar em outra cidade. Não tinha mais mesada, mas recebia pensão do pai. Arrumou um emprego, mas ainda dependia da mãe. A mãe se ajeitou com um antigo amigo do pai.

Conheceu a Rosinha, menina vivida pacas, fez um filho nela, acabou casando e foi morar na meia-água no fundo da casa dos pais dela. Brigava com a sogra, levou porrada do sogro, arrumou emprego em uma oficina mecânica e acabou se mudando para um bairro na periferia, abandonando a Rosinha, o sogro, a sogra e o filho. Rosinha arrumou um outro cara.

Parou de fumar por causa da bronquite, mas continuou bebendo, “socialmente”, dizia.

Virou sócio da oficina. Acabou ganhando um bom dinheiro, comprou uma casa em conjunto habitacional e trouxe a Juliana para morar com ele, ela e seus três filhos de pais desconhecidos. Adotou os moleques.

Um dia, bebeu mais que podia, e ao voltar para a casa, foi vítima de uma bala perdida, que depois a polícia descobriu que não era tão perdida, mas tinha a ver com uma briga de uns dois anos antes, e um lance de certos pacotinhos dos quais ele não prestou contas.  Foi levado às pressas para o hospital.

Morreu antes de chegar lá. Juliana foi buscar o corpo no IML, e fez o enterro.

Fulano morreu assim, em certo dia de certo mês de certo ano, pelas três da madrugada.  Foi pro céu? Não sei, era ateu.
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1 de jan. de 2013

O que há de novo no Ano Novo?

CriançaQuando eu era criança, a festa do Ano Novo era sempre na casa do tio Mário e o Natal na casa do tio Acchiles. A família Greco (e Grecco, o escrivão errou algumas vezes…) se reunia no Natal na casa do Acchiles, e no Ano Novo na casa do Mário. Às vezes mudava um pouco, mas era aquele lance de festa familiar ampliada com os devidos anexos incorporados (cunhados e cunhadas, sobrinhos, sogros dos filhos, essas coisas). Uma vez a festa do Natal foi em casa, meu pai fez questão, mas foi tanta aporrinhação que nunca mais ele ofereceu a nossa casa!

O Ano Novo era mais divertido porque não tinha aquele lance pentelho dos presentes (os primos mais ricos sempre ganhavam os presentes melhores, e eu comecei a desconfiar que Papai Noel era puxa-saco dos ricos). No Ano Novo, tio Ricardo, o mais pobre da família, fazia a festa: recebia a gente na porta com a sacolinha cheia de nomes de países, a gente sorteava um nome e via para quem ia torcer na São Silvestre! Todo mundo pagava 5 cruzeiros (que nem pagava um cafezinho), e quem ganhasse a corrida ficava com a tremenda fortuna que mal passava dos 100 cruzeiros… Eu gostava quando a tia Beatriz ganhava porque ela acabava dando para mim (ela tinha um xodozinho por mim, porque talvez fosse o único sobrinho que se animava a sentar no seu piano e tentar tocar… quando ela morreu, o piano veio para mim, por vontade dela).

Sim, a São Silvestre, que era uma iniciativa da Rádio Gazeta e do jornal A Gazeta Esportiva, começava sempre pelas 23h30. e virava o ano com o pessoal correndo pelo centro velho de São Paulo. Muitos anos depois, a Globo Todo-Poderosa, obrigou a mudança de horário para não atrapalhar o Especial de Fim-de-Ano do Roberto Carlos, o show sempre igual… Naquele tempo não tinha os quenianos, e o grande herói da corrida era um belga, cujo nome não recordo…tinha também um careca que era da Checoslováquia que ganhava às vezes; certa vez ganhou um mexicano, e outra vez, um equatoriano,  para frustração de todos, onde já se viu latino-americano ganhar de europeu?  Eu sempre tive o azar de sortear um país que nunca ganhava: Peru, Brasil, França, Espanha, de modo que eu ficava olhando pela TV preto e branco sem muita expectativa.

Quando soava a meia noite, com muito menos foguetório que hoje, era realmente cômico: os adultos da família parecendo macacos: com o pé direito no chão (o esquerdo levantado), cacho de uva em uma das mãos, prato de lentilha na outra, sei lá como aparecia ainda a taça de champanhe, e ainda a romã com sete sementes (tinha de comer semente até o dia de reis…), e todo mundo dizendo “feliz ano-novo!”, aquele lance de abraçar, beijar, emoções, e o cara na TV gritando que a São Silvestre estava acabando e que o Belga já estava entrando na Avenida Cásper Líbero, onde acabava a corrida em frente ao prédio da Rádio Gazeta. Eu olhava aquilo e achava muito divertido, mas ficava tentando entender o que estava mudando além do número do ano no calendário e terminava dezembro, começava janeiro de novo…

Aos poucos fui entendendo que o tal Ano Novo não tinha nada de novo, apenas se recomeçava o mesmo de sempre. Comecei a reparar nos votos de felicitações que os adultos davam uns aos outros, quase sempre assim: “Muita Paz, muita alegria, muito dinheiro…”, e ai parece  que se davam conta que o lance do dinheiro não era para todo mundo, então completavam, “… muita saúde! Saúde é que é importante, não é mesmo? tendo saúde o resto a gente resolve…” E a resposta, invariável,”para você também, pois é, saúde é que é importante…!” 

É claro que o ser humano precisa renovar suas esperanças, se não a vida fica insuportável! Tem de ter um momento especial, onde tudo acaba e recomeça de novo. Escravos do Cronos, necessitamos fazer o Cronos recomeçar, porque do jeito que está não dá… Muitas civilizações organizavam seu calendário pelos ciclos da natureza: na Primavera, quando a vida ressurge depois de sepultada pelo Inverno, tudo se renova em esperança de que o novo tempo será melhor… A nossa Civilização, que já não tem a menor ideia do que seja a Natureza ou o Universo (além de uma tal de energia que fica assim fazendo cosquinhas de espiritualidade consumível) , o Cronos é regulado pela Contabilidade: 31 de dezembro é dia de fechamento do balanço contábil e 1º de janeiro começa um novo ano civil… e, de certa forma, todo mundo fica na esperança que o novo ano civil feche seu balanço, doze meses depois, com saldo positivo. Geralmente não fecha, porque o sistema não pode ver todas as pessoas felizes: felicidade tem de ser garantida para alguns, e para isso, muitos não podem tê-la. É a regra do mundo ocidental: quem pode, pode; quem não pode, se sacode no SUS porque “saúde é que é importante”.

Feliz Ano Novo! seja lá o que isso seja! e lembre-se: saúde é que é importante… haja saco!

