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16 de ago. de 2025

SOBRE MISSÃO: 11 - As Cinco Marcas e a Nova Forma da Igreja

      Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

Não se trata de fundar uma nova denominação. Novas denominações surgem todos os dias, a maioria delas como formas de exaltação de egos pessoais, busca de poder, iniciativas financeiras, e muitas outras razões que em nada se identificam com o Movimento de Jesus; de alguma maneira se inspiram nos paradigmas da Cristandade. A Nova Forma a que me refiro se fundamenta no abandono dos paradigmas da Cristandade.

No caso da Comunhão Anglicana eu ouso dizer que as Cinco Marcas da Missão trazem em si mesmas uma ruptura com aqueles paradigmas; entretanto, a Cristandade está tão interiorizada na cultura ocidental que acabamos interpretando as Cinco Marcas com base nos velhos paradigmas, e assim reproduzimos as mesmas coisas sempre, fantasiadas de novos conceitos. Ou seja, continuamos querendo expandir a Instituição sem criar as condições para a expansão do Movimento.

a)   O paradigma fundamental: a Primeira Marca

A Primeira Marca da Missão é proclamar as boas novas do reinado de Deus. Isso não significa fazer a Igreja crescer! Significa simplesmente proclamar, ou seja, anunciar e, consequentemente, como fizeram os discípulos e discípulas no início do Movimento, testemunhar. Todas as demais Quatro Marcas se desenvolvem a partir da Primeira; por isso, qualquer ação missionária precisa acontecer dentro do contexto da proclamação e não da propaganda!

Se realmente focarmos na Proclamação do Reinado de Deus ao invés do crescimento da membresia, mudaremos de paradigma, porque não confundiremos o Reino de Deus com a Instituição.

b)   A Segunda Marca

A Segunda Marca da Missão é ensinar, batizar e nutrir os novos crentes. Veja bem: novos crentes, não necessariamente novos membros! Novos crentes, aqueles e aquelas que motivados pela proclamação, se aproximam e buscam o Reinado de Deus; por isso recebem o ensino e o batismo, recebem acolhida pela comunidade de fé, e assim, no fraterno convívio comunitário, recebem a nutrição que fortalecerá o caminho da busca e da percepção do Reino de Deus.

c)   As Três Marcas seguintes

As demais Marcas são consequência das duas anteriores. É através delas que a Comunidade de Fé (a Igreja) se faz presente no mundo, evangelizando, proclamando, anunciando e testemunhando. Afinal, essas três marcas são o Evangelho em Ação!

Responder às necessidades humanas com amor é o que chamamos de Diaconia. É o significado da comunhão do Povo de Deus entre si e com todas as pessoas. Sem perguntas e sem proselitismo, acolher e cuidar daqueles que sofrem no corpo e na alma, as vítimas da injustiça que permanece no mundo, o enfrentamento do diabólico que faz da vida sofrimento inútil.

Procurar a transformação das estruturas injustas da sociedade, desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação é a consequência da ação diaconal. Não basta socorrer, é preciso enfrentar e combater tudo que, diabolicamente, cria a massa de sofredores, de injustiçados, as vítimas da crueldade humana que se manifesta devido a ganância, a sede de poder absoluto, o egoísmo – as consequências nefastas do pecado que se manifesta através da vontade de ser “igual a Deus” (cf. Gênesis 3). Isso implica em se envolver politicamente! Diaconia não é apenas “fazer caridade”, mas realmente cuidar das vítimas e ao mesmo tempo combater o que causa o enorme número de vítimas neste mundo cruel e devastado por aqueles que se julgam “iguais a Deus”.

Esse atender as necessidades humanas implica também no cuidado com a Criação. Afinal o ser humano é herdeiro da Criação, herdeiro do Jardim criado por Deus, não para reinar nela, mas para cuidar dela, ser cooperador da Criação. A Quinta Marca da Missão está intimamente relacionada às demais, é consequência direta delas.


Assim, eu entendo e ouso propor que a Nova Forma da Igreja deve ser pensada e projetada a partir destas Cinco Marcas, mas reinterpretadas a partir da proposta clara do Movimento de Jesus – o Reinado de Deus. Não mais a expansão institucional viciada em cuidar de si mesma, contraditoriamente estruturada de forma a impedir o avanço da Missão. É necessário uma nova perspectiva teológica, uma nova eclesiologia para não andar em círculo, reinventando o modelo que já está fracassado, pois foi inspirado nos Impérios, os quais, exatamente pelo próprio conceito, se tornam a mentira da Serpente (Gênesis 3.4-5): se acham iguais a Deus e, assim, sobrevêm a morte sobre a vida.

Necessitamos de uma Eclesiologia verdadeiramente Revolucionária: o significado de revolução é a mudança radical de paradigmas!

Precisamos redescobrir o que realmente significa encarnação do Logos, Aquele que – encarnado - habita entre nós (cf. João 1.1-16)!

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Interrompo aqui esta série de postagens sobre Missão, que - na verdade - são partes de um único artigo, publicadas em picadinhos, para incentivar a leitura. 

A sequência do texto fica para uma "segunda temporada"; afinal, eu gostaria de escrever sobre outros temas, manter a diversidade destes Pirilampos e Pintassilgos.  Neste tempo de aguardo da "segunda temporada", espero que os poucos que leram os textos reflitam sobre o conteúdo, questionem, sejam críticos (e autocríticos) e - quem sabe - possam apresentar propostas para a "segunda temporada".

Sinceramente, eu não acredito que a Teologia Acadêmica possa, de fato, criar uma nova perspectiva teológica para a Encarnação, embora na Comunhão Anglicana costumamos nos definir como "Igreja Encarnada".  Eu acredito que a nova forma para a Igreja de Cristo é ser, realmente, encarnada, e isso significa romper com velhos conceitos sobre si mesma! É o desafio que deixo aqui com esta série de postagens, agora encerradas provisoriamente.

Que o Santo Espírito nos abençoe e inspire!

Amém!

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22 de set. de 2012

O que está acontecendo na Igreja?

