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20 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? ( 3. Retorno ao Movimento de Jesus)


 (continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? - parte 2)

O Cristianismo derivou do Judaísmo farisaico e desenvolveu-se apoiado na filosofia grega e no mundo bizantino. Assim, a maneira de pensar a Divindade é profundamente determinada pelo Antigo Testamento, na perspectiva helenista.

Hoje, por influência do “politicamente correto”, muitos teólogos cristãos tendem a definir o Novo Testamento como Segundo Testamento e o Antigo como Primeiro Testamento.

A pregação cristã, por sua vez, sempre proclamou que, em Jesus Cristo, celebra-se uma Nova Aliança. Então, sendo Nova, a velha acabou. Se é um Novo Testamento, o Antigo deixou de ser realmente um testamento. A ideia de Primeiro e Segundo Testamento é, no meu entender, absurda, porque faz dos dois uma coisa só.  Assim, enormes contradições aparecem diante dos olhos de quem ainda consegue manter o pensamento analítico crítico diante dos dogmas "infalíveis" das instituições religiosas.

Embora os acadêmicos apresentem argumentos contrários,  fundamentados em si mesmos, eu entendo que o Antigo Testamento precisa ser relido e interpretado a partir do Novo e não o contrário. Ou seja, deve-se considerar o AT como referência para compreender o processo da Revelação que se manifestou a partir de Jesus, o Cristo, o Logos Encanado.

Isso tem sérias implicações na Missão, no Testemunho e na Pastoral. 

Por que se perdeu, no mundo inteiro, a  vontade de conhecer o Evangelho? Por que as novas gerações não conseguem perceber no Cristianismo uma Boa Nova e vivem na permanente ansiedade sufocante pelo futuro, apostando no hedonismo de balada em balada? O mundo hoje assiste a morte da esperança, que – dizia minha mãe – é a penúltima que morre (a última morte é a de quem já perdeu a esperança)!

A resposta, penso eu, é porque a maioria dos paradigmas do Cristianismo (basicamente moldados pelo Antigo Testamento e pelo mundo helenista) não respondem às necessidades humanas deste tempo. Mas isto não é de hoje, já era percebido nas últimas décadas do século passado. De que Salvação se fala? Que Reino realmente se anuncia?

Onde está, na prática e no ensino das igrejas cristãs, a Ética de Jesus, o Cristo, a ética simples e clara do Sermão do Monte? Onde está o olhar amoroso e compassivo de Jesus perante os pecadores, os tristes, os doentes, os estrangeiros, os diferentes?

Retornemos ao Movimento de Jesus, à Ética de Jesus e tenhamos coragem profética de questionar e denunciar a moral hipócrita das instituições religiosas ditas cristãs. Nesse sentido, essa coragem é latente no Anglicanismo devido ao seu ethos construído historicamente.

Reflita sobre isso, e encontrará um caminho adequado para liquidar com os ideais de Cristandade que sempre foram opostos aos ideais de Jesus, o Cristo, Logos Encarnado. Ilumine a reflexão levando a sério o Evangelho (o texto joanino é uma boa inspiração... é a dica que deixo para vocês).

Avancemos rumo a uma teologia realmente da Encarnação. Deixemos de lado velhos paradigmas nascidos em outros tempos e culturas. Sejamos missionários, não colonizadores culturais! Busquemos construir comunidades solidárias, não uma massa de fiéis clientes seguidores e consumidores de magia disfarçada em religião.

Então as pessoas saberão que Deus é esse revelado em Jesus Cristo!

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11 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (2. A Busca pela Transcendência)

(continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? parte 1)

Restringindo-me ao Cristianismo, e aqui me refiro exclusivamente ao Cristianismo no Brasil, há dois polos básicos distintos que se excluem mutuamente: de um lado, uma perspectiva cristã que se apresenta ecumênica, inclusiva,  reconhece e respeita as diferenças, atua de forma cidadã e  defende princípios éticos na política; todavia, não responde às questões existenciais mais simples e não consegue consolar, animar a esperança... perde-se no ativismo inconsequente.

De outro lado, temos o cristianismo dogmático, fundamentalista, cheio de regras e preconceitos, que se preocupa com o “espiritual” (sem deixar claro o que isso seja) e transforma a imanência da vida (a realidade, o “mundo”) em inimigo a ser negado e derrotado. Consegue trazer conforto a custa da alienação absoluta e da domesticação da inteligência através da moral exigente, para garantir uma “vida eterna” após a morte, sem se importar com a vida que a maioria das pessoas vive, cujos problemas e sofrimentos  são considerados "provação" que deve ser aceita "com fé" para merecer o amor de deus, o seu deus cruel e pagão de sempre. 

Entre os dois polos, está a religiosidade popular, que se manifesta em muitos  matizes diferentes, vinculados à cultura popular, ao folclore. É onde se encontra a maioria da população. São as crenças religiosas populares, herdeiras de uma catequese pobre e superficial para cumprir os ritos iniciáticos, seja no Catolicismo Romano, seja nas diferentes linhas do Protestantismo. Com isso, o povo vai levando a vida, com sua fé e honestidade, sempre na perspectiva de “agradar a Divindade” para receber seus favores, como no Paganismo! Promove a separação entre a vida cotidiana (profano) e os momentos de reza, culto, devoção (sagrado); recebe grande influência do Kardecismo e tradições africanas, criando sincretismos religiosos. Em muitos sentidos é uma expressão do conservadorismo e facilmente se alia aos grupos mais dogmáticos e fundamentalistas.

As facilidades de comunicação disponíveis atualmente, revelaram outros modelos religiosos e  muita gente foi buscar tais alternativas, mas a grande maioria ainda permanece no tradicional coquetel religioso da cultura brasileira.

O Islamismo, com suas diferentes nuances e ênfases, tem sido uma alternativa para pessoas cansadas do dogmatismo tradicional cristão, mas defrontam-se logo com um dogmatismo semelhante, além do que o Islã pressupõe uma disciplina que é estranha à cultura brasileira. 