Nota: apesar da ironia, eu dou graças a Deus porque quase sempre, depois de crescidinho, tive oportunidade de participar de boas festas de ano novo: vigílias na igreja, festas mais simples na casa de pessoas amigas e solidárias, caminhadas com amigos pelas ruas de São Paulo… é no convívio com pessoas queridas, amigos leais, sem hipocrisias, que vale a pena celebrar o ano novo, ou melhor, a vida em qualquer momento. É a amizade e o carinho sincero que renova a esperança… então, com meu carinho, felicidades a vocês que gostam de mim e vivemos em espírito de solidariedade uns com os outros. Aos que não gostam de mim, não adianta eu desejar nada, porque não vale a pena e eles nem vão dar importância: desejo, então, que vivam bem e não encham meu saco!

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21 de dez. de 2012

O Fim do Mundo (2)

andre_mansur_fim_do_mundoEstava tudo bem planejado, o cronograma definido para o mega evento.

O Calendário Maia estava bem aferido, testado que foi pela NASA que comparou os átomos de carbono e os isótopos 14, e dava uma margem de erro de 0,004 nano segundos. Em vários países do Hemisfério Norte cidadãos abastados construíram abrigos subterrâneos enganados pela falsa propaganda que garantia a sobrevivência em caso do mundo acabar (o que é uma asneira, pois acabando o mundo acabam também os abrigos subterrâneos, mas como novos ricos geralmente são idiotas e compram qualquer merda, um monte deles comprou abrigos subterrâneos). Apóstolos, super-evangelistas, mega-pastores, e outros picaretas do tipo, encheram o bucho de dinheiro fácil vendendo passes de salvação para os incautos de sempre.

Após uma ferrenha concorrência, a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar o Grande Impacto que daria início ao fim-do-mundo. A Prefeitura do Rio, com apoio do Governo do Estado e do Governo Federal (afinal alianças políticas servem para essas coisas) construiu três fim-do-mundródomos, porque várias pendengas judicias impetradas por diferentes grupos de interesse, determinavam que o evento deveria acontecer em locais diferentes.

Setores ligados à FIFA e à CNBB (um acordão envolvendo a bancada evangélica em off) impetraram mandato de segurança para que o evento acontecesse no novíssimo Maracanã (cujo projeto final foi aprovado pela Sagrada Comissão Ecumênica da Volta de Jesus); todavia, outros mandatos de segurança e liminares determinavam que seria em frente ao Copacabana Palace onde ficariam hospedadas as autoridades mundiais que celebrariam o acordo internacional do fim-do-mundo, perdoando as dívidas externas de todos os países, inclusive a dos EUA, uma vez que sendo o fim-do-mundo ninguém ia pagar mesmo e se pagassem, os que recebessem não teriam onde gastar; esse era o Projeto Original da Prefeitura que contaria com o patrocínio exclusivo da Petrobrás, do Eike Batista e do Bradesco (o Banco  oficial do Fim-do-Mudo). 

Um terceiro grupo, liderado pelo lobby das Escolas de Samba exigia que o evento acontecesse na Praça da Apoteose após o desfile da União Geral de Grêmios Recreativos e Escolas de Samba do Rio de Janeiro (um mega desfile juntando todas as escolas de todos os grupos); esse grupo tinha o apoio de vários ministros do STF, que alegando o excesso de trabalho devido ao Mensalão, não pode julgar tudo que estava rolando sobre o fim-do-mundo; assim até dia 15 de dezembro, não estava judicialmente decidido o local do impacto.

Para não perder a oportunidade política, a Presidenta da República consultou o Ministério da Ciência e Tecnologia sobre a possibilidade de se conseguir mais dois asteroides, de forma que o evento aconteceria nos três locais  simultaneamente, e seria assim um evento popular onde todos poderiam participar; a Presidenta assinou Medida Provisória definindo recursos para que o INPE providenciasse dois asteroides em caráter de urgência urgentíssima em benefício do interesse público. Todavia, graças a rápida manobra política, a Oposição conseguiu  bloquear a MP no Congresso alegando que os recursos extraordinários fariam falta aos setores de saúde e educação do país; para garantir, os Partidos de Oposição, com a cobertura da mídia empresarial, impetraram mandato de segurança no STF, apesar das explicações do Ministro Presidente do Egrégio Tribunal informar que o Mandato só poderia ser apreciado pela Casa duas semanas ou três após o fim-do-mundo.

Fora do Brasil, na ONU, com a Assembleia Geral reunida, povos de outras culturas e religiões contestavam, através de seus diplomatas, a realização do fim-do-mundo em um país cristão, uma vez que ninguém além dos cristãos esperam a volta de Jesus, e que isso não poderia ser imposto; assim, o mundo não poderia acabar com a volta de Jesus pois seria uma afronta aos povos de outros credos. O representante dos EUA informou que seu país não vai tolerar ingerências terroristas no fim-do-mundo e já colocou todo seu aparato militar em prontidão de alerta laranja, pronto para invadir qualquer país que se oponha ao fim-do-mundo na forma que foi definida, a fim de garantir a liberdade e a democracia mundial mesmo no fim-do-mundo.

Grupos ativistas de todas as cores, do mundo inteiro, especialmente ambientalistas e promotores dos direitos humanos, decidiram realizar um fim-do-mundo alternativo, que aconteceria no Aterro do Flamengo, com o slogan “Um outro fim-do-mundo é possível!”, determinando que o mundo terminaria não por um impacto de asteroide, que danificaria o meio ambiente, mas de forma bem natural, convocando a humanidade inteira e todos os animais a darem um tremendo peido coletivo à hora marcada, alterando rapidamente a atmosfera para o mundo acabar pela falta momentânea de oxigênio, o qual seria rapidamente reposto pelos vegetais em menos de dois séculos através da fotossíntese. O Peido do Novo Mundo foi estampado em camisetas, bandeiras, cartazes… e foram distribuídos à toda humanidade feijões pretos, repolhos e bata-doce, a fim de garantir o evento.

Apesar desses contratempos todos, o Governo Brasileiro garantiu o fim-do-mundo oficial no dia e hora marcada.

De fato, à hora prevista, no dia 21 de dezembro, três enormes asteroides entram na atmosfera da terra, mas se desintegram em poucos segundos, dando como resultado um miserável chuvisco de meteoros, que mal foi visto devido à intensa luz do sol. As autoridades no Copacabana Palace mantiveram o sorriso cínico como se nada realmente tivesse acontecido (e realmente, nada aconteceu). 

No Maracanã, para disfarçar, organizou-se um joguinho amistoso entre Corinthians e Flamengo com as bênçãos do Papa  (que daria a Bênção Final Urbi et Orbi no centro do gramado); enquanto isso, na Praça da Apoteose, terminado o desfile, e nada tendo acontecido, uma briga entre as baterias animou o pessoal sendo que até o momento em que escrevo essas linhas, o pau continua comendo solto por lá.