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Este artigo é resultado de uma reflexão que temos feito na Paróquia São Paulo Apóstolo, como companheiros de ministério e partilhado com algumas lideranças leigas da paróquia, no contexto do Clamor pela Igreja que a comunidade tem realizado dominicalmente desde o Pentecostes.  Trata-se de um texto pessoal de nossa exclusiva responsabilidade, e não reflete, necessariamente, o pensamento da comunidade paroquial, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro ou até mesmo da Ordem de São Tiago de Jerusalém, na qual partilhamos esperanças e temores.
Depois dos últimos acontecimentos na IEAB, resolvemos partilhar nossa reflexão sobre a eclesiologia em que se fundamenta a nossa Igreja, que – nos parece – vem sendo esquecida por setores do clero e do laicato.
Primeiramente, temos que esclarecer o que é Eclesiologia? (do grego ekklesia= Igreja; Logia= Discurso). É o ramo da Teologia Sistemática que trata da Igreja: seu papel na salvação, sua origem, sua doutrina, sua disciplina, sua forma de se relacionar com o mundo, sua presença social; e também as mudanças ocorridas, as crises enfrentadas, a relação com outras denominações e sua forma de governo.
A Igreja é objeto e sujeito da fé, institucional e carismática (dons), sociedade visível e comunhão invisível, comunidade fraterna e hierárquica, santa e pecadora; a Igreja de Cristo se apresenta como diversidade de confissões e comunhão dialogal entre elas.
Levando em conta tal complexidade queremos, de início, identificar as questões mais importantes que surgem dos contextos episcopal e anglicano. Tais questões ajudam a reconhecer a pertinência desta reflexão: atualizar o tema “Igreja” neste emaranhado de realidades e conceitos.
Nessa perspectiva, lembramos Dom Sumio Takatsu que, brilhantemente, nos recorda que a Igreja Episcopal Anglicana não caiu do Céu; foram anos de construção, idas e vindas, uma identidade “católica” e “protestante”, chegando à via média que tentamos ser.
Em se tratando do anglicanismo, sua auto compreensão não pode passar por cima da Reforma do século XVI nem de sua continuidade com a Igreja da antiguidade, vista sob a ótica do conhecimento disponível nos séculos XVI e XVII.Desde o seu começo, o anglicanismo tem sido formado na forja da controvérsia eclesiológica. De fato, o primeiro Sínodo da Igreja da Inglaterra em Whitby (664) foi uma controvérsia em torno da data da Páscoa entre a Igreja celta e romana representada por Agostinho, enviado pelo bispo de Roma, Gregório Magno. Muito mais tarde, no século XIV, John Wycliff e seus seguidores desafiaram o conceito do domínio que cada pessoa e ofício têm recebido do seu superior imediato. (Takatsu, Eclesiologia Anglicana, pg. 1)
Neste aspecto queremos salientar que a tensão entre Igreja Celta e Igreja de Roma no séc. VII foi o final  de um processo que vem de mais longe, do início da cristianização das Ilhas Britânicas.
Se alguém pensa que somos filhos somente da Igreja Ocidental, está enganado. Somos, também, filhos da Igreja Oriental. Foram missionários da Igreja do Oriente que converteram, de início, os celtas, passando para eles a eclesiologia e a teologia cristã orientais. Assim, nossa percepção teológica e cosmovisão, têm origem nas concepções orientais, cheias de misticismo e variações, enfatizando a relação com a natureza de maneira bastante séria e encarnada.
Quem, no séc.VII, vence a polêmica na região sul e sudeste da Grã-Bretanha, sob domínio saxão, é a Igreja de Roma, mas o oeste e o norte, (habitados majoritariamente pelas diversas tribos celtas que resistiram ao Império Romano) mantiveram as concepções  teológicas do oriente cristão. Por isso vamos falar um pouco da Eclesiologia Oriental para entender nossa pluralidade de conceitos.
As Igrejas Orientais (Ortodoxas), em geral, têm uma organização muito interessante e sadia, fundamentada no principio real da Catolicidade (Universalidade) da Igreja. Tais Igrejas se sobrepõem através de diversas jurisdições eclesiásticas (como por exemplo a Igreja Ortodoxa Grega, Igreja Ortodoxa Eslava, a Igreja Ortodoxa Siríaca, etc.) que professam a mesma fé e, com algumas variações culturais e étnicas, praticam basicamente os mesmos ritos. O líder espiritual das Igrejas Ortodoxas é o Patriarca de Constantinopla – chamado de Patriarca Ecumênico, embora este seja um título mais honorífico, uma vez que os patriarcas de cada uma dessas igrejas são independentes. A maior parte das Igrejas Orientais, em comunhão umas com as outras, usam o rito bizantino e suas variações.
Para eles, o Chefe Único da Igreja, e sem intermediários, representantes ou legatários, é o próprio Jesus Cristo. A autoridade suprema na Igreja Ortodoxa é o Santo Sínodo Ecumênico que se compõe de todos os patriarcas chefes das igrejas autocéfalas e os arcebispos primazes das igrejas autônomas, que se reúnem a chamado do  Patriarca Ecumênico de Constantinopla (cf. Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental, p. 103).
A autoridade suprema regional em todos os patriarcados autocéfalos e igrejas autônomas é da competência do Santo Sínodo Local. Algumas igrejas autocéfalas possuem o direito de resolver todos os seus problemas internos com base em sua própria autoridade, tendo também o direito de ter seus próprios bispos, incluindo o próprio patriarca, arcebispo ou metropolita que presida essa Igreja.
Este característica foi herdada pela nossa Tradição oriunda da Igreja Celta: o mesmo princípio que nos rege como Igreja sinodal e o exercício do Primado. O Arcebispo de Cantuária, por exemplo, não é o Vigário de Cristo nem chefe supremo da Comunhão Anglicana; da mesma forma, nosso Bispo Primaz é o “primus inter pares” (primeiro entre iguais) com os demais Bispos Diocesanos.
A Igreja Oriental nos legou outro aspecto eclesiológico através da Igreja Celta: um tipo de comunhão que estamos esquecendo, a Comunhão (koynonia) em Amor a Deus e a Unidade Eucarística. Temos dificuldade em vivermos, hoje, uma comunhão em Amor, pois ficamos sempre lembrando da nossa raiz ocidental, hierarquizada, monarquista e clericalista ao extremo, e esquecemos de nossos pés no oriente, primeiro em Jesus, e depois na Tradição Oriental, através dos cristãos celtas vencidos no Sínodo de Withby (séc.VII).
A Igreja Celta expressava sua comunhão com Deus e os outros, no amor e respeito mútuo, sem hierarquia absolutas. Assim, o bispo era bispo para fundar comunidades e ordenar, os abades organizavam e conduziam a Igreja Diocesana, os monges e padres cuidavam das comunidades, os diáconos ajudavam os padres e monges neste cuidado e o centro da vida era o mosteiros junto às aldeias, onde todos se reuniam para partilhar a suas experiências e traçar suas metas missionárias. Foi uma tentativa de resistir ao avanço da cosmovisão de Roma, marcada pelo Império. Assim, os cristãos celtas buscavam a colegialidade em amor e respeito mútuo, oriundo da eclesiologia oriental que, conforme Dom Koubetch nos explicita:
Do amor surge a comunidade como adesão pessoal e livre à fé professada de todo o povo. Provem do amor (que reúne, assemelha-se) […]. O ideal que está na base do conceito de amor é a realidade da comunhão, daquele fato resultante da unitotalidade e da unipluralidade, pela qual muitos são um, mas permanecendo pessoas diversas e livres. (Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental; p. 116).
Tal é nosso legado: uma relação de amor entre iguais, apesar de diferentes. Cada um com sua função e ministério diferente, mas sua ação e respeito eram únicos, visando a evangelização aos não cristãos e respeitando a diversidade cultural de cada localidade.
Isso significa ainda que a Igreja é simultaneamente uma reflexão que motive o ser humano a ser mais amoroso (ágape) em relação ao outro, ao cosmos e a Deus. A linguagem mais adequada para se aproximar deste mistério fundamental é a Teologia da Encarnação, algo específico para a comunidade cristã oriental. A teologia que nós herdamos do oriente através dos celtas, vive a tensão entre poder falar de Deus, pois Ele mesmo se revelou (dimensão katafática = revela-se a Si mesmo), e reconhecer que todo discurso sobre o Senhor não consegue abranger a grandeza e a profundidade do Divino (dimensão mysterium = o que está oculto, porém presente e perceptível).
Por ser uma reflexão sobre o Amor, a partir da diversidade, visando tornar o ser humano mais amoroso, a Teologia não pode lidar somente com conceitos. A história da Igreja, especialmente a partir das igrejas orientais, mostra uma grande conquista: o refletir sobre Deus a partir de conceitos abalizados no mistério. A Igreja necessita recorrer ao seu passado (Tradição) para lembrar do caráter testemunhal e lançar mão das analogias entre vida e fé. Só assim, numa pluralidade de linguagens e abordagens, deixar-se-á tocar pelo mistério amoroso de Deus.
Assim, não correremos o risco de cometer o erro de pensar em absolutos imperiais, os quais nunca fizeram parte da nossa Tradição Herdada, mas nos mantemos firmes em seu aspecto mais puro e embrionário, uma comunidade (comum-união) de amor, que expandiu o cristianismo não só nas ilhas britânicas, mas também entre os povos germânicos, francos e parte dos povos nórdicos. É interessante notar onde houve um contato com os monges missionários cristãos celtas  de alguma forma foi criado um cristianismo independente de Roma através de vários movimentos de reforma até chegar na Reforma no século XVI, uma renúncia ao Tomismo que marcou profundamente a Igreja Romana.
Por isso, é estranho perceber, em nossa Igreja Episcopal Anglicana, tendências de entender o Episcopado como poder centralizador e absoluto, disputado por grupos de interesse, partidarismos e encobrindo vaidades e projetos pessoais.
Mesmo a Igreja da Inglaterra, que não é nossa ancestral direta, mas indireta, que se expandiu através do Império Britânico, expansionista e colonialista, a partir do século XVII, teve o bom senso de estabelecer nas colônias Igrejas indígenas promovendo o desenvolvimento de clero local, inclusive episcopado, não vinculando a Missão à autoridade absoluta da Igreja Imperial. Segregacionista ou não, nas colônias inglesas sempre houve uma diferenciação entre a “igreja dos ingleses” e as nascentes igrejas de influência “anglicana” nas colônias, fiéis à sua concepção de não admitir ingerência estrangeira nas igrejas locais (cada povo, sua igreja).
Esse espírito marcou a formação da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, que não foi uma simples mudança de nome, mas uma união de diferentes confissões nas 13 Colônias, dando origem a uma Igreja de identidade nacional, respeitando inclusive a liberdade daqueles que preferiram manter-se independentes, em sua própria identidade confessional. Assim, ao surgirem como nação independente, os Estados Unidos já nascem com uma diversidade religiosa marcada pela liberdade de culto. É essa a visão eclesiástica que chega ao Brasil em 1889 com Morris e Kinsolving. Fiel ao seu próprio princípio fundante, a Igreja Mãe logo providencia o episcopado próprio para o Brasil, mesmo na pessoa dos missionários e ainda atrelado à estrutura da Igreja Mãe, mas sempre apontando o horizonte da emancipação, que começa de fato em 1950, com a eleição dos primeiros bispos nacionais (Pithan, Simões e Krischke).
Portanto, choca-nos perceber, nas recentes disputas pelo Episcopado, a incidência de projetos personalistas e de interesses pessoais, forçando inclusive interpretações das normas canônicas, aparentando uma visão absolutista do poder e/ou querendo impor padrões e dinâmicas de comportamento que são até mesmo estranhos à nossa Tradição Herdada. Perde-se o referencial evangélico, “o maior aquele que serve” (cf. Marcos 9.30-37 e par). Neste 17º Domingo depois de Pentecostes, Tiago o Justo, irmão de nosso Senhor, nos recorda em sua epístola:
   Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de "sabedoria" não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. (Tg 3.13-18 – Nova Versão internacional).
Rev. Daniel Rangel Cabral Jr,ost+  e  Rev. Luiz Caetano Grecco Teixeira, ost +
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21 de jul. de 2012

Do Poder, do Episcopado e outros babados.

s_pedroepaulo Instituições tem a cara dos seus dirigentes. O caráter humano é essencial na identidade de cada instituição. O caráter humano é muito influenciado pelo poder, essa “coisa mágica” que permite algumas pessoas exercerem autoridade sobre as outras dentro de um espaço institucional, seja a família, seja o Estado, seja uma ONG, seja uma comunidade de fé ou uma denominação religiosa.

Quando se trata de uma instituição religiosa, a coisa se complica um pouco mais, porque há tendência das pessoas sacralizarem a instituição, ou seja, pensar a instituição como algo divino, de tal forma que seus dirigentes são entendidos como “escolhidos pela Divindade”, e portanto sua autoridade e seu poder emana do próprio Divino.
[Uma piadinha teológica: quem quer que já tenha participado de um processo eleitoral para a escolha de dirigentes eclesiásticos, de qualquer denominação cristã, sabe os conchavos e acordos que são feitos entre os diferentes grupos de interesses que naturalmente existem em qualquer agrupamento humano. Como cada grupo se entende iluminado pela Divindade, podemos imaginar a Divindade em contradição consigo mesma! ou então, morrendo de rir com a petulância de cada grupo! ]
Houve tempos e sociedades (e ainda hoje há algumas sociedades assim) em que o Estado se confunde com o Divino; chamamos isso de Teocracia. Há centenas de exemplos históricos demonstrando que as teocracias foram um fracasso e não acabaram bem… e as populações à elas submetidas sempre viveram mal. No mundo ocidental, após a queda do Império Romano do Ocidente, o poder ficou pendente entre a nobreza que sobrou do Império, os chefes das clãs “bárbaras” e a Igreja Cristã.

