Mostrando postagens com marcador Pessoal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pessoal. Mostrar todas as postagens

21 de jun. de 2026

O SENTIDO DA VIDA (III – Sobre Vaidade e Conclusão)

 (continuação >>> veja antes: I - Sobre Ciência e Universo  e  II - Sobre Vida e Ser Humano.

Vaidade

O livro bíblico Eclesiastes me impressiona desde que o conheci, por volta dos 15 anos. Sinceramente, se há algo útil e profundo no Antigo Testamento, é esse livro. Não desprezo outros, mas o Eclesiástico é profundamente honesto, sem apelações “espirituais” (de certa forma, profundamente materialista), e responde à pergunta pelo “sentido da vida”.

Com frieza impressionante, demonstra que tudo é vaidade, ou seja, nada tem sentido! Implode com o maniqueísmo que permeia a Bíblia, e nega a meritocracia salvadora após a morte, sempre repetida pelos pregadores da “palavra de deus”. Apenas constata o vazio da existência.

O Capítulo 9 do Eclesiástico é um primor de ironia e, ao mesmo tempo, denunciador das ilusões que infestam a vida humana.

Conclusão

¹ Dediqueime a tudo isso e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, bem como o seu trabalho, estão nas mãos de Deus, mas ninguém sabe o que o espera, seja amor, seja ódio. ² Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não os oferece. O que acontece com o homem bom acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos acontece com quem teme fazêlos. ³ Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: o destino de todos é o mesmo. Além do mais, o coração dos homens está cheio de maldade; a loucura o domina enquanto vive, e, por fim, eles se juntam aos mortos.  ⁴ Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto! ⁵ Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não há mais recompensa, porque a sua memória cai no esquecimento. ⁶ Para eles o amor, o ódio e a inveja há muito desapareceram; nunca mais terão parte em nada do que acontece debaixo do sol. ⁷ Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho com o coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. ⁸ Esteja sempre vestido de roupas brancas e unja sempre a sua cabeça com óleo. ⁹ Desfrute a vida com a mulher que você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois esta é a sua recompensa na vida pelo trabalho que você realizou com esforço debaixo do sol. ¹⁰ Tudo o que vier às suas mãos para fazer, façao com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria. (Eclesiastes 9:1-10 | NVI)

Pensar sobre  o sentido da vida é pura vaidade, porque não há sentido para a vida. Ela é uma consequência das leis físicas e químicas que fazem o Universo ser o que é. Vaidade e idiotice! No contexto do Universo, a vida é uma consequência de determinadas coincidências simultâneas, apenas isso!

Portanto, na nossa insignificância diante do Todo, a busca pelo Transcendente nos leva a imaginar um criador porque tudo deve ter tido um início. Essa afirmação é filosoficamente idiota, porque se nada pode ser eterno (sem início) a pergunta se volta sobre o tal criador: Se tudo teve de ser criado, quem criou o criador? Se responder que o Criador não foi criado, a afirmação nega a si mesma...(a falácia da lógica religiosa!).

Concordo com o Eclesiastes. “7 Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho com o coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. ⁸ Esteja sempre vestido de roupas brancas e unja sempre a sua cabeça com óleo. ⁹ Desfrute a vida com a mulher que você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois esta é a sua recompensa na vida pelo trabalho que você realizou com esforço debaixo do sol. ¹⁰ Tudo o que vier às suas mãos para fazer, façao com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.

Quando isso não for mais possível, não há mais comida saborosa e vinho, não há mais roupas brancas, não há mais óleo, não há mais a(s) mulher(s) amada(s), e não há mais nada que se possa fazer de útil até porque falta força, resta seguir o rumo caótico do Universo, deixar vir a morte para que a vida continue surgindo (como sempre) a partir da morte.

Por isso, sempre há o momento de seguir rumo a Narayama, este é o sentido final para a vida. A última vaidade! Porque, com você ou sem você o Universo continua, e a idiotice humana permanece.

===/===

29 de mai. de 2026

O SENTIDO DA VIDA (II – Sobre Vida e Ser Humano)

(continuação >>> veja antes: I - Sobre Ciência e Universo

Vida

A probabilidade de existir vida fora do nosso planeta é considerada alta pela maioria dos cientistas. As estimativas são de quase 100% de probabilidade para existência de vida microbiana simples (micro organismos – vegetal ou animal), devido a vastidão do universo. Em tal vastidão, estima-se a existência de trilhões de planetas com as mesmas condições para a existência de vida, isto é, planetas com características iguais ou semelhantes à Terra (não cabe aqui explicar as tais características).

A possibilidade de vida inteligente (como presumimos que sejamos) existe, mas é incerta, isto é, dependendo dos parâmetros utilizados os resultados diferem significativamente., Nada que se conhece comprova se existe ou não vida inteligente no Universo, além da Terra. Talvez nunca saibamos.  

Em resumo, a probabilidade de existirem microrganismos ou vida simples além da Terra é alta, enquanto vida complexa ou inteligente é debatida, mas considerada possível. Nesse sentido, a discussão e estudos do Paradoxo de Fermi nos levam a considerações muito curiosas e surpreendentes. Talvez haja vida inteligente além do nosso planeta, ou talvez existiram civilizações no universo antes mesmo do surgimento do nosso sistema solar, mas já estão extintas. Sugiro que o leitor pesquise sobre isso (Paradoxo de Fermi), se for uma daquelas pessoas que ainda tenha curiosidade, neste mundo modernoso (moderno e horroroso) onde a imbecilidade cresce exponencialmente a cada dia (claro, pelo interesse das elites diabólicas que nos dominam, quer gostemos ou não).

Aqui estamos falando de vida como nós a entendemos em nosso planeta. Na verdade, não se tem certeza do que exatamente a vida é... tampouco se ela poderia existir de maneira diferente daquilo que chamamos vida. Porém avançar nessas especulações não serve para o objetivo deste artigo. Vamos nos concentrar na vida que existe na Terra, mas também admitindo que pode haver outros modos da vida ser e existir, seja em nosso planeta, seja no resto imensurável do Universo.

Ser Humano

Considerando o tamanho e a idade do Universo, nós somos efêmeros e não temos relevância. Nosso tempo de vida e o tempo da nossa História como espécie, é ridiculamente minúsculo diante do Universo. Pensar nisso e constatar isso é, de certa forma assustador e angustiante, pois nos descobrimos irrelevantes e absolutamente inúteis, cuja existência nada significa.

Diante do Universo, nossa vida, nossa História, nossa existência não tem qualquer significado. O Universo continua existindo quer estejamos presentes, quer não. Não temos nenhuma influência ou controle sobre isso.

Essa sensação de sermos irrelevantes diante do Universo é presente na humanidade desde seus primórdios. Ao mesmo tempo, nos sentimos atraídos por algo além dessa realidade, algo que dê sentido e significado ao fato de existirmos.

De certa forma nossa mente necessita perceber algo além da nossa imanência. Intuímos a transcendência, sem ter claro exatamente o que isso seja. Inventamos a Religião: há Algo, há Alguém, além da realidade tangível cuja existência justifica e explica tudo (eu diria, quase tudo, mas não tudo absolutamente; tal compreensão depende do nível de conhecimento que cada pessoa tem sobre o Universo). 

As propostas existentes, a respeito disso, são bem aceitas pela maioria simplista e o senso comum (que geralmente erra!), mas são questionáveis pelas mentes mais inquietas... afinal, a Filosofia também surge da mesma sensação que gera a Religião, embora não formule respostas conclusivas – como na Ciência, na Filosofia não há certezas dogmáticas.

A busca pelo sentido da vida é uma busca inútil! Diante do Universo, ela não tem sentido, até porque a vida (a nossa vida) não tem nenhuma importância objetiva no contexto do Universo. Ele funciona independente de cada um de nós.

Até mesmo a Ciência, como vimos antes, não dá resposta a isso. A Ciência aprofunda ainda mais o abismo existencial, à medida em que avança a partir da dúvida e da incerteza. E todo o avanço que alcançamos em nada nos garante melhor compreensão e caminhos de busca.  A soberania do Universo e a nossa insignificância permanece sempre igual.

Sinto muito pelo pessimismo, mas melhor ser pessimista que ufanista do vazio!

===/=== >>> continua na postagem seguinte

27 de mai. de 2026

O SENTIDO DA VIDA (I - Sobre Ciência e Universo)

Ciência

Antes de tudo, é necessário um esclarecimento sobre o que é Ciência, corrigindo os equívocos que são intencionalmente proclamados pela deseducação planejada pelas elites e bem divulgadas pela mídia por elas controladas.

A Ciência não se preocupa em afirmar verdades!  Sempre fomos levados a acreditar que “tal e tal coisa está cientificamente provada”. Isso é uma enorme asneira, pois há pouca coisa provada cientificamente, e não é objetivo da ciência afirmar verdades categóricas e dogmáticas. Ciência não é Religião!