No Aterro do Flamengo, todavia, o Fim-do-Mundo alternativo também não deu certo: não conseguiram sincronizar o horário do Grande Peido Mundial, de forma que uns peidaram muito cedo, outros mais tarde mas isso não foi suficiente, e ainda tem gente peidando pelo mundo todo…

A Globo, pouco depois do fracasso dos asteroides, colocou no ar o Boal, com as chamadas para o Big Brother Brasil e o Jornal Hoje informou que a CIA suspeita que terroristas albaneses conseguiram danificar o asteroide oficial quando ainda estava por trás da Lua, por isso ele falhou, mas não emitiu nenhum parecer sobre a falha dos dois asteroides brasileiros  extras. Seja como for, uma frota norte-americana estacionou no litoral da Albânia, e logo em seguida o Iran anunciou seu apoio ao valente povo albanês.

No elevador do Copacabana Palace, a Primeira Ministra Alemã comenta com o Rei da Suécia: “Eu bem avisei àquela senhora Dilma que encomendar asteroides chineses não era a coisa mais adequada, mas eles ganharam a concorrência e deu no que deu!”.

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3 de dez. de 2012

Quando não havia o videoteipe, nem o Jô.

Indio da TupyNo final dos anos 50 e início dos 60 do século passado, a TV brasileira engatinhava. Não havia videoteipe, tudo era feito “ao vivo e em preto&branco” e a improvisação era a grande arte! Não havia a baixaria dos programas religiosos, claro.

Lembro que as propagandas eram feitas em estúdio, com uma moça, chamada garota propaganda, apresentando os produtos. Essas moças pagavam muito mico: ela mostrava o novíssimo liquidificador Arno e picava banana, maçã, colocava leite, mostrava como era “fácil fazer uma deliciosa vitamina de frutas”; então girava o botão para ligar o incrível equipamento e nada acontecia! Ela dava um sorriso, girava o botão de novo. Sempre sorrindo, ela tenta novamente, nada! então aparece um sujeito por trás da cena e liga alguma coisa na tomada, era o liquidificador que não estava “plugado”. E então o aparelho começava a funcionar e a tampa saia fora e a pobre “garota propaganda” tomava um banho de vitamina! A imagem saia do ar, entrava o indiozinho da Tupi. Eu me dobrava de rir! Outra vez, a moça estava mostrando um incrível sofá-cama, grande novidade. Ela vai mostrar como é fácil armar a cama, ergue o assento do sofá, o dito cujo escorrega para trás, derruba a parede do cenário, uma confusão danada, novamente a imagem sai do ar e aparece o indiozinho…

Capitão 7

A garotada se amarrava nas Aventuras do Capitão 7, que passava na TV Record de São Paulo, o Canal 7 , onde também havia um programa que a gente curtia muito às 6 horas da tarde: Pullman Junior e depois a Turma dos 7. O Capitão 7 era o nosso super-herói, e fazia sucesso ao lado do Vigilante Rodoviário.  Legal mesmo era o Pullman Junior: crianças se inscreviam para participar, e ficavam lá comendo bolo Pullman, tomando Guaraná Antártica e vendo desenho animado. Uma vez eu participei junto com meu irmão Ricardo. Mamãe ficou dias tentando pelo telefone a nossa inscrição (telefone naquela época era mais complicado que celular da TIM). Conseguiu, era um programa especial de carnaval e fomos fantasiados de palhaço, eu e o Ricardo (nós havíamos ganho um prémio de originalidade no baile infantil naqueles dias, e mamãe estava orgulhosa das fantasias que ela mesma havia confeccionado!).

Chegamos na TV Record, que ficava pertinho do longínquo Aeroporto de Congonhas, e era simplesmente um conjunto de barracões cheios de divisões internas (os funcionários chamavam de estúdios!). Logo na entrada, um saguão, estavam três senhoras sentadas conversando. Reconheci uma delas rapidamente, era a esposa do Palhaço Pimentinha, que era companheiro do Arrelia, no Circo do Arrelia. Essa senhora era uma espécie de faz tudo: atuava no circo, fazia às vezes de garota propaganda, fazia número em programas que tinham de apresentar pequenos auditórios, etc. Ela olhou para mim e disse: “Olha só, se ele fosse magrinho, seria igual ao Pimentinha!” e todo mundo caiu na gargalhada, eu fiquei vermelho de vergonha! Fomos para o estúdio do Pullman Junior e foi quando descobri que era apenas um canto, onde haviam algumas mesas, um monte de criança sentada nas mesas comendo bolo; a gente mal podia ver o desenho animado, porque a televisão ficava por trás. Havia uma menina que apresentava o programa naquele tempo, acho que era a Débora Duarte!!! ela veio me entrevistar e eu fiquei todo orgulhoso: eu estava falando com a Débora, a menina que perturbava meus colegas de ginásio!!! eu tinha 11 anos!

TURMA DOS SETEFoi ai que alguém da TV Record me achou! Havia um programa muito legal, chamado Turma dos Sete, as aventuras de sete crianças, amigos e vizinhos. Um desse personagens se chamava Bolão e era gordinho. O menino que fazia papel de Bolão estava já muito “velho” para o elenco e estavam procurando outros. O sujeito que se apresentou como Produtor da Record gostou de mim… minha mãe, claro, ficou toda cheia de si, e lá foi o Luiz Caetano fazer semanas de testes, decorar texto, até que finalmente eu fui ao ar!!! Putz! Minha mãe passou dias no telefone avisando todos os parentes, inclusive os primos de segundo, terceiro e quarto grau, as vizinhas das cunhadas das primas, etc. que o Luiz Caetano ia estrear na TV no dia tal, ia ser o Bolão da Turma dos Sete, e claro, “ele tem talento, eu sempre soube disso, está muito bem e o diretor gosta muito dele!”. Pobre mamãe! como toda senhora jovem pequeno-burguesa vivia das fantasias do mercado…

Dona Renata, mamãe, deve ter elevado muito o Ibope da Turma do Sete naquele dia, se isso já existisse. Naquele tempo não tinha FACEBOOK, nem Twitter, então não tinha como “compartilhar”, o negócio era telefonar pra todo mundo mesmo. Não tinha videoteipe. A gente entrava no ar e a coisa tinha de rolar na marra! se saísse errado, a gente tinha de improvisar… era divertido!

Durou pouco meu tempo de TV. Meu pai cismou, no que foi plenamente apoiado pelo Diretor do Colégio Nossa Senhora da Glória, o Irmão Expedito Leão (Marista), que aquele negócio de trabalhar na TV e estudar não dava certo. E com seu jeito de pai mansinho, ele convenceu minha mãe e eu simplesmente tive de deixar o programa. Acho que fiz uns três programas, estava em fase de teste ainda.

Por isso é que o Lima Duarte, o Francisco Cuoco e o Tarcísio Meira fizeram sucesso! Meu pai bloqueou minha carreira na TV!!! mas tive meus dias de glória na telinha! e nem precisei escrever livro, virar presidente de qualquer coisa, nem pagar para aparecer no Jô para isso! E ainda ganhei uma graninha, que meu pai usou para comprar minha bicicleta Caloi aro 24, com a qual eu finalmente ganhei do Marcelo (que tinha uma Monark aro 24) nas corridas de bicicleta que a criançada da vizinhança fazia na Jackson de Figueiredo, bairro da Aclimação, São Paulo.