Percebo no Budismo uma alternativa onde a Divindade não é necessária, e tem se tornado um caminho de espiritualidade para algumas pessoas que abandonaram o Cristianismo.  Para elas, especialmente aquelas com formação superior, o Budismo aparece como uma filosofia de vida sem necessidade de doutrinas sofisticadas e práticas rituais complexas. Por não estar centrado em uma Divindade específica, o Budismo permite maior liberdade de pensamento.

Para a pequena parte da população que ainda consegue pensar de forma independente, não há muitas alternativas. Talvez isso explique o ressurgimento do Deísmo, fruto do Iluminismo, divulgado por pensadores como Voltaire, por exemplo, e sendo radical no pensamento de Baruc Spinoza (que era judeu) sobre Deus. Em outras palavras, Deus existe, mas não se envolve. A vida humana transcorre sem necessitar que Deus faça qualquer coisa.

A partir das últimas décadas do século passado, surgem novas perspectivas de busca da transcendência, de certa forma similares ou próximas ao Deísmo. 

Movimentos unitários, que se apresentam pouco preocupados com sistematização doutrinária, tentam formulações consistentes a partir das tradições religiosas, especialmente a partir do modelo monoteísta judaico-cristão. A ênfase não é no sistema de crença, mas no convívio e partilha da vida, suas dores e alegrias, na solidariedade e compaixão, em busca da transcendência. Evitam a linguagem religiosa tradicional, mas mesmo assim têm um discurso religioso sutil. Tem atraído os desigrejados, gente que procura viver a fé sem se vincular à instituições e padrões.

Particularmente, desconfio disso pois seus missionários têm vindo dos EUA. Todavia, se caracteriza por pequenos grupos (pelo menos por enquanto) que se reúnem para compartilhar, orar, estudar, enfim, experimentar o convívio comunitário de forma saudável e sem imposições de usos e costumes. Ainda é um movimento inicial no Brasil, mas provavelmente, caso avance, acabará se institucionalizando (já está institucionalizado nos EUA, o que me causa incômodo, pois se assemelha a "mais uma igreja",  sutilmente proselitista, que usa uma linguagem diferente para afirmar-se como "nova forma de espiritualidade").

Na mesma direção, mas sem identidade estado-unidense, está a Fé Bahá'i, que vem crescendo no Brasil. Sua ecumenicidade notável, sua organização, tem reunido pessoas de bom senso e desigrejadas, desiludidas com o Cristianismo. 

A busca pela transcendência continua. A sensação de que há algo além da realidade tangível inquieta e exige que se pense nisso e se busque alternativas. Infelizmente, o Cristianismo,  como tem sido construído desde  o século II após o Cristo, acabou deixando de ser uma alternativa saudável para a maioria das pessoas que não se contentam com o senso comum. A Boa Nova acabou silenciada de tal forma que não é mais perceptível ao ser humano ocidental neste século XXI.

===/=== (continua >>> veja postagem seguinte)

9 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (1. O terrível deus pagão do Cristianismo)

“O amor de deus é incondicional!" é uma das falas preferidas que pregadores cristãos gostam de usar. Não se dão conta que estão contradizendo o que eles mesmo ensinam há séculos: “temos de cumprir a vontade de deus!”, “temos de obedecer aos seus mandamentos!” e coisas semelhantes. Ou seja, se você não cumprir a “vontade de deus” ou não “obedecer aos mandamentos” você está lascado. Portanto, há uma condição essencial para merecer o “amor” de deus, que, portanto, é amor condicional. Em outras palavras, o deus do Cristianismo em nada difere dos deuses pagãos da antiguidade: é preciso agradá-lo, bajulá-lo. Para não sofrer castigo, é preciso fazer um sacrifício, uma penitência. Ou seja, esse deus impõe a justiça retributiva, como os antigos deuses pagãos.

Os pregadores afirmam, ainda, que “deus é onisciente”, mas se contradizem quando explicam “deus está testando a sua fé” para alguém que está sofrendo, doente, na solidão, enfim, nas circunstâncias tristes da vida. Ora, se é onisciente, porque precisa “testar”? E ainda ensinam que, se a “fé” fraquejar, lá vem a retribuição: você está lascado; não cumpriu a condição para merecer o "amor incondicional". Tal como os deuses pagãos.

Pior ainda é a afirmação que quando tal e tal coisa acontece é pela a vontade de deus. Vejo muitos agentes pastorais dizendo isso a quem está feliz, mas também para quem está em situações complicadas, ou vivendo o luto, ou sofrendo diante de sua própria fragilidade ("vamos nos conformar com a vontade de deus, há um propósito nisso!"). Que deus cruel é esse, cuja vontade é o sofrimento de alguém? Então para uns, a vontade de deus é bênção, para outros é maldição? Qual o critério para tal “vontade“ se manifestar de uma ou outra maneira?

Honestamente falando, o discurso do Cristianismo, desde há muito tempo, não difere de qualquer outro discurso religioso. Vejo as mesmas contradições em outras tradições. Ou seja, os deuses pagãos continuam imersos na cultura cristã. O Cristianismo criou outra nomenclatura para o que sempre existiu. Não há "boa nova" alguma!

Essas colocações, que se apresentam como fundamentais na “doutrina cristã”, reduzem a ética do Evangelho a rígidos preceitos morais, o tal do “isso pode, aquilo não pode”, o método predileto das elites para manipular as pessoas usando uma presumível culpa/julgamento/punição/penitência/perdão como argumento. O mesmo faz a maioria dos líderes religiosos; afinal, religião é uma forma de poder.

Sinceramente, atrevo-me a indagar o que realmente significa “salvação”, palavra sempre presente nas pregações “cristãs”. Salvação de quê? Nisso, o Cristianismo difere do Paganismo. Os deuses pagãos da Antiguidade não pretendiam salvar ninguém!

Por exemplo, judeus e cristãos adoram se referir à libertação dos hebreus quando escravos no Egito. O deus demorou 400 anos para ouvir o clamor do povo! Quatrocentos anos! Foram 16 gerações de escravidão. Ou seja, "deus tarda, mas não falha!" O problema é que enquanto ele tarda, a gente se lasca, e até morre sem saber se ele chegou mesmo.