Para a Ciência, algo que é provado ser verdade, denomina-se “Fato Científico”. Por exemplo, a Gravidade é um fato científico! Sua existência é provada, e conseguimos demonstrar  como ela funciona e até podemos - de certa forma - usá-la em nosso benefício. Porém, sobre o que ela é, de fato, há várias Teorias, contraditórias entre sim em diversos aspectos; ou seja, não sabemos exatamente o que é a Gravidade, mas sabemos como ela atua e como lidar com ela. Aliás, a Gravidade é uma prova de que o planeta não é plano, mas tridimensional e esferoide. Lamento informar aos fanáticos que a Teoria da Terra Plana já nasceu destruída e sobrevive graças à idiotice e propostas políticas cruéis e insanas; nem mesmo é Teoria! kkkk!

Quando a Ciência apresenta uma Teoria, não está proclamando uma verdade absoluta; está apenas afirmando que é, no presente momento, a melhor e mais consistente explicação para determinado fenômeno observado. É preciso provar que a Teoria está absolutamente correta para que ela se torne um Fato Científico. Porém, muitas teorias não podem ser confirmadas em definitivo com todo conhecimento que acumulamos até hoje; continuam teorias e como tal são utilizadas, Muitas delas, inclusive, jamais poderão ser provadas de forma definitiva, e são úteis até que surja outra mais consistente, Se há uma "confissão de fé" para um cientista, pelo menos para mim, é a "Confissão de Sócrates" - tudo que sei é que nada sei!

A maior parte do trabalho científico é lidar com as teorias, seja tentando prová-las, seja tentando derrubá-las, ou apenas utilizando-as como base para novas pesquisas. O que move a ciência não é a busca pela verdade, mas a dúvida! A busca pela verdade, se é que isso existe, é problema da Filosofia e não da Ciência, embora a Ciência precise da Filosofia para ser consistente. Mas a própria Filosofia se recusa a dar respostas absolutas. É a Religião que faz afirmações absolutas, que afirma "certezas definitivas".

Universo

Nós costumamos pensar o Universo de forma ingênua. De fato, observado a partir de onde vivemos, o céu noturno sempre causou admiração e medo aos seres humanos, desde sua origem. Milhares de pontos luminosos cintilantes na abóbada escura, as fases da Lua, tudo isso em movimento lento e constante. Aos poucos fomos criando uma visão idílica sobre o Universo: é lindo, é harmonioso, é maravilhoso... 

Todavia, quem realmente estuda e compreende o Universo sabe que não é assim! Na verdade, é caótico! Um constante movimento de criação e destruição, de vida e morte; nada é permanente, nada é estático, nada é perfeitamente equilibrado; tudo é aleatório, ou seja, regido por probabilidades e não certezas absolutas,

Podemos compreender, até certo ponto, as leis que regem o funcionamento do Universo. Hoje em dia podemos até enxergá-lo nos seus pontos mais distantes com a tecnologia que dispomos. Isso significa enxergar como o Universo era no passado, porque tudo que vemos fora da Terra, é passado; as luzes que vemos no céu noturno (e diurno) demoraram, cada uma, um tempo para chegar até nós. Quando vemos o Sol, por exemplo, o vemos como estava há aproximadamente oito minutos atrás; quando olhamos a estrela Sirius, vemos a luz que de lá saiu há 6 anos... e assim por diante. Hoje vemos estrelas que já não existem, mas sua luz, emitida há muito tempo, continua chegando até nós.  E há partes do Universo que não vemos, porque sua luz ainda não nos atingiu; há estrelas surgindo hoje, que jamais veremos... fantástico, não é? 

Nós, humanos, somos seres que se entendem inteligentes; conseguimos elaborar um discurso consistente sobre o que observamos, e tentamos dar um sentido para a existência. Porém, vivemos em um minúsculo planeta que orbita uma insignificante estrela, a qual está dentro de uma galáxia que é parte de um grupo galáctico, o qual junto com outros forma um supergrupo... e assim infinitamente. Isso nos causa espanto permanente e provoca nossa inteligência. Assim nasceu a Ciência, e - também - a Religião (sei que isso é afirmação simplista, mas cabível aqui, ou teria de escrever outro artigo a respeito).

O que chamamos de Universo, segundo uma grande parte dos cientistas, existe há pouco mais de 13 bilhões de anos – uma quantidade de tempo que nem mesmo conseguimos imaginar sua real dimensão. 

Ainda, segundo tais cientistas, o Universo surgiu a partir de um evento extraordinário, denominado “Big Bang” (os que se opõem a essa Teoria, jocosamente, o denominam de “Estrondão”). Outra Teoria, que vem crescendo entre os cientistas é a afirmação que o Universo sempre existiu. Eu me sinto mais à vontade nesse segundo ponto de vista, enquanto físico e matemático, até porque a Teoria que afirma o Big Bang começa a ser seriamente contestada pelas mais recentes descobertas feitas com o uso dos modernos telescópios espaciais, e avanços recentres no desenvolvimento da Física e da Astrofísica..

Tudo que afirmamos sobre o Universo, as diferentes teorias, tudo isso, é sempre provisório! Novas observações, novas pesquisas, podem fazer desmoronar conceitos, formulações, e mesmo Teorias, até então aceitas. Mas nenhum cientista perde o sono por causa disso. Ser cientista é não duvidar da dúvida!

Como afirmei acima, a Ciência se move pela dúvida; Ciência não é fé!  Ciência não é Religião, embora muita gente, hoje em dia, faça da Ciência um tipo de "crença", seja para afirmá-la, seja para combatê-la.

===/=== >>> continua na postagem seguinte.


30 de mai. de 2025

Crônica do ano 75

 Hoje completo 75 anos de vida e nesta semana completei 40 anos de ordenação ao diaconato na Igreja Episcopal (cujo sobrenome é Anglicana do Brasil).

Não sei dizer se foram bem ou mal vividos, porque são conceitos vagos e sem significado real. Mas posso dizer que algumas coisas que vivi deixaram fortes impressões em mim e em outras pessoas, companheiros e companheiras de caminhada. Algumas positivas, o sentimento de que fiz bem-feito nas diversas áreas em que atuei profissionalmente, que cumpri meu dever como cidadão e como cristão; outras, negativas, com o arrependimento pelo mal que fiz – de forma consciente ou inconsciente – e mágoas que causei.

Muita gratidão, especialmente àquelas pessoas a quem magoei, mas me perdoaram!

O Magistério

O magistério e o estudo foram realmente minha razão de viver. Hoje reconheço que nasci para ser professor. Ensinando, aprendi muito, inclusive como não ensinar! Isso devo à educação escolar que recebi, graças ao esforço dos meus pais e aos excelentes professores e professoras que me serviram.

Sou fruto da educação de qualidade que existia no Brasil, inclusive nas escolas públicas, antes da ditadura militar estragar tudo e reformular completamente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação em 1970. 

Desde a infância, antes da ditadura, minha geração foi preparada para um mundo que, infelizmente, não veio a existir; na escola aprendíamos como aprender, e não apenas conhecer  coisas. Aprendíamos a pensar, a perguntar, a questionar; não éramos "treinados" para o conformismo nem para a obediência alienada... por isso, a ditadura teve de liquidar com a educação brasileira; era uma educação perigosa para os interesses das elites nacionais e mundiais (que, na verdade, promoveram e ainda promovem todos os golpes nazifascistas do mundo).

A maioria do pessoal da minha geração acabou se deixando modelar. Os "anos de chumbo", a tortura, a mídia controlada (e a grande mídia a serviço dos poderosos), desestimularam a inteligência e destruíram o caráter democrático; é mais fácil se conformar... e "cuidar da vida"! “Consumir e “ser feliz”!

Outros se permitiram fingir e manter sua inteligência funcionando disfarçadamente. Outros, bem poucos, assumiram com coragem a resistência - nem sempre de forma inteligente - e sofreram as consequências, quase todas trágicas.

Quarenta anos de Ordenação

Hoje tenho mais tempo de vida como clérigo que como leigo. A vocação surgiu a partir do encontro com Aquele Sujeito a quem chamam de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, Deus Filho, etc, etc. Para mim, prefiro reconhecer n'Ele o Logos! "kai o logos sarx egeneto" ( “E a Palavra se fez carne”, cf. Evangelho de João 1.14a), sem nenhum outro conceito doutrinário e bizantino incluído.

Como Diácono, e depois Presbítero, sempre considerei muito importante o ensino da Bíblia, na verdade, os Estudos Bíblicos e sempre busquei  - nas pregações - a ênfase na exegese e na hermenêutica a partir do contexto da comunidade onde estive servindo. 

Isso aprendi no Seminário, um princípio bem dentro do "ethos" anglicano: ajudar a comunidade criar sua própria visão teológica a partir da sua história e da tradição herdada, em releitura permanente porque a realidade histórica é sempre mutável. Bem, não cabe aqui avançar nestas conceituações. Este blog está cheio de artigos sobre isso. 

Desajustado

De certa forma, sempre fui um "desajustado". Quando criança, preferia ler que brincar, embora eu tenha brincado muito, moleque de rua mesmo! Havia muitos livros em casa, e eu li quase tudo: Enciclopédia Barsa, Lello Universal em dois volumes, a coleção completa do Tesouro da Juventude, toda a obra infantil e a "para adultos" do Monteiro Lobato, as Obras completas do Humberto de Campos, romances  do Alexandre Dumas (pai e filho), e outros que não recordo o nome.

