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30 de mai. de 2025

Crônica do ano 75

 Hoje completo 75 anos de vida e nesta semana completei 40 anos de ordenação ao diaconato na Igreja Episcopal (cujo sobrenome é Anglicana do Brasil).

Não sei dizer se foram bem ou mal vividos, porque são conceitos vagos e sem significado real. Mas posso dizer que algumas coisas que vivi deixaram fortes impressões em mim e em outras pessoas, companheiros e companheiras de caminhada. Algumas positivas, o sentimento de que fiz bem-feito nas diversas áreas em que atuei profissionalmente, que cumpri meu dever como cidadão e como cristão; outras, negativas, com o arrependimento pelo mal que fiz – de forma consciente ou inconsciente – e mágoas que causei.

Muita gratidão, especialmente àquelas pessoas a quem magoei, mas me perdoaram!

O Magistério

O magistério e o estudo foram realmente minha razão de viver. Hoje reconheço que nasci para ser professor. Ensinando, aprendi muito, inclusive como não ensinar! Isso devo à educação escolar que recebi, graças ao esforço dos meus pais e aos excelentes professores e professoras que me serviram.

Sou fruto da educação de qualidade que existia no Brasil, inclusive nas escolas públicas, antes da ditadura militar estragar tudo e reformular completamente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação em 1970. 

Desde a infância, antes da ditadura, minha geração foi preparada para um mundo que, infelizmente, não veio a existir; na escola aprendíamos como aprender, e não apenas conhecer  coisas. Aprendíamos a pensar, a perguntar, a questionar; não éramos "treinados" para o conformismo nem para a obediência alienada... por isso, a ditadura teve de liquidar com a educação brasileira; era uma educação perigosa para os interesses das elites nacionais e mundiais (que, na verdade, promoveram e ainda promovem todos os golpes nazifascistas do mundo).

A maioria do pessoal da minha geração acabou se deixando modelar. Os "anos de chumbo", a tortura, a mídia controlada (e a grande mídia a serviço dos poderosos), desestimularam a inteligência e destruíram o caráter democrático; é mais fácil se conformar... e "cuidar da vida"! “Consumir e “ser feliz”!

Outros se permitiram fingir e manter sua inteligência funcionando disfarçadamente. Outros, bem poucos, assumiram com coragem a resistência - nem sempre de forma inteligente - e sofreram as consequências, quase todas trágicas.

Quarenta anos de Ordenação

Hoje tenho mais tempo de vida como clérigo que como leigo. A vocação surgiu a partir do encontro com Aquele Sujeito a quem chamam de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, Deus Filho, etc, etc. Para mim, prefiro reconhecer n'Ele o Logos! "kai o logos sarx egeneto" ( “E a Palavra se fez carne”, cf. Evangelho de João 1.14a), sem nenhum outro conceito doutrinário e bizantino incluído.

Como Diácono, e depois Presbítero, sempre considerei muito importante o ensino da Bíblia, na verdade, os Estudos Bíblicos e sempre busquei  - nas pregações - a ênfase na exegese e na hermenêutica a partir do contexto da comunidade onde estive servindo. 

Isso aprendi no Seminário, um princípio bem dentro do "ethos" anglicano: ajudar a comunidade criar sua própria visão teológica a partir da sua história e da tradição herdada, em releitura permanente porque a realidade histórica é sempre mutável. Bem, não cabe aqui avançar nestas conceituações. Este blog está cheio de artigos sobre isso. 

Desajustado

De certa forma, sempre fui um "desajustado". Quando criança, preferia ler que brincar, embora eu tenha brincado muito, moleque de rua mesmo! Havia muitos livros em casa, e eu li quase tudo: Enciclopédia Barsa, Lello Universal em dois volumes, a coleção completa do Tesouro da Juventude, toda a obra infantil e a "para adultos" do Monteiro Lobato, as Obras completas do Humberto de Campos, romances  do Alexandre Dumas (pai e filho), e outros que não recordo o nome.

Na adolescência, por mim mesmo e pelas aulas de literatura,  descobri Herman Hesse, Aldous Huxley, Franz Kafka, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Machado de Assis, Vinícius de Morais, George Orwell, Augusto dos Anjos, Cora Coralina, Adélia Prado, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Drumont e muitos outros autores e autoras, não só literatura, mas também ciências naturais, ciências humanas, e até filosofia (olha só!) que hoje dizem não servir para nada; enfim, coisas que hoje não interessam a mais ninguém nesta sociedade propositalmente idiotizada, moldada para consumir e adoecer pensando ser feliz.

Me envolvi com teatro, com o Oficina, com Augusto Boal, Luiz Carlos Arutin, com o Arena, Ricardo Bandeira... cantei em corais, e fiz coisas que nem sei se ainda existem hoje.

No Seminário fui aluno de Jaci Maraschim, Rúben Alves, Glauco Soares de Lima, Frei Gorgulho, Dirson Glênio Vergara dos Santos, Natanael Duval da Silva, Rodolfo Garcia Nogueira, Sumio Takatsu; fizeram a minha cabeça pensar muito e perder os poucos parafusos do convencional bem ajustado que ainda existiam.

Os Professores e as Professoras, desde o Fundamental até a Universidade, nos desafiavam e nos incentivavam a ler, a pensar e questionar, a dialogar com o que líamos. Assim, a gente aprendia a aprender! 

Hoje não se aprende. Hoje não se lê. Hoje a idiotice impera graças à tecnologia sob controle absoluto dos ignóbeis que formam a elite mundial.

Se eu fui "desajustado" desde pequeno, continuei a ser assim até hoje. Falo o que não querem ouvir, escrevo para quem não lê, vejo o que não querem ver ou que seja visto... resultado: sou neurótico, me tornei pessimista, e minha fé não é lá aquela coisa "bonitinha" e romântica das pessoas religiosas, cujo "deus" as mantém idiotas e sempre culpadas – um deus sádico e cruel.

Os que ainda tentam pensar, são considerados “desajustados”, um perigo para as elites tacanhas do mundo.

Daqui para frente

Este não é um momento de nostalgia, arrependimentos ou sei lá mais o quê. O futuro será cada dia pior na sociedade e, em nível pessoal: saúde, solidão, distância e a sensação de continuar sendo o "estranho no ninho".

A esperança já não existe! A fé... cada vez mais distante... porque o que sobrou do cristianismo hoje em dia não presta, não consola, não motiva, virou religião burocrática que fez de "deus" um meritocrata. 

Porém, eu não posso negar a experiência que vivi no encontro com a Transcendência, por mais babaca que tenha sido essa experiência; e, por mais que eu possa entender racionalmente o que aconteceu, não posso negar o que "eu vi"!

Por isso, permaneço na Igreja, embora longe das comunidades de fé, mesmo sabendo que a Igreja que eu amei não existe mais. Perdeu-se na institucionalidade sem propósito, como todas as demais, mantendo os paradigmas equivocados que, desde o século III, liquidaram com o Movimento de Jesus. Todavia, ainda existem, espalhadas por ai, comunidades de fé na Igreja, e isso anima porque, de alguma forma, a Igreja de Cristo sobrevive apesar dos pesares.

No mais, devido a saúde e as condições financeiras, estou condenado a viver aqui, neste lugar, o resto do tempo de vida (que espero seja pouco), sem poder viajar, rever as pessoas que amo, não ter uma comunidade de fé onde eu possa participar (e congregar, porque assistir culto ou missa ou seja lá o que for, não é o mesmo que congregar).

Não estou feliz, e acho que Deus se mandou; não consigo mais orar... talvez eu tenha me mandado, de tanta decepção.

Gasto um dinheiro que seria mais útil para minha família; cada manhã é o mesmo suplício de "mais um dia de merda". A saúde acabando e daqui pra frente é só sofrimento e mais frustração. Envelhecer é uma merda! Proibir morte assistida é uma crueldade! Julgar um suicida a partir de uma moral esdrúxula é a maior contradição dos religiosos...

É hora de ir embora. Não tem por que continuar por aqui. Não há o que esperançar!

Hoje, por favor, não mande mensagem de “Feliz Aniversário”. Eu sei que, para muitos de vocês, é a sincera manifestação de carinho e amizade. Mas peço isso porque não estou feliz e não será um dia feliz, será como os outros dias: vazio, sem sentido e sem esperança; angustiante.

Apenas ore por mim e pela minha família!

Andradas (MG), 30 de maio de 2025

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6 de fev. de 2019

A Falácia do Ecumenismo Institucional

O Ecumenismo Institucional, especialmente depois que a Igreja de Roma se redefiniu “ecumênica”, é o conceito de “diálogo”. Diálogo que veio substituir as ações concretas de cooperação e  ações solidárias entre pessoas de diferentes credos, como era o movimento ecumênico. 