Religiões monoteístas afirmam a existência de um criador de tudo que existe. Portanto, se o tal Inferno de castigos eternos existe, foi criado pelo tal criador. Por que o tal criador criou um local de castigo eterno? Teria a intensão de criar os que seriam castigados??? Para que?

As religiões institucionalizadas criam suas doutrinas e as atribuem à Divindade. Ou seja, as religiões criam uma “divindade” à imagem e semelhança do ser humano. Por isso, a “divindade” tem vontade, manifesta ira e afetomata e dá vidajulga, condena e mostra misericórdia; exerce justiça de forma retributiva. Os deuses pagãos tinham até tesão; o deus judaico-cristão é casto e não tem simpatia alguma para com a sexualidade humana; nisso também é diferente! 

As religiões negam a transcendência, reduzindo-a à simples imanência, cheia de normas morais criadas pelos que controlam tudo, definindo como deus age na relação com os seres humanos. 

Assim é o deus do Cristianismo que se ensina e se prega há séculos! um deus tão terrível quanto os antigos deuses pagãos, centrado em si mesmo, muito distante do Deus que Se revela em Jesus Cristo, o Deus que inspirou o Movimento de Jesus!

===/=== (continua) >>> veja postagem seguinte


24 de dez. de 2025

FELIZ NATAL? SIM! FELIZ NATAL!

Tratava-se de uma festa pagã, um culto ao Sol. Após Constantino, o Movimento de Jesus passa a ser controlado, amordaçado e se torna instituição, passa a ser instrumento do Império (hoje diríamos “aparelho do Estado”). Afinal, a religião é uma expressão de poder: o controle (e manipulação) das consciências.

É o começo da Cristandade, quando o “Cristianismo”, a nova religião oficial, se associa ao Império já decadente e começa a absorver sua base estrutural. Conversões em massa, disfarçadas de “missão”. são incentivadas a partir do poder imperial Os antigos santuários pagãos vão se transformando em “santuários cristãos”; os antigos deuses e deusas são substituídos por santos, santas, e a Mãe de Jesus, o próprio Jesus se torna ídolo. O paganismo ganha um novo nome: Igreja Católica, no Oriente e no Ocidente Imperial, desenvolvendo lutas internas pelo poder (como acontece em toda instituição e em todo império) e as disputas doutrinárias pelo controle da “verdade”. O Movimento não se move, perde sua originalidade, se torna um bloco sólido, em nome da unidade monolítica de afirmações doutrinárias inspirada na filosofia, perde noção da novidade e do desafio que representa o Evangelho. A Boa Nova deixa de ser boa, e nova; se reveste do mesmo de sempre com roupas remendadas.

A cultura popular vai absorvendo e assumindo as mudanças religiosas impostas; faz sua releitura, mas não adere ao Movimento de Jesus, o qual continua no pequeno mundo oculto das comunidades de fé. O movimento das pequenas e corajosas comunidades iniciais vai se transformando na massa que se chama Cristandade; mas a semente ainda permanece viva. Assim é o processo histórico da humanidade – a eterna tensão entre Movimento e Instituição.

De certa forma, isso acontece até os dias de hoje. O Império caiu (Impérios não são eternos), mas sua marca, sua essência, se manteve na cultura de boa parte mundo e na instituição eclesiástica, independentemente de sua denominação. No processo de expansão do poder europeu, a “missão” se confunde com o colonialismo.

Todavia, o Movimento de Jesus ainda existe, sempre existiu desde o tempo dos Apóstolos e Apóstolas de Jesus. O Movimento existe dentro da Instituição, existe dentro da massa, da mesma forma que o fermento está contido na massa – exatamente como Jesus havia dito. Em qualquer unidade da Instituição sempre há um pequeno núcleo de comunidade de fé, envolvido - mas não dirigido - pela massa da religiosidade supersticiosa.

De tempos em tempos, acontecem momentos de reforma e de mudança, e assim, o Movimento continua, embora acabe absorvido e reinterpretado pela Instituição; mas continuam a surgir núcleos de resistência! Porque movimento é ação do Espírito, que se move e vai aonde quer. Assim, dentro de toda denominação dita cristã, há o núcleo e o germe da Igreja de Cristo, há o Evangelho, a herança da primeira comunidade de pessoas que conheceram, e seguiram, Jesus, as primeiras testemunhas e guardiãs da Boa Nova.

Portanto, apesar do deus Mercado, que tornou o Natal uma festa ateia, apesar das hipocrisias festivas, apesar da pressão cultural e social, há sentido em celebrar o Natal, a Páscoa, as datas de memória do Movimento de Jesus. Pelo menos para os núcleos de comunidade que existem por aí, dentro e fora das Instituições Religiosas. O eclesial permanece apesar das tentativas do poder eclesiástico em controlá-lo.

Então, que se celebre o Natal! Com humildade, mansidão e misericórdia, se aceite a sinceridade das pessoas simples, que não conhecem a História, que foram ensinadas e convencidas pela religião a pensar e a manter suas crendices disfarçadas de Tradição. Há muita sinceridade apesar de tudo, há muita gente que não se esconde na hipocrisia. Há muita gente que, ao dizer “feliz natal!”, não está fingindo ou cumprindo um “dever social de boa educação”. O abraço é sincero, o presente é dádiva, e a tal da ceia, a festa, é momento de comunhão, não necessariamente religiosa, mas afetiva.

Olhe ao seu redor, talvez você veja o Logos Encarnado semeando o Mundo Novo que chamamos de Reino de Deus! Porque, como diz a música do Flávio Irala,

O cativeiro ficará apenas na memória 
dos povos de boa vontade numa nova história 
pois, um dia, uma estrela caiu num curral...
É Natal! È Natal!


Feliz Natal!

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16 de ago. de 2025

SOBRE MISSÃO: 11 - As Cinco Marcas e a Nova Forma da Igreja

      Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

Não se trata de fundar uma nova denominação. Novas denominações surgem todos os dias, a maioria delas como formas de exaltação de egos pessoais, busca de poder, iniciativas financeiras, e muitas outras razões que em nada se identificam com o Movimento de Jesus; de alguma maneira se inspiram nos paradigmas da Cristandade. A Nova Forma a que me refiro se fundamenta no abandono dos paradigmas da Cristandade.

