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8 de dez. de 2018

O Pai Nosso Ecumênico. Ecumênico???

Eu não uso o tal Pai Nosso ecumênico. Tenho meus motivos.

1) "Que todos sejam um como Eu e o Pai somos um!” (João 17.21). Ao dizer isso, Jesus não quis dizer que todos sejam iguais! Até porque Ele e o Pai não são iguais. Quem gosta de uniformidade para garantir a unidade não entende o que é unidade. A mesma coisa é uma coisa só, é solidão e padronização. Ora, o Espírito Santo promove a diversidade:  a diversidade de dons, de línguas e, inclusive, de comunidades de fé (Igrejas). É exatamente o mover na diversidade que deve ser o mover ecumênico, não a padronização.  Porque não haveria relação ecumênica se não houvesse diversidade. Quem confunde acreditar em dogma com fé, não pode ser, de fato, ecumênico. Faz de conta que é… mas no fundo tem horror à diversidade porque não consegue conviver com os que têm a experiência da fé diferente de seus dogmas, os quais, por serem dogmas, são absolutos – são padronizados. Todo mundo tem de acreditar igual ou é anátema! Bem, acho que sou anátema!!!😈

2) A Oração Dominical dita "Ecumênica" é fruto do Ecumenismo Institucional, algo que na verdade não é Ecumenismo, mas o "faz de conta que a gente se gosta", pois seu horizonte é que "todos sejam uma única Instituição!" 
Interessante que antes da Igreja Romana se apresentar como "Ecumênica" (vários Papas consideraram o Ecumenismo um erro) entre o povo ecumênico protestantew, nós - episcopais - já dizíamos "perdoa nossas dívidas assim como nós também perdoamos...", nunca houve problemas nas celebrações ecumênicas, onde inclusive se celebrava a Ceia do Senhor!
Aliás, depois da chegada da Igreja de Roma, não se podia mais realizar a Santa Eucaristia de maneira ecumênica, ou seja, ecumenismo é só "amizade", não comunhão! (que coisa mais anti-ecumênica!) Antes de Roma chegar, o ecumenismo era um movimento a partir de pessoas das Igrejas Protestantes, as quais primam pela diversidade. O movimento foi se estruturando e acabou sendo institucionalizado na ótica das Igrejas. Ora, instituições não gostam de "diferenças" ou "diversidade", porque foge ao controle e quebra o "ser absoluto" da instituição - ameaça instâncias de poder! 

3) Além do mais, dizer “perdoa as nossas ofensas” é, para mim, supor que Deus é um sujeito egocêntrico e orgulhoso, o Qual fica ofendido pelos pecados de suas criaturas – aliás, as únicas criaturas de Deus capazes de pecar são os seres humanos, cridos à Sua imagem, segundo a Sua semelhança, aqueles a quem Deus deu o mundo para ser cuidado. Uma forma de serem parceiros na criação.  Mas que, inspirados pelo diabólico, desejaram ser mais que parceiros, desejaram ser iguais ao Criador, quebrando assim a relação única que Deus estabeleceu com eles ao serem criados.

4) Esse mesmo Deus, que se mostra profundamente amoroso, não ficou ofendido, mas triste com o pecado humano. Tivesse ficado ofendido (uma característica exclusivamente humana, porque pressupõe orgulho) não sairia buscando-nos para reatarmos a relação com Ele. E nessa busca, Deus experimentou a ira e a misericórdia, mas sempre permitia que a misericórdia superasse, porque sua grande obra é a Graça.  Centenas de exemplos na Bíblia, especialmente nos Livros Proféticos mostram isso. Deus é o Deus de toda a Graça, aquele que nos dá o que não merecemos. Deus não é adepto da meritocracia! Por isso, o que temos em relação a Deus é uma enorme e impagável dívida devido à sua gratuidade.

5) Quando os episcopais dizem "... assim como nós também perdoamos os nossos devedores", não estão propondo uma "teologia da retribuição", mas lembrando que o perdão entre nós deve ser uma prática decorrente do perdão de Deus. Não pelo mérito, mas por gratidão! A "teologia da retribuição" é heresia que contradiz tudo que o Apóstolo Paulo afirma sobre  Graça, porque se fundamenta exclusivamente na Lei.