Já naquele tempo, enquanto a Igreja do Oriente era etnicamente e culturalmente dividida, a Igreja do Ocidente se identificou como Instituição sólida e “católica”, ou seja, a mesma “única igreja” e idêntica em todo o “mundo”, assumindo o poder unificador antes exercido pelo Império Romano; aliás, até a cúpula da Igreja ficou localizada na antiga Cidade Imperial. Assim, as negociações pelo controle do poder acabaram gerando uma relação de mútua dependência entre o que hoje entendemos como Estado (forçando a barra, porque pensar em Estado na época medieval é um tanto quanto absurdo) e o poder “sagrado” da Igreja. Bispos coroavam Reis e as complexas relações de senhorio e vassalagem criavam um certo equilíbrio, não muito sólido, mas administrável. Com o advento da Modernidade, o poder do Estado foi se tornando independente do poder sobre o Sagrado, embora as relações entre ambos sempre fossem cordiais (com raras e históricas exceções) promovendo fluxo de privilégios de um para o outro em mão dupla.

A Reforma do século XVI e as posteriores reformas acontecidas a partir dai na Igreja do Ocidente, não mudaram esse quadro. Porque tal quadro é inerente às instituições… a disputa de poder interno é parte da natureza das instituições – qualquer instituição, porque são constituídas por pessoas e todas as pessoas estão sob a dinâmica de Gênesis 3: a tentação de ser igual a Deus e perder o Paraíso...
Como instituição em si mesma, a Igreja não tem sentido algum, nem tem finalidade alguma na realidade humana. Viveríamos muito bem sem a Igreja enquanto pensada como instituição. Até porque muita gente vive bem e feliz sem estar ligada à qualquer coisa que seja religião institucional. Mas há uma natureza transcendente na Igreja que vai além de sua institucionalidade: é sua compreensão enquanto parte do Povo de Deus (o Qual tem muitos nomes e muitos povos).

A reflexão que se segue é focada exclusivamente na Igreja onde estou. Perdoem-me os leitores de outras denominações e confissões, mas talvez tal reflexão possa ajudar, com as devidas adequações, uma reflexão em outros contextos.

A Igreja onde vivencio comunitariamente a minha fé e exerço meu ministério é uma Igreja Episcopal (até no nome!). Isso significa que a Autoridade na Igreja é exercida pelo Episcopado, porém, entre nós, o Episcopado não é um absoluto em si mesmo (embora hajam bispos, clérigos e leigos pensando que seja!). Bispos são eleitos pela Igreja, clero e povo (já fica claro que o clero não é povo! mas chamado e separado para ser servo do povo!), não são nomeados por uma autoridade central (no caso da Igreja da Inglaterra, é um pouco diferente, mas isso é lá um problema deles, eu não tenho nada com isso e nem me afeta diretamente) e seu poder é exercido dentro do conceito de Autoridade Dispersa e Compartilhada, que é um dos nossos princípios basilares de identidade e nos caracteriza como uma Igreja de Tradição Católica e Reformada . Qualquer presbítero ou presbítera poderá ser levado ao Episcopado  pelo voto da Igreja conforme normatizado pelos Cânones Gerais [ inclusive eu, embora haja gente que treme na base ao imaginar isso! (risos irônicos) ].

Atribui-se ao Apóstolo Paulo a afirmação que “quem aspira ao Episcopado, boa coisa aspira” (1ª Timóteo 3.1), embora na Almeida Revista e Atualizada conste “Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja”  e na Nova Versão Internacional o texto diz “Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função”. Importante notar que a Palavra se refere à obra ou à função! O Apóstolo vincula o conceito de episcopado ao conceito de serviço (Diaconia!).

Eu sempre digo aos seminaristas pretendentes ao Ministério Ordenado, especialmente ao Presbiterado, que é dever nosso como presbíteros ter muita clareza sobre o fato do Episcopado ser um horizonte possível no ministério de cada um. Cada um de nós deve ter uma posição bem clara sobre a possibilidade de ser chamado ao Episcopado: em primeiro lugar, se aceitaria isso para sua vida; em segundo lugar, em que circunstâncias de sua vida aceitaria isso (em que momento de sua vida), em terceiro lugar, quais os critérios próprios para aceitar a indicação.

Caso contrário, o Episcopado pode surgir como uma “evolução natural da carreira eclesiástica”, como é o generalato para a carreira militar. Acontece que o Episcopado não é isso, Bispos não são Generais mas são Pais ou Mães em Deus (ou deveriam ser e comportar-se como), nem recebem o Episcopado pelo mérito de uma carreira bem sucedida e pelos “bons serviços prestados à Igreja” (quando alguém é eleito Bispo nessas condições, quase sempre dá em merda!): Episcopado não é coroamento de carreira, porque o Ministério Ordenado não é uma carreira profissional, pelo menos eu o entendo assim. Evidentemente que, ao olharmos a Igreja em seu aspecto institucional, há uma carreira eclesiástica, mas há o caráter transcendental que define o Ministério como chamado e  envio para o Serviço em nome do Senhor Jesus Cristo, em fiel obediência a Deus e aberto à ação do Espírito Santo.

De fato, eu comecei a pensar nisso ainda no tempo de seminarista, até mesmo porque alguns dos meus professores estimulavam que todos nós fizéssemos essa reflexão. Assim, desde muito cedo eu tenho bem claro o horizonte do Episcopado e tenho bem definidas as respostas às questões enunciadas acima.
Além disso, entendo o Episcopado como um serviço e portanto não tenho um projeto pessoal de Episcopado, porque o projeto que interessa é o projeto da Igreja, da Diocese. O erro da Igreja Episcopal no Brasil (e em outras partes do mundo) é que se elege um Bispo e não um Projeto para o qual se busca o líder adequado para sua execução por toda a Igreja Diocesana. Ou seja, elege-se o Bispo e dane-se ele! Tudo passa a depender dele e - ou se concorda e apoia ou se discorda e faz-se oposição velada. 

 Eu entendo que o Episcopado deve ser exercido de forma a contemplar um plano diocesano de ação e não um projeto pessoal.  Assim, a minha grande condição para aceitar concorrer ao Episcopado seria que me fosse oferecido e mostrado um Plano Diocesano, que não são metas simplesmente, mas um Projeto que tenha claro de onde se parte e de onde se quer chegar, e as alternativas de caminho, e eu de fato avaliaria se me sinto capaz – e se sou a pessoa adequada – para exercer tal responsabilidade de liderança. Como a Igreja é recheada pela cultura política brasileira, não há projeto, mas apenas o desejo de ter alguém que carregue o piano e favoreça uns e outros…  Não é o Bispo que deve ter um projeto, mas a Igreja Diocesana. E, de preferencia, que seja construído antes do Bispo… e que depois da escolha do Bispo o projeto seja executado pelo conjunto da Igreja e aferido, avaliado e reformulado sempre com a participação de toda a Igreja.

Acho que o Bispo não deve ser o gerente da Igreja; deveria deixar isso para especialistas que estão na Igreja; o Bispo deve ser Pai (Mãe) e Pastor do Clero e com o Clero, Pai (Mãe) e Pastor do Povo. Todo clero é incardinado em seu Bispo (termo técnico que designa a vinculação ao Bispo) e por isso, o Bispo deve estar incardinado em seu Clero e Povo (estar no coração). Mas é preciso que a Igreja amadureça muito ainda para entender e viver isso realmente, e – pela minha idade – não verei isso acontecer…

Nos próximos doze meses a Igreja deverá eleger pelo menos três novos Bispos. Não sou candidato em nenhuma dessas eleições: em duas nem fui convidado a sê-lo (rsrsr), e para todos que me sondaram para a terceira, fiz a mesma pergunta: qual é o projeto diocesano? até agora ninguém me deu resposta adequada e por isso, agradeço a lembrança do meu nome mas… não me sinto capaz de carregar e tocar sozinho pianos desafinados – se houver uma orquestra, até posso ajudar com o piano, ou um violino, mas uma orquestra só toca bem com bons músicos e uma boa harmonia, e isso não depende só do regente, mas de cada um com seu instrumento.

Que Deus abençoe a IEAB, e que o Espírito Santo oriente – com paciência! – os processos de eleição episcopal em curso.
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5 de jun. de 2012

Por que clamar em favor da Igreja?