O diálogo entre instituições pressupõe e mantém imutável as diferença e geralmente só move a ação por interesses políticos institucionais. 

O ecumenismo, enquanto movimento, mobiliza pessoas de diferentes culturas e experiências com a transcendência, para uma tomada de posição diante de situações concretas da realidade humana e não discussões teológicas intermináveis entre absolutos diferentes. A ação ecumênica enquanto movimento afirma não as diferenças, mas a possibilidade de agir juntos em favor de algo; é um chamado ao agir e não ao conversar sobre assuntos absolutos. São as diferentes percepções da transcendência que motivam a ação e não uma busca do que “se pensa em comum”. A transcendência não pode ser explicada nem mesmo pela racionalidade que a percebe. Mas é a possibilidade de agir e partilhar a ação que torna o movimento ecumênico possível e não uma percepção da transcendência, seja qual for. Até com quem nega a transcendência, como os ateus (que é uma forma de pensar a transcendência: negá-la) é possível se estabelecer laços de cooperação sem ser necessário qualquer “diálogo” sobre essas diferenças.

Eu me converti a Cristo no movimento ecumênico, entre pessoas de diferentes matizes cristãs; por isso foi muito difícil eu encontrar uma igreja onde eu podia pensar e atuar com liberdade sem me submeter a dogmas doutrinários ou formas de confessionalidade. Ninguém pode negar minha vivência e meu conhecimento sobre o ecumenismo. Atuei nos dois campos, o do movimento e o institucional.
Quando jovem havia apenas o Conselho Mundial de Igrejas como instância do ecumenismo institucional; sua ação era plural, e não se limitava a questões de doutrina; suas relações internas eram bastante dialéticas, mas sempre a partir de programas e projetos.

Participei do CLAI (Conselho Latino-Americano de Igrejas) , bem depois, que é (ou era, nem sei se ainda existe…) uma instituição que reúne igrejas da vasta e diversificada herança protestante, e fazia disso sua identidade, a ponto de incomodar a igreja romana  por ser um espaço fora de seu controle institucional.

Todavia, quando Roma chega ao movimento ecumênico, seu peso institucional muda os rumos e o ecumenismo institucional se torna forte e engessado. 

A postura das Igrejas do CLAI em defenderem seu conselho sem a presença de Roma, foi, como disse um Bispo Metodista em um evento onde a Igreja Romana questionava a existência de dois Conselhos  de Igrejas no Brasil (o CLAI e o CONIC, onde Roma participa), nosso espaço de falarmos entre nós o que não queremos ou não podemos falar com vocês pelas próprias imposições internas de vocês, como por exemplo, a ordenação de mulheres…”

O ecumenismo institucional só se justifica como ação das instituições eclesiásticas na defesa de seus interesses institucionais. Sob o véu do diálogo, se criam coisas sem nenhum sentido, como modelos ecumênicos de orações tradicionais, ou discussões intermináveis sobre um ou outro tema teológico,onde se chocam posturas dogmáticas diferentes.

Por isso o CLAI  se destacava, porque ao invés de “diálogo teológico” propunha programas de capacitações, cooperação  e atuação em situações específicas: saúde, sexualidade, gênero, mulheres, indígenas, economia e sociedade, etc. Encontros de teólogos era apenas um dentre muitos programas e o objetivo não era buscar definições comuns, mas troca de visões. Não haviam comissões de diálogo sobre assuntos doutrinários. Soube que o CLAI  está acabando… talvez  porque a luta interna de poder entre as diferentes igrejas levam a alianças conforme o momento político… até porque as instituições eclesiásticas estão cada vez mais voltadas para si mesmas e sua sobrevivência.

Mas hoje, cada vez mais se vê morrer o movimento ecumênico em troca de estruturas ecumênicas a serviço de instituições como fins em si mesmas… e “diálogos bilaterais” buscam uma pretensa unidade da Igreja ignorando que a Unidade da Igreja se dá em Cristo e não em definições teológicas. No movimento ecumênico de minha juventude, se orava junto a forma protestante de orar, sem necessidade de liturgias mirabolantes que mais parecem coreografias; orávamos de forma espontânea e quando juntos dizíamos o Pai Nosso cada um da sua forma; as liturgias celebravam a diversidade e a comunhão e não determinadas posturas políticas…

Tenho para mim que a chegada de Roma ao ecumenismo trouxe o engessamento que é peculiar àquela denominação religiosa… mas isso é outra heresia, para outro artigo…

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28 de fev. de 2017

Pensamentos Heréticos!?!?

