Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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21 de jun de 2015

A omelete do Joãozinho – uma fábula moderninha

omelete-simples
Joãozinho é um sonhador, e se acha um empreendedor. Daquele tipo de gente que  julga “pensar grande”! Tudo que Joãozinho se propõe a fazer, ele começa com muita vontade!
Joãozinho herdou um bom dinheiro, e resolveu que iria criar galinhas e vender ovos. Não seriam ovos quaisquer, mas “ovos de primeira”.  Para isso teria de criar “galinhas de primeira”, e tais galinhas não poderiam ficar soltas por ai no quintal, mereciam um galinheiro.
Não qualquer galinheiro! Mas um galinheiro especial, também “de primeira”.
_ “Eu penso grande e vejo longe, meu amigo, tenho uma grande experiência!”, costuma dizer Joãozinho sempre que inicia um novo empreendimento. E com muito ânimo expõe suas ideias e projetos, embora nunca tenha, de fato, mostrado um projeto a alguém!
Como dizíamos, Joãozinho anunciou que iria criar “galinhas de primeira” para produzirem “ovos de primeira”. Decidiu que teria de construir um galinheiro diferente desses que “andam por ai”. Contratou um arquiteto para fazer o projeto do galinheiro, mas acabou jogando fora o trabalho entregue porque achou que o arquiteto não havia entrado “no clima”; assim, ele mesmo desenhou o galinheiro, comprou os materiais e construiu o galinheiro, que dado à “complexidade” do projeto, demandou um bom tempo para ficar pronto. Joãozinho faz tudo, porque não consegue trabalhar em equipe.


Quando encontra os amigos, Joãozinho fala de seu “empreendimento”, e anuncia  que, no dia da inauguração, com a primeira postura de ovos, oferecerá uma grande omelete para o pessoal, para todos verem a grandeza de sua iniciativa.
Joãozinho pensou mais longe e pensou que, além de criar “galinhas de primeira” para produzir “ovos de primeira”, poderia também abrir o primeiro restaurante especializado em omeletes.  Isso mesmo, iria construir o restaurante ali, no terreno onde estaria o galinheiro. Já imaginava o anúncio luminoso: “Omeletaria Joãozinho – omeletes feitas com ovos colhidos na hora!”
Com o dinheiro que ainda existia, comprou o terreno do vizinho e construiu o restaurante, quero dizer, a Omeletaria, claro, com “tudo de primeira!”  O enorme galinheiro ficaria ao lado, cercado por um jardim e um parquinho para as crianças, filhas dos clientes, brincarem e observarem as galinhas… seria uma forma de desenvolver o senso ecológico nas crianças, contato direto com a natureza, essas coisas todas. Afinal, os empreendimentos de Joãozinho eram projetos de grande significado e engajamento social.
Ao mesmo tempo que a omeletaria e o galinheiro são construídos, Joãozinho fala a toda gente da grande inauguração com omeletes artesanais. Para garantir a qualidade das omeletes, Joãozinho contratou um “Chef” francês, vindo diretamente de um famoso restaurante em Paris, que chegará à cidade dias antes da inauguração, cuja data já está definida e amplamente anunciada. Divulgou a notícia que, após longas negociações, conseguiu a promessa de alguns capitalistas, seus conhecidos, que ajudariam a ampliar o “projeto” para uma rede de franquias, omeletarias com o mesmo formato, o mesmo modelo de galinheiro e as mesmas espécies de galinhas poedeiras, “tudo de primeira”, dizia sempre.
Pelo menos é o que Joãozinho anuncia: parceiros do exterior que estariam se envolvendo no empreendimento. Graças a negociações, pagou para estar presente em um famoso Talk Show na TV, onde afirmou que, no mês entrante, no dia tal, com o Chef vindo de Paris, “vamos inaugurar a primeira omeletaria da “Joãozinho’s  Eggs and Omelets” e que logo em seguida a rede estaria se desenvolvendo nas principais cidades do país e com compromissos já acertados de franquias na Europa e nos Estados Unidos, graças aos grandes parceiros, “meus amigos pessoais” dizia Joãozinho; afinal, em suas viagens ao exterior para conhecer modelos de galinheiros, ele fez muitos bons amigos, alguns até já estiveram aqui para visitar o projeto, quando pôde explicar melhor os detalhes do empreendimento.
Claro, nem tudo saiu de maneira perfeita. Joãozinho explica que algumas complicações surgiram com os recursos que viriam dos investidores estrangeiros, mas nada que impedisse a grande omeletada de inauguração; aliás, um deles – proprietário de uma grande rede de Fast Food nos Estados Unidos, ficou adoentado, mas garantiu que logo enviaria o dinheiro, faltando apenas assinar o convênio de parceria. Os demais estavam ainda em conversações finais para resolver pequenos detalhes. Talvez, por isso, o lançamento da franquia demoraria mais um ou dois meses.
Naturalmente, uma ou outra coisinha ainda não estaria pronta, mas a omeletaria abriria as suas portas na data e hora já anunciada. Afinal, o Chef vindo de Paris já havia chegado e estava provisoriamente instalado em um hotel (“nada de luxo, porque não podemos jogar dinheiro fora!”) até que sua casa esteja pronta, pois será construída no terreno recém adquirido de outro vizinho.
Joãozinho afirma sempre que pretende inspecionar pessoalmente o serviço, desde a compra da ração para as galinhas até a omelete servida à mesa do cliente. “Não abro mão da qualidade e estarei cuidando rigorosamente que tudo saia nos conformes!”, ele diz. “Aliás, a Adega já está abastecida com vinhos chilenos, portugueses, franceses e italianos”.
Chegou o grande dia  esperado! Pela manhã a imprensa local já está mobilizada para a cobertura do grande evento, a primeira e única omeletaria do país, que produziria sua primeira omelete exatamente ao meio-dia. “Como eu disse, e repito, as primeiras 250 omeletes serão gratuitas! um carinho reservado aos meus inúmeros amigos e parceiros!”
Pouco antes das onze chegaram alguns telegramas e correios eletrônicos, do país  e do exterior, com justificativas de ausência. “É natural”, diz Joãozinho, “são pessoas muito ocupadas e nem sempre se consegue ajustar a agenda, não é mesmo?”
Às onze e meia, estando já as pessoas presentes, cerca de 30% dos convidados, Joãozinho estourou a Champanhe e começou um emocionado discurso, que foi interrompido por um auxiliar de cozinha informando que “Le Monsieur” (assim era tratado o Chef) exigia a presença de Joãozinho na cozinha.
Joãozinho disse, interrompendo o discurso, “Estou sendo chamado à cozinha, naturalmente para a prova da primeira omelete!”.
Com toda a pompa e circunstância, entra na cozinha, estando todos os cozinheiros e ajudantes perfilados e “ Le Monsieur”, afilando o bigode, perguntou:
“Monsieur Joansino! où sont les oeufs? Je suis allé au poulailler pour les obtenir, mais je ne trouve pas même les poulets!”.
Foi quando Joãozinho se deu conta que não havia comprado as galinhas! Olhou para seu contador geral, que explicou:
“Como eu havia prevenido ao senhor, os recursos dos parceiros do exterior não chegaram, então não tivemos mais dinheiro para comprar as galinhas!”
Moral da estória: não anuncie a omelete antes de ter as galinhas!
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