No caso da Comunhão Anglicana eu ouso dizer que as Cinco Marcas da Missão trazem em si mesmas uma ruptura com aqueles paradigmas; entretanto, a Cristandade está tão interiorizada na cultura ocidental que acabamos interpretando as Cinco Marcas com base nos velhos paradigmas, e assim reproduzimos as mesmas coisas sempre, fantasiadas de novos conceitos. Ou seja, continuamos querendo expandir a Instituição sem criar as condições para a expansão do Movimento.

a)   O paradigma fundamental: a Primeira Marca

A Primeira Marca da Missão é proclamar as boas novas do reinado de Deus. Isso não significa fazer a Igreja crescer! Significa simplesmente proclamar, ou seja, anunciar e, consequentemente, como fizeram os discípulos e discípulas no início do Movimento, testemunhar. Todas as demais Quatro Marcas se desenvolvem a partir da Primeira; por isso, qualquer ação missionária precisa acontecer dentro do contexto da proclamação e não da propaganda!

Se realmente focarmos na Proclamação do Reinado de Deus ao invés do crescimento da membresia, mudaremos de paradigma, porque não confundiremos o Reino de Deus com a Instituição.

b)   A Segunda Marca

A Segunda Marca da Missão é ensinar, batizar e nutrir os novos crentes. Veja bem: novos crentes, não necessariamente novos membros! Novos crentes, aqueles e aquelas que motivados pela proclamação, se aproximam e buscam o Reinado de Deus; por isso recebem o ensino e o batismo, recebem acolhida pela comunidade de fé, e assim, no fraterno convívio comunitário, recebem a nutrição que fortalecerá o caminho da busca e da percepção do Reino de Deus.

c)   As Três Marcas seguintes

As demais Marcas são consequência das duas anteriores. É através delas que a Comunidade de Fé (a Igreja) se faz presente no mundo, evangelizando, proclamando, anunciando e testemunhando. Afinal, essas três marcas são o Evangelho em Ação!

Responder às necessidades humanas com amor é o que chamamos de Diaconia. É o significado da comunhão do Povo de Deus entre si e com todas as pessoas. Sem perguntas e sem proselitismo, acolher e cuidar daqueles que sofrem no corpo e na alma, as vítimas da injustiça que permanece no mundo, o enfrentamento do diabólico que faz da vida sofrimento inútil.

Procurar a transformação das estruturas injustas da sociedade, desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação é a consequência da ação diaconal. Não basta socorrer, é preciso enfrentar e combater tudo que, diabolicamente, cria a massa de sofredores, de injustiçados, as vítimas da crueldade humana que se manifesta devido a ganância, a sede de poder absoluto, o egoísmo – as consequências nefastas do pecado que se manifesta através da vontade de ser “igual a Deus” (cf. Gênesis 3). Isso implica em se envolver politicamente! Diaconia não é apenas “fazer caridade”, mas realmente cuidar das vítimas e ao mesmo tempo combater o que causa o enorme número de vítimas neste mundo cruel e devastado por aqueles que se julgam “iguais a Deus”.

Esse atender as necessidades humanas implica também no cuidado com a Criação. Afinal o ser humano é herdeiro da Criação, herdeiro do Jardim criado por Deus, não para reinar nela, mas para cuidar dela, ser cooperador da Criação. A Quinta Marca da Missão está intimamente relacionada às demais, é consequência direta delas.


Assim, eu entendo e ouso propor que a Nova Forma da Igreja deve ser pensada e projetada a partir destas Cinco Marcas, mas reinterpretadas a partir da proposta clara do Movimento de Jesus – o Reinado de Deus. Não mais a expansão institucional viciada em cuidar de si mesma, contraditoriamente estruturada de forma a impedir o avanço da Missão. É necessário uma nova perspectiva teológica, uma nova eclesiologia para não andar em círculo, reinventando o modelo que já está fracassado, pois foi inspirado nos Impérios, os quais, exatamente pelo próprio conceito, se tornam a mentira da Serpente (Gênesis 3.4-5): se acham iguais a Deus e, assim, sobrevêm a morte sobre a vida.

Necessitamos de uma Eclesiologia verdadeiramente Revolucionária: o significado de revolução é a mudança radical de paradigmas!

Precisamos redescobrir o que realmente significa encarnação do Logos, Aquele que – encarnado - habita entre nós (cf. João 1.1-16)!

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Interrompo aqui esta série de postagens sobre Missão, que - na verdade - são partes de um único artigo, publicadas em picadinhos, para incentivar a leitura. 

A sequência do texto fica para uma "segunda temporada"; afinal, eu gostaria de escrever sobre outros temas, manter a diversidade destes Pirilampos e Pintassilgos.  Neste tempo de aguardo da "segunda temporada", espero que os poucos que leram os textos reflitam sobre o conteúdo, questionem, sejam críticos (e autocríticos) e - quem sabe - possam apresentar propostas para a "segunda temporada".

Sinceramente, eu não acredito que a Teologia Acadêmica possa, de fato, criar uma nova perspectiva teológica para a Encarnação, embora na Comunhão Anglicana costumamos nos definir como "Igreja Encarnada".  Eu acredito que a nova forma para a Igreja de Cristo é ser, realmente, encarnada, e isso significa romper com velhos conceitos sobre si mesma! É o desafio que deixo aqui com esta série de postagens, agora encerradas provisoriamente.

Que o Santo Espírito nos abençoe e inspire!

Amém!