dedo-no-nariz-iiTrês advertências:  a) eu disse HERÉTICOS, não eróticos. Pode ser que você esteja no blogue errado! Se for me mandar para a fogueira, mande pelo motivo certo!  b) se você é daquelas pessoas que não consegue ler um texto maior que meia página, não comece a ler. Ele é muito maior que isso! Mas se você é daquelas que gosta de ler e refletir, mas não tem tempo para isso agora, salve o artigo ou copie seu link temporariamente nos “favoritos do teu navegador” e retorne ao texto quando tiver disponibilidade para ler e refletir. Como sou matemático não confundo síntese com resumo, nem acredito em síntese sem análise.   c) este texto é, essencialmente, parte de um processo de auto crítica a que estou voluntariamente me submetendo há alguns anos. Não pretende ser uma manifestação de oposição (embora será assim interpretado) às instituições eclesiásticas, mas um convite à reflexão, uma partilha do que tenho pensado ultimamente, na esperança de ajudar a encontrar caminhos novos, embora eu saiba, por experiência, que vão arrumar mil justificativas para dizer que não mereço ser levado a sério (não sou doutor em teologia – nenhum dos Doze o era) ou que “quero tomar o poder”... rsrsrsrs! Estas e outras são justificativas dos insensatos que se julgam o máximo, ou melhor, defendem seus interesses pessoais!
Há muito anos, um teólogo conhecido meu disse que “Ortodoxia é a Heresia de quem ganhou!” Eis ai uma grande verdade, se formos olhar cruamente a História Eclesiástica (que muita gente confunde com a História da Igreja).  Portanto, de acordo com o Cálculo de Predicados (para os menos versados em Matemáticas e Linguística, significa simplesmente Lógica), conclui-se que Heresia seria a Ortodoxia caso seus adeptos fossem maioria em alguma Reunião Conciliar (que por ser “conciliar” devia buscar o consenso e não a vontade da maioria, que muitas vezes é burra!). Como quase sempre sou ignorado pela Ortodoxia vigente, me considero um herético teimoso e frustrado.
Bem, este é o primeiro pensamento herético:a Ortodoxia não é absoluta, mas como é Tradição, deve estar em permanente avaliação! .
Com o Imperador Constantino, a Instituição Eclesiástica nasceu de fato e se globaliza; apesar de algumas oposições no Império, foi se fortalecendo a ponto de se auto definir como a Igreja de Cristo! À medida que o Império se esfacelava e decaia, a Instituição Eclesiástica vai assumindo funções que a identificam mais como continuidade do Império do que com o Movimento de Jesus. Tanto no Oriente quanto no Ocidente, a Instituição Eclesiástica foi assumindo a burocracia, o modelo do Direito e a ideologia de poder do Império. E isso continua até nossos dias. Nesse sentido, a Reforma Protestante e outras reformas foram essencialmente reformas da Instituição, (e por isso repetiram os mesmos erros) mas não foram,  necessariamente ou exclusivamente, avanços do Movimento de Jesus. 
É claro que todo movimento se destina a institucionalizar-se ou não sobrevive. Afinal, institucionalização é algo inerente à vida humana que é uma vida em coletividade e não em cavernas isoladas. Basta existirem duas pessoas reunidas para termos uma situação institucional: regras são definidas explicita ou implicitamente, decisões de “consenso” (geralmente não é tão consenso assim, mas…)  são assumidas de forma imediata, quase que de forma inconsciente. Surge a Cultura, que dá significado a estas institucionalizações. A vida em coletividade precisa, assim, de limites e definições de conduta e formas de comunicação, que acabam sendo impostas por quem domina a coletividade. Por isso o poder é erótico! E acaba se tornando pornográfico quando se torna fim em si mesmo![i]
É obvio que o movimento iniciado a partir de Jesus de Nazaré por seus discípulos, teria de se institucionalizar, não havia outra alternativa, até mesmo para preservar sua identidade dentro da diversidade do mundo onde surgiu. Mas institucionalizar-se é um risco muito grande! Necessita constante vigilância! Porque a Instituição é assassina de movimentos. Instituição tem forte senso de auto preservação e aspira pela perpetuidade! Movimento, pelo contrário, é sempre movimento histórico, e abertura para a mudança, superar temores e construir pontes para atravessar precipícios. Instituições se pretendem estáticas, só admitindo mudanças que na verdade não alterem seu “status quo”. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mateus 26:41)
Eu me pergunto se a Igreja de hoje (falo de todas as instituições eclesiásticas, não de uma específica) ainda tem alguma identidade com o Movimento de Jesus, ou seja, se ainda pode ser entendida como a Igreja do Senhor ou Igreja de Deus (Ekklesia tou Kyrius ou Ekklesia tou Theou). Felizmente, eu acredito que sim! apesar de tudo, ainda permanece o Espírito que move o Movimento. Tanto é que a Igreja vive hoje sobre uma enorme pressão de desconfiança, da falta de recursos financeiros, da ausência de membros (e membras, para agradar as feministas) conscientes e testemunhais, da crise de autoridade, e do seu significado no mundo em pleno século XXI. E isso é obra do Espírito Santo! É um anúncio de que alguma coisa saiu errado nessa história… 
Este é o segundo pensamento herético: a crise da Igreja como obra do Espírito Santo![ii]
Sempre é bom lembrar que muitas tentativas de reformar a Igreja aconteceram na História, e muitas delas eram contrárias ao status quo institucional. O Movimento Monástico, por exemplo, foi uma dessas ações de protesto contra a institucionalização. Porém, a força da Instituição (de qualquer instituição) é tão forte que acaba contaminando e cooptando os movimentos de renovação. Hoje, o movimento monástico não é movimento, mas uma instituição a serviço da instituição eclesiástica maior, exceto naquelas “Ordens” que não buscaram nem pretendem buscar seu “reconhecimento” ou legitimação pela instituição eclesiástica (sim elas existem, tanto no Ocidente quanto no Oriente). Movimentos “carismáticos” estão hoje totalmente sob o controle das respectivas instituições eclesiásticas… Movimentos de Renovação e Avivamento idem… em alguns casos, esses movimentos acabaram “tomando o poder” na Instituição e com isso se tornaram tão absolutos quanto era a Instituição tomada.[iii]
Eu desconfio (é cutucar com vara curta dizer “tenho certeza”!) que a maioria das Eclesiologias são, na verdade, doutrinas que buscam justificar as normas institucionais, e garantir sua preservação. Acabam se tornando “doxa”, ou seja, dogma, e assim se tornam absolutas e incontestáveis. Como fazem muitas linhas de pensamento teológico, busca-se nas Escrituras justificativas para a manutenção daquilo que surgiu por necessidade histórica e não por determinação absoluta do Senhor. Tais modelos se consideram identidade institucional e são confundidos com a Tradição construída pelo caminhar do movimento.[iv]
Com isso, está aqui o terceiro pensamento herético: muita coisa da doutrina sobre a Igreja é justificativa ideológica para que as decisões e modelos institucionais se tornem padrões absolutos e perpétuos!
Não sou ingênuo a ponto de propor que joguemos tudo pro alto, fechemos as instituições eclesiásticas e vivamos um “cristianismo anárquico”. Mas eu acredito piamente, e já defendi essa ideia muitas vezes, que temos o dever histórico de mudar os paradigmas que estão orientando a Igreja desde meados do século XVII, o advento da modernidade. A modernidade está morrendo em alta velocidade e, com isso, os paradigmas por ela inspirados têm prazos de validade vencidos, e alguns já venceram há muito tempo!
Não defendo que liquidemos com tudo para criar o novo, até porque não seria novo! “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol!(Eclesiastes 1:9). Tenho muito respeito por todas essas coisas pois são construções históricas, têm seu mérito e foram desenvolvidas para atender necessidades específicas do Movimento de Jesus. O que não defendo é que sejam absolutas e definitivas, porque o Espírito Santo não é propriedade de qualquer modelo institucional, e – me parece – nunca foi muito simpático a essas coisas (por isso, um exemplo, Jesus não foi da classe sacerdotal, nem se dava bem com ela).
A Igreja do século XXI carrega uma herança pesadíssima, acumulada pelos os séculos, herança hoje que tem mais valor – digamos – afetivo e sentimental do que uma objetividade útil para a sua Missão (no significado do Evangelho, não dos promotores de planejamentos estratégicos). Herdamos uma estrutura caríssima e sem sentido além da preservação e perpetuação de esquemas de poder e de modelos institucionais como absolutos. O processo histórico institucional fez do Movimento de Jesus uma “religião de massa” ao invés de uma experiência de espiritualidade e comunhão com Deus que constrói comunidades solidárias e de testemunho diante do mundo, pessoas regeneradas pela graça de Deus em Jesus o Cristo.
Muitos recursos humanos, financeiros e de tempo são gastos exclusivamente para a manutenção de uma instituição que – pela sua forma – já não tem sentido no mundo contemporâneo, uma instituição que perdeu o rumo e o conteúdo da mensagem que lhe foi dada a proclamar e que se fechou ao redor do próprio umbigo e da autopreservação, e fica inventando modismos vanguardistas para tentar se mostrar relevante.
Pensando agora a partir da minha denominação, da Igreja onde procuro vivenciar comunitariamente a minha fé e o meu chamado, o episcopalismo (está bem, aceito dizer “anglicanismo”), eu me pergunto se realmente precisamos ser como somos e manter tudo que consideramos como parte de nossa Tradição. Vem ai meu quarto pensamento herético!
Será que precisamos mesmo do Episcopado (êpa!)? ou de um extenso manual de cânones? Ou de um livro de liturgia muitas vezes idolatrado? Ou de tantas instituições internas, departamentos, mantidas a um custo financeiro e de recursos humanos altíssimo? Será que precisamos, realmente, de grande templos, construções de custo caríssimo que se deterioram por falta de recursos para sua manutenção, quando não são irresponsavelmente alienados para “fazer caixa” a fim de manter a instituição por mais um tempo? Será que ainda cabe, ou caberá em futuro próximo, termos um clero de dedicação exclusiva, cuja tarefa acaba se tornando mais burocrática que pastoral?
Três ideias para aprofundamento da “heresia”:
1) No caso do clero, imagino que algum dia chegaremos à obrigação do clero masculino ou feminino ao celibato, caso seja de dedicação exclusiva, para reduzir custos de manutenção e sustento... ou cairemos na esparrela dos “pastores de sucesso” que vendem bênçãos e sacramentos, sobrevivendo (alguns até muito bem!) a custa de seu carisma personalista.
2) No caso do Episcopado, sou Episcopal, certo? Não vejo uma Igreja Episcopal sem Bispos e Bispas. Mas será que o Episcopado precisa ser um cargo meramente administrativo, cada vez mais gerencial e menos pastoral? Não há outras formas de exercer o Episcopado, até mesmo mais de acordo com nossa visão e sonho utópico de autoridade compartilhada e dispersa? O Episcopado é uma concentração de poder ou uma dimensão maior de serviço? Não há outra forma de administrar a instituição religiosa, aquela que seja realmente relevante, sem oprimir o Episcopado com tal encargo?
3) No caso da estrutura eclesiástica, onde realmente acontece a Missão? Nos escritórios das dioceses ou das províncias? ou, de fato, no cotidiano das comunidades? Como colocar toda a estrutura institucional como infraestrutura para que as comunidades possam realmente executar a Missão? “Quem faz ovelha é ovelha”, disse certa vez um professor do Seminário. Eu completaria: o gerente da fazenda pode até comprar ovelhas, mas fazê-las, não; mas pode criar as condições de crescimento do rebanho de forma natural e garantir boa nutrição, de forma que as ovelhas continuem gerando ovelhas de qualidade. E sempre é preciso que os gerentes se recordem que o Dono da fazenda é um Outro!

Tais “pensamentos heréticos” são apresentados como mais uma contribuição pessoal em uma reflexão que a Igreja vem adiando sempre, e sobre a qual tenho chamado a atenção há quase dez anos!
Como toda a Instituição, a Igreja adora pegar novas ideias para, através de subterfúgios inconscientes (e às vezes conscientes!), incorporar sua forma adequando o conteúdo à manutenção do status quo. Igrejas, ou melhor, Instituições Eclesiásticas, são mestres em transformar o novo na mesmice.
Que o Espírito Santo nos guie apesar das Instituições! Amém!
 