Se naquela época tivesse o FACEBOOK eu teria compartilhado com amigos, grupos, páginas, etc.  É o modesto charme da burguesia!  e vamo que vamo!

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30 de nov. de 2012

Comunidade ou clientela?

Rev. FulanoMuitas vezes aparecem pessoas visitando a São Paulo Apóstolo, e travam comigo ou com alguém um diálogo assim:

“_ Esta igreja aqui é a mesma do Rev. Fulano, lá de (cidade)? a gente é de lá, frequenta lá. É que disseram que é a mesma!”

“_ Sim, é a mesma Igreja, somos parte da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil”

“_ Não sei se é essa, mas é a mesma coisa né? porque a gente gosta muito do Rev. Fulano, sabe, né, ele é muito bom, faz muita coisa boa!”

“_ Sim, eu sei…”

“_ Mas é tudo igual à igreja de lá, né?”

“_ Vocês são Episcopais Anglicanos?”

“_ É, acho que é isso, Anglicana, né? mas é a igreja do Rev. Fulano, em (cidade). A gente gosta muito dele, sabe? ele fala bonito, muito espiritual, e faz muita coisa boa pros outros…”

“_ Sei…”

“_ Aqui não tem muita gente, né? é que lá todo mundo gosta do Rev. Fulano… muita gente vai lá… ele é muito conhecido, né? Inclusive ele casou o Vice Síndico do meu prédio e batizou o filho da amiga da minha prima de segundo grau, foi assim que a gente conheceu ele.”

“_ Sei… mas vocês são bem vindos, em nome do Senhor Jesus Cristo!”

“_ Como é mesmo o seu nome? é que a gente quer telefonar lá pra Igreja do Rev. Fulano para ter certeza que é a mesma coisa; é que não é igual, sabe? lá não tem aquela coisa ali na mesona…” (ou “não tem vela”, ou “tem muito mais vela”, ou “tem a foto da avó do Rev. Fulano com ele no colo quando bebezinho, no lado do altar” – coisas desse tipo).

Já ouvi isso em outras comunidades onde trabalhei, e mesmo no meio ecumênico, gente que se refere à uma Igreja ou uma Denominação se referindo a um determinado pastor (vi isso em diferentes denominações).

Uma das coisas que sempre peço a Deus em meu ministério é que a Paróquia onde sirvo não venha a ser conhecida como a Igreja do Rev. Caetano, para que eu não peque por Soberba ou Orgulho. Eu pretendo servir ao Povo de Deus em Cristo, na comunidade episcopaliana onde esteja servindo e exercendo meu ministério, em comunhão com o Bispo Diocesano, e não a uma clientela que me idolatre! Eu tento sempre apontar ao Senhor, não a mim mesmo.

É o Espírito Santo de Deus quem deve fazer a Igreja, não a minha simpatia pessoal ou as sugestões do meu personal promoter, ou a minha enorme capacidade de bajular quem aparenta ser “pessoa de bem” (bens!).

É claro que as pessoas têm no pastor sua primeira referência, especialmente se são novos na comunidade. Mas o convívio com a comunidade acolhedora, a pregação, o ensino e – principalmente o não ter pressa para confirmar ou receber formalmente em comunhão uma pessoa a fim de mostrar crescimento estatístico – deve fazer aos poucos  que as pessoas se identifiquem com a Comunidade, e com a denominação. 

Que Deus me ajude! e que Deus salve a Igreja dos que se autopromovem usurpando o nome do Senhor! daqueles que, ao divulgarem a si mesmos, pensam estar divulgando a Igreja e o Evangelho, nas relações pessoais e, principalmente na mídia.

Como disse o Apóstolo São Paulo, “ […] de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. (1. Cor 3.7)

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26 de out. de 2012

Propostas em favor de “minorias oprimidas”…

Uma vez que a nossa sociedade é repleta de políticas afirmativas, quotas e bolsas por conta do Estado, e que o politicamente correto é hoje a ditadura da mediocridade, me atrevo a apresentar algumas sugestões de políticas afirmativas em defesa de alguns grupos sociais ainda não privilegiados, já que este é o país dos direitos sem deveres. 

1. Quota para alun@s obes@s no Ensino Superior:  veja bem, o sujeito/a sujeita é gordinh@, estuda em escola pública, mas é branc@, não tem afro-antepassad@, e por isso – por ser gordinh@ – disputa vestibular em desvantagem flagrante diante dos saudáveis mauricinhos e patricinhas que frequentam academias. Veja só: o/a infeliz  gordinh@ tem de subir e descer escadas no colégio, o que no seu caso, o/a faz chegar mais cansad@ que @s demais na sala de aula, geralmente com dor nas pernas e no pé, e isso afeta seu aprendizado, pois já sofreu um estresse antes de começar a aula. Considere-se que normalmente gordinh@s caminham mais devagar e por isso acabam chegando atrasad@s à escola devido a terem de caminhar desde o ponto de ônibus… Portanto, nada mais justo que se ofereça uma quota para gordinh@s a fim de que possam cursar uma faculdade e disputarem o mercado de trabalho de camelô com os demais estudantes magr@s. E é muito simples caracterizar um/uma gord@: basta olhar! Não precisa trazer documento, árvore genealógica, retrato editado no Photoshop, etc. O/A funcionári@ que receber a inscrição, olha bem o/a candidat@ e, como tem fé pública, atesta imediatamente que o/a candidat@ é gord@.

2. Assentos especiais para hemorreicos/hemorriecas: isso é importantíssimo, pois é assunto de saúde pública! Quem tem hemorroidas sabe (não é meu caso, mas eu penso muito n@s coitadinh@s). O/a infeliz vai ao cinema, teatro, restaurante, pega ônibus, taxi, metrô, trem urbano, viaja de avião, vai na escola, e mais uma porrada de coisas, onde tem de se sentar (claro que no caso do transporte público, é preciso que ele/ela tenha sorte em achar um banco vazio). E então, sentar-se é um suplício! Por isso, tudo que seja local onde hajam assentos, deve haver um percentual de assentos especiais para os infelizes, com um vazio no meio a fim de possibilitar a esses/essas coitad@s um conforto. Ainda não resolvi como o/a sujeit@ prova que tem direito a usar o tal assento e exigir que o/a adolescente boca-aberta, que adora usar os assentos reservados, desocupe o acento furado reservado ao/à portador(a) de hemorroidas (que seria politicamente mais correto chamar de trabalhador(a) com necessidades especiais para sentar-se, a fim de não ser pejorativo). Não será necessário desenvolver nenhuma tecnologia especial, basta equipar os locais com uma percentagem de cadeiras cujo assento seja uma tábua de privada, que é baratinho no mercado (não precisa ser almofadado, porque ai já seria um luxo e o governo não vai subsidiar isso!). Atenção: alguns locais públicos já reservam assentos especiais para obes@s, então tem de lembrar que alguns obes@s são também trabalhadores(as) com necessidades especiais para sentar-se apesar da bunda grande.