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4 de ago. de 2025

SOBRE MISSÃO: 10 - Os Paradigmas Anglicanos

 Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

A Comunhão Anglicana contemporânea tem – pelo menos – três paradigmas que caracterizam sua identidade, o seu ethos, construídos através de sua história.

a)   O Quadrilátero Chicago-Lambeth

O Quadrilátero de Chicago-Lambeth representa o consenso mínimo (e amplo) sobre sua forma de expressar e viver a fé cristã – os pontos básicos de sua forma de crer e viver.  A origem do Quadrilátero é o livro The Church Idea, an Essay Toward Unity (A Ideia da Igreja, um Ensaio em Direção à Unidade, em tradução livre) de William Reed Huntingdon, publicado em 1870. A proposta de Huntingdon foi acolhida pela Convenção Geral da Igreja Episcopal dos EUA (Chicago, 1986) e adotada com modificações pela Conferência de Lambeth (1888).[1]

b)   As Cincos Marcas da Missão

Quanto à Missão da Igreja, há um paradigma aceito unanimemente pelas Igrejas da Comunhão Anglicana, apresentado como As Cinco Marcas da Missão:

“Em 1984, reunido em Badagry, na Nigéria, o Conselho Consultivo Anglicano adotou Quatro Marcas de Missão (a quinta seria adicionada posteriormente). O Relatório Oficial da reunião deixa clara sua origem nos Evangelhos: “O Evangelho segundo São João coloca a Grande Comissão nessas simples palavras; ‘Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio’ (João 20:21), dizia o relatório. Deliberadamente e precisamente Jesus fez de sua missão o modelo de nossa missão ao mundo. Por esse motivo, nossa compreensão da missão da Igreja deve ser deduzida da nossa compreensão do que Jesus considerava ser a sua missão." [2]

As Cinco Marcas são:

1. Proclamar as boas novas do reinado de Deus; 
2. Ensinar, batizar e nutrir os novos crentes;
3. Responder às necessidades humanas com amor;
4. Procurar a transformação das estruturas injustas da sociedade, desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação;
5. Lutar para salvaguardar a integridade da Criação, sustentar e renovar a vida da terra. [3]

As Cinco Marcas orientam as iniciativas missionárias das Igrejas da Comunhão Anglicana em todo mundo e apresentam um conceito amplo de Missão, muito além e distinto daquele que herdamos da Cristandade. De certa forma, essas marcas representam a quebra de paradigmas que estão acontecendo desde meados do século XX, a partir da reflexão teológica diante do desafio imposto pela secularização massiva do ocidente após II Guerra Mundial, seguido pelo neoliberalismo e, recentemente, o retorno da ideologia nazifascista promovido pelas redes sociais.

Todavia, é necessário ter claro algumas coisas sobre as Marcas da Missão. Em primeiro lugar elas não são absolutas e imutáveis, não são dogmas. A prova disso é, por exemplo, a inclusão da frase “desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação” no texto original da quarta marca, pelo Conselho Consultivo, em sua reunião de 2012, realizada em Auckland, Nova Zelândia.

Em segundo lugar, como tudo que se cria nas instâncias consultivas da Comunhão, elas devem ser analisadas e implementadas pelas Igrejas em seus contextos específicos. Não são, portanto, um “Projeto Missionário Mundial”, mas uma proposta ampla de ação que indica caminhos novos e desafios a serem enfrentados.

Todavia, existe sempre o risco das Cinco Marcas se tornarem “credos”, isto é, serem repetidas inconsequentemente, como se o falar nelas significa já realizá-las (ou seja, se tornarem um produto palatável e simpático para o Mercado).

Pior ainda, é o risco de cristalizá-las em um projeto fechado, imposto de cima para baixo, totalmente deslocado das realidades distintas de cada comunidade, uma vez que as comunidades seriam o agente missionário adequado no seu contexto próprio (e não a Instituição burocrática), em fidelidade e obediência às palavras de Jesus “Assim como o Pai me enviou...” (João 20,21).

c)   O Conceito de Autoridade Dispersa e Compartilhada

Um terceiro paradigma que identifica o anglicanismo contemporâneo, é sua perspectiva ideal de autoridade: dispersa e compartilhada; digo ideal porque não é um fato consumado, mas uma proposta e uma busca permanente, um desafio de nadar contra a corrente aos padrões de autoridade normalmente aceitos pelas sociedades ocidentais. O tema, por si só merece um estudo profundo e eu o apresentei em dia de estudos promovido pelo Centro Anglicano de Estudos Teológicos da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 2016.[4]

 

São exatamente estes três paradigmas[5] que caracterizam o ethos anglicano que permitem e provocam a esperança de profundas mudanças na Igreja Episcopal em terras brasileiras. Por serem paradigmas, não são dogmas, nos ajudam a repensar a Igreja e sua ação missionária, criando horizontes para a relação dialética entre Instituição e Movimento.

O Quadrilátero de Chicago-Lambeth é tema permanente na Comunhão Anglicana, com centenas de artigos sobre ele, por isso, não vou comentar sobre ele neste artigo.

Chamo a atenção que a Primeira das Cinco Marcas explicita claramente a Boa Nova do Reinado de Deus – exatamente o paradigma missionário da Igreja Primitiva, e o de Jesus!

O conceito de Autoridade Dispersa e Compartilhada anima a reflexão sobre o modelo institucional e sua reformulação para que seja realmente eficaz como infraestrutura para a ação missionária, ou seja, a Instituição como agente do Movimento ao invés de enfraquecê-lo; é a semente da Nova Forma de ser Igreja neste momento histórico.

Qual deve ser a dinâmica institucional para que as Cinco Marcas sejam realmente a diretriz missionária da Igreja em terras brasileiras?


[1] Cf. Neil, Stefen - Anglicanism – Baltimnore, Penguim Books, 1965. 

[2] Drake, Gavin  - As Cinco Marcas da Missão da Comunhão Anglicana: uma introdução. In https://www.anglicannews.org/news/2020/02/as-cinco-marcas-da-missao-da-comunhao-anglicana-uma-introducao.aspx -  acesso em 26 de julho de 2025.

[3] A quinta marca foi incluída pelo Conselho Consultivo Anglicano em sua reunião de 1990, acontecida no País de Gales.