6) A ditra "Oração Dominical Ecumênica" é validada por haver sido criada, desenvolvida e aceita no âmbito de um Conselho de Igrejas - de Instituições! Meia dúzia de teólgos indicados pelas respectivas Igrejas, criam uma forma de mostrar "unidade" através da "uniformidade" e alegam que o problema é de "tradução". Não é! é teológico. O que está por trás disso é um agradinho na instituição mais forte no Conselho e do universo cristão, a qual não reconhece - de fato - a GFraça de Deus, pois confunde sua própria instituição e dogmas como sendo o "Reino de Deus" anunciado por Jesus o Cristo.  Pior que isso, monopolizam a "graça" ao definirem quem a merece ou não a merece e se afirmam no poder de perdoar pecados, os quais são definidos pela sua Lei Canônica.

Por isso, eu me recuso, motivo de consciência e íntima convicção, a usar o tal “Pai Nosso Ecumênico” porque evita falar no poder da Graça e no chamado que recebemos de Cristo de sermos portadores (não donos) da Graça para o Mundo. Mas para quem, de fato, tem sentido devido sua experiência de fé, que o use, mas não me obrigue!

Que o Senhor nos livre do Maligno, o qual nos faz esquecer aquilo que verdadeiramente separa as pessoas: a má compreensão de poder e nos lança no mundo sem-Graça da instituição, que acaba se tornando, muitas vezes, des-Graça!

(texto revisado em 31 de julho de 2019)
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25 de abr. de 2011

Cuidando da Casa da Comunidade

celtasOs celtas antigos não construíam templos; para eles, nenhuma construção humana pode conter o Divino, a não ser o próprio templo que a Divindade construiu para si mesma, ou seja, a Natureza. Assim, a religião da Antiga Tradição realizava todos os seus ritos a céu aberto. Em se tratando de uma religião da natureza, isso é bastante lógico e óbvio.

Mas os cristãos, desde muito cedo, celtas ou não celtas, constroem sua igrejas, templos onde a Divindade não habita exclusivamente, mas que se torna um espaço separado – sagrado – onde a comunidade se reúne para o louvor e a adoração. Para os cristãos, a Divindade caminha conosco na História; assim é o Deus que se revela na Bíblia. É a comunidade, não a Divindade, que necessita do templo para viver melhor sua experiência existencial com o Divino. Assim, no decorrer da História, a Igreja do Oriente e do Ocidente construiu templos das mais variadas formas, dos mais variados estilos, desde as muito simples capelas e ermidas até as grandes catedrais góticas. Todas elas como espaços de oração, descanso e que querem mostrar a glória de Deus.Interior do Templo

Estou com a responsabilidade pastoral de uma comunidade cristã cujo templo é uma obra de arte arquitetônica e um dos mais belos templos da Igreja Episcopal no Brasil, e essa tem sido uma experiência muito agradável e ao mesmo tempo muito árdua. Não pelo cuidado pastoral – meu dever maior – mas pela responsabilidade compartilhada com a comunidade de zelar pelo templo.

Um templo construído entre os anos 20 e 30 do século passado, quando as técnicas de engenharia não contavam ainda com o concreto armado, tijolos refratários, tubulações seguras para a eletricidade, a água e os esgotos, cuja ventilação é totalmente dependente do desenho e não da possibilidade de instalação de ar-condicionado… ou seja, um prédio de manutenção complicadíssima e muito cara!

E isso agravado pelo fato que, por mais de 30 anos, por diferentes razões, o edifício não recebeu manutenção adequada estando com sérios problemas estéticos e necessitando de restauração geral cujo orçamento está muito além dos recursos da comunidade ou mesmo da Diocese. Por isso, estamos cuidando de conseguir o tombamento do edifício, não só pelo seu valor histórico em Santa Teresa (uma aldeia no centro do Rio de Janeiro) mas também como garantia de manutenção patrocinada permanente.

A questão que se coloca na consciência de qualquer cristão é se realmente é importante a preservação do templo, se vale a pena buscar recursos de monta para isso diante de tantas urgências que se colocam para a Igreja.