[i] Estou falando em “coletividade”  e não em “sociedade” porque o conceito de sociedade não é muito claro, especialmente nestes tempos onde a individualidade ultrapassa os limites do bom senso e da vivência solidária. As “sociedades” humanas de hoje são, na verdade coletividades, onde as pessoas apenas estão juntas, se aturam e vivem, cada uma, sua vidinha individualista e escrava de si mesma! Falar em comunidade, então, nem pensar! A grande maioria das instituições, sejam eclesiásticas ou não, estão contaminadas pelo individualismo, pela luta pelo poder (efêmero, mas profundamente erótico!) e a lógica de que “os fins justificam os meios”; estão tomadas por moralidades e perderam o senso da Ética.  O coletivo humano hoje é o Império do Mercado, e que se dane o resto, porque tudo que contraria os interesses do Mercado, é heresia e pecado.
[ii] Se de fato acreditamos na Palavra e promessa de Jesus que as “portas do Inferno” não poderão vencer a Igreja de Cristo (cf. Mateus 16.18 – que não se refere a dar poder ao Pedro especificamente – essa foi a interpretação da instituição), então é obvio que o Senhor da Igreja, através do Espírito Santo a estará corrigindo sempre, para defendê-la das tentações que a levariam a sucumbir diante das ”portas do inferno”! A institucionalização absoluta  e a subordinação ao Mercado são duas dessas tentações, porque pretendem enquadrar o próprio Espírito nas normas institucionais e às pressões do Mercado.
[iii] Obviamente não vou citar exemplos, pois temos visto isso acontecer especialmente hoje. Não vou citar nomes nem instituições porque já devo estar irritando muitos “sucessores de Pedro” por ai. Se você não é um bom entendedor, lamento, caro leitor.
[iv] Como já afirmei muitas vezes, Tradição não é algo absoluto, mas um reservatório de práticas e de respostas dadas pelo movimento às situações concretas na história a partir do seu senso de identidade.
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3 de out. de 2012

Unidade e Diversidade, a nossa Identidade Episcopaliana

S. Pedro e São Paulo: A Igreja Judáica e a Igreja Gentílica se abraçam!Uma dificuldade que as pessoas hoje têm de compreender o sentido de unidade da Igreja de Cristo deve-se ao fato de haverem muitas denominações cristãs, diferentes Igrejas. Entretanto, essa diversidade é salutar!
A gente precisa entender bem essa questão da “divisão” da Igreja. Não é verdade que a Igreja Primitiva era uma coisa só. Não era! Havia uma variedade na forma de organização, na teologia em construção e na liturgia.
Desde do início da expansão missionária a partir da Igreja de Antioquia, que envia Paulo e Barnabé em Missão por ordem do Espírito Santo (cf. Atos 13.1-3), o cristianismo começou a dialogar com culturas e povos diferentes daquele ambiente nativo dos primeiros apóstolos.  Nesse sentido, o Apóstolo Paulo logo compreendeu que a grandeza do Evangelho não se limitava aos preceitos do judaísmo, e que o Evangelho é de fato uma Boa Nova para todos os povos. A expansão do Evangelho entre os povos pagãos do Império Romano, especialmente no ambiente marcado pelo helenismo, obrigou a Igreja em Jerusalém rever suas posições em relação às práticas judaicas; tal revisão aconteceu no que chamamos de Concílio de Jerusalém, narrado em Atos dos Apóstolos (15.1-33), provocada pela própria Igreja de Antioquia, a grande igreja missionária que, movida pelo Espírito Santo, deu início à evangelização do mundo gentílico: as comunidades que surgem a partir do movimento de Antioquia já não eram formadas apenas por pessoas de tradição judaica, mas também por gentias, ou seja, não judias.

Assim, cerca de 40 anos após a Ressurreição de Jesus já haviam “duas igrejas”: a Igreja de Jerusalém e suas comunidades filhas, de forte orientação judaica, que se confundia inclusive com as sinagogas; e a  Igreja Gentílica, cujos procedimentos, especialmente em relação aos usos e costumes, eram bem distintos. Todavia, não eram “duas igrejas” mas uma única Igreja, com características diferentes. Por volta do ano 90 uma terceira Igreja vem dar origem à literatura Joanina, com outro enfoque e distinto dos Evangelhos Sinóticos.
Nem sempre o convívio entre as duas (ou três) correntes era pacífico. Haviam, naturalmente, escaramuças, mas o senso de unidade era assegurado pela relação afetiva e companheira entre os apóstolos (não só os 12, mas todos aqueles que pregavam o Evangelho sendo testemunhas da Ressurreição). Varias fontes não bíblicas, mas reconhecidamente validadas pela Historiografia, relatam o surgimento de comunidades cristãs fora do Império Romano, no interior da Ásia e até na Índia. Isso amplia muito nossa percepção da diversidade da Igreja ao final do primeiro século cristão.
Ao final do séc. III e início do IV, a Igreja estava organizada, pelo menos dentro do Império Romano, com as ordens clericais e a divisão territorial das dioceses (uma unidade territorial do Império), sendo que os Bispos das cidades maiores eram chamados Arcebispos ou Metropolitas, e a eles se subordinavam, de forma afetiva e pastoral os bispos das cidades menores circunvizinhas; em caso de discordância doutrinária, por exemplo, os Metropolitas serviam como árbitros e convocavam concílios regionais para acertar o passo.

A Igreja do Ocidente
Com a derrocada do Império no ocidente, a Igreja se tornou a única instituição estável dentro do caos social e político que se criou. Os Metropolitas ganharam força política e o Metropolita da antiga Capital Imperial, Roma, acabou se tornando o mais importante. A agregação hierárquica a partir do Bispo de Roma acabou se consolidando em meados do século VI, e a Igreja Ocidental foi se tornando cada vez mais monolítica e padronizada. Vários concílios foram consolidando as formas estruturais e o corpo doutrinário, fixando a identidade da Igreja Latina, que hoje conhecemos como Igreja Católica Romana.
No Oriente, onde ainda sobrevivia o Império, a Igreja se manteve dentro do antigo padrão dos Patriarcados organizados em arquidioceses e dioceses interdependentes, mas distintos. O Patriarca Romano se tornou, todavia, o Chefe absoluto da Igreja Ocidental assumindo a Igreja o papel político de polo unificador do Ocidente retalhado em feudos.
Todavia, no Ocidente, essa concentração hierárquica vertical e o corpo doutrinário fechado, não foi bem acolhida entre os diferentes povos que então ocupavam, de forma autônoma, o antigo território imperial. No seio das dioceses havia o descontentamento e movimentos de defesa da autonomia, bem como diferentes formas de pensar teológico, nem sempre fiéis à dogmática imposta.
Assim, por exemplo, a antiga Igreja dos Celtas, na Grande Bretanha, submeteu-se sob a força dos exércitos saxões ao Bispo de Roma, mas manteve em seus porões sua antiga tradição que provinha da Igreja do Oriente, mesclada com a cosmovisão da Antiga Religião. O mesmo aconteceu entre os povos da Gália (hoje parte da França), e no interior da Europa Central, que ao contrário dos eslavos a nordeste e sudeste, não foram evangelizados pelos Orientais (essa a origem da Igreja Ortodoxa Russa, por exemplo).
No decorrer da Idade Média houveram muitos movimentos de reforma da Igreja Ocidental. A Reforma do século XVI foi a que obteve maior êxito, criando novas formas de ser Igreja: a Igreja Evangélica (alemã) e a Igreja Reformada (suíça). É preciso ter claro que tais Igrejas não saíram da comunhão com Roma, mas foram excomungadas por Roma, criando assim a divisão que perdura até hoje no Ocidente.
Todavia, as diferentes Igrejas que, a partir dai, surgiram, de cunho nacional e/ou étnico, sempre tiveram a consciência de serem partes da Igreja Una, Santa, Católica(no sentido de ser de todo o mundo = ecumênica = oikomene)  e Apostólica de Jesus Cristo.