[4] O Episcopado – Texto apresentado no 6º Seminário do CAET, 30/03/2016 - disponível em https://drive.google.com/drive/folders/1l0yRSQ8iwwgq4TLdm2LqKMhciIl6rfB9

[5] Para entender o que chamo de “paradigma” neste texto, sugiro a leitura do artigo Velhos Paradigmas fantasiados de Novos, no meu blogue Pirilampos e Pintassilgos:  https://pirilampos-pintassilgos.blogspot.com/2012/04/velhos-paradigmas-fantasiados-de-novos.html

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26 de jul. de 2025

SOBRE MISSÃO - 9 - Os agentes da Missão

 

Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

Os dois modelos acima (veja a postagem anterior) apresentados serão implementados pelos agentes adequados.

No primeiro caso, cujo objetivo é fortalecer a instituição, é obvio que o agente é a burocracia institucional através de seus comitês (comissões, departamentos, etc.) responsáveis pela Missão. Mas isso requer  mão-de-obra profissionalmente qualificadas, a fim de evitar a panfletagem malfeita e idiota que acaba estragando a imagem do produto. Como toda publicidade, os custos são altos, mas, se bem feita, tais custos são rapidamente recuperados e o lucro é certo. Nesse sentido, algumas das ditas “igrejas neopentecostais” são exemplos de sucesso, assim como pastores narcisistas que têm boa assessoria de comunicação. Com tal capacidade, uma grande clientela de consumidores é facilmente conseguida.

No segundo caso, o anúncio do Reino de Deus e sua manifestação através da Presença do Logos Encarnado, o agente da missão é o povo que já segue Jesus, o Cristo, como aconteceu a partir das pequenas comunidades surgidas em torno dos Apóstolos e Apóstolas. Aqui me refiro às comunidades da Igreja, paróquias, missões, igrejas locais, comunidades de fé já existentes.

As comunidades são a expressão da Igreja no lugar onde es-tão, ainda que institucionalmente. É a comunidade (e não a burocracia institucional) que conhece a realidade específica do lugar onde está, o cotidiano das pessoas, as dores e alegrias, as manifestações do Bem e do Mal naquele lugar. Assim, a ação missionária deve ser organizada pela própria comunidade (não especificamente pelo clero local, mas pela liderança da comunidade, principalmente a liderança leiga, além do clero).

E é aqui que surge o problema: o povo da igreja não é motivado, nem capacitado para tal tarefa. Quando muito, fazem propaganda de “sua” Igreja, mas não anunciam o Reino de Deus, nem apresentam Jesus Cristo às pessoas. O povo da igreja está sempre reproduzindo o ideal da Cristandade... porque foi ensinado e motivado a fazer isso: trazer gente para a igreja! E, eu diria, mal treinado, pois nem isso consegue realmente fazer com eficácia. 

Para atender ao ideal missionário primitivo da Igreja, será preciso uma nova catequese, um processo de formação e capacitação focado nas Escrituras e na Pessoa de Jesus Cristo, tal como já afirmei nas postagens anteriores e venho afirmando há muito tempo em outras publicações disponíveis e diversas postagens neste blogue.

É preciso que fique claro que não estou propondo o fim da Instituição, até porque isso seria uma tremenda idiotice. O papel da Instituição neste modelo missionário é grande e da máxima importância, não como agente, mas como facilitador, o que vai exigir uma grande transformação da cultura institucional burocrática das Igrejas. Vai exigir uma nova forma de ser, diferente da forma atual, que é fruto da Cristandade e sua evolução na História. 

A Instituição precisará deixar de ser a Estrutura para ser a Infraestrutura da Missão! Não ser protagonista da Missão, mas ser o agente facilitador. Ao invés de comandar, servir!

Comunidades bem formadas e fortemente motivadas à ação missionária terão crescimento lento, mas de qualidade e, com elas, fortalecem positivamente a Instituição Eclesiástica. Não trarão clientela, mas fiéis seguidores – o Movimento agindo através da Instituição.

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17 de jul. de 2025

SOBRE MISSÃO: 8 - Duas alternativas divergentes

 Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

Qual o objetivo maior da Missão? 

A resposta define o modelo de ação missionária e define seus agentes principais. É aqui que a dialética entre Movimento e Instituição tem de ser compreendida, definida e resolvida, sem divagações e enrolações conceituais. 

Há duas alternativas, a meu ver, divergentes entre si absolutamente:

a) Fortalecer a Instituição
Se o objetivo é fortalecer a Instituição ampliando sua membresia e seu poder no mundo, há um caminho bastante óbvio. Basta seguir os paradigmas da sociedade de consumo e assumir suas exigências:  um bom produto consumível e um sistema de comunicação agressivo junto ao mercado - técnicas de “marketing”! E, claro, a manutenção do mercado conquistado e capacidade para sua ampliação.

O produto é sempre projetado (e avaliado) em função dos desejos do mercado, e por isso, a embalagem, a publicidade e tudo o mais, precisa de planejamento centralizado, uma estrutura burocrática competente e uma linha de comando (autoridade, não necessariamente liderança!) firme, vertical e absoluta. Como qualquer empresa de sucesso no universo capitalista. 

Finalmente, precisa manter o processo de capacitação da mão de obra, capacitação essa massificante e centralizada na idolatria da (suposta) liderança, além da perspectiva ufanista da própria história e visão dogmática sobre o produto e serviços.

b) Anunciar o Reino de Deus
Afirmar os valores do Reino de Deus, tal como fez Jesus, contrapondo-o aos valores do mundo. 

Não se trata de contrapor “o espiritual” com o “mundano”. Se assumimos que o “Logos se fez carne” (João 1.14), em Cristo não há mais separação entre os “dois mundos”: ao encarnar-se, o Logos rompeu a barreira entre o “sagrado” e o “profano”; a Encarnação sacralizou o profano e profanou o sagrado! A transcendência de Deus se manifesta na imanência de Jesus, o Cristo!

Ora, anunciar a Boa Nova do Reino de Deus é navegar contra a corrente dos reinos e dos príncipes deste mundo; é anunciar um novo mundo, um outro mundo, onde o trono de Deus está no meio da praça (cf. Apocalipse 21.1-8)!!!

É preciso romper com o paradigma de que a Igreja (instituição) é o sinal do Reino de Deus (ou, o que é pior, que a instituição eclesiástica é “o Reino de Deus na terra”).