Nave vista do PresbitérioEu afirmo que a manutenção do templo, sua restauração e conservação é – também – uma urgência para a Igreja. São vários os motivos que justificam tal postura ética.

Em primeiro lugar, a comunidade necessita do espaço sagrado para sua vida de adoração, estudo e convívio. Claro que para isso bastaria um espaço simples e barato, mas nós recebemos este templo como herança dos ancestrais da comunidade, as gerações que antes de nós e sob a mesma identidade (Igreja de São Paulo Apóstolo) construíram e partilharam esse templo em sua caminhada na história.  Honrar essa memória e essa história é uma responsabilidade que a comunidade de hoje tem e a de amanhã terá de assumir.

Em segundo lugar, o templo da São Paulo Apóstolo é parte da história de Santa Teresa, parte de sua herança arquitetônica, e um dos mais belos edifícios religiosos do Rio de Janeiro pela sua simplicidade e ao mesmo tempo grandiosidade! (características do estilo gótico: simplicidade decorativa, iluminação e grandiosidade estética). Além de ser uma referência turística, o templo e o complexo paroquial têm servido como espaço de serviço e acolhimento de muitas iniciativas da população do bairro. A comunidade, de formação ecumênica, abre o seu espaço sagrado para outras atividades, especialmente culturais e artísticas e até mesmo como local de repouso e acolhida, como testemunho do amor de Deus por todas as pessoas, o Deus que não exclui mas que busca ser presença e companheiro de cada ser humano.

Em terceiro lugar, é dever da comunidade preservar o seu patrimônio, patrimônio da Igreja Diocesana, construído com as ofertas generosas recebidas de seus membros e irmãos e irmãs de outras comunidades pelo mundo.

Com a graça de Deus conseguiremos, como comunidade paroquial e diocesana, vencer o desafio e preservar com gratidão o legado que recebemos dos pioneiros que deram início à Missão de São Paulo Apóstolo no morro de Santa Teresa em 1917.

conheça o blogue da Paróquia São Paulo Apóstolo

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16 de abr. de 2011

Um exercício quaresmal

Vitral do Altar MórDurante este tempo de Quaresma pude viver uma experiência interessante por força dos deveres como Pároco de São Paulo Apóstolo. Decidimos, com a Equipe de Pastoral, realizar ofícios vespertinos todos os dias da Quaresma, exceto às segundas-feiras, dia do repouso semanal do clero diocesano.

O templo paroquial fica aberto ao público todas as tardes (exceto nas segundas-feiras) a partir das 14h30, e a equipe pastoral se reveza para o atendimento às muitas pessoas que visitam nosso templo para oração pessoal, aconselhamento e até mesmo para fotografar o templo, uma das atrações turísticas do bairro.

Na verdade, esse compromisso criou entre nós da equipe uma disciplina de oração comunitária cotidiana, característica da vida monástica; quase sempre estávamos pelo menos dois de nós presentes e nos reuníamos no presbitério; algumas vezes mais uma ou duas pessoas participavam conosco; como dois (ou três) é o quórum de Cristo, realizávamos o ofício, variando a liturgia conforme a riqueza da Tradição Anglicana, inspirada nos costumes monásticos.

O calendário litúrgico prevê, para os ofícios diários desta Quaresma, a leitura de perícopes mais ou menos sucessivas do livro do Profeta Jeremias e da Epístola de São Paulo aos Romanos. Quase sempre os textos nos surpreendiam e começamos a partilhar a reflexão sobre os textos, como parte da Liturgia da Palavra. Isso enriqueceu-nos muito pois nos fez refletir sobre nossa vocação, sobre a nossa comunidade paroquial, sobre a missão da Igreja aqui em Santa Teresa (uma “aldeia” no centro do Rio de Janeiro), até mesmo sobre a nossa Diocese e a nossa identidade enquanto Episcopais Anglicanos.

De certa maneira, essa experiência de realizar o ofício diário criou em nós uma disciplina enquanto grupo ministerial, bem como fortaleceu nosso senso de comunhão no  ministério e permitiu-nos desfrutar de ricas e inquietantes reflexões sobre nossa vocação e serviço; assim, decidimos manter os ofícios vespertinos diários como parte das atividades regulares da Paróquia, quase como norma disciplinar da equipe. Também aumentou em nós a coesão e a consistência em nosso planejamento paroquial e no preparo das atividades comunitárias.