Na adolescência, por mim mesmo e pelas aulas de literatura,  descobri Herman Hesse, Aldous Huxley, Franz Kafka, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Machado de Assis, Vinícius de Morais, George Orwell, Augusto dos Anjos, Cora Coralina, Adélia Prado, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Drumont e muitos outros autores e autoras, não só literatura, mas também ciências naturais, ciências humanas, e até filosofia (olha só!) que hoje dizem não servir para nada; enfim, coisas que hoje não interessam a mais ninguém nesta sociedade propositalmente idiotizada, moldada para consumir e adoecer pensando ser feliz.

Me envolvi com teatro, com o Oficina, com Augusto Boal, Luiz Carlos Arutin, com o Arena, Ricardo Bandeira... cantei em corais, e fiz coisas que nem sei se ainda existem hoje.

No Seminário fui aluno de Jaci Maraschim, Rúben Alves, Glauco Soares de Lima, Frei Gorgulho, Dirson Glênio Vergara dos Santos, Natanael Duval da Silva, Rodolfo Garcia Nogueira, Sumio Takatsu; fizeram a minha cabeça pensar muito e perder os poucos parafusos do convencional bem ajustado que ainda existiam.

Os Professores e as Professoras, desde o Fundamental até a Universidade, nos desafiavam e nos incentivavam a ler, a pensar e questionar, a dialogar com o que líamos. Assim, a gente aprendia a aprender! 

Hoje não se aprende. Hoje não se lê. Hoje a idiotice impera graças à tecnologia sob controle absoluto dos ignóbeis que formam a elite mundial.

Se eu fui "desajustado" desde pequeno, continuei a ser assim até hoje. Falo o que não querem ouvir, escrevo para quem não lê, vejo o que não querem ver ou que seja visto... resultado: sou neurótico, me tornei pessimista, e minha fé não é lá aquela coisa "bonitinha" e romântica das pessoas religiosas, cujo "deus" as mantém idiotas e sempre culpadas – um deus sádico e cruel.

Os que ainda tentam pensar, são considerados “desajustados”, um perigo para as elites tacanhas do mundo.

Daqui para frente

Este não é um momento de nostalgia, arrependimentos ou sei lá mais o quê. O futuro será cada dia pior na sociedade e, em nível pessoal: saúde, solidão, distância e a sensação de continuar sendo o "estranho no ninho".

A esperança já não existe! A fé... cada vez mais distante... porque o que sobrou do cristianismo hoje em dia não presta, não consola, não motiva, virou religião burocrática que fez de "deus" um meritocrata. 

Porém, eu não posso negar a experiência que vivi no encontro com a Transcendência, por mais babaca que tenha sido essa experiência; e, por mais que eu possa entender racionalmente o que aconteceu, não posso negar o que "eu vi"!

Por isso, permaneço na Igreja, embora longe das comunidades de fé, mesmo sabendo que a Igreja que eu amei não existe mais. Perdeu-se na institucionalidade sem propósito, como todas as demais, mantendo os paradigmas equivocados que, desde o século III, liquidaram com o Movimento de Jesus. Todavia, ainda existem, espalhadas por ai, comunidades de fé na Igreja, e isso anima porque, de alguma forma, a Igreja de Cristo sobrevive apesar dos pesares.

No mais, devido a saúde e as condições financeiras, estou condenado a viver aqui, neste lugar, o resto do tempo de vida (que espero seja pouco), sem poder viajar, rever as pessoas que amo, não ter uma comunidade de fé onde eu possa participar (e congregar, porque assistir culto ou missa ou seja lá o que for, não é o mesmo que congregar).

Não estou feliz, e acho que Deus se mandou; não consigo mais orar... talvez eu tenha me mandado, de tanta decepção.

Gasto um dinheiro que seria mais útil para minha família; cada manhã é o mesmo suplício de "mais um dia de merda". A saúde acabando e daqui pra frente é só sofrimento e mais frustração. Envelhecer é uma merda! Proibir morte assistida é uma crueldade! Julgar um suicida a partir de uma moral esdrúxula é a maior contradição dos religiosos...

É hora de ir embora. Não tem por que continuar por aqui. Não há o que esperançar!

Hoje, por favor, não mande mensagem de “Feliz Aniversário”. Eu sei que, para muitos de vocês, é a sincera manifestação de carinho e amizade. Mas peço isso porque não estou feliz e não será um dia feliz, será como os outros dias: vazio, sem sentido e sem esperança; angustiante.

Apenas ore por mim e pela minha família!

Andradas (MG), 30 de maio de 2025

=/=

17 de mar. de 2020

Céu e Inferno

     Os cristianismos têm muitas contradições. Uso “cristianismos” porque existem vários. Não estou falando da Fé em Jesus Cristo, mas das diversas modalidades da religião chamada Cristianismo. Algumas dessas contradições são comuns a todas modalidades do cristianismo; outras se aplicam a algumas modalidades.  Não identificarei as modalidades neste artigo, pois seria emitir julgamento sobre modalidades que não conheço em profundidade, embora eu conheça várias; caberá ao leitor fazer tal identificação se sentir habilitado para isso.Vou falar de uma dessas contradições.
     O cristianismo é dualista; afirma a dualidade “Bem” e “Mal”, e define dois “lugares” para a “vida” após morte, a “vida eterna”: 
   O chamado Céu, “lugar” onde Deus habita, é reservado às pessoas que em vida cumpriram a vontade de Deus, arrependeram-se de seus pecados, etc.; um prêmio. 
O Inferno, todavia, é o “lugar” onde o Diabo vive e preside, é o lugar do castigo; lá Deus não está. 
Em outras palavras, isso se baseia em merito – os bons vão para o céu, os maus para o inferno – a cada um o que merece! Parece um critério de justiça humana… 
     Afirmam, a maioria dos pregadores e catequistas, que – segundo as Sagradas Escrituras – no “final dos tempos” (entendido como “final do mundo”) Deus estabelecerá seu Reino definitivamente. Lá viverão os fiéis, ressuscitados em um corpo excepcional, os que praticaram o bem e aceitaram a salvação através da morte e ressurreição de Jesus, reconhecendo-O como Senhor e Salvador.  Já os maus, os que recusaram a Salvação (e ai se enquadram todos os fiéis de outras religiões, inclusive), viverão para sempre no fogo eterno do Inferno.
     Algumas tradições, originárias da Idade Média, afirmam ainda que existem mais dois “lugares” onde ficam as almas que não foram para o Céu, nem para o Inferno, por diversas razões: o Purgatório – reservado para as almas dos que não tendo sido muito bons, precisam ainda sofrer penalidades para serem limpos (purgados) e ganharem o céu – e  o Limbo, onde ficam as almas dos nascituros não batizados (cujo único pecado é o herdado por serem humanos), os bons ateus e fiéis de outras religiões que se comportaram de acordo com os princípios morais cristãos.
     Embora “Purgatório” e “Limbo” não fossem reconhecidos pela Reforma, hoje, onde fazem parte da doutrina, não estão mais sendo citados… estão sendo abandonados mas não desmentidos!