A origem da Igreja Episcopal
Quando, por razões de Estado, a Igreja da Inglaterra se torna autônoma em relação ao Papado, o processo de sua reorganização só se consolida no reinado de Elizabete I, formando-se assim a Igreja Nacional e Estatal que é, até hoje, a Church of England, acolhendo em seu seio as diversas tonalidades cristãs que existiam na Inglaterra, e ao mesmo tempo permitindo a organização de “Igrejas Livres” (sem a tutela do Estado), dando origem por exemplo, às Igrejas Congregacionais e às Igrejas Batistas.  Assim, se em seu início a Igreja da Inglaterra era muito marcada pela diversidade teológica, também preservou a riqueza litúrgica herdada da Igreja Latina, mas com as adaptações decorrentes da Tradição Celta que, de certa forma, veio do Oriente.
Na Escócia, a Igreja lá existente no século XVI era profundamente influenciada pelo calvinismo. Assim, organiza-se a Igreja Presbiteriana, que ficou sendo chamada de Igreja da Escócia (The Church of Scotland) . Todavia, nem todos aceitaram uma organização presbiteriana-congregacional e adotaram o episcopado histórico. Surge assim a Igreja Episcopal da Escócia (The Scottish Episcopal Church ou na língua original, Eaglais Easbaigeach na h-Alba), fortemente marcada pela teologia de Genebra, mas também buscando manter seu laço com o episcopado histórico, a exemplo da Igreja da Inglaterra.  Essa Igreja acaba adotando o Livro de Oração Comum escrito pelo Arcebispo Laud, o qual contém muito do Livro original elaborado pelo Arcebispo Cranmer e se afasta do modelo presbiteriano definitivamente. Todavia, ainda hoje na Escócia, as duas Igrejas Nacionais convivem e em muitas situações se articulam de forma conjunta.
Quando as Colônias Inglesas na América do Norte se tornam independentes, dando origem aos Estados Unidos da América, houve a preocupação de organizar-se uma Igreja Protestante Nacional, porém não dependente do Estado recém fundado. Naquele tempo, nos territórios coloniais, haviam diferentes denominações cristãs, traduzindo, de certa forma a mesma diversidade que existia na Metrópole. Houve um movimento procurando unir tais diferentes denominações em uma Igreja Nacional, e chegou-se ao consenso de adotar-se o modelo episcopal, mas manteve-se a liberdade dos grupos que não aceitaram unir-se à Igreja Nacional nascente.
Uma vez decidido que a Igreja Nacional teria um governo episcopal, necessário foi buscar a sagração de seu primeiro bispo de modo a garantir o Episcopado Histórico à nova Igreja. Naturalmente, isso foi buscado junto à Igreja da Inglaterra, mas devido às circunstâncias da Independência e o fato da Igreja inglesa ser estatal – isto é, vinculada à Coroa Britânica e ao Parlamento – os norte-americanos foram aconselhados a buscar o Episcopado Histórico entre os escoceses, sendo prontamente atendidos. Assim, o primeiro bispo da Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América foi sagrado por bispos escoceses. Mas o segundo e o terceiro bispo já foram sagrados por ingleses, de forma que conseguiu-se manter uma certa unidade de comunhão apostólica entre a nova Igreja e a Igreja da antiga metrópole, e também com a Igreja escocesa. Ai está a gênese da Comunhão Anglicana, que se consolida no século XX!
Como a Igreja da Inglaterra, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos nasceu com uma rica diversidade de formas e compreensões teológicas em seu seio, pois incorporou diversas tendências teológicas e litúrgicas, decorrentes do processo de união da qual nasceu. Sua unidade, como na Igreja da Inglaterra, é fundamentada no Livro de Oração Comum como manual litúrgico aberto (uma diversidade de formas cerimoniais para executar seu conteúdo ritual) e no pacto estabelecido no século XIX conhecido como Quadrilátero de Lambeth-Chicago; tal unidade garante a diversidade, que se torna parte de sua própria identidade.  Hoje essa Igreja Nacional (mas não estatal) dos Estados Unidos, é chamada The Episcopal Church (TEC).
Há várias formas de expressão dentro da Igreja Episcopal. Há os evangélicos, os evangelicais, os mais conservadores, os mais liberais, os mais litúrgicos, os teologicamente mais próximos de Roma, os mais próximos da Tradição Reformada e todas os possíveis entrelaçamentos dessas expressões. Sempre houveram tensões entre as diferentes ênfases; não é de hoje, e isso às vezes causou rupturas na unidade, através de cismas e formação de novas denominações. Outras vezes grupos se deligaram da Igreja mas decorrido o tempo de uma ou duas gerações retornaram… essa dinâmica é própria de uma Igreja que se recusa adotar posturas dogmáticas e depender de uma hierarquia absolutista verticalizada.
É essa Igreja que chegou ao Brasil em 1890, através de Morris e Kinsolving, dando origem à Igreja Protestante Episcopal no Rio Grande do Sul, depois Igreja Episcopal Brasileira, depois Igreja Episcopal do Brasil e agora Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que é autóctone, autônoma e independente de sua Igreja Mãe (The Episcopal Church) ou de sua Igreja Avó (The Scottish Episcopal Church) ou ainda de sua Igreja Tia-Avó (The Church of England). É parte da Comunhão Anglicana; é uma Igreja Nacional que incorpora a cultura brasileira, e um espaço de diversidade e liberdade de pensamento que acolhe todas as pessoas que buscam a fé sem negar sua inteligência.

O momento presente da Igreja do Brasil
O mundanismo da pós modernidade vem invadindo a Igreja nos últimos tempos. O personalismo e o generalismo (em lugar da erudição e conhecimento) começa a minar o senso de identidade e de unidade da Igreja. As ênfases e tendências que garantem a diversidade começam a apresentar-se como “partidos” que disputam espaço e poder institucional.
Por estar inserida na sociedade brasileira, a Igreja sofre o mesmo fenômeno de “emburrecimento” das novas gerações decorrentes de um sistema escolar deficiente e organizado para não educar. Ao mesmo tempo, há um pragmatismo dogmático de formar mão-de-obra, como no mundo secular, sem conhecimento real, apenas prático.  A formação do clero se torna cada vez mais deficiente, seguindo o modelo da sociedade, e estuda-se a Teologia em termos acadêmicos, mas dissociada da prática pastoral e principalmente do estímulo à piedade pessoal. O estudo da Teologia passa a ser uma formalidade a ser cumprida; a piedade pessoal é descuidada em nome de uma pretensa secularização de “imersão no mundo”; o convívio vocacional não existe e assim os membros do clero se entendem como “colegas” e muitas vezes concorrentes entre si.
Há uma histérica necessidade de afirmar uma “identidade” anglo-isso, anglo-aquilo; o que eu vejo é muita gente se preocupando com detalhes da forma sem aprofundar conteúdo, uma coisa do tipo “garantir espaço”, “marcar território”.  Perde-se o senso da eclesiologia e da catolicidade da Igreja quando o Episcopado se torna alvo de disputas de poder institucional sem a perspectiva real do pastorado e do serviço – o péssimo estilo brasileiro de fazer política se torna comportamento na Igreja quando há a necessidade de uma eleição episcopal – o poder pelo poder!

Perspectivas de esperança
O Apóstolo Paulo, escrevendo aos Efésios, diz:
Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo,
um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo.
(Efésios 4:1-7 – Nova Versão Internacional)
É necessário suportar uns aos outros, não como tolerância, mas como suporte, sustentação uns dos outros.
É urgente retornarmos ao convívio da oração coletiva, do estudo da Bíblia e da partilha pastoral, não só nas comunidades, onde isso ainda acontece, mas entre o clero e as lideranças leigas.
É urgente que reestabeleçamos a formação teológica vinculada à formação pastoral e ao desenvolvimento da piedade e disciplina pessoal.
É urgente que deixemos a administração dos negócios financeiros e patrimoniais da Igreja nas mãos de pessoas realmente competentes e profissionais, de preferência leigos, e que a hierarquia e o clero se submetam às recomendações técnicas de saneamento econômico da Igreja. É urgente que nossos Bispos e o clero se dediquem mais ao Pastorado, à Missão, à Evangelização, ao Ensino e à Cura de almas que à administração institucional; que liderem o caminhar do Povo de Deus e não da instituição humana.
É fundamental que se invista em infraestrutura (comunidades locais e dioceses) que em estruturas (provinciais e diocesanas).
É fundamental o fortalecimento do laicato, não só nos serviços ministeriais, mas também como poder autônomo na Igreja, atuando como espaço crítico-reflexivo que possa ajudar o clero e o episcopado a perceber as tendências do mundo e, assim, produzirem a reflexão teológico-pastoral adequada aos desafios do tempo presente. Nesse sentido, o ministério dos Diáconos ganha um significado importantíssimo!
Tais buscas, se realmente começarem a acontecer, me darão a esperança que minha Igreja ainda está viva e consciente de sua dependência do Espírito Santo de Deus e subordinada em obediência ao Senhor Jesus Cristo.
[Nota: comentários com a devida correção de detalhes e imprecisões históricas ou de interpretação da história serão muito bem vindos, pois o artigo foi escrito sem uma pesquisa profunda, baseada apenas nos meus poucos conhecimentos adquiridos no decorrer dos anos]
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22 de set. de 2012

O que está acontecendo na Igreja?