Não adianta tentar um meio termo: ou se anuncia um reino ou se anuncia outro; não se serve a dois senhores! Isso é muito claro no Novo Testamento, principalmente no Evangelho segundo João, onde o confronto com o “mundo” é afirmado e assumido (João 15 – 16).

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14 de jul. de 2025

SOBRE MISSÃO - 7. Cristandade ou Igreja Primitiva?

Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

A questão que se coloca não é essa!

Um simples retorno à Igreja Primitiva é um absurdo e uma armadilha. Os tempos são outros, estamos há dois mil anos de distância; o Movimento de Jesus não permaneceu estático na História. Em sua relação dialética, Movimento e Instituição se modificam, se reformulam. O Movimento é modificado pela realidade em cada momento histórico e em cada cultura, à medida em que a missão se realiza; da mesma forma, a Instituição. As exigências e desafios de cada tempo foram criando os paradigmas; alguns perduram, outros se restringiram a uma ou poucas gerações.

Assim, o máximo que podemos fazer é buscar compreender o início, sem querer começar de novo.  A revisão crítica da infância, aprendemos com a Psicanálise, não significa voltar a ser criança, mas ajuda o adulto reformular-se a partir de sua autocompreensão.

Também a Cristandade não existe mais; apenas reverbera (cada vez menos) na cultura e, muito forte, na mentalidade arcaica que ainda se mantém nos setores conservadores das igrejas.

Nos anos 70 do século passado, tive contato com o livro “O Fim do Cristianismo Convencional”[1], do  teólogo holandês Willem Hendrik van de Pol. O autor, através de detalhada análise da história do cristianismo, afirma o fim da Cristandade[2], e avalia o futuro da igreja no mundo secularizado. Esse livro marcou profundamente a minha compreensão da fé cristã ainda no tempo de seminarista e serviu como inspirador para a então Diocese Sul Central da Igreja Episcopal do Brasil[3], através da Comissão Central Executiva da Pastoral Diocesana (CCEPD), criada pelo Concílio Diocesano ao início do episcopado do Bispo Sumio Takatsu.

Então, podemos rever - com respeito e reverência – os paradigmas que vieram da Cristandade e questioná-los a partir da realidade do nosso tempo e dos desafios que se colocam para a confessionalidade cristã. Assim, podemos reinterpretar a vocação profética que fez surgir o Movimento de Jesus e a Igreja Primitiva sem perder a riqueza teológica que, de alguma forma, nos foi legada até hoje, inclusive pela Cristandade.

Não estou afirmando um meio termo! Estou afirmando a necessidade de reencontrar o Cristo em meio a um mundo transformado e transtornado, onde ainda permanece a dor, a injustiça, o poder da morte dominando a vida. Afinal, a Igreja de Cristo nasceu e sobrevive até hoje neste mesmo mundo e manteve firme o estandarte da Boa Nova, apesar de todos os tropeços.

Precisamos de uma nova Reforma, ou melhor, uma Nova Forma de entender (e ser) a Igreja; nova forma porque uma “re-forma” mantém a forma – quem  puder entender, entenda!

O reencontro com Jesus deve provocar a avaliação honesta sobre nossos modelos, não só de Missão, mas da própria Igreja.


[1] Van de Pol, W.H. – O Fim do Cristianismo Convencional. São Paulo. Herder ed. 1969.

[2] Willem Hendrik van de Pol nasceu em 1º de abril de 1897, em Nijmegen. Inicialmente, lecionou geografia em Zeist e estudou teologia e filosofia em Utrecht. Criado na Igreja Reformada Holandesa, também se envolveu desde cedo na Igreja Anglicana em Utrecht, onde recebeu a confirmação em 1919. Tinha grande interesse em liturgia e ecumenismo. Van de Pol se tornou católico romano em 1940, sendo ordenado sacerdote em 1944, mas mantendo estreita relação com o anglicanismo.

[3] Hoje, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e a atual Diocese Anglicana de São Paulo.

5 de jul. de 2025

SOBRE MISSÃO - 5. Novas possibilidades: Desafios / Desigrejados

 

Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

Na postagem anterior comecei a apresentar o que considero como novas possibilidades para a Missão, nestes tempo em que o cristianismo parece perder o sentido. Assim, abordei o tema da Tradição. Agora, dou sequência ao que entendo ser as novas possibilidades.

2 - Dois desafios para a Missão

No processo de retorno ao Movimento de Jesus, temos de considerar situações bem específicas: 

2.1 - Recuperar a dinâmica de movimento e a mudança de paradigmas sobre a fé e sua vivência nas comunidades de fé existentes (vinculadas ou não a uma Instituição histórica). Ou seja, um processo de reeducação das comunidades existentes, para que compreendam e atuem como parte de um grande movimento evangelizador (anunciador do Reino de Deus – um novo mundo!). Não vou tratar disso aqui, mas é uma tarefa urgente: uma noiva catequese e um processo de educação cristã corajoso e insistente, buscando o real significado da Tradição.

2.2 - Buscar as pessoas ditas “desigrejadas”, e caminhar com elas, identificando seus anseios, suas frustrações e se apresentar como um espaço de cura e recuperação da esperança.  Uma atenção especial a esse grupo requer uma postura lúcida e renovadora.

3 - Pessoas Desigrejadas, Descrentes, Crentes Independentes, etc.

Essas categorias surgiram como tema sociológico (e teológico) mais recentemente, e cada uma delas é bem específica. Mas todas elas trazem, em seu inconsciente, a frustração com os modelos religiosos existentes. É preciso compreendê-las e colocar-se em diálogo com elas.

Não é uma fala apologética (apologias são monólogos), mas realmente diálogo (palavra compartilhada), sem preconceitos e sem segundas intensões de “conquista”.  Não mais o antigo desafio de “levar almas para Jesus”, mas ser sinal desse Cristo presente com essas pessoas, para que O vejam além das estruturas institucionais e doutrinárias. 