CLAMORDesde o Domingo da Trindade, a Paróquia São Paulo Apóstolo começou uma campanha interna de clamor em favor da Igreja de Cristo: por toda a Igreja e particularmente pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e a Comunhão Anglicana.  Por que a comunidade decidiu isso? Uma reflexão no Pentecostes sobre o estado da Igreja no mundo e, particularmente no Brasil, levou-nos reconhecer a necessidade de – mais que uma intercessão – iniciarmos um clamor.
CLAMAR é o ato de manifestar diante de Deus a nossa indignação e a nosso completo desacordo com a realidade que vemos! e é manifestação de compromisso em OUVIR o SENHOR e OBEDECER À SUA VONTADE! Para compreender o conceito de clamor, sugiro meu artigo no blogue da Paróquia São Paulo Apóstolo, “Clamor!”.
É momento de deixarmos os ufanismos, as ilusões e reconhecer que a Igreja Cristã no ocidente está perdendo o senso de identidade e de missão concreta, como um barco sem rumo claro… a cada tempo surgem e desaparecem modismos teológicos e ideológicos; a tendência da Igreja é navegar (surfar) na onda do momento. Em meio às grandes negociatas da venda de bênçãos, da tentação do sucesso rápido e da nossa incapacidade de mudar nossos paradigmas, a Igreja Cristã Ocidental está sofrendo de uma gravíssima perda de identidade e de sentido de Missão realmente obediente ao mandato do Senhor.
Limitando-me ao Brasil e à Igreja onde vivo minha fé em comunidade (congregação e denominação) tenho refletido sobre o atual estado dessa Igreja e partilhado isso com a comunidade aos meus cuidados pastorais, com companheiros e companheiras de ministério e lideranças em todo o Brasil. Surpreende-me o fato que, ao partilhar meus temores e indignações, vejo muitas dessas pessoas manifestarem os mesmo sentimentos, preocupações e mesmo indignações!
Acontece que a Igreja está se tornando anacrônica em relação ao caminhar da sociedade. Ao afirmar isso, não estou propondo que a Igreja se deixe levar pelos rumos da sociedade, mas que deve reconhecer tais rumos, fazer uma avaliação à luz do Evangelho e agir profeticamente de forma adequada e eficaz. Para agir de forma profética e com eficácia, a Igreja necessita adaptar-se ao tempo presente, mudar sua própria visão do mundo e sua auto-compreensão. Hoje os desafios para a Missão e para a Presença da Igreja no mundo são outros! Exigem novos métodos de abordagem e análise, e de enfrentamento. Mais do que discurso teológico, é necessário que a Igreja reformule sua compreensão de si mesma, reveja os princípios eclesiológicos que determinam e justificam sua atual organização e sua administração, por exemplo, e até mesmo sua missão. É preciso que a Igreja tenha a coragem de reformar-se!
Nas últimas postagens neste blogue, abordei vários desses aspectos: “Romper paradigmas”, “Velhos paradigmas fantasiados de novos”, “Do poder e do penico”, além de outros mais antigos; portanto, não vou abordar tais aspectos. Neste artigo quero colocar mais um aspecto, o aspecto institucional da Igreja.
A Igreja, todas as Igrejas (denominações) são instituições sociais, estão presas e dependentes dos movimentos da sociedade humana. É um erro teológico pensar a Igreja apenas como o Corpo de Cristo sem levar em consideração que – sendo uma organização formada por pessoas – a Igreja é também uma instituição social, participa da sociedade e sofre os reveses e os avanços da sociedade onde está inserida.
Como qualquer organização, a Igreja necessita ser administrada e bem administrada se quiser continuar existindo. É de grande ingenuidade pensar que a Igreja é diferente de uma empresa ou de qualquer outro empreendimento. A Igreja, como as empresas e qualquer outra instituição, deve ser administrada dentro de parâmetros técnicos adequados que permitam exercer seu papel na sociedade e cumprir sua missão. A Igreja, como qualquer organização humana, deve ser capaz de gerir e bem seus recursos, sejam eles humanos, financeiros, patrimoniais e espirituais. Na complexidade do mundo hoje, gestão não é improvisação, mas ação profissional, exige conhecimento técnico, e não pode ser exercida apenas pela boa vontade de pessoas sinceras e honestas, mas amadoras, que dedicam seu tempo voluntariamente para isso. O clero não é preparado para isso, por exemplo (aliás, tem sido tão mal preparado, que nem mesmo sei se consegue dar conta dos desafios pastorais que enfrentamos – e não falo exclusivamente da IEAB!), e o laicato muitas vezes é alijado da administração ou se limita a pessoas de boa vontade, nem sempre com o conhecimento técnico adequado, e que atuam voluntariamente.
Já vi, em várias ocasiões, opiniões técnicas bem fundamentadas serem recusadas pelas lideranças institucionais da Igreja sob o argumento que “Igreja não pode ser assim, Igreja não é empresa”, para justificar certas decisões administrativas totalmente insensatas e que com o tempo mostraram resultados nefastos e enormes prejuízos para a instituição… Acontece que Igreja é uma empresa sim, uma instituição, está assentada neste mundo, mesmo sendo uma “empresa de Deus”.
Gostamos de representar a Igreja como “rebanho de Cristo”, quem, aliás, têm muitas fazendas… somos chamados a cuidar do rebanho do Senhor, COM O SENHOR, mas muitas vezes deixamos de OUVIR  a voz do dono… rebanhos, fazendas, precisam ser bem administrados…  Ou então gostamos de pensar a Igreja como “A Barca de Pedro”, esquecendo que Pedro era pescador profissional, sabia navegar e conduzia seu barco com técnica adequada e prudência mas quando o Senhor lhe mandou jogar as redes para o outro lado, ele deu ouvidos e fez o que o Senhor falou! (cf. João 21.4-6).
Não serão nossos planos amadores mirabolantes, muitas vezes desesperados, que salvarão a Igreja de Cristo. É preciso dobrar  o o joelho e clamar para que o SENHOR DA IGREJA a reforme plenamente!
“Renova Senhor a Tua Igreja, começando por nossa Congregação, nossa Diocese, nossa Província!”. Esse tem sido o brado que estamos orando na São Paulo Apóstolo.
Convido você a unir-se à nós. Se você não é episcopaliano, faça isso pela sua denominação. Ela também está ficando à deriva!
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14 de mai. de 2012

Do poder e do penico.

PenicosOs políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente, e pela mesma razão!  (Eça de Queiroz)
Não sei quando o Eça disse isso, se publicou ou não, nem mesmo se é o autor da frase… peguei a citação no Facebook. Todavia, é uma frase feliz, de grande senso cidadão.
Na verdade, isso vale para qualquer um que exerça autoridade e esteja investido de poder. Para evitar se contaminar, sempre é bom não acumular muito tempo no poder e no exercício da autoridade... isso vale em qualquer instituição, INCLUSIVE na Igreja! Porque ninguém é imune ao poder corruptor do Poder!
Houve uma Ordem, Monástica, em tempos passados – não me lembro qual mas provavelmente de Regra Beneditina – onde havia uma norma sobre o Superior Geral: ao término de seu tempo de governo (exercício do poder e da autoridade) o monge, até então o Superior Geral, era designado para a função de Irmão encarregado das latrinas do mosteiro, ou seja, o sujeito que tinha de cuidar da merda de todo mundo! Isso, dizia a norma, era para que ele se desintoxicasse e se limpasse do poder e da autoridade, para que reaprendesse a servir e a obedecer, pois até então fora servido e obedecido pelos demais confrades.
Também dizia a norma que o Superior recém eleito, antes de ser investido da autoridade, deveria passar alguns meses como Irmão Porteiro, cuja cela ficava fora da clausura, ao lado do Portão Principal, e que devia atender à porta qualquer hora do dia ou da noite. Era ele quem atendia os peregrinos que buscavam alguma ajuda, atendia os doentes que buscavam remédios, enfim, era o sujeito a quem cabia a responsabilidade de atender a todo mundo que batia à porta. Também competia a ele cuidar das montarias dos hospedes… Assim, o pobre do Irmão Porteiro (futuro Superior Geral) era um sujeito que não tinha muito descanso, e devia ser carinhoso, atencioso e prestativo, ter bom senso e muita paciência. Segundo a Norma, ele aprenderia a servir e a atender a necessidade dos demais confrades, pois sua principal função como Superior era o bem estar da comunidade.
Assim, antes e depois do tempo em que exerce a autoridade, o monge tinha de passar por funções simples e, ao mesmo tempo, humildes, para evitar a contaminação pelo Poder.
Acho que a gente devia ter alguma norma parecida para balizar as pessoas a quem delegamos autoridade no campo social e político.  Por exemplo: após as eleições para qualquer cargo, os eleitos  - antes de tomarem posse do poder – deveriam compulsoriamente servir como garis, garçons, faxineiros, porteiros, e outras tarefas subalternas que exigem paciência e habilidade em lidar com os outros. A ideia é que antes de exercer a autoridade, a pessoa seja submetida à outras autoridades… E também deveria ser obrigado, ao término do mandato, o exercício de funções subalternas, para evitar a arrogância…
Penso que na Igreja isso também deveria acontecer. Na verdade, na tradição herdada da Igreja Antiga, todos os clérigos são ordenados primeiro ao Diaconato, para depois, se assim o desejarem, receberem a Ordem do Presbiterado e posteriormente a do Episcopado.  Ou seja, todo Bispo e Bispa, todo Presbítero e Presbítera é, antes de tudo, Diácono/Diácona – a Ordem do Serviço. Portanto, qualquer que seja a hierarquia, todos os clérigos e clérigas são iguais – são Diáconos e Diáconas; as Ordens posteriores são colocadas SOBRE o Diaconato, não em lugar do Diaconato. Ou seja, toda a Hierarquia está apoiada na base do Serviço e a autoridade é exercida a partir dessa plataforma: o servir!
Entretanto, não é isso que a gente vê na maioria das vezes… Sacerdotes e Bispos que adotam posturas senhoriais, arrogantes e autoritárias… como se a Igreja (Paróquia, Diocese) fosse propriedade sua e não espaço do SEU serviço.
Seminaristas deveriam, além do estudo teológico, passarem por processos obrigatórios de estágio atuando em comunidades e situações limites: capelania hospitalar, serviço social e pastoral com moradores de rua, servir voluntariamente em hospitais destinados a doentes terminais… não serão bons pastores e pastoras se não conhecerem em profundidade os limites humanos da dor, da tristeza e da exclusão! Não poderão ser sinais da misericórdia amorosa de Deus se não compreenderem o que é necessitar de misericórdia.
Ao se tornarem Diáconos e Diáconas, deveriam ser obrigados a atuar ainda nessas situações limites, como servos e servas. Além de serem sinais do amor misericordioso de Deus, seriam também interlocutores para a Comunidade da Igreja sobre as necessidades do mundo… manteriam os olhos da Igreja voltados para as dores e misérias humanas, inspirando a missão e a ação evangelizadora.
Mesmo depois de receber o Presbiterado, de tempos em tempos seria bom que voltasse a exercitar concretamente o Diaconato, um período onde estaria em contato novamente com os limites humanos… e isso também deveria ser obrigatório aos Bispos e Bispas… deixar a Mitra e o Báculo no Altar e voltar – de tempos em tempos – a carregar o alforje do Diácono de forma concreta e engajada, não de forma simbólica.
Isso ajudaria todos nós a resistir quando tentados pelas benesses do Poder e do exercício da Autoridade, e sermos fiéis ao Senhor que se apresenta como Aquele que Serve, o qual nos separou para sermos sinais de SUA AÇÃO (serviço) no mundo. Um semestre sabático afastado do encargo e da solidão do poder permitiria aos Bispos e Bispas e também aos Párocos e Párocas avaliarem-se desnudos diante do Senhor da Vida e da Igreja e desintoxicarem-se dos demônios que rondam o Poder…
Isso seria um novo paradigma para a Igreja que tenta ser sinal do amor de Deus em um mundo cada vez mais centrado no ego e na auto-satisfação consumista, um mundo cada vez menos solidário…
O Poder, seja qual for, sempre tenta e quem cai na tentação acaba fazendo merda! de tempos em tempos, é bom que os grupos humanos limpem seus penicos!
Fica a proposta…
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FOTO: Museu do Penico, Salamanca, Espanha
Espalhados pelos diferentes cantos do mundo, encontram-se museus dos mais curiosos, como o do penico. Fundado em 2007, o Museu do Penico encontra-se instalado no Seminário de São Cayetano, junto à Catedral de Ciudad Rodrigo, a cerca de 30 km da fronteira de Vilar Formoso. Fruto do esforço de José María del Arco, o Museu do Penico abriga 1.300 peças diferentes provenientes de 27 países diferentes entre eles Portugal, tendo sido a maior parte deles oferecidos ao proprietário. Uma proposta diferente e a oportunidade de admirar um aspecto original do legado histórico dos nossos antepassados.
Uma visita ao Museu em Salamanca? Vale a pena ver tamanhas relíquias! Ah, e faça questão de não encostar em nada hein?
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21 de mar. de 2012