3. Faixa exclusiva para motoboy/motogirl em todas as ruas e avenidas e vielas: é realmente aterrador ver os/as trabalhadores(as) motoboys/girls oprimid@s pelo transito e pel@s desalmad@s motoristas que insistem em não dar brecha para eles/elas passarem, obrigando-os/as a sofrerem colisões nas solas dos pés contra espelhos retrovisores externos, por exemplo. É preciso lembrar que motoboy/girl ganha por produção, por isso, não pode perder seu precioso tempo em engarrafamentos, nem perder sua concentração em chegar logo por causa de pedestres mal intencionad@s que surgem por trás de carros e ônibus, inclusive nas faixas de pedestre com sinal aberto para os tais. Com a faixa exclusiva em qualquer via pública, os motoboys/girls não precisariam machucar os pés com retrovisores, nem fazerem uma ginástica danada para passar entre veículos parados em congestionamentos. Veja bem: qualquer pedestre tem faixa exclusiva que se chama calçada; por que os motoboys/girls não têm sua faixa exclusiva? isso é uma opressão burguesa contra os/as pobres rapazes/rapazas de capacete em duas rodas.

4. Bolsa-Família para solteir@s, solitári@s e casais estéreis: nem preciso argumentar muito neste caso, pois a tal Bolsa-Família oferecida apenas a quem tenha filh@s menores é um insulto ao princípio que tod@s os/as cidadãos(ãs) são iguais perante o Estado. No que se refere às mulheres, principalmente, pois uma mãe-solteira, só por ser mãe, tem direito à bolsa família. Cabe o adendo da pergunta se pai solteiro tem o mesmo direito (embora não seja politicamente correto exigir-se direitos especiais para pessoas do gênero masculino; a menos que seja uma homossexual ativa ou devo dizer lésbica ativa? não é ofensivo?).
Estas são algumas propostas… tenho mais…

---- IMPORTANTE----
Observações sobre algumas questões semânticas que podem ser levantadas  ao ler-se  este artigo. Para evitar que os/as politicamente corret@s fiquem mais enfurecid@s que de costume, apresento a chave hermenêutica para certas palavras e expressões utilizadas no texto acima:

a) quando falo em ditadura da mediocridade, não é pejorativo. Medíocre significa median@, médi@, ou seja dentro do padrão da maioria. O/A politicamente corret@, exatamente por considerar-se corret@ (os/as diferentes são, então, incorret@s) é uma ditadura, ou seja, um totalitarismo.
b) bunda: no Brasil não é palavrão (baixo calão), mas em Portugal sim. Portugueses/as politicamente correct@s, por favor, lembrem-se que falo brasileiro.
c) mãe-solteira refere-se à mulher que tenha filhos e não é casada nem vive com um companheiro (assumindo ou não a paternidade); vale inclusive para aquelas adeptas da produção independente. Afinal, são solteiras. Isso não é pejorativo. Mas talvez fosse melhor, ao invés de mãe-solteira, referir-se às tais como “mulher emancipada que tenha prole”.  Não sei dizer se, no caso, prole seria politicamente correto. Talvez fosse melhor dizer “mulher emancipada que reproduziu parte de seu material genético com masculino oculto”.
d) se você é politicamente corret@ e ficou irritad@ com este artigo, então atingi meu objetivo.

Note que estou sendo politicamente correto ao ser idiotamente sincero.
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30 de jul. de 2012

A Coisa

O despertador tocou às 6h00, como todos os dias; João levantou-se abriu a veneziana e contemplou a rua, aspirando o ar fresco. Estranhou o pouco movimento, mas deu-se conta que era sábado; já os bem-te-vis e os pardais faziam a costumeira arruaça matinal. “Eles não têm sábado, nem domingo, eles não estão presos às convenções do tempo”, e esse pensamento fez surgir um sorriso no rosto de João. Tomou banho, lavou a dentadura, fez gargarejo com o Listerine, vestiu-se, desceu até a cozinha, bebeu os dois copos de água que o médico recomendou, e saiu para comprar o pão na padaria da praça, ali perto, e pegar o jornal na banca do Reinaldo, para depois fazer o café e ver o que o editor do jornal queria que ele ficasse sabendo. Tudo como sempre fazia desde que se aposentou.


Ao sair para o pequeno jardim do sobrado, ele a viu! Estava ali, no lado esquerdo do canteiro de copos-de-leite. “Estranho”, pensou João, “que é essa Coisa ai?” La estava aquela Coisa, e João tinha certeza que ontem não estava lá.  Mas agora estava lá, solene, na terra, entre os copos-de-leite, imperiosamente ela mesma, aquela Coisa. João se aproximou para ver a Coisa mais de perto: “Que Coisa é essa?”, e ficou olhando interessado.

Nisso, passou o Garrido, com seu sorriso bonachão dando o solene “Buenos Dias” com seu sotaque portenho, e então percebeu o João entretido com a Coisa. “Que Cosa es esta?” perguntou. “Não sei, essa Coisa apareceu aqui assim, sei lá vinda de onde!”  Garrido entrou no jardim e pôs-se também a olhar a Coisa. E estavam os dois olhando a Coisa quando passou dona Severina, nordestina arretada, neta de cangaceiro  e evangélica, que ao ver a Coisa logo foi dizendo: “Essa Coisa ai não é coisa de Deus!"” e entrou para olhar a Coisa também ao mesmo tempo que repreendia a Coisa.

Logo várias pessoas da vizinhança estavam ali, olhando a Coisa, pois todos que passavam se interessavam e vinham perguntar que Coisa era aquela. E todos diziam alguma coisa sobre a Coisa. Várias hipóteses surgiram para explicar a Coisa, mas ninguém conseguia dizer que coisa a Coisa era.

Vicente, o filósofo da rua, disse que já tinha visto muita coisa, mas nunca tinha visto uma coisa como aquela Coisa. Gilberto, que estudou dois anos de engenharia na juventude, disse que talvez a Coisa tivesse relação com um tal de Bóson de Higgs (“é com agá, mas a gente fala como se fosse erre”, salientou) que alguém tinha visto na Suíça, mas foi contestado pelo Vicente dizendo que o Bóson de Higgs era outra coisa e não aquela Coisa.  “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e nada é a mesma coisa. Isso está me parecendo uma coisa estranha”, concluiu Vicente.

Dona Severina, continuava dizendo que a Coisa não era coisa de Deus, e já estava reunindo um grupo para orar pedindo a Deus que mandasse um profeta explicar o que era aquela Coisa, enquanto Gilberto, expressando seu ateísmo materialista, reclamava que a dona Severina não dizia coisa com coisa, e que aquela Coisa não tinha nada a ver com religião, uma coisa que ele não gosta.