O diálogo deve partir do ponto de vista destas pessoas; não se trata de contradizer, mas considerar que tal posicionamento tem raízes que vão além de uma argumentação meramente racional. A negação da fé,  na maioria das vezes, advém da frustração de uma busca perdida, a busca pela transcendência. O que existe e é oferecido como resposta à essa busca, não satisfaz muitas pessoas que buscam com senso crítico. 

O problema é que, erroneamente, se leva o assunto para o campo filosófico, e então as respostas aparecem como doutrinas prontas; doutrinas dogmáticas. Exatamente o que aquelas pessoas NÃO estão buscando.

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22 de jun. de 2025

SOBRE MISSÃO - 3. Ecos da Cristandade hoje

Ainda hoje vemos a presença de conceitos típicos da Cristandade nas comunidades cristãs contemporâneas.

O paradigma para a Missão continua sendo o crescimento numérico da membresia, ou seja, o fortalecimento institucional, confundido com o conceito de “salvação para todas as pessoas”. 

Essa “necessidade de aumentar a clientela” cria situações que vão desde um radicalismo conservador extremo, passando por posturas mais liberais do ponto de vista comportamental, até modelos esdrúxulos de vida litúrgica e comunitária. Basta olhar para a maioria das denominações cristãs contemporâneas, cheias de novidades, vitrines simpáticas para atrair clientela, desde posturas morais superconservadoras até as mais aceitas como politicamente corretas (um conceito vago e ideológico, tão moralista quanto ao anterior, mais modismo que realmente posicionamento ético). Tudo depende do grupo que detém o poder institucional e do público-alvo como clientela.

Todavia, pouco se fala sobre o Evangelho do Reino, e se faz de Jesus uma espécie de super-herói, oposto ao galileu que realmente foi.

De uma forma ou de outra, permanece a ideia do “deus” justiceiro e castigador, que exerce a eterna vigilância sobre as pessoas, o “deus juiz implacável”, incapaz de qualquer demonstração de misericórdia, porque o critério é a justiça retributiva: “pecou, se lascou”! Também permanece a ideia do “deus” que testa a fidelidade dos seus “fiéis” através de situações de sofrimento, algumas além da capacidade humana de resistir; e, ainda, a falsa dialética de que se algo deu certo é porque “deus” abençoou, mas se deu errado é sua culpa por não ouvir a voz de “deus”. Ou seja, o mote do cristianismo tem sido, há séculos, a culpa permanente e o medo da “ira divina”!  Fica a pergunta subjacente: não seria esse o mote da maioria das religiões de massa?

Claro que não faltam textos inteiros na Bíblia que parecem afirmar a  culpa humana e a ira divina, possibilitando o grande repertório de sermões apelativos, principalmente hoje quando a pregação não se fundamenta na exegese, mas em atingir  emocionalmente as pessoas. Com a Bíblia, o texto pelo texto, se prova qualquer postura ideológica, à escolha do pretenso pregador.

Sendo hoje, desde Constantino, uma religião de massa, o cristianismo perdeu sua vocação profética de denúncia, anúncio e testemunho, reduzindo-se a uma proposta moral tacanha e hipócrita nas vitrines institucionais.

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Nota: este texto, assim como os dois anteriores, é parte de um artigo maior sobre Missão, ainda em fase de elaboração neste momento.

16 de jun. de 2025

SOBRE MISSÃO - 2. A Cristandade: mudança de paradigma na missão

Na postagem anterior expliquei como a Igreja Primitiva entendia sua Missão: a partir do testemunho dos discípulos e discípulas de Jesus, o anúncio do Reino de Deus e o entendimento que a ação do Messias não seria de conquista, mas de misericórdia e para todos os povos. Um novo mundo era anunciado.

A mudança de entendimento do que seria a Missão começa a partir do momento em que a Igreja vai se tornando mais aceita e tolerada no Império Romano e inicia-se a Cristandade.

A Cristandade surge a partir do século IV, à medida em que a Igreja vai se tornando aparelho do Estado (Império Romano); ela continua e se fortalece ao substituir o Império, na Idade Média, e – apesar de todas as críticas – ainda sobrevive em nosso tempo.

A Cristandade é um ideal missiológico: tornar o mundo todo cristão. Na verdade, é tornar a Igreja uma instituição mundial com grande poder nas decisões mundiais. Não deixa de ser um Imperialismo, haja visto que foi modelada a partir do Império, de forma, talvez, inconsciente – afinal era o modelo conhecido.

Na Cristandade, o mote da missão e da pregação é o crescimento da Igreja; à medida em que a Igreja foi se tornando – cada vez mais – uma instituição poderosa, a missão se torna a ferramenta para isso.

Entretanto, a Cristandade hoje não tem sentido real, apesar de estar infiltrada na mentalidade do povo cristão. É natural que membros de uma instituição desejem seu crescimento e fortalecimento. Isso deu origem ao denominacionalismo, ou seja, as diferentes instituições eclesiásticas assumindo, cada uma a seu modo, a Cristandade.

O que vemos hoje é a notória redução de membresia e esforços desesperados para recuperar o crescimento, ou manter a membresia existente. A globalização e o volume de informações foi diluindo as identidades, antes tão seguras; a diversidade humana, cultural e social mostrou que inexistem absolutos – tudo ficou relativo.

Não! Não vou combater o relativismo. Pelo contrário! Sempre fui adepto à negação de absolutos; minha formação nas ciências factuais tornou isso uma certeza: a certeza de que não existem verdades absolutas – a dúvida move a ciência em sua lógica dialética porque  questionado os modelos vigentes se permite surgir novos modelos; inclusive esta afirmação também deve ser questionada!

O imperativo fundamental da Cristandade é a Igreja como absoluto, independentemente de sua diversidade denominacional.

Por isso, a grande maioria das ações missionárias é... anunciar a Igreja, promover crescimento da Igreja; isto é, fortalecer a instituição, não necessariamente anunciar o Evangelho (cf. Mc 16.15).

Uma reflexão séria sobre a Missão da Igreja deve começar pelo questionamento dos paradigmas da Cristandade. Isso pode ser doloroso.

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Nota: este texto, assim como o anterior, é parte de um artigo maior sobre Missão, ainda em fase de elaboração neste momento.

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