1. Contradições
    Os conceitos acima relacionados provocam várias contradições. Vejamos algumas:
1.1 – Empate: se sobrarão o Céu dos bons e o Inferno dos maus, o jogo da história terminará empatado: Deus com seu reino celestial e o Diabo com seu reino infernal. Ninguém ganhou! Será traçado uma linha divisória entre os dois reinos… um abismo… de modo que quem está em um não poderá passar para o outro. O Bem e o Mal permanecem para sempre! Venceu a meritocracia, Deus e o Diabo estão felizes…
1.2 – Onipresença de Deus: se Deus não está no Inferno, então não é Onipresente, como afirmam os catecismos. Há um “lugar” onde Deus não está!
1.3 – Almas perdidas: o que acontece com o Purgatório e o Limbo, no final dos tempos? Em relação ao Purgatório, parece fácil: os que sobraram lá não completaram a purgação, portanto vão para o Inferno. Quanto ao Limbo, ou ele permanece (ficaria um terceiro lugar no final dos tempos) ou as almas ficam em lugar nenhum, perdidas sei lá onde. Fica a pergunta: Deus estaria lá ou não? Se sim, então as alminhas iriam para  Céu, não precisava do Limbo; se não, então as alminhas iriam para o Inferno, também não precisaria do Limbo… que confusão!
     Fiz tais perguntas quando tinha 11 ou 12 anos, em uma aula de religião no colégio dos Irmãos Maristas onde estudei. Realmente, eu estava muito preocupado com essas alminhas, pois havia perdido um irmão que morreu antes de nascer. O bom Irmão que lecionava a matéria disse que isso ficaria por conta da misericórdia de Deus e seria um mistério….
     Ainda bem que os Reformadores do século XVI recusaram aceitar tais conceitos …
2. Afinal, o que é Inferno?
     A palavra “inferno” deriva do latim “infernum”, que significa “as profundezas”, o “mundo interior”.  Deriva de “inferus” no latim pré-cristão, significando “lugares baixos”.
    Essa palavra latina  foi utilizada como tradução da palavra grega “Hades”, lugar dos mortos, nome também da divindade pagã que o governa, o deus Hades (Plutão dos romanos), entendido como local escuro e insalubre.
    Por sua vez, Hades foi a palavra grega que traduziu o termo hebraico “sheol” – lugar dos mortos, cuja origem é incerta, com hipótese de ter origem nas línguas dos acádios e sumérios. A Bíblia Hebraica usa o termo sheol (65 vezes) para se referir ao submundo dos mortos retratado como um profundo e escuro abismo. Na Bíblia o termo está estritamente relacionado a abismo e sepultura. Segundo o pensamento israelita antigo, o “sheol” seria um abismo escuro e silencioso situado nas profundezas da terra, para onde todas as pessoas iam depois de morrer. “Sheol” é também a “sepultura” ou “morada de todos os mortos indistintamente”. Não é um local desejável de se ir, exceto quando preferível a um grande sofrimento aqui na terra dos vivos.
    Na Bíblia Hebraica, bem como em sua tradução grega (Versão dos LXX), e no Novo Testamento (onde aparece como Hades) não há o ensino de que era um local de fogo e tormento dos maus como na ideia medieval (e atual) de inferno. Em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento, Sheol (no NT grego, quando não traduzido por Hades) também se refere o local onde era jogado o lixo das cidades, permanentemente ardente de fogo por motivos óbvios de saneamento. Talvez venha daí a ideia medieval de inferno, que perdura até hoje. 
3. Penas Eternas e Maniqueísmo
    Por se recusarem a aceitar o conceito de “penas eternas” muitas pessoas foram classificadas como hereges e foram punidas pelas respectivas denominações. Por isso, para não dar margem aos oportunistas que não gostam de mim, afirmo que CREIO nas penas eternas… (será mesmo? rsrsrsrsrs)
    A dicotomia Bem e Mal é antiquíssima: vem do mundo persa, do Zoroastrismo; em resumo simples, afirmava haverem duas divindades: a divindade do Bem e a divindade do Mal. Também dai derivam os fundamentos para o conceito de Salvação, comum a vários credos religiosos desde a antiguidade, passando pelo judaísmo e pelo cristianismo, incluindo o pensamento mulçumano e as especulações Kardecistas.
    No meio cristão esse dualismo é conhecido como Maniqueísmo, devido ao ensino de Manes (ou Maniqueu), filósofo persa do século III, que associou  o Bem a Deus e o Mal ao Diabo. Manes juntou conceitos do zoroastrismo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo, considerando Zoroastro, Buda e Jesus como "pais da Justiça", e pretendia, através de uma revelação divina, purificar e superar as mensagens individuais de cada um deles, anunciando uma verdade completa1.
    Embora repudiado como pensamento herético, o maniqueísmo se firmou de forma sutil no pensamento cristãos, servindo de referencial ainda hoje, e – inspirando interpretações da bíblia – acabou criando, no cristianismo, o triste conceito dualista de sagrado e profano, vida do mundo e vida do espírito, e ainda hoje muitos cristãos e cristãs se afirmam fugir do mundo para não se contaminar por ele… (contradição: Jesus orou ao Pai para não nos tirar do mundo, mas nos livrar do Maligno! – João 17).
    O pensamento maniqueísta gera um conceito de justiça significando castigo para os maus, criando assim uma escala de valores que hoje seria chamada de meritocracia. Nesse conceito, é justo que os maus sofram para sempre (sentimento de vingança!) e os bons sejam premiados. E o cristianismo foi criando uma enorme diversidade de “quem é mau”: os que não obedecem à Lei de Deus os que não aceitam Jesus Cristo, os que morrem em “estado de pecado” (quem define o que é pecado?), os crentes de outros credos, ateus, quem foge da “moral sexual”, e por ai…
    Assim, como Deus é justo, Ele pune os maus de forma cruel! sem misericórdia! Em total contradição com o significado de Justiça apregoado na Bíblia, que é sempre paralelo ao de misericórdia e  de graça. Quando ouço certos pregadores fazendo a apologia do inferno, especialmente condenando quem pensa ou se comporta diferente, penso cantar o Hino: “Tu é cruel, Senhor, meu Pai Celeste…” ao invés de “Tu és fiel…” Nesse caso, Deus não se diferencia do Diabo, o qual, aliás, seria mais bondoso, pois “premia” sem exigências…
     Na lógica maniqueísta, se os maus não forem castigados, que adianta fazer o bem?
4. Então, vai todo mundo para o Céu?
    Não penso assim! aliás, não penso nisso!
    Creio em Jesus Cristo e vejo seu Reino como horizonte utópico 2 , creio que o alegado “Tribunal de Deus” não se baseia em direito penal, mas em paternidade carinhosa e misericordiosa. Quanto aos mortos… e a vida após a morte… isso é simplesmente uma questão de fé!
    A Igreja dos primeiros séculos compreendia o “Inferno” como Hades. Assim, o Credo de Nicéia afirma que Jesus, depois de ser crucificado, desceu ao Hades (Inferno), não ao reino de Satanás, o qual foi vencido na Cruz.
    Para finalizar quero dizer que no NT há várias passagens que fala da morte eterna. em contraposição à vida eterna. Assim,  não se refere a Infernos, locais de castigo, mas simplesmente à não vida eterna. Ainda assim… parece meritocracia!
    Você dirá: se não há mérito, então por que fazer o bem? Porque, simplesmente, fazer o bem é realizar aquilo para que fomos criados por Deus: sermos bons porque Ele é bom! Fez algo mau? arrependimento, colocar-se diante do Senhor confessar e pedir perdão, quando possível, reparar o mal feito… pelo menos, pedir desculpas… e não fazer mais!
    Ah! vc é ateu? não crê em Deus? então perdeu tempo lendo este texto. I am so sorry!
---/---
Notas:
1 - para mais esclarecimentos, pesquise ´na internet; o texto da Wikipédia é muito bom.
2u-topos: não lugar ainda; diferente de a-topos: nunca lugar.

8 de dez. de 2018

O Pai Nosso Ecumênico. Ecumênico???

Eu não uso o tal Pai Nosso ecumênico. Tenho meus motivos.

1) "Que todos sejam um como Eu e o Pai somos um!” (João 17.21). Ao dizer isso, Jesus não quis dizer que todos sejam iguais! Até porque Ele e o Pai não são iguais. Quem gosta de uniformidade para garantir a unidade não entende o que é unidade. A mesma coisa é uma coisa só, é solidão e padronização. Ora, o Espírito Santo promove a diversidade:  a diversidade de dons, de línguas e, inclusive, de comunidades de fé (Igrejas). É exatamente o mover na diversidade que deve ser o mover ecumênico, não a padronização.  Porque não haveria relação ecumênica se não houvesse diversidade. Quem confunde acreditar em dogma com fé, não pode ser, de fato, ecumênico. Faz de conta que é… mas no fundo tem horror à diversidade porque não consegue conviver com os que têm a experiência da fé diferente de seus dogmas, os quais, por serem dogmas, são absolutos – são padronizados. Todo mundo tem de acreditar igual ou é anátema! Bem, acho que sou anátema!!!😈

2) A Oração Dominical dita "Ecumênica" é fruto do Ecumenismo Institucional, algo que na verdade não é Ecumenismo, mas o "faz de conta que a gente se gosta", pois seu horizonte é que "todos sejam uma única Instituição!" 
Interessante que antes da Igreja Romana se apresentar como "Ecumênica" (vários Papas consideraram o Ecumenismo um erro) entre o povo ecumênico protestantew, nós - episcopais - já dizíamos "perdoa nossas dívidas assim como nós também perdoamos...", nunca houve problemas nas celebrações ecumênicas, onde inclusive se celebrava a Ceia do Senhor!
Aliás, depois da chegada da Igreja de Roma, não se podia mais realizar a Santa Eucaristia de maneira ecumênica, ou seja, ecumenismo é só "amizade", não comunhão! (que coisa mais anti-ecumênica!) Antes de Roma chegar, o ecumenismo era um movimento a partir de pessoas das Igrejas Protestantes, as quais primam pela diversidade. O movimento foi se estruturando e acabou sendo institucionalizado na ótica das Igrejas. Ora, instituições não gostam de "diferenças" ou "diversidade", porque foge ao controle e quebra o "ser absoluto" da instituição - ameaça instâncias de poder! 

3) Além do mais, dizer “perdoa as nossas ofensas” é, para mim, supor que Deus é um sujeito egocêntrico e orgulhoso, o Qual fica ofendido pelos pecados de suas criaturas – aliás, as únicas criaturas de Deus capazes de pecar são os seres humanos, cridos à Sua imagem, segundo a Sua semelhança, aqueles a quem Deus deu o mundo para ser cuidado. Uma forma de serem parceiros na criação.  Mas que, inspirados pelo diabólico, desejaram ser mais que parceiros, desejaram ser iguais ao Criador, quebrando assim a relação única que Deus estabeleceu com eles ao serem criados.