Por exemplo, nesta Quaresma assumi para mim mesmo a responsabilidade pelas Homilias na missa dominical e devo reconhecer que o exercício dos ofícios diários me ajudou muito a desenvolver os temas abordados dentro do tema de reflexão quaresmal adotado para a Paróquia: Não diga ‘não’ a Deus!

Decidi publicar este pequeno relato no blogue a fim de partilhar essa experiência e incentivar os companheiros e companheiras de ministério a construírem uma disciplina de oração e reflexão com as equipes pastorais de suas comunidades, que normalmente são compostas por Seminaristas em estágio, Ministros Leigos, Acólitos, raramente outros clérigos, na maioria das vezes, pessoas voluntárias que se sentem vocacionadas ao serviço à comunidade. Com certeza isso fortalecerá a própria comunidade!

Para conhecer melhor a Paróquia São Paulo Apóstolo>>>  http://spauloapostolo.blogspot.com/

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21 de dez. de 2010

Natal?

Há alguns dias estava eu passando pelo Largo da Carioca, e um sujeito berrava quase à beira da histeria, que Jesus não nasceu dia 25 de dezembro, e – como é usual – culpava a Igreja Católica por ter inventado isso! De certa forma, o histérico tem razão: a data de 25 de dezembro foi adotada pela Igreja Cristã da época pós-apostólica por ser a festa pagã do Sol Invicto, o Sol Vitorioso, celebrada logo após o Solstício de Inverno (hemisfério norte). A partir dessa data os dias do inverno se tornam cada vez mais curtos até que chega a primavera (equinócio).  Mas não é sobre solstícios e equinócios que quero falar; a aula de iniciação à astronomia fica para uma outra oportunidade. Importante entender que ao adotar a data pagã, a Igreja está afirmando que Jesus Cristo é o Sol da Justiça, vitorioso e invicto diante do Mal!
Pouco importa, de fato, saber a data exata do nascimento de Jesus, seja o dia, seja o ano… importa reconhecer que – em Jesus – Deus se manifesta encarnado na história humana! A Festa da Natividade do Senhor (nome litúrgico correto) celebra exatamente o mistério do Deus que se revela na pobreza e na simplicidade de um Menino pobre e despojado.  O Mistério da Encarnação, que a Igreja celebra em 25 de março (nove meses antes!) – Festa da Anunciação – se completa na Natividade!
Entretanto, o que a gente vê hoje no mundo ocidental, dito cristão? não há manjedouras, não há o Menino, não há os pastores… às vezes aparecem uns anjinhos com cara de idiota. Mas a figura do Papai Noel é constante! como também são constantes as frases dedicadas à Paz, à Harmonia, ao “Espírito de Natal” – um tempo em que as pessoas ficam mais boazinhas e o capitalismo selvagem aumenta seus lucros com os gestos de “boa-vontade”, ou seja, os presentes! Interessante ver na TV, por exemplo, publicidade de Bancos e Instituições Financeiras falando de Paz, Harmonia, Solidariedade!!! é muita cara de pau!!! O usurário querendo parecer justo e bondoso, contrariando sua própria natureza gananciosa!!!
O Papai Noel, velhinho gordo de roupas vermelhas, bolação genial da Coca-Cola em meados do século XX é o símbolo do Natal contemporâneo, símbolo do consumismo e da hipocrisia que deseja a todos felicidades, paz e harmonia, exatamente para fortalecer o lucro dos que promovem a injustiça, a guerra, a morte!
Quando eu era criança, meus pais me ensinaram que o Papai Noel era o São Nicolau, um Bispo dos tempos antigos que, com muita misericórdia, distribuía alimentos e bens aos pobres de sua diocese. Na língua inglesa ainda se fala em Santa Claus, mas a imagem é a mesma: não se fala mais nada sobre o São Nicolau, apenas o bom velhinho da Coca-Cola. O que poderia ser um real exemplo de compaixão, solidariedade – alguém que reparte com os pobres – se tornou o incentivo do consumo: compre presentes! e o “dar presente” se tornou um imperativo das relações públicas…
É bem verdade que neste tempo, muita gente se lembra dos pobres, das instituições de caridade. A mídia das futilidades mostra com todo requinte, famosos emocionando-se ao presentear crianças órfãs… que passam esquecidas o resto do tempo! ou “socialites” promovendo “ceias natalinas” em asilo de idosos…
Feliz Natal, seja lá o que isso signifique para você!