Verinha, balzaquiana solteira, defensora dos direitos humanos, da ecologia e representante da rua na Associação do Bairro, chegou dizendo que a Coisa tinha o direito de estar lá e que ela não admitiria que alguém tentasse pegar na Coisa, e aproveitou para distribuir os panfletos sobre a próxima assembleia do bairro, que deveria tratar de várias coisas.

O fato é que todos falavam alguma coisa sobre a Coisa, e muita coisa se dizia sobre a Coisa, mas ninguém dizia realmente qualquer coisa que explicasse a Coisa. Alguém sugeriu chamar a Polícia ou os Bombeiros, mas outrem disse que isso não é coisa de Polícia, e que talvez fosse melhor deixar a Coisa como estava porque as coisas vão e vem, a vida é uma coisa assim mesmo. Verinha retrocou dizendo que não podiam ser conformistas e deviam lutar pela Coisa, porque era a coisa mais certa a fazer. “A Coisa é nossa, está na nossa rua e nós temos de cuidar da Coisa contra a manipulação política da Coisa! e só de pensar na Coisa, me dá aquela coisa, sabe, de me arrepiar toda!”

Foi então que chegou o Toninho, moleque da rua que fazia pequenos serviços para a vizinhança em troca de umas moedas para seu cofrinho de lata. Sem dar importância ao grupo que estava discutindo a Coisa, foi logo dizendo:
_“Ô seu João, ontem quando vim limpar seu jardim esqueci uma coisa… ah! está aqui!”, e pegou a Coisa.  Todo mundo ficou admirado!

Toninho já ia saindo quando o Vicente resolveu fazer a pergunta que todos queriam:
“Ô garoto! Essa Coisa é sua? que Coisa é essa?”
“Ora, é uma Coisa minha! só isso!”, e Toninho saiu correndo feliz por ter achado sua Coisa.

Pouco depois todos se deram conta que a Coisa não estava mais lá; afinal era Coisa do Toninho e ninguém tinha nada a ver com a coisa. Então, cada um foi cuidar das suas próprias coisas.

“Que Coisa!”, exclamou João, e foi direto à padaria.
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19 de fev. de 2012

O fim do mundo !

Fim do mundoDe tempos em tempos aparecem por ai os profetas do fim do mundo, evento que deverá acontecer em dia determinado e alguns – mais sofisticados – dizem até a hora… No momento, a data é dezembro deste ano, embora alguns discordem da data exata, por isso eu não a menciono. O oráculo da moda é o famoso calendário do povo Maia, uma civilização sensacional, que viveu – e ainda vive – na hoje chamada América Central e México.

De fato, dizem os cientistas, o nosso planeta terá um fim, muito provavelmente quando a nossa estrela central, chamada Sol, explodir daqui uns 4 ou 5 bilhões de anos. Segundo a teoria mais aceita, a Terra será engolida pelo Sol em expansão e assim tudo que há aqui será transformado em plasma estrelar, aliás, a matéria de onde tudo veio!

Mas isso não quer dizer que a vida vai acabar com a Terra. Provavelmente acabará antes! porque as transformações que o sistema solar vai experimentar antes do evento final, tornarão nosso planeta estéril.

Um monte de crente acredita que o fim do mundo é aquilo descrito no livro do Apocalipse, palavra grega que significa Revelação, embora o autor do livro não tivesse a pretensão de ser tão exato assim, ele estava mais preocupado com o Império Romano que perseguia os cristãos. O Apocalipse não fala do fim do mundo, mas do Reinado de Deus, quando o Céu vem para a Terra: um novo Céu e uma nova Terra (Apoc 21); vai ser meio chato porque diz o texto que não haverá mar, portanto, não vamos ter praia no Reino de Deus (os surfistas ficarão frustrados, assim como todo esse pessoal que curte praia).

Certa vez, há muitos anos, um famoso pastor batista fluminense, que terminou seus dias acusado de corrupção, e que estava em vias de comprar a TV-Rio, antigo canal 13, explicou que o povo evangélico tinha de ter uma rede mundial de TV para cumprir a profecia de que “todo olho verá” a volta de Jesus. Ele justificava que como a Terra é redonda, Jesus chegaria por um lado e quem estivesse do outro lado só poderia ver a grande volta pela TV, para cumprir a profecia; assim ele tentava convencer o povo a contribuir com dinheiro para o fechamento do negócio.

Devemos reconhecer que, ao menos, esse velho pastor era mais criativo que os atuais “pastores”, “bispos”, “apóstolos”, “vice deuses”, que são donos de redes “evangélicas” de TV… e que o pessoal católico romano que também está no mercado da mídia televisiva brasileira.

Então Jesus vai voltar! resta saber de onde! Vejamos: a considerar a narrativa da Ascensão de Jesus como um fato físico, e supondo que Jesus subiu na velocidade da luz (o que faria dele energia pura, seja lá o que seja isso),  ele estaria hoje há quase 2 mil anos luz da Terra, ainda dentro da Galáxia… então, considerando que Jesus vai voltar no fim do mundo, pelo menos mais 2 mil anos teremos até que ele chegue de volta… os crentes não precisam ficar preocupados, e tratem de pagar suas prestações em dia, porque não vai ser possível dar calote em nome do fim do mundo.

Se considerarmos o texto sobre a Ascensão de Jesus como uma narrativa mítica e mística, a gente vai ver que ele não se foi… ficou oculto por uma nuvem… então Jesus não vai voltar, porque ficou por aqui mesmo, oculto na nuvem!!! êpa! então o fim do mundo pode acontecer a qualquer momento! vixe! Prefiro acreditar que tudo isso se refere a um novo Céu e a uma nova Terra: a afirmação de que um novo mundo é possível e desejado por Deus….

Fora do universo cristão há outros mitos sobre o fim do mundo, mas ficaria extenso a gente comentar aqui. O fato é que a percepção de fim pode ser um instrumento de esperança – um mundo novo é possível, ou a base de um absoluto niilismo – se tudo vai acabar, nada vale a pena.

Prefiro ficar com a Química e a Lei de Lavoisier: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, conhecida como Lei da conservação da massa ou da matéria, que falando bem claro, diz: “nada começa, nada acaba, tudo muda”.

Eu sei que essa afirmação deixa você, leitor, cheio de indagações: não tem um começo? não vai ter um fim?  Meu objetivo é esse: apenas provocar! não leve tudo isso a sério! afinal, a vida é a vida, tendo começo e fim, seja lá o que isso seja!