  drz19
Este artigo é resultado de uma reflexão que temos feito na Paróquia São Paulo Apóstolo, como companheiros de ministério e partilhado com algumas lideranças leigas da paróquia, no contexto do Clamor pela Igreja que a comunidade tem realizado dominicalmente desde o Pentecostes.  Trata-se de um texto pessoal de nossa exclusiva responsabilidade, e não reflete, necessariamente, o pensamento da comunidade paroquial, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro ou até mesmo da Ordem de São Tiago de Jerusalém, na qual partilhamos esperanças e temores.
Depois dos últimos acontecimentos na IEAB, resolvemos partilhar nossa reflexão sobre a eclesiologia em que se fundamenta a nossa Igreja, que – nos parece – vem sendo esquecida por setores do clero e do laicato.
Primeiramente, temos que esclarecer o que é Eclesiologia? (do grego ekklesia= Igreja; Logia= Discurso). É o ramo da Teologia Sistemática que trata da Igreja: seu papel na salvação, sua origem, sua doutrina, sua disciplina, sua forma de se relacionar com o mundo, sua presença social; e também as mudanças ocorridas, as crises enfrentadas, a relação com outras denominações e sua forma de governo.
A Igreja é objeto e sujeito da fé, institucional e carismática (dons), sociedade visível e comunhão invisível, comunidade fraterna e hierárquica, santa e pecadora; a Igreja de Cristo se apresenta como diversidade de confissões e comunhão dialogal entre elas.
Levando em conta tal complexidade queremos, de início, identificar as questões mais importantes que surgem dos contextos episcopal e anglicano. Tais questões ajudam a reconhecer a pertinência desta reflexão: atualizar o tema “Igreja” neste emaranhado de realidades e conceitos.
Nessa perspectiva, lembramos Dom Sumio Takatsu que, brilhantemente, nos recorda que a Igreja Episcopal Anglicana não caiu do Céu; foram anos de construção, idas e vindas, uma identidade “católica” e “protestante”, chegando à via média que tentamos ser.
Em se tratando do anglicanismo, sua auto compreensão não pode passar por cima da Reforma do século XVI nem de sua continuidade com a Igreja da antiguidade, vista sob a ótica do conhecimento disponível nos séculos XVI e XVII. “Desde o seu começo, o anglicanismo tem sido formado na forja da controvérsia eclesiológica”. De fato, o primeiro Sínodo da Igreja da Inglaterra em Whitby (664) foi uma controvérsia em torno da data da Páscoa entre a Igreja celta e romana representada por Agostinho, enviado pelo bispo de Roma, Gregório Magno. Muito mais tarde, no século XIV, John Wycliff e seus seguidores desafiaram o conceito do domínio que cada pessoa e ofício têm recebido do seu superior imediato. (Takatsu, Eclesiologia Anglicana, pg. 1)
Neste aspecto queremos salientar que a tensão entre Igreja Celta e Igreja de Roma no séc. VII foi o final  de um processo que vem de mais longe, do início da cristianização das Ilhas Britânicas.
Se alguém pensa que somos filhos somente da Igreja Ocidental, está enganado. Somos, também, filhos da Igreja Oriental. Foram missionários da Igreja do Oriente que converteram, de início, os celtas, passando para eles a eclesiologia e a teologia cristã orientais. Assim, nossa percepção teológica e cosmovisão, têm origem nas concepções orientais, cheias de misticismo e variações, enfatizando a relação com a natureza de maneira bastante séria e encarnada.
Quem, no séc.VII, vence a polêmica na região sul e sudeste da Grã-Bretanha, sob domínio saxão, é a Igreja de Roma, mas o oeste e o norte, (habitados majoritariamente pelas diversas tribos celtas que resistiram ao Império Romano) mantiveram as concepções  teológicas do oriente cristão. Por isso vamos falar um pouco da Eclesiologia Oriental para entender nossa pluralidade de conceitos.
As Igrejas Orientais (Ortodoxas), em geral, têm uma organização muito interessante e sadia, fundamentada no principio real da Catolicidade (Universalidade) da Igreja. Tais Igrejas se sobrepõem através de diversas jurisdições eclesiásticas (como por exemplo a Igreja Ortodoxa Grega, Igreja Ortodoxa Eslava, a Igreja Ortodoxa Siríaca, etc.) que professam a mesma fé e, com algumas variações culturais e étnicas, praticam basicamente os mesmos ritos. O líder espiritual das Igrejas Ortodoxas é o Patriarca de Constantinopla – chamado de Patriarca Ecumênico, embora este seja um título mais honorífico, uma vez que os patriarcas de cada uma dessas igrejas são independentes. A maior parte das Igrejas Orientais, em comunhão umas com as outras, usam o rito bizantino e suas variações.
Para eles, o Chefe Único da Igreja, e sem intermediários, representantes ou legatários, é o próprio Jesus Cristo. A autoridade suprema na Igreja Ortodoxa é o Santo Sínodo Ecumênico que se compõe de todos os patriarcas chefes das igrejas autocéfalas e os arcebispos primazes das igrejas autônomas, que se reúnem a chamado do  Patriarca Ecumênico de Constantinopla (cf. Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental, p. 103).
A autoridade suprema regional em todos os patriarcados autocéfalos e igrejas autônomas é da competência do Santo Sínodo Local. Algumas igrejas autocéfalas possuem o direito de resolver todos os seus problemas internos com base em sua própria autoridade, tendo também o direito de ter seus próprios bispos, incluindo o próprio patriarca, arcebispo ou metropolita que presida essa Igreja.
Este característica foi herdada pela nossa Tradição oriunda da Igreja Celta: o mesmo princípio que nos rege como Igreja sinodal e o exercício do Primado. O Arcebispo de Cantuária, por exemplo, não é o Vigário de Cristo nem chefe supremo da Comunhão Anglicana; da mesma forma, nosso Bispo Primaz é o “primus inter pares” (primeiro entre iguais) com os demais Bispos Diocesanos.
A Igreja Oriental nos legou outro aspecto eclesiológico através da Igreja Celta: um tipo de comunhão que estamos esquecendo, a Comunhão (koynonia) em Amor a Deus e a Unidade Eucarística. Temos dificuldade em vivermos, hoje, uma comunhão em Amor, pois ficamos sempre lembrando da nossa raiz ocidental, hierarquizada, monarquista e clericalista ao extremo, e esquecemos de nossos pés no oriente, primeiro em Jesus, e depois na Tradição Oriental, através dos cristãos celtas vencidos no Sínodo de Withby (séc.VII).
A Igreja Celta expressava sua comunhão com Deus e os outros, no amor e respeito mútuo, sem hierarquia absolutas. Assim, o bispo era bispo para fundar comunidades e ordenar, os abades organizavam e conduziam a Igreja Diocesana, os monges e padres cuidavam das comunidades, os diáconos ajudavam os padres e monges neste cuidado e o centro da vida era o mosteiros junto às aldeias, onde todos se reuniam para partilhar a suas experiências e traçar suas metas missionárias. Foi uma tentativa de resistir ao avanço da cosmovisão de Roma, marcada pelo Império. Assim, os cristãos celtas buscavam a colegialidade em amor e respeito mútuo, oriundo da eclesiologia oriental que, conforme Dom Koubetch nos explicita:
Do amor surge a comunidade como adesão pessoal e livre à fé professada de todo o povo. Provem do amor (que reúne, assemelha-se) […]. O ideal que está na base do conceito de amor é a realidade da comunhão, daquele fato resultante da unitotalidade e da unipluralidade, pela qual muitos são um, mas permanecendo pessoas diversas e livres. (Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental; p. 116).
Tal é nosso legado: uma relação de amor entre iguais, apesar de diferentes. Cada um com sua função e ministério diferente, mas sua ação e respeito eram únicos, visando a evangelização aos não cristãos e respeitando a diversidade cultural de cada localidade.
Isso significa ainda que a Igreja é simultaneamente uma reflexão que motive o ser humano a ser mais amoroso (ágape) em relação ao outro, ao cosmos e a Deus. A linguagem mais adequada para se aproximar deste mistério fundamental é a Teologia da Encarnação, algo específico para a comunidade cristã oriental. A teologia que nós herdamos do oriente através dos celtas, vive a tensão entre poder falar de Deus, pois Ele mesmo se revelou (dimensão katafática = revela-se a Si mesmo), e reconhecer que todo discurso sobre o Senhor não consegue abranger a grandeza e a profundidade do Divino (dimensão mysterium = o que está oculto, porém presente e perceptível).
Por ser uma reflexão sobre o Amor, a partir da diversidade, visando tornar o ser humano mais amoroso, a Teologia não pode lidar somente com conceitos. A história da Igreja, especialmente a partir das igrejas orientais, mostra uma grande conquista: o refletir sobre Deus a partir de conceitos abalizados no mistério. A Igreja necessita recorrer ao seu passado (Tradição) para lembrar do caráter testemunhal e lançar mão das analogias entre vida e fé. Só assim, numa pluralidade de linguagens e abordagens, deixar-se-á tocar pelo mistério amoroso de Deus.
Assim, não correremos o risco de cometer o erro de pensar em absolutos imperiais, os quais nunca fizeram parte da nossa Tradição Herdada, mas nos mantemos firmes em seu aspecto mais puro e embrionário, uma comunidade (comum-união) de amor, que expandiu o cristianismo não só nas ilhas britânicas, mas também entre os povos germânicos, francos e parte dos povos nórdicos. É interessante notar onde houve um contato com os monges missionários cristãos celtas  de alguma forma foi criado um cristianismo independente de Roma através de vários movimentos de reforma até chegar na Reforma no século XVI, uma renúncia ao Tomismo que marcou profundamente a Igreja Romana.
Por isso, é estranho perceber, em nossa Igreja Episcopal Anglicana, tendências de entender o Episcopado como poder centralizador e absoluto, disputado por grupos de interesse, partidarismos e encobrindo vaidades e projetos pessoais.
Mesmo a Igreja da Inglaterra, que não é nossa ancestral direta, mas indireta, que se expandiu através do Império Britânico, expansionista e colonialista, a partir do século XVII, teve o bom senso de estabelecer nas colônias Igrejas indígenas promovendo o desenvolvimento de clero local, inclusive episcopado, não vinculando a Missão à autoridade absoluta da Igreja Imperial. Segregacionista ou não, nas colônias inglesas sempre houve uma diferenciação entre a “igreja dos ingleses” e as nascentes igrejas de influência “anglicana” nas colônias, fiéis à sua concepção de não admitir ingerência estrangeira nas igrejas locais (cada povo, sua igreja).
Esse espírito marcou a formação da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, que não foi uma simples mudança de nome, mas uma união de diferentes confissões nas 13 Colônias, dando origem a uma Igreja de identidade nacional, respeitando inclusive a liberdade daqueles que preferiram manter-se independentes, em sua própria identidade confessional. Assim, ao surgirem como nação independente, os Estados Unidos já nascem com uma diversidade religiosa marcada pela liberdade de culto. É essa a visão eclesiástica que chega ao Brasil em 1889 com Morris e Kinsolving. Fiel ao seu próprio princípio fundante, a Igreja Mãe logo providencia o episcopado próprio para o Brasil, mesmo na pessoa dos missionários e ainda atrelado à estrutura da Igreja Mãe, mas sempre apontando o horizonte da emancipação, que começa de fato em 1950, com a eleição dos primeiros bispos nacionais (Pithan, Simões e Krischke).
Portanto, choca-nos perceber, nas recentes disputas pelo Episcopado, a incidência de projetos personalistas e de interesses pessoais, forçando inclusive interpretações das normas canônicas, aparentando uma visão absolutista do poder e/ou querendo impor padrões e dinâmicas de comportamento que são até mesmo estranhos à nossa Tradição Herdada. Perde-se o referencial evangélico, “o maior aquele que serve” (cf. Marcos 9.30-37 e par). Neste 17º Domingo depois de Pentecostes, Tiago o Justo, irmão de nosso Senhor, nos recorda em sua epístola:
   Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de "sabedoria" não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. (Tg 3.13-18 – Nova Versão internacional).
Rev. Daniel Rangel Cabral Jr,ost+  e  Rev. Luiz Caetano Grecco Teixeira, ost +
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19 de set. de 2012

