Eu estava com 34 anos, quando o assisti pela primeira vez. Fiquei impactado a ponto de não sair do cinema quando terminou a sessão, para assistir de novo (naquele tempo você podia ir ao cinema e ficar lá assistindo quantas vezes quisesse sem pagar outro ingresso). Foi quando comecei a refletir sobre a questão da morte consentida
A lenda de Narayama conta sobre uma senhora idosa que, diante da miséria de sua família, insiste em ser levada para a montanha, mas seu filho se nega fazer. Mas, finalmente, face às circunstâncias duras da realidade, o filho concorda em seguir a tradição da aldeia, e leva sua mãe para a montanha.
O que me impactou no enredo foi que aquela senhora decidiu dar sua vida em benefício de sua família, pois seria uma boca a menos para alimentar. Lembrei de João 15.12-13 (“O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros, assim como eu os amei. Ninguém tem amor maior do que este: de alguém dar a própria vida pelos seus amigos”).
O mesmo conceito aparece em 1João 3.16-17 (“Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; portanto, também nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Ora, se alguém possui recursos deste mundo e vê seu irmão passar necessidade, mas fecha o coração para essa pessoa, como pode permanecer nele o amor de Deus?”). O único recurso disponível para aquela senhora era a sua vida, e ela a deu pelo bem da sua família! Portanto, naquilo que lhe foi possível, permaneceu no amor de Deus! Morte consentida em favor de outros. Aliás, não foi isso que o Cristo fez? Penso que há situações limites em que alguém se sacrifica por amor e pela vida de outras pessoas.
Um paroquiano, certa vez, me disse – referindo-se à sua idade avançada e seu precário estado de saúde – que a melhor coisa para sua família seria ele morrer, e colocou a justificativa para tal percepção: a despesa – segundo ele, inútil – com seu tratamento cessaria; sua aposentadoria seria uma renda nova para a família ao se tornar pensão para sua esposa; a trabalheira, que todos na casa tinham para cuidar dele, cessaria. Nas palavras dele, “... eu descansarei e, principalmente eles todos descansarão. Por isso, reverendo, não ore pela minha saúde, mas peça a Deus que me conceda a graça da morte, a mim e aos meus queridos”. Parece que Deus atendeu o seu pedido, pois faleceu alguns dias depois em um acidente doméstico! Mas ouvi comentários sussurrantes sobre suicídio.
Ele não foi a primeira, nem a última pessoa idosa ou gravemente enferma que me disse algo parecido e eu sempre lembro da senhora de Narayama. Preferir a morte para que a vida de outros seja menos sofrida.
Minha mãe dizia que a esperança é a penúltima que morre, porque a última morte é de quem perdeu a esperança. Em determinadas situações, subir para Narayama é a única possibilidade de ainda fazer algo em benefício de quem se ama.
A questão permanece: seria ético fazer tal escolha? Volto aos mártires cristãos dos primeiros séculos: morte consentida em defesa de uma ideia! Qual a diferença?
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Bom dia, reverendo Luiz.
ResponderExcluirVenho de uma família japonesa e morei por um período residindo no Japão. Por isso, compreendo profundamente essa lógica e essa forma de ver a vida que, muitas vezes, aos olhos ocidentais, pode parecer estranha ou até dura, mas que, na verdade, nasce de um profundo respeito pelo outro.
Na tradição japonesa, somos educados a nunca incomodar alguém — seja um parente, um amigo ou até um desconhecido. Incomodar é visto como falta de educação, como desrespeito e até como negligência com o bem-estar do outro. Por isso, no Japão, ajudar uma pessoa idosa que cai no chão, por exemplo, nem sempre é bem-visto. Muitas vezes, essa pessoa se sente constrangida ou até ofendida, porque, para ela, aceitar ajuda significa reconhecer que causou incômodo.
Ao passar entre duas pessoas conversando na rua, pede-se desculpas. Ao atravessar à frente de alguém, pede-se perdão. Usa-se a palavra japonesa gomenasai, que significa literalmente “perdoe-me por estar incomodando” ou “desculpe-me por causar transtorno”. Não é apenas um pedido de desculpa formal, mas um gesto de humildade que reconhece o espaço, o tempo e a dignidade do outro.
Até mesmo dentro da família, ao atingir certa idade, muitos filhos deixam a casa dos pais para não se tornarem um peso, para não incomodar. Essa mentalidade ajuda a compreender uma realidade dura do Japão: o alto índice de suicídio. Vivi isso de perto. Tive gerentes que se suicidaram por não alcançarem metas e sentirem que haviam decepcionado ou incomodado seus superiores. A vergonha, nesse contexto cultural, torna-se insuportável. Mudar a própria vida por outro, em muitos casos, nasce desse desejo extremo de não causar transtorno, de não ser um peso.
Ao mesmo tempo, é importante dizer que os idosos no Japão têm grande valor. Eles são respeitados por sua sabedoria e continuam ativos. É comum ver idosos trabalhando nos arrozais, de chapéu, curvados pelo tempo, mas cheios de dignidade. Aqueles que já não conseguem trabalhar recebem apoio do governo, justamente para não dependerem de suas famílias e, assim, não incomodá-las. Há uma beleza silenciosa nesse princípio de cuidado mútuo.
Essa educação marcou profundamente a minha vida pessoal. Nunca gostei de incomodar ninguém — nem minha família, nem amigos. Ir à casa de alguém sempre foi, para mim, um exercício de respeito. Lembro-me da minha avó, japonesa, que ensinava que, ao entrar em sua casa, os netos deveriam permanecer na sala. Para ir à cozinha ou a qualquer outro espaço, era preciso pedir permissão. Tudo era pedido. Tudo era autorizado. Isso era educação. Isso era amor em forma de respeito.
Por isso, muitas vezes me sinto desconfortável com certos comportamentos que vemos em nossa cultura brasileira: pessoas que entram na casa dos outros querendo mandar, opinar, exigir. Para mim, isso sempre soou estranho e errado, por conta da formação japonesa da qual fiz parte.
Levando essa reflexão para a cristandade, compreendo ainda mais profundamente o chamado do Evangelho. Somos convidados a não incomodar, a não sermos pedras de tropeço, a não criar fardos desnecessários na vida do outro. Somos chamados a dar a nossa vida por amor, a servir com humildade, a viver de modo que nossa presença seja bênção e não peso.
Dar a vida pelo outro é, também, esse gesto silencioso de amor: procurar ser o mínimo possível de obstáculo no caminho das pessoas e o máximo possível de cuidado, respeito e graça.
Marcelo Ikigire Bessa
Muito obrigado, Marcelo, pelo seu testemunho. Relevante, profundo e provocador! Deus te abençoe na vocação e no Ministério.
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