(continuação >>> veja antes: I - Sobre Ciência e Universo e II - Sobre Vida e Ser Humano.
Vaidade
O livro bíblico Eclesiastes me impressiona desde que o conheci,
por volta dos 15 anos. Sinceramente, se há algo útil e profundo no Antigo
Testamento, é esse livro. Não desprezo outros, mas o Eclesiástico é
profundamente honesto, sem apelações “espirituais” (de certa forma,
profundamente materialista), e responde à pergunta pelo “sentido da vida”.
Com frieza impressionante, demonstra que tudo é vaidade, ou seja,
nada tem sentido! Implode com o maniqueísmo que permeia a Bíblia, e nega a meritocracia
salvadora após a morte, sempre repetida pelos pregadores da “palavra de deus”.
Apenas constata o vazio da existência.
O Capítulo 9 do Eclesiástico é um primor de ironia e, ao mesmo
tempo, denunciador das ilusões que infestam a vida humana.
Conclusão
“¹
Dediquei‑me a tudo
isso e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, bem como o seu
trabalho, estão nas mãos de Deus, mas ninguém sabe o que o espera, seja amor,
seja ódio. ² Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o
mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não os oferece. O que
acontece com o homem bom acontece com o pecador; o que acontece com quem faz
juramentos acontece com quem teme fazê‑los. ³ Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol:
o destino de todos é o mesmo. Além do mais, o coração dos homens está cheio de
maldade; a loucura o domina enquanto vive, e, por fim, eles se juntam aos
mortos. ⁴ Quem está entre os vivos tem
esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto! ⁵ Pois os vivos
sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não há mais recompensa,
porque a sua memória cai no esquecimento. ⁶ Para eles o amor, o ódio e a inveja
há muito desapareceram; nunca mais terão parte em nada do que acontece debaixo
do sol. ⁷ Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho com o
coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. ⁸ Esteja sempre
vestido de roupas brancas e unja sempre a sua cabeça com óleo. ⁹ Desfrute a
vida com a mulher que você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus
dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois esta é a sua
recompensa na vida pelo trabalho que você realizou com esforço debaixo do sol. ¹⁰
Tudo o que vier às suas mãos para fazer, faça‑o com toda a sua força, pois na
sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há
conhecimento nem sabedoria”. (Eclesiastes 9:1-10 | NVI)
Pensar sobre o sentido da
vida é pura vaidade, porque não há sentido para a vida. Ela é uma consequência
das leis físicas e químicas que fazem o Universo ser o que é. Vaidade e
idiotice! No contexto do Universo, a vida é uma consequência de determinadas
coincidências simultâneas, apenas isso!
Portanto, na nossa insignificância diante do Todo, a busca pelo
Transcendente nos leva a imaginar um criador porque tudo deve ter tido um
início. Essa afirmação é filosoficamente idiota, porque se nada pode ser eterno
(sem início) a pergunta se volta sobre o tal criador: Se tudo teve de ser
criado, quem criou o criador? Se responder que o Criador não foi criado, a afirmação nega a si mesma...(a falácia da lógica religiosa!).
Concordo com o Eclesiastes. “7 Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho com o coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. ⁸ Esteja sempre vestido de roupas brancas e unja sempre a sua cabeça com óleo. ⁹ Desfrute a vida com a mulher que você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois esta é a sua recompensa na vida pelo trabalho que você realizou com esforço debaixo do sol. ¹⁰ Tudo o que vier às suas mãos para fazer, faça‑o com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria”.
Quando isso não for mais possível, não há mais comida saborosa e vinho, não há mais roupas brancas, não
há mais óleo, não há mais a(s) mulher(s) amada(s), e não há mais nada que se
possa fazer de útil até porque falta força, resta seguir o rumo caótico do
Universo, deixar vir a morte para que a vida continue surgindo (como sempre) a
partir da morte.
Por isso, sempre há o momento de seguir rumo a Narayama, este é o
sentido final para a vida. A última vaidade! Porque, com você ou sem você o
Universo continua, e a idiotice humana permanece.
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