Bom carnaval filosófico!
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17 de jan. de 2012

O Tempo (I)

espaco_sideralHá uma pegadinha que todo bom professor aplica nos alunos que iniciam o estudo da Física. Apresenta-se à classe um cronômetro ou um relógio, e pergunta-se: “O que é isso?”  Sempre tem um esperto que vai responder: “Um cronômetro!” (ou “Um relógio!”). O professor prossegue: “O que ele faz?”, o esperto responde: “É um aparelho para medir o tempo”. E o professor dá o cheque-mate: “O que é tempo?”. Silêncio total… e o professor prossegue: “Pois é, não dá pra definir tempo! embora se possa medir.” (uma pérola do positivismo!)

À medida que avança seus estudos, o estudante se adapta à fatalidade de utilizar o tempo como uma variável útil nas equações. Aliás, todo mundo usa o tempo assim, sem conceituar… Nós falamos em presente, passado, futuro, ontem, hoje, amanhã, e usamos todas essas características quantificáveis do tempo.

Os físicos relativistas vão mais além. Como lidam com grandezas enormes, e bota enormidade nisso, eles utilizam o tempo também como medida de distância (simplificando ao extremo, é isso ai), e falam em espaço-tempo. Espaço-tempo é uma coisa muito engraçada.

Olhe para o céu noturno. Você verá um monte de estrelas, se a poluição não atrapalhar. Escolha uma estrela, por exemplo, Sirius, uma estrela brilhante, a mais brilhante do nosso céu, que fica perto do Órion.  A luz de Sirius que está chegando aos teus olhos AGORA (presente), saiu (passado) da estrela há aproximadamente seis anos. Os astrônomos dizem que Sírius está há seis anos-luz da Terra, o que significa que sua luz, para percorrer a distância que a separa de nós, demora seis anos! Isso significa que a luz que você está vendo no seu presente é o passado da estrela.  Há coisas no céu que estão há milhares e milhões de anos-luz de nós. Quando olhamos para eles, estamos olhando para um passado muito distante, que é nosso presente. Vemos astros que não estão mais no lugar que vemos, e muitos nem mais existem!

Há corpos celestes mais distantes de Sírius que os seis anos-luz que nos separam dela. Digamos que haja um corpo celeste que está há oito anos-luz de Sírius.  A luz de Sírius que você está vendo ainda não chegou lá. Ou seja, o passado da estrela, que para você é presente, para um observador no outro corpo celeste ainda é futuro!

Olha só que coisa maluca! quando você olha o céu noturno (seu presente), você está olhando ao mesmo tempo para o passado e para o futuro! Tudo depende do seu PONTO-DE-VISTA, ou seja, de sua posição no espaço-tempo.

O Sol, que a gente não pode olhar diretamente, mas com ajuda de um filtro escuro, está há 8 minutos-luz da Terra; isso significa que sua luz leva oito minutos para chegar aqui. Vamos supor que os americanos resolvam parar de encher o saco do pessoal no oriente médio e resolvam ocupar o Sol com uma das naves da NASA (acho meio difícil porque derreteria tudo, mas como os americanos pensam que são deuses, pode até ser que inventem algo para pousar no Sol). O astronauta diria pelo rádio: “Pousamos no Sol”. Oito minutos depois, alguém em Huston, ouviria a mensagem.  Como é um técnico, ele daria a notícia: “Eles pousaram no Sol há oito minutos!”. Imediatamente, digamos 30 segundos depois, o Presidente dos United States falaria aos astronautas sua mensagem demagógica e ufanista, falando da paz mundial e outras baboseiras. Oito minutos e trinta segundos depois, a mensagem do Presidente, levada pelas ondas de rádio, chegaria ao Sol… mas ninguém ouviria, porque não há mais nenhum vestígio da nave, dos astronautas e da bandeira americana que tentariam colocar no solo [?!] solar! tudo virou Hidrogênio e Hélio.

Com muita pena dos astronautas, o que quero dizer é que até a luz que a gente recebe da nossa estrela vem do passado. E essa mesma luz ainda é futuro para um observador (o robozinho americano) em Marte.

“Pois é, meu caro” – como diria o meu velho professor de Física, o Dr.Fragoso – “estamos mergulhados em uma enorme sopa de passado, presente e futuro”.

Tá confuso? eu também! e tem coisa pior… mas por agora chega! já deu pra gente pirar por algum tempo, né? Tempo? êpa!