Vida de Pastor

Novo sentido espiritualidade 01
(aos seminaristas de hoje que realmente querem servir ao Povo de Deus e não faturar no negócio religioso)
Quando eu estudava no Seminário, em São Paulo, tirávamos algumas tardes de sábado e nos reuníamos, alunos e professores, para um bate papo informal, onde o que mais acontecia era a troca de experiências e um partilhar da vida.  Bons tempos em que a gente partilhava sentimentos, emoções, esperanças e fracassos com pessoas reais, olho no olho, e não nas redes sociais.  Eu costumava anotar algumas coisas em um caderno, as coisas que chamavam a atenção, que marcavam o coração… uma espécie de registro de momentos e palavras que impressionaram minha vivência aos 22 anos.
Esses caderninhos guardo até hoje, são minha memória afetiva e intelectual.
Lembro especialmente de uma tarde, o grupo não era grande, umas sete ou oito pessoas, e o papo com um velho professor, já falecido...
O assunto correu e chegou na “vida de pastor”… o nosso professor contou algumas de suas vivências, em alguns casos rimos muito, mas de repente nos saiu com essa: (tradução dos meus garranchos no caderno e devidamente editado para ser uma postagem):
Vários de vocês estão aqui estudando porque almejam seguir o ministério ordenado. Não sei se têm ideia da loucura que estão querendo. Isso não é profissão, mas é vocação.  Não é uma carreira, mas é um caminho que sempre nos leva para um lugar sombrio: a alma humana. A tua alma e a alma dos outros.
Você precisa estar prevenido, porque aqui no Seminário, tudo é sonho e projeto, mas lá, no exercício do ministério, na solidão que isso é, a coisa é muito diferente.
Logo de início aviso que felicidade no casamento vai ser algo difícil, a menos que você encontre a esposa certa (naquele tempo mal se falava em ordenação de mulheres), que não deve ser prioritariamente crente mas tem de ter um espírito de abnegação grande e não ser ambiciosa. Um pastor é quase como um médico: tem plantão 24 horas todos os dias, inclusive domingos! Depois do culto, pode acontecer que àquele almoço na casa da sogra, tua esposa e os filhos vão mas você não vá porque a Dona Maricota foi internada e está mal, a família pede sua presença para acompanhar a situação, só que o hospital é exatamente aquele que fica do outro lado da cidade, você não tem carro e provavelmente vai passar lá o resto do dia, quando não a noite também. E, pode ter certeza, sempre aparecerá uma Dona Maricota ou uma emergência pastoral no dia do aniversário da tua esposa, dos teus filhos, no do casamento, no seu mesmo, ou no dia da confraternização da escola das crianças.
Muitas vezes você vai ficar angustiado porque teu soldo é pequeno, e teus filhos querem coisas que você não pode comprar. Tirar férias será sempre um tormento, a preocupação com a igreja e com quem poderá substituir você nesse tempo. Acostumem-se a tirar férias curtas mas pelo menos duas vezes por ano, porque ninguém é de ferro.
As pessoas da Igreja e mesmo de fora da Igreja serão exigentes com você. Você não tem o direito de errar, de ficar triste, de ter dúvidas… ninguém pensa que um pastor também precisa de um pastor, e o Bispo, que deveria fazer isso no mínimo, geralmente não faz; até porque o Bispo também precisa de um pastor, e muito.
Você terá de ser sempre o amigo, o ouvinte, o solidário, o pau-pra-toda obra. Ninguém estará interessado nos problemas que você tem, mas todos querem que você se interesse pelos problemas deles. Poucas vezes você terá um amigo, um ouvinte, alguém solidário, alguém que se ofereça para ajudar você na obra.  Você será a latrina onde as pessoas jogarão suas merdas interiores… então ai, lembre que o Cristo é bom faxineiro e sempre virá para dar a descarga. Nunca compartilhe essas merdas, deixe que o Faxineiro cuide delas, e Ele tem muitas maneiras de fazer isso… com o tempo você entenderá. Coloque sempre essas coisas ao pé da Cruz de Cristo e jamais comente com ninguém, nem mesmo com quem falou com você.
Você dirá que Cristo é o seu pastor; isso é bonito, mas - no dia a dia - ore para que Ele seja o seu pastor através de alguém que possa te abraçar sem medo, te ouvir e compreender que você é humano, tem sentimentos, sonhos, desejos, frustrações e também é pecador. Cercado de muita gente, o pastor está imerso em uma solidão tremenda. Nem mesmo seus colegas estarão disponíveis, por isso cuide que a burocracia da igreja não destrua as amizades que você está construindo aqui no Seminário; não se deixe contaminar pela inveja e pelo espírito de concorrência; seja humilde e lembre-se que você e todos que são pastores, são apenas servos de UM OUTRO, o verdadeiro e único Pastor.
Pense bem antes de aceitar a ordenação. Mas saiba que, se Deus te escolheu, Ele estará contigo sempre, até mesmo na tua fraqueza e no teu pecado. Por isso, reserve sempre parte do teu tempo em solidão, escrevendo, meditando, lendo, e orando, para ouvir a voz do Senhor.
Após 26 anos de vida no ministério ordenado, mesmo tendo passado a maior parte desse tempo servindo à Igreja em funções mais específicas, eu entendo e muito bem, as palavras do velho professor. Sei o quanto ele estava certo. É uma pena que hoje em dia a maioria dos que se dizem pastores são empresários da religião; pena que virou profissão.
Mas ainda há os loucos que aceitam o Chamado. Eu tento, às vezes com dor por causa dos meus muitos pecados, fracassos e sonhos jamais realizados, continuar aceitando o Chamado. Que Deus nos ajude!
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5 de mai. de 2011