27 de abr. de 2009

A Disciplina do Arcano

A palavra arcano significa sigilo, segredo. Para nós, cristãos ocidentais, frutos da Cristandade, do Protestantismo e da Modernidade, culturalmente secularizados, falar em Disciplina do Arcano pode parecer fora de contexto e contraditório com nossa formação iluminista, além de levantar suspeitas a partir de nossa ideologia liberal democrática de transparência e liberdade de informação e de expressão. Todavia, a Disciplina do Arcano foi fundamental para a sobrevivência da Igreja Antiga.

A exortação de Jesus, “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando, vos dilacerem” (Mateus 7.6), pode ter sido uma tradição já advinda dessa disciplina ou então tê-la inspirado. O fato é que, na Igreja dos Pais e dos Mártires, havia a regra de ocultar a doutrina cristã e as cerimonias litúrgicas aos que não fossem batizados. Uma cautela para preservar a fé e o kerigma de uma contaminação maior pelos cultos pagãos e pelas escolas filosóficas do mundo helenista, e também para preservar essa mesma fé de interpretações imediatistas dos catecúmenos, ainda mais impressionados pela experiência da conversão que pela reflexão e compreensão da doutrina, à qual eram introduzidos paulatinamente pelo processo catequético, de grande duração no tempo[1]. A Disciplina do Arcano também servia como segurança contra as perseguições do Império. Essa disciplina vigorou até o século VI, mesmo depois do “triunfo do cristianismo”, ou seja, do surgimento da Cristandade.

Mas há um aspecto importante nesse cuidado. Os primeiros pensadores cristãos, alguns contemporâneos dos Apóstolos, logo perceberam que o conteúdo do kerigma trazia em si algo inusitado e surpreendente, de bastante dificuldade de compreensão no mundo helenista. De certa forma, a Igreja dos Pais percebeu que falava sobre o indizível, os mistérios de Deus revelados em Jesus Cristo[2] , que pressupunham uma vivência especial, uma experiência com Deus.
Foi necessário desenvolver uma linguagem e uma semântica simbólica, geralmente apropriando-se de símbolos judáicos e pagãos, mudando seu sentido e significado, reinterpretando-os a partir do Evangelho, a Boa Nova revelada em Jesus Cristo[3]. Isso se reflete nos primórdios da liturgia cristã, a incorporação de elementos simbólicos e rituais do judaísmo e de algumas religiões pagãs de mistério, como por exemplo água, pão e vinho, unções, gestos, etc.
Entretanto, a liturgia cristã, desde a Igreja Antiga, tem uma consciência de si mesma que a diferencia dos ritos pagãos e da magia. Os ritos cristãos não provocam efeitos, mas são posteriores, como afirmação do que Deus já havia feito. Ou seja, o rito cristão não provoca a Graça, mas afirma a ação anterior de Deus, ao dar a Graça. O rito cristão não é mágico nem é um absoluto em si mesmo; pelo contrário, é sempre uma manifestação de gratidão e adoração ao Deus amoroso que atua na vida e no mundo[4].
Ao contrário das religiões de mistério, o rito cristão é a afirmação simbólica da doutrina e não a sua realização mágica. Por isso, a liturgia cristã não é uma representação ou a realização mágica de um mistério, mas é a afirmação do mistério revelado!
Isso teve um significado ímpar no mundo helenista, cujo conteúdo religioso era demarcado pelas religiões de mistério e esoterismos[5]. Como resultado da pregação, a conversão a Jesus Cristo era entendida (e sempre o deve ser) como uma experiência sensível, muito além do convencimento racional pelos argumentos do pregador, experiência essa que provoca no converso a metanóia, mudança de rumo existencial e mudança de visão de mundo. A conversão sempre foi compreendida, essencialmente, como obra do Espírito Santo, e não resultado da capacidade humana de provar as próprias ideias. Converter-se é muito mais que convencer-se! Tornar-se cristão era navegar contra a corrente religiosa do helenismo, portanto, uma atitude incompreensível pela mentalidade daquele tempo.
A Disciplina do Arcano impediu que a fé cristã se tornasse mais um esoterismo, mais uma religião de elementos mágicos, impossível de ser moeda de troca ou de personalismos[6], bem como de promover modificações doutrinárias e éticas para agradar as multidões e atrair novos prosélitos.
A Disciplina do Arcano impediu a Igreja de cair na tentação do crescimento rápido e desordenado! Faz falta hoje ...