4) Esse mesmo Deus, que se mostra profundamente amoroso, não ficou ofendido, mas triste com o pecado humano. Tivesse ficado ofendido (uma característica exclusivamente humana, porque pressupõe orgulho) não sairia buscando-nos para reatarmos a relação com Ele. E nessa busca, Deus experimentou a ira e a misericórdia, mas sempre permitia que a misericórdia superasse, porque sua grande obra é a Graça.  Centenas de exemplos na Bíblia, especialmente nos Livros Proféticos mostram isso. Deus é o Deus de toda a Graça, aquele que nos dá o que não merecemos. Deus não é adepto da meritocracia! Por isso, o que temos em relação a Deus é uma enorme e impagável dívida devido à sua gratuidade.

5) Quando os episcopais dizem "... assim como nós também perdoamos os nossos devedores", não estão propondo uma "teologia da retribuição", mas lembrando que o perdão entre nós deve ser uma prática decorrente do perdão de Deus. Não pelo mérito, mas por gratidão! A "teologia da retribuição" é heresia que contradiz tudo que o Apóstolo Paulo afirma sobre  Graça, porque se fundamenta exclusivamente na Lei.

6) A ditra "Oração Dominical Ecumênica" é validada por haver sido criada, desenvolvida e aceita no âmbito de um Conselho de Igrejas - de Instituições! Meia dúzia de teólgos indicados pelas respectivas Igrejas, criam uma forma de mostrar "unidade" através da "uniformidade" e alegam que o problema é de "tradução". Não é! é teológico. O que está por trás disso é um agradinho na instituição mais forte no Conselho e do universo cristão, a qual não reconhece - de fato - a GFraça de Deus, pois confunde sua própria instituição e dogmas como sendo o "Reino de Deus" anunciado por Jesus o Cristo.  Pior que isso, monopolizam a "graça" ao definirem quem a merece ou não a merece e se afirmam no poder de perdoar pecados, os quais são definidos pela sua Lei Canônica.

Por isso, eu me recuso, motivo de consciência e íntima convicção, a usar o tal “Pai Nosso Ecumênico” porque evita falar no poder da Graça e no chamado que recebemos de Cristo de sermos portadores (não donos) da Graça para o Mundo. Mas para quem, de fato, tem sentido devido sua experiência de fé, que o use, mas não me obrigue!

Que o Senhor nos livre do Maligno, o qual nos faz esquecer aquilo que verdadeiramente separa as pessoas: a má compreensão de poder e nos lança no mundo sem-Graça da instituição, que acaba se tornando, muitas vezes, des-Graça!

(texto revisado em 31 de julho de 2019)
---/---

24 de out. de 2016

Versinho bobinho profundinho – pense um pouquinho…


full-moon-in-capricorn

A noite desce, a Lua aparece,
O homem esquece, faz uma prece,
Adormece…
Todavia, desaparece!
Amanhece,
Um novo dia acontece…






A noite desce, a Lua aparece, o homem esquece, faz uma prece, adormece… Todavia, desaparece!
Amanhece, um novo dia acontece…
---/---

24 de fev. de 2016

A Quaresma na minha infância

Eu me lembro do tempo de catecismo e das práticas católico-ramanas da minha mamãe. Meu papai não era lá um fiel católico, era meio chegado na Umbanda carioca, apesar de vivermos em São Paulo,  mas toda sexta-feira ele acendia um treco muito fedorento, que ele chamava de defumador; ele nunca interferiu na vida religiosa da mamãe (nem ela na dele) e no que ela me ensinava sobre religião. Já pelos 50 anos ele se tornou cristão (católico romano) e foi militante até sua morte. Tanto ele quanto mamãe se tornaram ativos no Movimento Familiar Cristão e nos Cursilhos de Cristandade até a morte. Quando me tornei episcopaliano, bem mais tarde, eles não se incomodaram com isso, pelo contrário, sempre incentivaram minha ação na Igreja e depois, minha vocação.
Minha mamãe e o padre do catecismo, me ensinaram, quando criança, que a Quaresma, os 40 dias que antecedem a Páscoa, é o tempo que Jesus está no deserto, em jejum e lutando contra o Diabo.  Eu perguntava: por que Jesus não acabava logo com o Diabo, ao invés de todo ano ter de ir ao deserto para brigar com ele? Eu achava que a coisa acabava em empate sempre.
Também me ensinaram, na infância, que a Quaresma é um tempo de penitência e arrependimento. Então, eu perguntei se quando não era Quaresma não precisava me arrepender dos meus pecados e fazer penitência. Disseram-me que o arrependimento e a penitência precisam ser feitos sempre! então, eu pensei, não tem sentido dizer que a Quaresma é um tempo de arrependimento e penitência se a gente tem de se arrepender e fazer penitência o tempo todo.
Além disso, me ensinaram, na infância, que eu não podia comer carne nas sextas-feiras da Quaresma, um sacrifício para Jesus, além aguentar o defumador do papai (fosse ou não Quaresma). Não podia comer carne de boi, de frango, de porco, nem sanduíche com presunto ou mortadela –  só de queijo podia.  Isso era muito respeitado em minha família, e a gente comia uma enorme bacalhoada ou uma peixada até estourar! Então eu perguntei que sacrifício era aquele, já que era uma delícia comer peixe do jeito que a mamãe preparava.  Na Sexta-Feira Santa, então, era uma coisa incrível.  Eu tinha de fazer jejum (nem café da manhã eu tomava), ir com minha mãe em sete igrejas diferentes para visitar o Cristo Morto, e finalmente, à noite, acabar o jejum sem comer carne... Eu não entendia porque a gente tinha de ir a sete velórios diferentes de Jesus Cristo, se era o mesmo defunto – ainda por cima não era gente, era uma estátua, a maioria delas com uma cara assustadora! E ainda tinha a Procissão do Enterro de Jesus (mas era uma estátua e nunca enterraram de fato. Sai da Igreja e voltava para a Igreja... então, não era enterro).
Minha mamãe explicava que o jejum, o não comer carne, o não rir, a procissão, tudo isso era um sacrifício, para pagar os nossos pecados, e o bom e severo Padre Saturnino, da Paróquia Santa Margarida Maria no Jardim da Glória, repetia os mesmos ensinamentos no catecismo, e nos sermões da missa de domingo, que eu ia quando meu pai não inventava de a gente sair para almoçar fora de São Paulo...
Ah! ia me esquecendo. No colégio dos Irmãos, onde eu estudava, além de ouvir as mesmas coisas, durante a Quaresma a gente não podia rir... é mole? Ainda bem que a maioria dos Irmãos do colégio não levavam isso a sério! Mas no catecismo, e na minha casa, sempre havia uma pequena reprimenda quando eu ria, ou contava piada... Era falta de respeito com Jesus.
No colégio dos Irmãos, sempre, em todas as classes, em todas as salas, no banheiro e no pátio,  placas com letras grandes dizendo “Deus me vê”!  
Confesso que eu achava Deus um sujeito chato e nada simpático. Ele era um bisbilhoteiro que ficava “de olho” na gente o tempo todo para tomar nota dos pecados, e se Ele não estava olhando, tinha um tal de Anjo da Guarda que contava tudo pra Ele.  Disseram-me que tinha de chamar Ele de Pai, mas meu pai era um cara legal e Deus não...
Uma coisa que eu curtia muito era "malhar o Judas" no Sábado de  Aleluia. Algumas vezes meu papai fazia o boneco usando roupas velhas, outras vezes era um vizinho ou nõs mesmos, a molecada, e depois a gente "descia o cacete" no boneco e botava fogo. Era uma farra na rua!
Ainda hoje, muitas dessas coisas estão na cabeça do povo, embora a Igreja Romana, após o Vaticano II, corrigiu, e muito, as práticas e a própria maneira de entender a Quaresma.
Quando descobri o Protestantismo, e logo depois me tornei episcopaliano, comecei a ver a Quaresma de outra maneira, e entender que certas práticas podem ser entendidas e vividas de outra maneira, dentro de uma piedade saudável e profundamente consistente. Mas isso é assunto para outro artigo.
Quanto a meus pais, depois que se tornaram militantes cristãos e católicos, começaram a estudar a Bíblia (eu dava uma ajudinha) e minha mamãe foi deixando de lado muito daquele catolicismo popular que nunca fez a minha cabeça!
===/===

19 de jan. de 2013

Da Justiça e da Graça

GardenEm um texto recente, partilhado no Facebook, o Rev. Marcos Inhauser  chama a atenção para duas maneiras de pensar a fé cristã: a Teologia da Justiça Retributiva e a Teologia da Graça. Segundo Inhauser,

    “Há duas grandes correntes de teologia: a da justiça retributiva e a da graça. A primeira tem uma multidão de seguidores. Acho que não exagero se digo que mais de 99% a seguem. A característica desta é que é sinergista: Deus faz a parte d’Ele e o ser humano tem que fazer a sua. A outra afirma a graça de Deus, o favor imerecido. Não é o pagamento de algo que se faz ou se deixa de fazer, não é o agir de Deus constrangido por alguma circunstância, não é resposta à oração. É o agir motivado somente pelo amor de Deus. A primeira vê as dificuldades, os obstáculos, os períodos de trevas como sinais do castigo de Deus, em função de pecados conhecidos ou ocultos. A segunda vê em tudo a graça de Deus. No dizer de um cântico: “indo e vindo, trevas ou luz, tudo é graça, Deus me conduz”. Ainda que seja no vale da sombra da morte, a presença d’Ele se faz sentida e a graça se manifesta.”