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28 de dez. de 2011

Recordações Natalinas…

Esta época do ano acaba evocando recordações, especialmente as recordações da infância, que sempre brotam já relidas e adaptadas pelo nosso inconsciente, mas são as lembranças que temos…
Claro que logo recordo dos natais da minha infância, na casa de algum tio ou mesmo em minha casa, com a reunião da família ampliada (especialmente a família da minha mãe, porque a do papai estava no Rio e nós morávamos em São Paulo). 
Como bons italianos, ou filhos de, meus tios e tias tinham de discutir sobre tudo, e assim a famosa reunião de organização da festa natalina era um show de discussões sem sentido: quem vai dar (pagar) o peru? e o tender? (não pode faltar!). Tia Beatriz, sempre nervosinha, mas com uma calma impressionante nessas horas, resolvia logo sua parte: ela traria o pudim de caramelo, sua única especialidade.. Minha mãe era a responsável pela lasanha, com molho a chocolat, sua especialidade. Tia Lídia, claro, o pernil e os doces, mas mamãe também era encarregada das rabanadas!!! Os três tios mais ricos (os três médicos!!!) bancavam as coisas mais caras, e faziam questão, porque com certeza fazia bem para o ego deles. Uma vez, meu pai (que teve um momento de ganhar muita grana mas perdeu muito também) resolveu fazer a festa na nossa casa e bancou tudo ou quase tudo. O tio que fazia questão de mandar o peru, mandou e assim aconteceu de termos dois perus na mesa!!! (e isso rolou muita encrenca antes e depois do Natal, coisas de italianos… embora meu pai não fosse italiano, tinha sangue português e por isso, era birrento quando queria – quase nunca queria, graças a Deus).
E tinha o lance do Papai Noel. Era um funcionário do tio Mário, mas uma vez o cara não apareceu e eu, o primo gordo, tive de fazer a coisa… foi um saco aguentar os priminhos novos, filhos das primas mais velhas… mas acho que consegui dar conta.
Fantásticas mesmo eram as festas de Natal na casa do tio Acchiles, acho que o mais rico de todos até ser superado pelo seu irmão caçula… às vezes alternava com o tio Mário, um sujeito muito divertido e boa praça! Tinha direito a som de helicóptero antecipando a chegada do Papai Noel  (não sei se era um truque ou o velho Acchiles alugava mesmo um helicóptero para fazer a cena…).
Haviam alguns personagens que eram sensacionais. Personagens não, gente real, mas que pareciam não existir. Lembro de alguns.
O Francesco, companheiro da tia Beatriz, um metalúrgico (politizado pacas, e de esquerda, descobri isso depois) que me divertia muito com suas brincadeiras de mágico; ele fazia isso meio discretamente, porque era tímido, sempre ficava meio de lado (depois entendi que sendo de esquerda, não se sentia bem no meio daquele ambiente burguês de classe média ajeitada).
Um casal que eu gostava muito: o “Seo” José e sua esposa, a dona Êudice (o nome é esse mesmo, pelo menos assim o pessoal falava). Ela sempre muito elegante e conversadeira; o José, um sujeito bonachão, sempre sorridente e bom garfo; meu pai gostava dele. Eram sogros de uma das primas mais velhas. Mas o casal era uma figura e eu me divertia muito olhando eles de longe, os trejeitos da dona Êudice e o sorriso conformado do José.
E o tio Ricardo, o tio legal, o pobre da família, mas sempre de bom humor e cheio de piadas. Tinha mania de ser ufólogo e sempre contava suas incríveis observações de disco voador sobre São Paulo. Um sujeito sensacional, me ensinou a jogar xadrez e tinha inclusive o título de Mestre…
A tia Bicce (Beatriz) era um caso a parte. Tinha manias muito engraçadas e sempre queria agradar todo mundo… adorava uma boa fofoca (e com mamãe e tia Lídia, as três sempre tinham assunto pra semana seguinte – aliás, sempre tinham assunto!).
Não podia faltar o famoso retrato do vovô Caetano e da vovó Concetta, em um quadro enorme, enfeitado, no salão principal da festa. Quem trazia o quadro era o tio Acchiles, onde quer que fosse a festa. Quando dava meia noite, exatamente antes de começar a ceia, o pessoal todo se reunia sob o retrato dos avós e entre choros (italiano que não chora nessas horas está morto) e rezas, estouravam o champanhe e começava a comilança, logo depois de todo mundo se abraçar e dizer “Feliz Natal” uns aos outros.
Pelos 19 anos, eu aparecia na festa já na madrugada; naquele tempo eu ia na missa da meia-noite; havia tido minha experiência pessoal com Jesus e, assim, o Natal passou a ser, para mim, um momento essencialmente litúrgico.
Um dia dois tios brigaram e a coisa foi feia; naquele ano um deles não veio para o Natal, e a partir dai quando um vinha, o outro não vinha. Não sei bem até hoje porque brigaram, mas ouvi uma fofoca que foi por causa de umas pílulas…
Anos depois, o tio Mário faleceu exatamente na véspera do Natal, cuja festa seria na casa dele! Foi uma coisa terrível… a ceia pronta e o velório acontecendo…
A partir de então, acabou o natal dos Grecos. Cada núcleo familiar começou a fazer seu próprio programa…
O mundo ainda andava devagar, e as pessoas curtiam mais o Natal sem o excessivo consumismo… as famílias se reuniam mais e, apesar das encrencas, todo mundo se emocionava muito…
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6 de dez. de 2011

Querem mudar o nome da Árvore de Natal!!!

Árvore de Natal

Mais uma novidade “bizantina” nos EUA. Agora lá não se pode dizer “Arvore de Natal”, especialmente se for patrocinada por algum órgão governamental, em respeito aos não cristãos! Tem de chamar “Arvore de Festa”! É o tal politicamente correto…
Os ateus não devem se ofender com isso, com certeza, até porque curtem bem as festas de Natal, trocam presentes, tudo dentro dos conformes com a sociedade de consumo. Talvez o problema seja a população judia… mas os judeus sempre se deram bem nos EUA e nunca criaram caso com árvores de natal, afinal é parte da cultura do hemisfério norte celebrar o solstício de inverno com a árvore enfeitada com luzes e prendas. Os evangélicos não são, pois também são chegadinhos a uma árvore de Natal.  Não creio que os hinduístas sintam-se ofendidos com uma árvore de Natal. Restam os mulçumanos, talvez?
Interessante, porém, que em vários países confessionalmente não cristãos, os cristãos que lá vivem não se importam muito com as celebrações culturais daqueles povos. Mas em vários, os cristãos são perseguidos, não têm liberdade de culto, e às vezes vivem na clandestinidade. Que eu saiba, os EUA nunca deram importância para isso…
Posso compreender que nem todo mundo é obrigado a celebrar o Natal. Assim como ninguém deve ser obrigado a respeitar as sextas-feiras (dia sagrado dos mulçumanos), os sábados, o Pessach,  ou fazer um mês de jejum no Ramadã.
A questão é, caso haja ofensa em celebrar-se o Natal, porque manter o feriado? afinal, para que seria o feriado de natal? para festejar o quê? Se os EUA mantém feriado no Natal, porque a implicância com a árvore? incoerente é também celebrar o Dia de Ação de Graças, festa exclusivamente cristã e puritana… Talvez eles mudem o nome para Dia de Comer Peru…
Aliás, para que tornar o domingo um dia de descanso? isso não é também um costume cristão? Será que nos EUA os mulçumanos têm liberdade de não trabalhar nas sextas-feiras? e os judeus e todos os sabatistas nos sábados?  Não sei que dia da semana aconteceu a Independência dos EUA (e estou com preguiça de fazer cálculos); vamos supor que tenha sido numa quinta-feira. Seria mais coerente então eles reservarem as quintas-feiras para seu descanso semanal… (e nesse caso, ninguém iria gostar das sextas-feiras).
Fico pensando naqueles milhares de hinduístas que vivem nos EUA e são obrigados a sentir o cheiro dos hamburgues… alguns são realmente feitos com carne de vaca! Deviam proibir os hamburgues porque ofende os hindus. E nada de cachorro quente com salsicha de carne de porco, pois judeus e mulçumanos podem se ofender. Aliás, as propagandas de bebidas alcoólicas não ofendem os abstêmios?
Caramba! e lá eles chamam Papai Noel (Papai Natal) de Santa Claus, um título cristão, corruptela de São Nicolau! Logo vão mudar para Papai Coca-Cola, uma vez que o Papai Noel pintado de vermelho foi divulgado em 1931 para exatamente fazer propaganda da Coca-Cola e aumentar seu consumo durante o inverno (dezembro, no Norte, é inverno)!
Sinceramente, sabem o que eu acho? acho que os norte-americanos não sabem fazer sexo e vivem compensando sua libido frustrada com bizarrices “politicamente corretas”. Não incluo ai os canadenses e os mexicanos, também considerados norte-americanos. Os mexicanos são latinos e portanto, curtem sexo muito bem; os canadenses, pelo menos o pessoal do Quebec, pela sua tradição francesa, também devem saber tirar proveito da sexualidade…
O pior é que como aqui no Brasil está cheio de mico admirador da “curtura” estadunidense, logo vamos ter nossos libertários clamando pelo direito de desrespeitar a cultura como se Estado Laico significasse Estado sem fundamento cultural. Aliás, o conceito de Estado não é coisa de europeu? isso deve ofender a todo mundo que não seja europeu, obrigados a viver sob uma organização social imposta por uma cultura…
Cacete, o mundo está ficando muito chato!
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