Shirota – uma bênção de Deus

Conheci o Haroldo Shirota quando fui missionário leigo em Dourados (MS), em 1979. Haroldo morava em uma agrovila da fazenda Itamarati, em Ponta Porã, onde havia um ponto de pregação da Igreja. Ele já era membro da Igreja quando o conheci; o resto de sua família – a esposa e as filhas - era budista. Episcopais mesmo ali na agrovila eram apenas o Haroldo e um outro senhor, também japonês, o Kaneta, cujo pai (budista) era o gerente do Hotel onde eu residia em Dourados.
O Shirota e o Kaneta é que organizavam as coisas para a celebração da Santa Ceia na capelinha da agrovila, quando o então Rev. Almir (na época Pároco de Londrina, Norte do Paraná e Mato Grosso do Sul – coisas da IEAB!) por lá aparecia a cada dois meses para a celebração. Quando fui morar em Dourados, eu visitava a missão a cada quinze dias, uma viagem complicada que implicava em ônibus e – pasmem! – trem!
Assim convivi com o Shirota aquele ano de 1979. Toda semana ele aparecia em Dourados, guiando um veículo da Itamarati, trazendo o pessoal que vinha ao médico em Dourados, especialmente quem precisava de cuidado hospitalar e era eu com o Shirota que cuidávamos dessas coisas junto ao Hospital Evangélico e o Municipal de Dourados.  Shirota fazia isso voluntariamente, nas suas horas de folga!!! Era um Diácono sem ser ordenado; e eu ficava impressionado com o carinho e a atenção que ele tinha para com as pessoas doentes.
Deixei Dourados no final daquele ano, fui para Londrina; o Rev. Almir continuou visitando a região, até ser transferido para Horizontina e depois Erexim. Passaram- se vários anos, eu fui Ordenado Diácono, depois Presbítero, servia Igreja em Araranguá e região (SC) por um ano e fui chamado para ser Reitor do Seminário Teológico em Porto Alegre e pároco da Igreja da Ascensão.
Uns meses depois que eu estava em Porto Alegre, em 1987, recebi um telefonema do Rev. Almir, dizendo que o Shirota precisava de muita ajuda.
Aconteceu o seguinte. O Shirota deixou o trabalho na Itamarati, foi para Mato Grosso, ou Rondônia, em uma cidade dessas remotas, cujo nome não me recordo, e lá se envolveu com fazer pastéis ou algo do gênero. Então, estando o tacho com óleo fervente no fogão, o óleo incendiou. Uma criança estava perto do tacho, o Shirota correu e pegou o tacho para abafar o fogo, mas por alguma razão, escorregou e o óleo fervente caiu sobre ele (mais tarde, me contando, ele dizia “Graças a Deus salvei a criancinha!”). Resultado, 75% do corpo queimado em terceiro grau. Literalmente, o Shirota foi fritado.
Levado, em meio a muita dor, para Cuiabá de avião (após uma viagem por terra que imagino como foi feita… sinto arrepios ao pensar nisso) ele precisava de tratamento mais adequado, teria de fazer implantes de pele, etc. Uma possibilidade seria trazê-lo para Porto Alegre, mas alguém tinha de se responsabilizar por ele, conseguir lugar para morar, etc. Sem pensar duas vezes, assumi essa responsabilidade com a Ivone, minha esposa na época (uma mulher muito especial), e com a comunidade do Seminário, que se mostrou muito solidária. Uma das seminaristas (a hoje Revª. Taís Feldens) era enfermeira profissional e se prontificou a prestar os serviços profissionais que fossem necessários.
Preparei a comunidade do Seminário e da Paróquia para receber o Haroldo Shirota, que – segundo o Rev. Almir – não tinha lá uma aparência agradável.  Fui buscar o Shirota no Aeroporto Salgado Filho e fiquei realmente triste ao ver a figura humana que desceu a escada do avião amparado por um tripulante: uma verdadeira múmia, enfaixado da cabeça à cintura, e pelas pernas que apareciam abaixo da bainha da bermuda.
O motorista do taxi chegou a ficar com olhos lacrimejados quando viu o passageiro que estava comigo. Na chegada ao Seminário, ele entrou em minha casa discretamente, um tanto quanto envergonhado, porque sabia que logo seria apresentado à comunidade do Seminário.
E de fato, a comunidade do Seminário o recebeu no jardim de minha casa antes do almoço; vieram buscar o Haroldo para almoçar no refeitório com a comunidade. Houve um choque inicial, embora o pessoal tenha tido o cuidado grande de sorrir e disfarçar o estranhamento. Mas quem quebrou mesmo o gelo foi o Cainã, um menino de 5 anos, filho do então seminarista Elton e da Maria (que dava uma força para gente na cozinha). O Cainã olhou para o Haroldo, e disse algo assim: “Olá! Você é o Haroldo, né? eu sou o Cainã e vou ser seu amigo!”  e pegou o Shirota pela mão e o levou até o refeitório, seguido por todos nós da comunidade.
A presença do Haroldo em Porto Alegre ficou na memória de todos que com ele conviveram. Menos de uma semana depois ele já estava fazendo os primeiros implantes de pele e quando teve alta, resolveu assumir um ministério muito especial: quando lia no jornal que houve um acidente com queimados, ele ia visitar essas pessoas; semanalmente ele visitava queimados no hospital especializado em Porto Alegre. Ele me disse que queria levar esperança e conforto para essas pessoas, incentivá-las para o tratamento, para que – como ele – pudessem continuar a vida.
Haroldo fez muitos amigos em Porto Alegre, na paróquia da Ascensão, na Catedral da SS. Trindade e na comunidade do Seminário. Haroldo cuidava do jardim do Seminário e estava sempre pronto para ajudar em qualquer coisa voluntariamente. Ele se mantinha com uma pequena pensão do INSS e se preocupava em mandar dinheiro para sua família.
Quando voltei para o ministério paroquial em Araranguá, ele foi junto, continuando a morar em minha casa. Também lá o Haroldo conquistou a amizade e o carinho do pessoal e dava seu testemunho de como Deus estava sendo bom com ele e como a Igreja Episcopal o acolheu com carinho e cuidado. Nunca, mas nunca mesmo, vi o Haroldo Shirota lamentar o que aconteceu.
Infelizmente, sua família o deixou de lado logo depois que ele foi para Porto Alegre; algo a ver com “Karma ruim”… Assim, a família do Haroldo passou a ser os amigos que conquistou na Igreja. Lembro de sua tristeza quando soube que uma das filhas iria casar e ele não poderia ser convidado… Mas oramos juntos pela filha durante toda a semana do casamento – por iniciativa dele!
A pele do Haroldo nunca se recuperou; formou queloides, ele foi obrigado a viver com uma espécie de roupa especial elástica; as correções cirúrgicas em seu rosto não ficaram perfeitas, e ele sentia muita coceira porque sua pele não transpirava. Mas continuava sorrindo, fazendo a leitura das lições na Igreja, e ajudando todo mundo que ele pudesse; todos os dias, em algum momento, estava no templo em oração. Mensalmente ia a Porto Alegre, visitar o Hospital de Queimados para consolar e dar esperança.
Resolveu ir trabalhar no Japão, e foi. De lá nos telefonava às vezes pela meia-noite, quando estava no intervalo de almoço (era meio dia lá); e quando vinha ao Brasil, trazia um monte de presentes e visitava todo mundo em Porto Alegre, Araranguá e em Brasília e depois Londrina, onde eu morei; nessa ocasião, o Rev. Almir já havia sido eleito Bispo de Brasília e estava em pleno episcopado.
Soube depois que o Haroldo trabalhou por dois ou três períodos no Japão, e hoje está em Mato Grosso.  Perdi o contato com ele, mas acredito que ele continua o mesmo sujeito carinhoso, sorridente e amigo leal, dando seu testemunho sobre o amor de Deus para com ele…
Há dias venho pensando nele e até sonhado com ele. Não sei porquê, mas eu senti que precisava escrever sobre ele, até para tentar saber se alguém o localiza para mim.
Devo muito ao Haroldo Shirota. Em momentos de crise, ele era o abraço amigo, o ombro companheiro… e conselheiro! A dor fez dele um mestre da Esperança e da Consolação.
Sou grato a Deus por ter conhecido e tido a grande honra de ter convivido com o Haroldo Shirota, um santo de Deus; foi ele quem me ensinou que, muitas vezes, Deus faz da desgraça, uma graça. Haroldo – como Abraão – foi (tem sido) uma Bênção na minha vida e na de muita gente!
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15 de abr. de 2010

Na partilha do pão, o Ressuscitado parte o Pão!

               “Naquele mesmo dia, dois deles estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios.  E iam conversando a respeito de todas as coisas sucedidas. Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer.  Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ides tratando à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos. 
Um, porém, chamado Cleopas, respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos dias? 
Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam.  É verdade também que algumas mulheres, das que conosco estavam, nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; e, não achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão de anjos, os quais afirmam que ele vive. De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram.
Então, lhes disse Jesus:  Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?  E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras. Quando se aproximavam da aldeia para onde iam, fez ele menção de passar adiante. Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles.
E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles. E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?
E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém, onde acharam reunidos os onze e outros com eles, os quais diziam: O Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão!  Então, os dois contaram o que lhes acontecera no caminho e como fora por eles reconhecido no partir do pão.” 
(Lucas 24. 13-35)

Enquanto a conversa se limita à explicação teológica, o peregrino que se apresenta é apenas um peregrino, mais um a caminho como tantos, um peregrino que tem conhecimento da Escritura; mas é apenas um caminheiro que se junta a outros dois.  As dúvidas, as incertezas, e a tentativa de entender os fatos recém acontecidos, os quais frustraram a utopia,  fecham os olhos do Coração e da Mente.  Toda a explicação que recebem sobre a Escritura não esclarece a situação, nem refaz a esperança. São palavras, um discurso que mesmo fazendo sentido, não dá sentido aos fatos nem reduz a frustração da utopia  que se tornou atopia.

Entretanto, o sol se põe e dois deles chegam a seu destino. Mesmo frustrados, mostram-se próximos ao terceiro caminheiro.  “Fica conosco, é tarde, o dia já declina”. O convite supera o discurso. Já não é uma explicação, nem uma pergunta, mas um convite, uma abertura do coração a alguém que – naquele momento – se tornaria um solitário no caminho, se o convite não fosse feito.  Oferece-se a partilha da mesa e do teto; oferece-se a acolhida incondicional ao Desconhecido que – de  repente – se torna o Reconhecido, e ao ser reconhecido se dissolve na percepção do Mistério que se revela.

O reconhecimento da Presença do Ressuscitado não é algo resultante do discurso das explicações lógicas. A Presença se torna visível quando, primeiro, vem a palavra do Coração, o convite solidário, o gesto de quem se faz próximo. Só a quem se faz próximo e – portanto – solidário, o Ressuscitado se revela no momento da partilha.

Olha ao teu redor! talvez o desconhecido que caminha ao teu lado seja Aquele que quer ser reconhecido. Abra teu coração e torna-te próximo.  Com certeza, teu coração O verá!

>>> (veja também a postagem mais abaixo,  “Quem é meu próximo?”)

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1 de abr. de 2010

Quem é meu próximo?