Eu não sou “anglicano”!

Já fui! não sou mais! Prefiro ser o que era antes, desde que entrei na Igreja, que na época chamava-se Igreja Episcopal do Brasil (IEB), e alguns anos antes do meu ingresso ainda era Igreja Episcopal Brasileira. 

Sou Episcopaliano, ou como se dizia antigamente, sou Episcopal.  Estou com saudades da Igreja que eu conheci e que hoje parece estar moribunda!

Saudosismo decorrente da idade? Não! indignação por ver deteriorarem-se os valores que tocaram meu coração e me fizeram um apaixonado pela Igreja Episcopal, meu espaço de comunhão íntima com Deus, em comunidade!

(Aqui novamente peço a compreensão dos leitores não episcopalianos ou anglicanos por tratar de um assunto muito específico… mas talvez essa reflexão possa ajudá-los a refletir sobre suas próprias denominações)

O problema é que sob o substantivo (ou seria adjetivo?) “anglicano” se identificam muitas coisas, denominações e seitas, e adjetivos complementares sem qualquer nexo (anglo-qualquer-coisa)! Ou seja, não sei mais o que significa “anglicano” hoje! Antes era uma Comunhão! mas agora parece ser uma confusão!

Não nasci na Igreja Episcopal, mas a descobri por indicação de um Bispo Romano, amigo de minha família, aos 19 anos. Conheci a Igreja Episcopal e nela encontrei acolhida e espaço para desenvolver minha espiritualidade de recém convertido a Jesus Cristo, isso há 43 anos. Cresci muito na minha fé e espiritualidade graças à saudável combinação de Sacramento e Palavra, Liturgia e Escritura. Fui me tornando episcopaliano lentamente, de forma sadia, descobrindo as imensas riquezas da Igreja em sua diversidade. Não havia a frieza protestante da concentração racional na Palavra, nem o vazio de conteúdo dos ritos romanos cujos padres, à época, tratavam o povo como criança nos “sermões”.  Aprendi a conviver com os diferentes dentro do espírito de comunhão em Cristo e pertença a uma Comunidade cuja diversidade é sua identidade.

As diferenças não eram partidarismos, mas expressões de diferentes maneiras de viver a espiritualidade cristã, e isso não criava muros de separação nem de discriminação. Convivíamos todos em meio a um saudável clima de amizade solidária e bons debates teológicos sem que houvesse qualquer teor de personalismos e individualismos. Ninguém se autoproclamava dono da verdade, mas a Verdade se expressava em meio à diversidade de compreensões e experiências.

Era uma igreja ufanista, infantilmente ufanista! não era um ufanismo de poder, mas de imitação e auto identificação com a Igreja dos EUA; mas, ao mesmo tempo, havia o fato que, em nosso meio, todos eram bem acolhidos – antes mesmo de inventarem a tal inclusividade. Uma Igreja que crescia lentamente pela adesão de pessoas inteligentes que buscavam uma alternativa de vivência cristã engajada e espiritualidade solidária. Havia muitos problemas, falta de visão e planejamento e alguns personalismos, mas isso não nos afastava uns dos outros. Nós brincávamos com as nossas diferenças em clima de real amizade e verdadeira solidariedade. Nas reuniões litúrgicas ou de estudo das diferentes comunidades percebia-se claramente forte piedade e senso de compromisso.

Eu costumo dizer – e isso aprendi com meus mestres – que o nosso “ethos” não se aprende pela razão através de manuais ou confissões doutrinárias, mas através da vivência com a diversidade da Igreja, tendo o Quadrilátero de Lambeth-Chicago como pano de fundo. Apesar de toda pompa que havia em alguns cerimoniais das comunidades mais litúrgicas, havia uma simplicidade que se traduzia no acolhimento carinhoso de todos por todos. E apesar da simplicidade de comunidades mais próximas ao universo protestante, havia uma profunda piedade e reflexão a partir da Palavra de Deus e da Tradição Cristã com suas muitas vertentes. 

O clero não era arrogante, mas quase todos eram bons pastores, curas de almas como se dizia. Os Bispos eram homens simples, próximos, com senso paternal e ao mesmo tempo exerciam sua autoridade de forma segura e madura, embora em sua grande maioria tentassem centralizar a administração e não estavam preparados para isso; todavia, não estavam contaminados pelo espírito de príncipes ou da verticalidade hierárquica romanista. A Igreja se expressava através das dioceses, e o conceito de Província era muito mais um símbolo de unidade eclesial que burocracia estrutural eclesiástica e curial!

Como na maioria das Igrejas Históricas, a reflexão teológica existia e se expandia a partir do Seminário, ao qual fui admitido como estudante avulso (e pagava regularmente minha mensalidade sem descontos) quase ao mesmo tempo em que fui recebido na Igreja, porque eu pretendia estudar Teologia e buscar horizontes vocacionais – razão pela qual o Bispo amigo de minha família, um bom pastor, me sugeriu conhecer a Igreja Episcopal. O STIEB (Seminário Teológico da Igreja Episcopal do Brasil), na época sediado em São Paulo, era espaço ecumênico por excelência, tanto em nível docente quanto discente.