A Teologia da Graça me é mais simpática. E, de fato, experimento em minha vida o agir de Deus sem que me sinta obrigado a fazer algo para merecer esse agir; inspira em mim o sentimento de gratidão ao perceber o que Deus fez e faz! E também indignação quando Ele não faz o que eu penso que Ele devia fazer!!! mas depois da indignação, acabo percebendo Seu Coração Misericordioso.

Obviamente, a Teologia da Justiça Retributiva é mais condizente com as ideologias da modernidade e da pós-modernidade: é bastante lógica, ouso dizer aristotélica: ação e reação! Faço o “bem” e Deus me retribui com bênção! não faço o “bem”, Deus me retribui com castigo! Muito justo! As contas ficam zeradas, o balanço final é fechado sem perdas ou ganhos. Isso gera comportamentos religiosos dos mais interessantes, uma permanente negociação com Deus em troca de Seus favores. O problema desse tipo de pensamento é que coloca Deus refém das minhas ações. Como qualquer juiz, Ele apenas cumpre o que é determinado pela norma. Não há soberania de Deus, não há contemplação nem percepção da realidade amorosa de Deus.

Realmente é muito complicado para a nossa mentalidade pensar a gratuidade do amor de Deus. É contra o bom senso! exatamente porque o sentido da gratuidade não faz parte da nossa visão de mundo, da nossa maneira de viver. Por outro lado, uma má percepção do conceito de Graça faz surgir também comportamentos muito estranhos, como “sinais da bênção”, coisas como “dente de ouro” (uma histeria coletiva que percorreu igrejas históricas nos anos 80/90, quando um “dente de ouro” aparecia milagrosamente na boca do crente!!!).

Após minha experiência de encontro com Jesus o Cristo, conheci a Teologia da Graça no meio Protestante, durante minha busca de uma comunidade de fé – uma vez que o dogmatismo da Igreja de meus pais não me permitia a reflexão fora da doutrina formal; então meu coração e minha mente tomou consciência do chamado vocacional. E para isso tive, como ainda tenho, de aprender a viver na total dependência da misericórdia Deus. Isso não é uma coisa simples para alguém que, como eu, foi educado e treinado no contexto da objetividade aristotélica-cartesiana.

Mas vou caminhando, com a Graça de Deus, em meio às confusões conceituais dos dias de hoje, mantendo meu lema de vida desde a conversão: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia n’Ele, e o mais Ele fará.” (Salmo 37.5)

===/===

1 de jan. de 2013

O que há de novo no Ano Novo?

CriançaQuando eu era criança, a festa do Ano Novo era sempre na casa do tio Mário e o Natal na casa do tio Acchiles. A família Greco (e Grecco, o escrivão errou algumas vezes…) se reunia no Natal na casa do Acchiles, e no Ano Novo na casa do Mário. Às vezes mudava um pouco, mas era aquele lance de festa familiar ampliada com os devidos anexos incorporados (cunhados e cunhadas, sobrinhos, sogros dos filhos, essas coisas). Uma vez a festa do Natal foi em casa, meu pai fez questão, mas foi tanta aporrinhação que nunca mais ele ofereceu a nossa casa!

O Ano Novo era mais divertido porque não tinha aquele lance pentelho dos presentes (os primos mais ricos sempre ganhavam os presentes melhores, e eu comecei a desconfiar que Papai Noel era puxa-saco dos ricos). No Ano Novo, tio Ricardo, o mais pobre da família, fazia a festa: recebia a gente na porta com a sacolinha cheia de nomes de países, a gente sorteava um nome e via para quem ia torcer na São Silvestre! Todo mundo pagava 5 cruzeiros (que nem pagava um cafezinho), e quem ganhasse a corrida ficava com a tremenda fortuna que mal passava dos 100 cruzeiros… Eu gostava quando a tia Beatriz ganhava porque ela acabava dando para mim (ela tinha um xodozinho por mim, porque talvez fosse o único sobrinho que se animava a sentar no seu piano e tentar tocar… quando ela morreu, o piano veio para mim, por vontade dela).

Sim, a São Silvestre, que era uma iniciativa da Rádio Gazeta e do jornal A Gazeta Esportiva, começava sempre pelas 23h30. e virava o ano com o pessoal correndo pelo centro velho de São Paulo. Muitos anos depois, a Globo Todo-Poderosa, obrigou a mudança de horário para não atrapalhar o Especial de Fim-de-Ano do Roberto Carlos, o show sempre igual… Naquele tempo não tinha os quenianos, e o grande herói da corrida era um belga, cujo nome não recordo…tinha também um careca que era da Checoslováquia que ganhava às vezes; certa vez ganhou um mexicano, e outra vez, um equatoriano,  para frustração de todos, onde já se viu latino-americano ganhar de europeu?  Eu sempre tive o azar de sortear um país que nunca ganhava: Peru, Brasil, França, Espanha, de modo que eu ficava olhando pela TV preto e branco sem muita expectativa.

Quando soava a meia noite, com muito menos foguetório que hoje, era realmente cômico: os adultos da família parecendo macacos: com o pé direito no chão (o esquerdo levantado), cacho de uva em uma das mãos, prato de lentilha na outra, sei lá como aparecia ainda a taça de champanhe, e ainda a romã com sete sementes (tinha de comer semente até o dia de reis…), e todo mundo dizendo “feliz ano-novo!”, aquele lance de abraçar, beijar, emoções, e o cara na TV gritando que a São Silvestre estava acabando e que o Belga já estava entrando na Avenida Cásper Líbero, onde acabava a corrida em frente ao prédio da Rádio Gazeta. Eu olhava aquilo e achava muito divertido, mas ficava tentando entender o que estava mudando além do número do ano no calendário e terminava dezembro, começava janeiro de novo…

Aos poucos fui entendendo que o tal Ano Novo não tinha nada de novo, apenas se recomeçava o mesmo de sempre. Comecei a reparar nos votos de felicitações que os adultos davam uns aos outros, quase sempre assim: “Muita Paz, muita alegria, muito dinheiro…”, e ai parece  que se davam conta que o lance do dinheiro não era para todo mundo, então completavam, “… muita saúde! Saúde é que é importante, não é mesmo? tendo saúde o resto a gente resolve…” E a resposta, invariável,”para você também, pois é, saúde é que é importante…!” 

É claro que o ser humano precisa renovar suas esperanças, se não a vida fica insuportável! Tem de ter um momento especial, onde tudo acaba e recomeça de novo. Escravos do Cronos, necessitamos fazer o Cronos recomeçar, porque do jeito que está não dá… Muitas civilizações organizavam seu calendário pelos ciclos da natureza: na Primavera, quando a vida ressurge depois de sepultada pelo Inverno, tudo se renova em esperança de que o novo tempo será melhor… A nossa Civilização, que já não tem a menor ideia do que seja a Natureza ou o Universo (além de uma tal de energia que fica assim fazendo cosquinhas de espiritualidade consumível) , o Cronos é regulado pela Contabilidade: 31 de dezembro é dia de fechamento do balanço contábil e 1º de janeiro começa um novo ano civil… e, de certa forma, todo mundo fica na esperança que o novo ano civil feche seu balanço, doze meses depois, com saldo positivo. Geralmente não fecha, porque o sistema não pode ver todas as pessoas felizes: felicidade tem de ser garantida para alguns, e para isso, muitos não podem tê-la. É a regra do mundo ocidental: quem pode, pode; quem não pode, se sacode no SUS porque “saúde é que é importante”.

Feliz Ano Novo! seja lá o que isso seja! e lembre-se: saúde é que é importante… haja saco!

Nota: apesar da ironia, eu dou graças a Deus porque quase sempre, depois de crescidinho, tive oportunidade de participar de boas festas de ano novo: vigílias na igreja, festas mais simples na casa de pessoas amigas e solidárias, caminhadas com amigos pelas ruas de São Paulo… é no convívio com pessoas queridas, amigos leais, sem hipocrisias, que vale a pena celebrar o ano novo, ou melhor, a vida em qualquer momento. É a amizade e o carinho sincero que renova a esperança… então, com meu carinho, felicidades a vocês que gostam de mim e vivemos em espírito de solidariedade uns com os outros. Aos que não gostam de mim, não adianta eu desejar nada, porque não vale a pena e eles nem vão dar importância: desejo, então, que vivam bem e não encham meu saco!

===/===

3 de dez. de 2012

Quando não havia o videoteipe, nem o Jô.

Indio da TupyNo final dos anos 50 e início dos 60 do século passado, a TV brasileira engatinhava. Não havia videoteipe, tudo era feito “ao vivo e em preto&branco” e a improvisação era a grande arte! Não havia a baixaria dos programas religiosos, claro.