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[1] Fontes antigas informam que havia igrejas onde a catequese durava de três a quatro anos; em outras, o tempo poderia ser menor, mas era sempre uma exigência antes de realizar-se o Batismo e assim inserir o catecúmeno na Comunidade de Fé.

[2] Ao contrário das antigas religiões de mistério, que cultuavam o que estava oculto e dependiam de ritos mágicos para entendê-lo, os cristãos interpretaram a palavra mysteron como o oculto presente que se revela. Usava-se essa palavra apenas para indicar aquilo que, estando oculto, fechado, encerrado, pode ser revelado, aberto, descerrado. Mysterion é, pois, aquilo que, estando oculto, é revelado, isto é, torna-se compreendido... mas não necessariamente explicado! Está aí, mas nem todos o enxergam, porque não podem ver através ou além do véu... Por isso falamos em “mistério” na liturgia e no ensino cristão. Mistério tem a ver com aquilo que Deus é, faz e revela. O mistério precisa do símbolo: não temos palavras para dizer o que é, mas somos capazes de perceber, sentir, experimentar, contemplar... ver além do véu! por isso, se celebra junto!

[3] Surge assim a iconografia cristã, que vai se tornar um campo da História da Arte.

[4] Para aprofundamento, veja-se meu artigo: Introdução à Liturgia Cristã. In: Inclusividade – Revista de Teologia do Centro de Estudos Anglicanos, Ano II nº. 6, Novembro 2003.

[5] Mutatis mutantis, essa é hoje uma das características da pós-modernidade: a busca pelo imediatismo mágico-religioso.

[6] Um exemplo disso, no Novo Testamento, mostrando a compreensão cristã sobre os dons de Deus, é a perícope onde o mago Simão tenta comprar de Pedro e João o poder da imposição das mãos (cf. Atos 8.14-25); trata-se de defender o as novas comunidades contra a interpretação mágica dos ritos cristãos e da errônea compreensão (gnóstica e esotérica) da Graça Divina.

22 de abr. de 2009

Missão e Crescimento da Igreja: o conceito de Missio Dei

O conceito de "Missio Dei" tem sido o fundamento para a reflexão anglicana sobre a missão da Igreja. Trata-se de uma abordagem não eclesiológica de Missão, mas escatológica. Não determina "como a Igreja deve ser", nem "o que ela deve fazer". Esse conceito procura perceber a ação de Deus na História, ou seja, pressupõe uma perspectiva cristã da História.

Em Cristo, Deus está em missão. A missão é de Deus, a Ele pertence, é Ele quem age através do Espírito Santo. Portanto, é na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja que vamos encontrar os parâmetros fundamentais da nossa Missão, que está sempre inserida na Missão de Deus.

Resumindo, Deus atua também através da ação evangelizadora da Sua Igreja - aqui entendida como a comunidade eclesial, não a instituição eclesiástica. Ou seja, cada cristão e cada cristã são cooperadores de Deus em Sua missão. Por isso, é importante diferenciar "Evangelização" de "Evangelismo". Esses dois conceitos são distintos, embora, hoje em dia - no universo evangélico do Brasil - muita gente trata os dois conceitos como sinônimos.