O lento aprendizado sobre o ser da Igreja Episcopal (“ethos”), a sabedoria pastoral do clero e dos Bispos com quem convivi, em verdadeiro espírito de companheirismo, fez minha vocação amadurecer por 14 longos anos de postulantado, mais um ano como Candidato às Sagradas Ordens. O fechamento do Seminário complicou minha formação teológica regular, mas graças ao carinho dos antigos professores e do Bispo Takatsu, fui estudando Teologia em diferentes instituições, e no então nascente IAET, sob a tutela do próprio Bispo, sempre às minhas próprias expensas (nunca fui bolsista da Igreja). Na mesma época eu estudava filosofia, economia e depois matemática;  trabalhava para me manter (fui analista de sistemas da primeira geração no Brasil); militava no movimento estudantil e no movimento ecumênico que era pouco institucional. Tempos da repressão e da ditadura militar, a Igreja (a bem da verdade, uma boa parte das Igrejas, não só a IEB) era espaço de resistência política, de reflexão ética e também de refúgio para os perseguidos.

Os tempos mudaram, a Igreja também…

Perdemos, cada vez mais, o senso salutar de diversidade em comunhão; aquilo que deveria ser simplesmente estilo e ênfase decorrentes de uma vivência pessoal ou comunitária ("churchmanship") vem se tornando movimento partidário provocador de desunião e antipatias, sendo profundamente segregacionista; já nos trouxe um cisma (Recife) e nos coloca sob risco de outros.  Tenho visto clérigos e seminaristas assumindo modismos e "tradições" sem realmente terem clareza do conteúdo - muita pompa e pouca igreja! Aproveitando uma ideia de Kierkegaard,
“A fé não é, pois, um impulso de ordem estética; é de outra ordem muito mais alta, exatamente porque pressupõe resignação. (...) Pois é necessário possuir força, energia e liberdade espiritual para efetuar o movimento de fé.” (in Temor e Tremor)
tenho para mim que preocupações exageradas quanto à forma indicam pouco ou nenhum conteúdo...

O problema da IEAB, e das Igrejas Históricas em geral, é que estão se tornando Igrejas Histéricas e Estéreis (e incluo também a Igreja de Roma) diante da onda neoliberal do individualismo e da prosperidade a qualquer preço. As Igrejas tentam compreender e enfrentar o mundanismo da pós-modernidade a partir de análises “científicas",  esquecendo-se que antes é preciso colocar-se de joelhos, e clamar pela Luz que vem do Alto...

Precisamos recuperar o senso de piedade salutar, ao invés de buscarmos modismos estéreis; deixar de catar a esmo riquezas do baú da Tradição Herdada sem refletir sobre as origens da Tradição; e parar de brincar com identidades que mal compreendemos ou são estranhas à nossa história e formação cultural como brasileiros e membros de uma Igreja que se enquadra historicamente no conceito de Protestantismo de Missão, embora tenhamos algo a ver também com o Protestantismo de Imigração, especialmente na região de São Paulo e Norte do Paraná (comunidades de origem japonesa).

Aposta-se hoje no crescimento da Igreja em termos da quantidade de gente atraída pelos artifícios do “marketing da bênção” e da venda de sacramentos para a vaidade da classe média decadente (“casar na Igreja do casamento do Príncipe!”), crescimento rápido sem conteúdo, clientela consumidora de rituais e de personalismos clericais ao invés de fiéis a Jesus Cristo. Há uma necessidade de expandir o mercado e atingir novas clientelas, bem de acordo com a proposta do neoliberalismo que assola o mundo. Tudo isso em busca de “recur$o$”  para garantir a sobrevivência de uma instituição que, nos últimos 35 anos, foi incompetente na gestão do enorme patrimônio legado pelas gerações passadas!

Eu entendo que a IEAB precisa se libertar de estruturas tacanhas que servem a interesses pessoais no "jogo de poder" insensato. É necessário fortalecer os ambientes diocesanos ao invés de, por exemplo, uma pretensa cúria nacional centralizadora e altamente estruturante que pretende vincular a si toda as articulações e ações da Igreja; o conceito de Igreja Nacional, na tradição que herdamos dos nossos fundadores diretos (missionários da hoje TEC – The Episcopal Church, E.U.A.), é mais voltado ao senso de unidade solidária que estruturas burocráticas. 

Note-se que a própria TEC está revendo suas opções estruturais retornando gradualmente ao conceito fundante do séc. XVIII: Igrejas Diocesanas com forte senso missionário, abrindo mão da enorme estrutura, caríssima, que por muitas décadas desenvolveu. Interessante ver esse senso de autocrítica na TEC, um exemplo para sua mais dileta filha na América do Sul... O excesso de burocracia estrutural, naquilo que deveria ser infra-estrutura, acaba gerando espaços ilusórios de centralização do poder em diferentes níveis e cultivam a cobiça...  (sobre isso veja meu relatório transformado em documento conciliar da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, datado de 2011 < clique aqui > 

Eu gostaria de propor que tivéssemos oportunidades de encontros do clero, em caráter sacramental, não para ouvirmos sumidades teológicas, sociológicas, técnicas ou de caráter social, mas como oportunidade de partilha em oração, intercessão mútua, troca de experiências pastorais e dividir a carga entre nós todos, não deixando apenas nas costas do episcopado, "suportando-nos (dando suporte) uns aos outros em amor..." (cf. Efésios 4.2).

Eu até estava me animando com a ideia de um futuro Encontro Nacional do Clero, mas isso acabou se tornando um evento formal, criado pela boa vontade de algumas pessoas, mas dentro da estrutura burocrática e hierárquica, com uma agenda elaborada a partir de velhos paradigmas. Eu esperava que houvesse um processo a partir dos grupos clericais locais e diocesanos, para exercitar a partilha e a convivência fraterna há muito perdida, até chegarmos ao momento da partilha ampla e nacional; um processo que estava surgindo de forma espontânea mas que foi atropelado pela burocracia institucional viciada em fazer as coisas estruturalmente, apesar da boa vontade e boa intenção das pessoas que tomaram à frente na organização do evento. Agora teremos mais um evento na agenda da estrutura nacional, profundamente artificial, do qual não me sinto animado em participar: já tem até uma agenda de atividades totalmente elaborada, tudo muito bem enquadrado… não questiono a boa intenção, mas a forma como a coisa foi encaminhada,

Parece que a Igreja, orgulhosamente auto identificada como “anglicana” e lamentando a existência de tantos outros “anglicanos”, acabou perdendo sua identidade mais original, de comunhão na diversidade, de autoridade dispersa e compartilhada, de vocação profética, de dons e ministérios geridos pelo Espírito Santo que – na minha maneira de percebê-Lo – é adverso a toda burocracia, pois sopra onde quer! (será que estou ficando pentecostal??? em tempos de neo-pentecostalismos histéricos, é até profético ser pentecostal!).

A Igreja está se perdendo na confusão dos partidarismos e da mesquinharia personalista de disputas internas: o poder não para o exercício da autoridade como serviço, mas como afirmação de poder pelo poder! E ninguém se dá conta que tal poder é tão ínfimo e sem consistência a não ser a ilusão da pompa e da circunstância!

Com tristeza leio Amós 4.4-13 e vejo ai um paralelismo com nossa história mais recente; temos deixado de lado a oração e a penitência, a busca de Deus e a santa obediência, seduzidos pelo demônio do sucesso a qualquer preço aliado ao desespero da auto $ustentação! Nessa busca desesperada, caçamos inspiração não em nossa própria Tradição, mas na cópia de receitas pouco salutares dentro do baixo evangelicalismo ou em imitações tacanhas de um romanismo velho e caduco, cheio de símbolos vazios, deslocados de nossa realidade e história, tudo para aumentar a clientela.

Mas eu confio no movimento do Espírito. Deus está se movendo e não nos deixará naufragar no mar de nossas própria confusões. Portanto, preparemo-nos todos para encontrarmo-nos com nosso Deus e Senhor (cf. Amós 4.12), mas confiemos também em Sua misericórdia e promessa quando afirmou que estará conosco para sempre (Mateus 28.20).

O Espírito Santo nos impele novamente a buscar as Escrituras e a estudar a Tradição Herdada, não como estética, mas como conteúdo reflexivo da caminhada de 20 séculos feita pela Igreja de Cristo entre acertos e erros, sempre sob a proteção de Deus e rendida (nem sempre) à Direção do Espírito Santo que nos foi enviado pelo Pai e pelo Filho!

Quanto a mim, não sou “anglo-isso” ou “anglo-aquilo” ou ainda “anglo-aquilo-outro”. Estou voltando a ser, cada vez mais, um Episcopaliano sem adjetivos complementares, como eu me tornei desde quando optei pela Igreja Episcopal e nela fui acolhido com carinho pastoral e solidariedade. 
Amém!
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