Lembro que as propagandas eram feitas em estúdio, com uma moça, chamada garota propaganda, apresentando os produtos. Essas moças pagavam muito mico: ela mostrava o novíssimo liquidificador Arno e picava banana, maçã, colocava leite, mostrava como era “fácil fazer uma deliciosa vitamina de frutas”; então girava o botão para ligar o incrível equipamento e nada acontecia! Ela dava um sorriso, girava o botão de novo. Sempre sorrindo, ela tenta novamente, nada! então aparece um sujeito por trás da cena e liga alguma coisa na tomada, era o liquidificador que não estava “plugado”. E então o aparelho começava a funcionar e a tampa saia fora e a pobre “garota propaganda” tomava um banho de vitamina! A imagem saia do ar, entrava o indiozinho da Tupi. Eu me dobrava de rir! Outra vez, a moça estava mostrando um incrível sofá-cama, grande novidade. Ela vai mostrar como é fácil armar a cama, ergue o assento do sofá, o dito cujo escorrega para trás, derruba a parede do cenário, uma confusão danada, novamente a imagem sai do ar e aparece o indiozinho…

Capitão 7

A garotada se amarrava nas Aventuras do Capitão 7, que passava na TV Record de São Paulo, o Canal 7 , onde também havia um programa que a gente curtia muito às 6 horas da tarde: Pullman Junior e depois a Turma dos 7. O Capitão 7 era o nosso super-herói, e fazia sucesso ao lado do Vigilante Rodoviário.  Legal mesmo era o Pullman Junior: crianças se inscreviam para participar, e ficavam lá comendo bolo Pullman, tomando Guaraná Antártica e vendo desenho animado. Uma vez eu participei junto com meu irmão Ricardo. Mamãe ficou dias tentando pelo telefone a nossa inscrição (telefone naquela época era mais complicado que celular da TIM). Conseguiu, era um programa especial de carnaval e fomos fantasiados de palhaço, eu e o Ricardo (nós havíamos ganho um prémio de originalidade no baile infantil naqueles dias, e mamãe estava orgulhosa das fantasias que ela mesma havia confeccionado!).

Chegamos na TV Record, que ficava pertinho do longínquo Aeroporto de Congonhas, e era simplesmente um conjunto de barracões cheios de divisões internas (os funcionários chamavam de estúdios!). Logo na entrada, um saguão, estavam três senhoras sentadas conversando. Reconheci uma delas rapidamente, era a esposa do Palhaço Pimentinha, que era companheiro do Arrelia, no Circo do Arrelia. Essa senhora era uma espécie de faz tudo: atuava no circo, fazia às vezes de garota propaganda, fazia número em programas que tinham de apresentar pequenos auditórios, etc. Ela olhou para mim e disse: “Olha só, se ele fosse magrinho, seria igual ao Pimentinha!” e todo mundo caiu na gargalhada, eu fiquei vermelho de vergonha! Fomos para o estúdio do Pullman Junior e foi quando descobri que era apenas um canto, onde haviam algumas mesas, um monte de criança sentada nas mesas comendo bolo; a gente mal podia ver o desenho animado, porque a televisão ficava por trás. Havia uma menina que apresentava o programa naquele tempo, acho que era a Débora Duarte!!! ela veio me entrevistar e eu fiquei todo orgulhoso: eu estava falando com a Débora, a menina que perturbava meus colegas de ginásio!!! eu tinha 11 anos!

TURMA DOS SETEFoi ai que alguém da TV Record me achou! Havia um programa muito legal, chamado Turma dos Sete, as aventuras de sete crianças, amigos e vizinhos. Um desse personagens se chamava Bolão e era gordinho. O menino que fazia papel de Bolão estava já muito “velho” para o elenco e estavam procurando outros. O sujeito que se apresentou como Produtor da Record gostou de mim… minha mãe, claro, ficou toda cheia de si, e lá foi o Luiz Caetano fazer semanas de testes, decorar texto, até que finalmente eu fui ao ar!!! Putz! Minha mãe passou dias no telefone avisando todos os parentes, inclusive os primos de segundo, terceiro e quarto grau, as vizinhas das cunhadas das primas, etc. que o Luiz Caetano ia estrear na TV no dia tal, ia ser o Bolão da Turma dos Sete, e claro, “ele tem talento, eu sempre soube disso, está muito bem e o diretor gosta muito dele!”. Pobre mamãe! como toda senhora jovem pequeno-burguesa vivia das fantasias do mercado…

Dona Renata, mamãe, deve ter elevado muito o Ibope da Turma do Sete naquele dia, se isso já existisse. Naquele tempo não tinha FACEBOOK, nem Twitter, então não tinha como “compartilhar”, o negócio era telefonar pra todo mundo mesmo. Não tinha videoteipe. A gente entrava no ar e a coisa tinha de rolar na marra! se saísse errado, a gente tinha de improvisar… era divertido!

Durou pouco meu tempo de TV. Meu pai cismou, no que foi plenamente apoiado pelo Diretor do Colégio Nossa Senhora da Glória, o Irmão Expedito Leão (Marista), que aquele negócio de trabalhar na TV e estudar não dava certo. E com seu jeito de pai mansinho, ele convenceu minha mãe e eu simplesmente tive de deixar o programa. Acho que fiz uns três programas, estava em fase de teste ainda.

Por isso é que o Lima Duarte, o Francisco Cuoco e o Tarcísio Meira fizeram sucesso! Meu pai bloqueou minha carreira na TV!!! mas tive meus dias de glória na telinha! e nem precisei escrever livro, virar presidente de qualquer coisa, nem pagar para aparecer no Jô para isso! E ainda ganhei uma graninha, que meu pai usou para comprar minha bicicleta Caloi aro 24, com a qual eu finalmente ganhei do Marcelo (que tinha uma Monark aro 24) nas corridas de bicicleta que a criançada da vizinhança fazia na Jackson de Figueiredo, bairro da Aclimação, São Paulo.

Se naquela época tivesse o FACEBOOK eu teria compartilhado com amigos, grupos, páginas, etc.  É o modesto charme da burguesia!  e vamo que vamo!

===/===

22 de set. de 2012

O que está acontecendo na Igreja?