E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas?
A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás.
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo?
Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar.
Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?
Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo.
”    (Lucas 10.25-37)
O Senhor, nesta parábola, inverte a pergunta sem, de fato, respondê-la. O interprete da Lei lhe perguntou “Quem é o meu próximo?” mas Jesus lhe sugere refletir como se a questão fosse “De quem eu sou o próximo?”
Normalmente queremos ver nesta parábola, o samaritano como “bom”, e o homem ferido como sendo o próximo. Na verdade, a parábola conclui dizendo que o próximo é o Samaritano, ou seja, aquele que faz o que o outro necessita – aquele que age com misericórdia.
A pergunta original, “Quem é o meu próximo?” é irrelevante, de acordo com o narrador da parábola. Importa antes saber  “De quem sou o próximo?”, ou seja não se trata de buscar critérios para definir o próximo, mas de estarmos atentos em sermos o próximo para quem necessitar!
Assim, o “meu próximo” é aquele que me acolhe, me estende a mão, busca atender à minha necessidade. A esse devo amar como a mim mesmo porque ele me amou primeiro quando deixou de lado a sua vida para cuidar da minha por um momento.
O Mandamento do Amor é absoluto: tenho de amar todas as pessoas, e as amo sendo para elas o próximo. Mas o “amor ao próximo” , que no resumo da Lei está ao lado do “amor a Deus” é o amor reconhecido, de gratidão, tal como deve ser o amor a Deus. Deus toma a iniciativa do amor, do amor misericordioso, amando-me na condição em que me encontro;  assim, o próximo – que toma a iniciativa de socorrer-me, age como espelho do amor divino, o amor misericordioso. Por isso o amor ao próximo está associado ao amor a Deus. Amo a Deus como gratidão pela sua misericórdia, amando a todas as pessoas; amo o próximo, também por gratidão, porque o próximo – aquele que age por misericórdia – me recorda o amor de Deus, o próximo se torna um sinal concreto do amor de Deus.
O amor de Deus me inspira a misericórdia que devo ter para com todos; o amor misericordioso do meu próximo se torna sinal desse amor divino e me inspira a ser o próximo para quem necessita. A parábola contraria a lógica da máscara do avião (ver postagem anterior).