Evangelização é a presença da Igreja no mundo, como sinal (sacramentum) e testemunha (martyria) da ação de Deus - em Jesus Cristo - na História, guiada pelo Espírito Santo. O conceito de Evangelização deixa claro que a ação da Igreja não é, simplesmente promover seu próprio crescimento institucional ou eclesial. Implica que a Igreja é, ela mesma, resultado da ação de Deus; por isso, deve estar envolvida e engajada em todos os aspectos da realidade, inserida na vida e na história, promovendo a vida em abundância, pois é sinal da presença d'Aquele que veio para que todos tenham vida e vida em plenitude (cf. João 10.10b).

Portanto, a ação de evangelizar não é só proclamar a Boa Nova, mas atuar no mundo à luz do Evangelho. Cada cristão e cada cristã atua, fortalecido pela graça, na Missio Dei através da evangelização, inserido-se, como cidadão e cidadã responsável, no mundo onde "há muita força que produz a morte", no dizer de uma canção de louvor dos anos 80 (Momento Novo). Essa inserção no mundo significa tomada de posição diante da realidade, a partir dos valores do Reino.

Cada um de nós, cristãos, é cooperador na Missio Dei (Missão de Deus), através das ações, posições e coerência com os valores do Reino que anunciamos. Evangelizar não é sair do mundo, mas - guardados do mal pelo poder de Deus - é estar presente no mundo. É crer que o mundo é redimido pelo sacrifício de Jesus Cristo, e anunciar isso através da prática coerente com os valores do Reino; é acreditar que, exatamente por causa dessa redenção, um outro mundo é possível e posicionar-se como agente de transformação. (cf. João 17.11-18)

Evangelismo é o simples ato de fazer proselitismo, buscar conversões, fomentar o crescimento da Igreja quanto à sua membresia. O evangelismo implica em usar estratégias de convencimento imediato e táticas de propaganda. O objetivo é, quase sempre, retirar a pessoa do mundo para colocá-la na Igreja, "protegendo-a do mal" e alienando-a da realidade social que a cerca.

Assim, com tal visão de missão, a Igreja deixa de ser a comunidade de anúncio e testemunho - deixa de ser sacramento, proclamação e martírio para se tornar a comunidade dos ausentes, dos auto-excluídos.

A Comunhão Anglicana entende que a Missão tem cinco características:

  1. Proclamar as Boas Novas do Reino de Deus, através da pregação da Palavra, o testemunho do amor salvador e reconciliador de Cristo para com todas as pessoas, através de atos concretos que se incorporem aos propósitos de Deus;
  2. Batizar, ensinar, nutrir e apoiar os novos cristãos, através de comunidades de fé que procuram ser acolhedoras, não excludentes, celebrativas e transformadoras das relações humanas;
  3. Responder às necessidades do próximo com o serviço amoroso, e desinteressado, em solidariedade e compromisso com os mais pobres e necessitados, em ação diaconal, sem exigir ou esperar que eles necessariamente se incorporem à Igreja;
  4. Buscar a transformação das estruturas injustas da sociedade, exercendo a vocação profética, vigilante contra toda injustiça e denunciando-as, bem como a toda forma de opressão, exclusão e violência;
  5. Proteger a integridade da Criação, cuidando do meio ambiente e promovendo todas as formas de vida no planeta, em cooperação com outros grupos onde se possa identificar o agir de Deus.

Eu estou seguro que o real crescimento da Igreja não é decorrente da propaganda e estratégias de convencimento ou do carisma pessoal de determinado pregador. Crescimento da Igreja não significa aumento de clientela! Fazer a Igreja crescer não é fazer proselitismo ou evangelismo. O crescimento da Igreja é obra do Espírito Santo, é resultado da Missio Dei.

Isso é bem claro no Novo Testamento: Jesus anunciou a Boa Nova do Reino, não buscou fazer prosélitos ou seguidores; os apóstolos anunciaram a Boa Notícia, faziam a boa obra e tinham plena consciência de que o incremento da comunidade era obra de Deus (Atos 2.42-47; Atos 5.42; Atos 14.27; 1 Coríntios 2.1-5; 1 Coríntios 3.6-9). O Apóstolo São Paulo não se identificava com aqueles que "estão mercadejando a Palavra de Deus" (cf. 2 Coríntios 2.14-17).

Creio ser da máxima importância que a Igreja em todos seus níveis institucionais reflita profundamente sobre o significado bíblico da Missão.

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