  drz19
Este artigo é resultado de uma reflexão que temos feito na Paróquia São Paulo Apóstolo, como companheiros de ministério e partilhado com algumas lideranças leigas da paróquia, no contexto do Clamor pela Igreja que a comunidade tem realizado dominicalmente desde o Pentecostes.  Trata-se de um texto pessoal de nossa exclusiva responsabilidade, e não reflete, necessariamente, o pensamento da comunidade paroquial, da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro ou até mesmo da Ordem de São Tiago de Jerusalém, na qual partilhamos esperanças e temores.
Depois dos últimos acontecimentos na IEAB, resolvemos partilhar nossa reflexão sobre a eclesiologia em que se fundamenta a nossa Igreja, que – nos parece – vem sendo esquecida por setores do clero e do laicato.
Primeiramente, temos que esclarecer o que é Eclesiologia? (do grego ekklesia= Igreja; Logia= Discurso). É o ramo da Teologia Sistemática que trata da Igreja: seu papel na salvação, sua origem, sua doutrina, sua disciplina, sua forma de se relacionar com o mundo, sua presença social; e também as mudanças ocorridas, as crises enfrentadas, a relação com outras denominações e sua forma de governo.
A Igreja é objeto e sujeito da fé, institucional e carismática (dons), sociedade visível e comunhão invisível, comunidade fraterna e hierárquica, santa e pecadora; a Igreja de Cristo se apresenta como diversidade de confissões e comunhão dialogal entre elas.
Levando em conta tal complexidade queremos, de início, identificar as questões mais importantes que surgem dos contextos episcopal e anglicano. Tais questões ajudam a reconhecer a pertinência desta reflexão: atualizar o tema “Igreja” neste emaranhado de realidades e conceitos.
Nessa perspectiva, lembramos Dom Sumio Takatsu que, brilhantemente, nos recorda que a Igreja Episcopal Anglicana não caiu do Céu; foram anos de construção, idas e vindas, uma identidade “católica” e “protestante”, chegando à via média que tentamos ser.
Em se tratando do anglicanismo, sua auto compreensão não pode passar por cima da Reforma do século XVI nem de sua continuidade com a Igreja da antiguidade, vista sob a ótica do conhecimento disponível nos séculos XVI e XVII.Desde o seu começo, o anglicanismo tem sido formado na forja da controvérsia eclesiológica. De fato, o primeiro Sínodo da Igreja da Inglaterra em Whitby (664) foi uma controvérsia em torno da data da Páscoa entre a Igreja celta e romana representada por Agostinho, enviado pelo bispo de Roma, Gregório Magno. Muito mais tarde, no século XIV, John Wycliff e seus seguidores desafiaram o conceito do domínio que cada pessoa e ofício têm recebido do seu superior imediato. (Takatsu, Eclesiologia Anglicana, pg. 1)
Neste aspecto queremos salientar que a tensão entre Igreja Celta e Igreja de Roma no séc. VII foi o final  de um processo que vem de mais longe, do início da cristianização das Ilhas Britânicas.
Se alguém pensa que somos filhos somente da Igreja Ocidental, está enganado. Somos, também, filhos da Igreja Oriental. Foram missionários da Igreja do Oriente que converteram, de início, os celtas, passando para eles a eclesiologia e a teologia cristã orientais. Assim, nossa percepção teológica e cosmovisão, têm origem nas concepções orientais, cheias de misticismo e variações, enfatizando a relação com a natureza de maneira bastante séria e encarnada.
Quem, no séc.VII, vence a polêmica na região sul e sudeste da Grã-Bretanha, sob domínio saxão, é a Igreja de Roma, mas o oeste e o norte, (habitados majoritariamente pelas diversas tribos celtas que resistiram ao Império Romano) mantiveram as concepções  teológicas do oriente cristão. Por isso vamos falar um pouco da Eclesiologia Oriental para entender nossa pluralidade de conceitos.
As Igrejas Orientais (Ortodoxas), em geral, têm uma organização muito interessante e sadia, fundamentada no principio real da Catolicidade (Universalidade) da Igreja. Tais Igrejas se sobrepõem através de diversas jurisdições eclesiásticas (como por exemplo a Igreja Ortodoxa Grega, Igreja Ortodoxa Eslava, a Igreja Ortodoxa Siríaca, etc.) que professam a mesma fé e, com algumas variações culturais e étnicas, praticam basicamente os mesmos ritos. O líder espiritual das Igrejas Ortodoxas é o Patriarca de Constantinopla – chamado de Patriarca Ecumênico, embora este seja um título mais honorífico, uma vez que os patriarcas de cada uma dessas igrejas são independentes. A maior parte das Igrejas Orientais, em comunhão umas com as outras, usam o rito bizantino e suas variações.
Para eles, o Chefe Único da Igreja, e sem intermediários, representantes ou legatários, é o próprio Jesus Cristo. A autoridade suprema na Igreja Ortodoxa é o Santo Sínodo Ecumênico que se compõe de todos os patriarcas chefes das igrejas autocéfalas e os arcebispos primazes das igrejas autônomas, que se reúnem a chamado do  Patriarca Ecumênico de Constantinopla (cf. Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental, p. 103).
A autoridade suprema regional em todos os patriarcados autocéfalos e igrejas autônomas é da competência do Santo Sínodo Local. Algumas igrejas autocéfalas possuem o direito de resolver todos os seus problemas internos com base em sua própria autoridade, tendo também o direito de ter seus próprios bispos, incluindo o próprio patriarca, arcebispo ou metropolita que presida essa Igreja.
Este característica foi herdada pela nossa Tradição oriunda da Igreja Celta: o mesmo princípio que nos rege como Igreja sinodal e o exercício do Primado. O Arcebispo de Cantuária, por exemplo, não é o Vigário de Cristo nem chefe supremo da Comunhão Anglicana; da mesma forma, nosso Bispo Primaz é o “primus inter pares” (primeiro entre iguais) com os demais Bispos Diocesanos.
A Igreja Oriental nos legou outro aspecto eclesiológico através da Igreja Celta: um tipo de comunhão que estamos esquecendo, a Comunhão (koynonia) em Amor a Deus e a Unidade Eucarística. Temos dificuldade em vivermos, hoje, uma comunhão em Amor, pois ficamos sempre lembrando da nossa raiz ocidental, hierarquizada, monarquista e clericalista ao extremo, e esquecemos de nossos pés no oriente, primeiro em Jesus, e depois na Tradição Oriental, através dos cristãos celtas vencidos no Sínodo de Withby (séc.VII).
A Igreja Celta expressava sua comunhão com Deus e os outros, no amor e respeito mútuo, sem hierarquia absolutas. Assim, o bispo era bispo para fundar comunidades e ordenar, os abades organizavam e conduziam a Igreja Diocesana, os monges e padres cuidavam das comunidades, os diáconos ajudavam os padres e monges neste cuidado e o centro da vida era o mosteiros junto às aldeias, onde todos se reuniam para partilhar a suas experiências e traçar suas metas missionárias. Foi uma tentativa de resistir ao avanço da cosmovisão de Roma, marcada pelo Império. Assim, os cristãos celtas buscavam a colegialidade em amor e respeito mútuo, oriundo da eclesiologia oriental que, conforme Dom Koubetch nos explicita:
Do amor surge a comunidade como adesão pessoal e livre à fé professada de todo o povo. Provem do amor (que reúne, assemelha-se) […]. O ideal que está na base do conceito de amor é a realidade da comunhão, daquele fato resultante da unitotalidade e da unipluralidade, pela qual muitos são um, mas permanecendo pessoas diversas e livres. (Koubetch, Da Criação à Parusia, linhas mestras da teologia cristã oriental; p. 116).
Tal é nosso legado: uma relação de amor entre iguais, apesar de diferentes. Cada um com sua função e ministério diferente, mas sua ação e respeito eram únicos, visando a evangelização aos não cristãos e respeitando a diversidade cultural de cada localidade.
Isso significa ainda que a Igreja é simultaneamente uma reflexão que motive o ser humano a ser mais amoroso (ágape) em relação ao outro, ao cosmos e a Deus. A linguagem mais adequada para se aproximar deste mistério fundamental é a Teologia da Encarnação, algo específico para a comunidade cristã oriental. A teologia que nós herdamos do oriente através dos celtas, vive a tensão entre poder falar de Deus, pois Ele mesmo se revelou (dimensão katafática = revela-se a Si mesmo), e reconhecer que todo discurso sobre o Senhor não consegue abranger a grandeza e a profundidade do Divino (dimensão mysterium = o que está oculto, porém presente e perceptível).
Por ser uma reflexão sobre o Amor, a partir da diversidade, visando tornar o ser humano mais amoroso, a Teologia não pode lidar somente com conceitos. A história da Igreja, especialmente a partir das igrejas orientais, mostra uma grande conquista: o refletir sobre Deus a partir de conceitos abalizados no mistério. A Igreja necessita recorrer ao seu passado (Tradição) para lembrar do caráter testemunhal e lançar mão das analogias entre vida e fé. Só assim, numa pluralidade de linguagens e abordagens, deixar-se-á tocar pelo mistério amoroso de Deus.
Assim, não correremos o risco de cometer o erro de pensar em absolutos imperiais, os quais nunca fizeram parte da nossa Tradição Herdada, mas nos mantemos firmes em seu aspecto mais puro e embrionário, uma comunidade (comum-união) de amor, que expandiu o cristianismo não só nas ilhas britânicas, mas também entre os povos germânicos, francos e parte dos povos nórdicos. É interessante notar onde houve um contato com os monges missionários cristãos celtas  de alguma forma foi criado um cristianismo independente de Roma através de vários movimentos de reforma até chegar na Reforma no século XVI, uma renúncia ao Tomismo que marcou profundamente a Igreja Romana.
Por isso, é estranho perceber, em nossa Igreja Episcopal Anglicana, tendências de entender o Episcopado como poder centralizador e absoluto, disputado por grupos de interesse, partidarismos e encobrindo vaidades e projetos pessoais.
Mesmo a Igreja da Inglaterra, que não é nossa ancestral direta, mas indireta, que se expandiu através do Império Britânico, expansionista e colonialista, a partir do século XVII, teve o bom senso de estabelecer nas colônias Igrejas indígenas promovendo o desenvolvimento de clero local, inclusive episcopado, não vinculando a Missão à autoridade absoluta da Igreja Imperial. Segregacionista ou não, nas colônias inglesas sempre houve uma diferenciação entre a “igreja dos ingleses” e as nascentes igrejas de influência “anglicana” nas colônias, fiéis à sua concepção de não admitir ingerência estrangeira nas igrejas locais (cada povo, sua igreja).
Esse espírito marcou a formação da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, que não foi uma simples mudança de nome, mas uma união de diferentes confissões nas 13 Colônias, dando origem a uma Igreja de identidade nacional, respeitando inclusive a liberdade daqueles que preferiram manter-se independentes, em sua própria identidade confessional. Assim, ao surgirem como nação independente, os Estados Unidos já nascem com uma diversidade religiosa marcada pela liberdade de culto. É essa a visão eclesiástica que chega ao Brasil em 1889 com Morris e Kinsolving. Fiel ao seu próprio princípio fundante, a Igreja Mãe logo providencia o episcopado próprio para o Brasil, mesmo na pessoa dos missionários e ainda atrelado à estrutura da Igreja Mãe, mas sempre apontando o horizonte da emancipação, que começa de fato em 1950, com a eleição dos primeiros bispos nacionais (Pithan, Simões e Krischke).
Portanto, choca-nos perceber, nas recentes disputas pelo Episcopado, a incidência de projetos personalistas e de interesses pessoais, forçando inclusive interpretações das normas canônicas, aparentando uma visão absolutista do poder e/ou querendo impor padrões e dinâmicas de comportamento que são até mesmo estranhos à nossa Tradição Herdada. Perde-se o referencial evangélico, “o maior aquele que serve” (cf. Marcos 9.30-37 e par). Neste 17º Domingo depois de Pentecostes, Tiago o Justo, irmão de nosso Senhor, nos recorda em sua epístola:
   Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de "sabedoria" não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. (Tg 3.13-18 – Nova Versão internacional).
Rev. Daniel Rangel Cabral Jr,ost+  e  Rev. Luiz Caetano Grecco Teixeira, ost +
===/===