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5 de fev. de 2010

Conversando com Deus sobre a Vocação


Senhor, estou aqui diante de Ti porque, enfim, não tenho mesmo com quem falar sem ser interrompido com análises, comentários, interpretações, justificativas e, até mesmo, observações cínicas. Afinal, sou um ser humano e Tu és o Criador; Tu me conheces melhor que eu mesmo, então não vais ficar fazendo especulações ou interpretações com base nos modismos e tendências interpretativas do coração e da mente humana. Posso falar livremente, sem preocupar-me com hermenêuticas, porque Tu já sabes mesmo do que se trata antes de eu dizer-Te. Na verdade, falar-Te é importante para mim, não para Ti que, pacientemente,  vais ouvir-me e até dizer-me o que dizer quando eu perder as palavras.
Quero deixar claro, Senhor, que me dirijo a Ti como o Pai; não é ao Filho, nem à “Espirita Santa” (eu não consigo pensar que Tu – ou Vós – só tenha atributos masculinos… ficaria complicado entender aquele papo do Gênesis “…macho e fêmea os criou, à Sua imagem, conforme à Sua semelhança, os criou …” – é algo assim! pelo menos para Ti não preciso ficar colocando as referências bíblicas).
Então, estou falando contigo, Pai!  mas às vezes posso me confundir e dirigir-me ao Filho, ou à Mãe… (essa Tua Unidade Trinitária é uma coisa complicada, que nem mesmo os Padres do Oriente e do Ocidente – que bolaram esse conceito – conseguiram entender, por mais neurônios que queimassem!)
Mas como Tu és tudo e o Todo, ao mesmo tempo és os Três e e também és cada Um, então acho que não vais Te confundir com meus enganos… Para evitar confusões, Te tratarei por Senhor (com o devido respeito pela Senhora) e fica por Tua (ou Vossa) conta e risco resolver com Quem estou falando. O papo é longo, talvez Vos tenhais de fazer um rodízio para não cansar, rsrsrs…  Ah! não Te cansas nunca! (e o sétimo dia? Não Te cansas, mas descansas? és baiano? rsrsrs… ooops! desculpe! foi só uma piadinha! Não sabia que Tu és Baiano Honorário! perdão!).
Tudo bem! …  está bem, estou Te enrolando!  É que o assunto é meio chato, aliás, nem sei como começar, por onde começar…  O começo? sim, claro, começar pelo começo! Não sabia que és também dado a chavões, Senhor! Tens senso de humor, não é, Senhor?
Pois bem, acho que o começo é quando Te encontrei … Perdão! Tu Te revelaste a mim. Aliás, já começamos meio na contra-mão, não é, Senhor? Eu andava te procurando com a minha racionalidade e Tu me deste um golpe baixo!  tiraste mesmo um sarro da minha cara, não é? – com aquele rapaz cego que testemunhou ter visto o Cristo  no momento em que eu falava sobre técnicas de estudo, naquele encontro de jovens (eles até pensavam que eu acreditava em Ti, mas eu já estava  desistindo de Te procurar – e o cego Te viu!!!  puta-que-pariu! é muito para qualquer racionalidade!).
Sim, é verdade, eu Te desafiei… mas acho que já resolvemos isso, não é? são águas passadas (ah! para Ti não passa; é tudo “já agora e ainda não”!). Ok!  faço de conta que entendo e vamos em frente, como dizem lá em Portugal, aliás onde se come um bom bacalhau … sim, Senhor, concordo que o bacalhau foi uma boa ideia que o Senhor teve, mas se não fossem os portugueses, com suas mais de mil receitas de preparo do dito cujo, não sei não…
Pois é, já passaram  40 anos desde o nosso primeiro encontro… Ah sim, Tu és Eterno! Tudo bem, mas eu não sou! Sou carne e preciso dos números para me localizar no tempo e no espaço… Ah! claro, para Ti, passado e futuro são coisas presentes! Tu és o que és! Acho que Tu te darias bem com a Física Quântica … Hummm! é imperfeita? mas quase chega lá, não é?
Então, a partir daquele dia, a minha vida entrou em reboliço. Até parecia que eu estava sendo domado por Ti, como se eu fosse um cavalo bravo e xucro ...  Ah! é? ainda sou? está bem, não vou discutir isso de novo contigo! Tu ganhas sempre!
Eu estava na minha, curtindo Te buscar pela racionalidade, pela objetividade, e já estava quase convencido que Tu não passavas de um consolo para quem não sabe lidar com a Racionalidade!  Mas aí,  Tu me apareces totalmente subjetivo! Eu falo de estudo e o cego Te vê?!?!  Pô! foi sacanagem da Tua parte, Senhor. Isso não se faz com um rapaz de 19 anos, fã de Einstein e metido a futuro cientista.
Pois é, esse é um dos problemas: sempre que eu estou chegando, sempre que estou quase lá,  Tu vens e me mostra outro caminho; com isso, eu tive de aprender que o Horizonte nunca chega, sempre anda à frente … Ah! é! ainda não aprendi … rsrsrs .
Não bastava eu ser convertido, assumido liderança entre os jovens do Movimento Encontrista, seguir minha carreira científica e dar um bom testemunho? Não! Tu vieste e colocaste no meu coração, e depois no meu entendimento, que eu teria de ser um servo! Tu me querias para servir-Te no serviço às pessoas em Teu nome! Perdão, em nome do Teu Filho! (olha, Senhor, na próxima vez, me faz nascer mulçumano ou judeu… essa Tua Regra de Três é muito enrolada! … ah! …  não tem próxima vez  …  sou cristão e não tem volta?! Tens razão! Falar árabe é complicado! e hebreu também!).
E assim, lá fui eu estudar tudo ao mesmo tempo: Ciência, Filosofia e Teologia. E ainda tive de enfrentar aquele lance de descobrir em que parte do Teu rebanho eu me encaixo. … Eu sei! eu sei! … Foi aquele Teu servo que era frade, virou bispo, arcebispo e morreu cardeal, quem me mostrou o curral a que eu pertenço (aliás, que não é o mesmo que o dele – mas como todos são da Tua  Fazenda, acaba sendo tudo a mesma coisa embora diferente – paradoxos são contigo mesmo, não é Senhor?…  calma! é só uma piadinha de matemático, Mãe!).
Aí, quando eu achava que tudo estava indo bem, veio aquele lance da política, aquela merda toda dos “anos de chumbo”: repressão, perseguição, prisão, tortura… sumiço e morte de amigos e amigas… o pessoal que se equivocou e morreu no Araguaia… amigos assassinados no Chile… Não, não quero lembrar isso! … solidão no meio da multidão (olha ai outro paradoxo!).
Tá! Tá bem! no fim deu tudo certo, mas puta-que-pariu, na hora, era uma barra, um cagaço atrás do outro… Eu sei! eu sei que Tu estavas lá com a gente, mas pô!  Tu tens uma mania chata de fazer de conta que não estás!  A gente não vê que Tu estás, e só depois é que a gente vê que Tu estavas! ….  Ah! é teu jeito? está bem, não vou discutir, mas pô! tem hora que fica muito complicado, a barra fica muito pesada! … ah! sim! eu sei, a Cruz do Teu Filho é muito mais pesada, porque tem o meu peso e mais o de toda a humanidade…
Passou! mas começou outra situação complicada. Fiquei Postulante ao Sagrado Ministério por quase 15 anos! Quinze anos, Senhor! “Recorde Mundial na Comunhão Anglicana”, quiçá na Tua Igreja toda, até hoje ! rsrsrs…  Quando eu perguntava da Ordenação, o Bispo, o Conselho Diocesano, o sei lá o quê da estrutura eclesiástica, criavam burocracias absurdas, ou exigências das mais complicadas. E lá ia eu atrás de novo, e de novo o Horizonte se afastando… Aí, eu desisti de pensar nisso ou de cumprir qualquer outra burocracia. Nós conversamos, eu me lembro, e eu disse que se fosse da Tua Vontade que eu fosse Ordenado, eu seria! Tu darias um jeito. E mandei a burocracia eclesiástica às favas (dei um “fôda-se”  para ela), e parti para a construção da minha carreira profissional.
Ah! é! … teve aquele lance, antes, com o meu querido professor de Teologia Sistemática, e que era meu Pároco na São João. Fui pedir a ele a tal carta de recomendação e ele, na maior cara de pau, se negou a dar-me!!! Fui falar com ele umas dez vezes, enchi o saco dele… até que ele me explicou porque não daria a tal carta (e não deu mesmo!): “Não é contra ti, Caetano! Não tenho nada contra ti! Mas a Igreja não te merece! Alguém como tu vai se dar mal na Igreja!”  - foi o que ele disse e  se negou a dar mais explicações… Sim, eu sei, ele está aí contigo e feliz! …  Fazendo música, é? bem, foste Tu quem deste esse dom para ele …  teologia também? ele gostava muito disso! … certo! ele gosta!
Lembra, Senhor, daquela aventura missionária, em Dourados? Que situação mais irracional  tu usaste para me chamar (ou me mandar?) para lá! Não vem ao caso lembrar os detalhes, é maluquice demais… Mas fui o primeiro Leitor-Leigo autorizado a distribuir o Sacramento Reservado; também provei a solidão, a cultura diferente, o convívio com os Terenas e os Caiuás na Missão Presbiteriana, o enfrentamento com a máfia das drogas, as ameaças de morte… morar seis meses na Capela São Pedro, em um bairro distante do centro, dormir no chão da capela… o choque de minha mãe e de meu irmão, em visita surpresa, ao descobrirem as condições em que eu vivia e decidirem pagar um Hotel/Pensão, para eu morar com um pouco de decência e conforto.
Foi lá Senhor, eu sei, que eu entrei na forja! e Tu malhaste duro, sem piedade! mas, ao mesmo tempo, eu sentia – e muito – a Tua Presença, dando uma coragem que até hoje não compreendo como fui capaz de fazer o que fiz. Foi o ano em que Tu moldaste meu ministério e me preparaste para o exercício do Sacerdócio de Teu Filho.
Mas, a burocracia eclesiástica travou novamente o meu processo, eu estava divorciado… moralismos …  É, eu sei! isso é coisa antiga! até Teu Filho teve de se aborrecer com os moralistas … Mas nós já havíamos tido aquela conversa: se Tu quiseres, eu serei Ordenado com ou sem burocracia e moralismos … Eu não faria mais nada para isso, ficou tudo nas Tuas Mãos! (por falar nisso, Senhor, quantas mãos tens? É tanta gente a colocar tudo nas Tuas Mãos … ah! sim! infinitas! saquei!)
Então, Senhor, anos depois, estava eu muito tranquilo, vivendo em Londrina, Leitor-Leigo na São Lucas,  não pensando mais na tal da Vocação, cuidando da possível carreira acadêmica e científica que estava começando,  fazendo a Pós, já aceito para o Mestrado (com certo estranhamento, pois  a Academia já me parecia um universo fechado, de gente arrogante, embora a Matemática e a Física ainda não estavam totalmente  contaminadas – mas vinham me encher o saco com aquele papo de ciência e religião).
Pois é,  de novo, Tu chegas para tirar meu sossego.  Para variar, me colocando numa saia justa! … Não ri não, Papai!  Fiquei numa saia justa sim!!!
Era o Concílio Diocesano; eu, delegado leigo, Segundo Secretário, sentado à esquerda do Bispo. Estou lá rascunhando a Ata, e já era a sessão final, os tais “Outros Assuntos”. Eis que pede a palavra o meu querido ex-professor de Grego e Hebraico, Arcipreste Emérito;  do alto de sua autoridade moral, se dirige ao Bispo e  pergunta: “Bispo, por que o senhor não ordenou ainda o Prof. Caetano?”  e teceu enormes elogios à minha apavorada pessoa. Sim! apavorada, porque ficou parecendo uma armação minha com ele…  Ficou aquele cheiro de cú queimado no plenário, o Bispo sendo inquerido sobre algo que – naquela altura do meu processo – era assunto pessoal e exclusivo dele. O Bispo deu lá sua explicação, que bastava a tal carta de apresentação por um ou dois presbíteros, eu requerer a minha Ordenação, e submeter-me ao exame médico e psicológico, e ao exame da Junta de Capelães.  Na mesma hora o Arcipreste redigiu e assinou a tal da carta, e vários outros se ofereceram para assinar também.  Pronto! Já queriam marcar minha Ordenação naquele mesmo trimestre. Eu tive de pedir ao Bispo esperar quase um ano, para eu concluir a Pós, e reorganizar minha vida. Pois é, Senhor! eu sei, era a Tua vontade atuando! Mas, caramba, tinha de ser assim, naquela correria toda? tinham passado 15 para 16 anos… e de repente, em três meses, eu receberia o Diaconato.
Lembro, Senhor, da Ordenação! Completei 24 anos em maio passado, jubileu de prata este ano! Cheguei no domingo pela manhã na São Lucas, em Londrina, e o pessoal me chamava Prof. Caetano, senhor Caetano, ou só Caetano. Duas horas depois, todo mundo me tratava com certa reverência e me chamava Rev. Caetano, ou Caetano Sei-Sei, como diziam os mais velhos daquela comunidade, cuja base é a colônia japonesa.  E com direito a vênia!  Até meus colegas de magistério na Universidade, presentes à cerimônia, me tratavam diferente. Na época, Senhor, eu vinha do movimento sindical, havia sido dirigente, estava muito ligado na tal Teologia da Libertação, tentava dizer a todos que eu era o mesmo de antes… demorei  para entender que eu não era mais o que era antes, o povo estava certo.
Lembro da angustia da segunda-feira, já sem a festa e os convidados. Eu olhei para o templo da Paróquia São Lucas e ai caiu a ficha que nunca mais eu entraria lá como Caetano, mas como Rev. Caetano, coadjutor naquela Paróquia, Diácono na Igreja de Deus, servo da Comunidade em Jesus Cristo, sinal do Teu amor para com todas aquelas pessoas e as demais que Tu colocares diante de mim. Por sorte, um Presbítero (hoje Bispo aposentado; na época, Secretário Geral da Igreja),  que participara da cerimônia, ficou mais um dia comigo e me ajudou a refletir quando tive o choque da tomada de consciência que eu já não era mais aquele que eu havia sido até então.
Mais tarde, depois de ordenado Presbítero, eu exercia uma tarefa que ninguém mais na comunidade poderia exercer: eu era, e sou, diante da Igreja reunida, o sinal da Presidência do Teu Filho, aquele que serve a todos na Consagração do Pão e do Vinho.  Sou, como os que são Presbíteros, Sacerdotes, aquele que veste a estola sobre os ombros, representando  a canga – o jugo – do Cristo. Tenho de ser, Senhor, o sinal da Cruz e da Ressurreição para a comunidade que Tu reúnes e entregas a mim na comunhão com meu Bispo e assim, com toda a Tua Igreja.
Pois é, Senhor… o tempo passou … Sei! para Ti não passa! és Quântico! rsrsrs!
Fui Reitor da área do Litoral Sul-Catarinense, atendia as Paróquias de  Cristo Redentor (Araranguá) e Páscoa (Praia Grande), a Missão em Torres, e começamos  a comunidade de Florianópolis.  Conhecia aquela parte da BR-101 como a palma da minha mão.  Quanta coisa, não é Senhor? Quanto eu vibrava com o ministério, com os estudos da Bíblia, com as ações comunitárias, o Clube de Mães, a catequese das crianças (com muitas conversas sobre ciência), a participação cidadã … Ah! obrigado! Tu gostavas também! … obrigado!
Foi o tempo de pastorado, de total entrega nas Tuas Mãos, onde o dinheiro do salário chegava no dia D (até o dia C, o caixa estava zerado, mas ai Tu davas um jeito!), onde, nas emergências de saúde, Tu sempre vinhas com a Tua Santa Providência … Sim! Te sou muito grato por aqueles anos, Senhor.  Os Encontros Momento Novo, a Ordem de São Tiago de Jerusalém … sonhos, encantos, descobertas, e coragem! Novos horizontes! … Sim, muito obrigado mesmo, Senhor!
Mas fui chamado para assumir o Seminário em Porto Alegre, não é Senhor? pois é, eu estava muito feliz no pastorado, mas lá veio Tu de novo… e eu fui parar na burocracia eclesiástica! Voltei a fazer as coisas que fazia alguns anos antes, quando era executivo em empresas ou professor! Só que ganhando muito, mas muito menos! … Sim! sim! não me faltou nada, Tu sempre proveste tudo! Não estou reclamando, só comentando …  Como? que arado? … Ah! aquela palavra do Teu Filho, de não olhar para trás ... Tá bem, tá bem! não comento mais nada!
Era óbvio, não é Senhor? o meu entusiasmo com as possibilidades do Seminário, desenvolver uma academia anglicana para a América do Sul … fora isso que o Primaz pediu quando me chamou para a tarefa!  Mas o que aconteceu? lá veio a burocracia eclesiástica, a política eclesiástica, o desencanto e … chutei o pau da barraca! Fôda-se! … Não, não é para Ti que eu digo, mas para aquela burocracia eclesiástica… aquela politicagem nojenta… Ah! Tu dizes o mesmo?! pôxa! concordamos uma vez, pelo menos!
Pois é! mas assim eu pude voltar ao ministério paroquial. … Sim, e foi uma coisa atrás da outra! De novo em Santa Catarina, depois em Portugal, depois Brasília e então… putz! então o CLAI … Pois é, Senhor, sempre encantos e desencantos! meus últimos 20 anos… encantos e desencantos! quando estou chegando, Tu mudas o caminho… sempre, sempre tendo de descobrir a Tua Santa Vontade!
O que eu queria dizer Senhor, nisso tudo, para acabar com esse papo longo porque tenho de almoçar, é que sempre que eu achava que estava tudo bem, que estava vivendo a minha vocação,  fazendo aquilo que sei fazer e faço bem! … obrigado! concordamos de novo! … rsrsrs!  Então, quando penso que o horizonte se abriu …  Não, não é que fecha, mas parece que ele se afasta, tudo muda de repente!  e eu volto a ficar na dependência de entender a Tua Vontade!
Está bem! … sei que me amas, Senhor! não duvido! … mas não é fácil viver sempre diante dessa questão: qual a Tua Vontade? … Eu sei! Tu nunca disseste que seria fácil! Mas…
Outra hora o Senhor me explica isso direitinho. Agora tenho de ir almoçar! Muito obrigado, Senhor pela tua Santa Paciência! Em nome de Jesus, Amém!

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