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20 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? ( 3. Retorno ao Movimento de Jesus)


 (continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? - parte 2)

O Cristianismo derivou do Judaísmo farisaico e desenvolveu-se apoiado na filosofia grega e no mundo bizantino. Assim, a maneira de pensar a Divindade é profundamente determinada pelo Antigo Testamento, na perspectiva helenista.

Hoje, por influência do “politicamente correto”, muitos teólogos cristãos tendem a definir o Novo Testamento como Segundo Testamento e o Antigo como Primeiro Testamento.

A pregação cristã, por sua vez, sempre proclamou que, em Jesus Cristo, celebra-se uma Nova Aliança. Então, sendo Nova, a velha acabou. Se é um Novo Testamento, o Antigo deixou de ser realmente um testamento. A ideia de Primeiro e Segundo Testamento é, no meu entender, absurda, porque faz dos dois uma coisa só.  Assim, enormes contradições aparecem diante dos olhos de quem ainda consegue manter o pensamento analítico crítico diante dos dogmas "infalíveis" das instituições religiosas.

Embora os acadêmicos apresentem argumentos contrários,  fundamentados em si mesmos, eu entendo que o Antigo Testamento precisa ser relido e interpretado a partir do Novo e não o contrário. Ou seja, deve-se considerar o AT como referência para compreender o processo da Revelação que se manifestou a partir de Jesus, o Cristo, o Logos Encanado.

Isso tem sérias implicações na Missão, no Testemunho e na Pastoral. 

Por que se perdeu, no mundo inteiro, a  vontade de conhecer o Evangelho? Por que as novas gerações não conseguem perceber no Cristianismo uma Boa Nova e vivem na permanente ansiedade sufocante pelo futuro, apostando no hedonismo de balada em balada? O mundo hoje assiste a morte da esperança, que – dizia minha mãe – é a penúltima que morre (a última morte é a de quem já perdeu a esperança)!

A resposta, penso eu, é porque a maioria dos paradigmas do Cristianismo (basicamente moldados pelo Antigo Testamento e pelo mundo helenista) não respondem às necessidades humanas deste tempo. Mas isto não é de hoje, já era percebido nas últimas décadas do século passado. De que Salvação se fala? Que Reino realmente se anuncia?

Onde está, na prática e no ensino das igrejas cristãs, a Ética de Jesus, o Cristo, a ética simples e clara do Sermão do Monte? Onde está o olhar amoroso e compassivo de Jesus perante os pecadores, os tristes, os doentes, os estrangeiros, os diferentes?

Retornemos ao Movimento de Jesus, à Ética de Jesus e tenhamos coragem profética de questionar e denunciar a moral hipócrita das instituições religiosas ditas cristãs. Nesse sentido, essa coragem é latente no Anglicanismo devido ao seu ethos construído historicamente.

Reflita sobre isso, e encontrará um caminho adequado para liquidar com os ideais de Cristandade que sempre foram opostos aos ideais de Jesus, o Cristo, Logos Encarnado. Ilumine a reflexão levando a sério o Evangelho (o texto joanino é uma boa inspiração... é a dica que deixo para vocês).

Avancemos rumo a uma teologia realmente da Encarnação. Deixemos de lado velhos paradigmas nascidos em outros tempos e culturas. Sejamos missionários, não colonizadores culturais! Busquemos construir comunidades solidárias, não uma massa de fiéis clientes seguidores e consumidores de magia disfarçada em religião.

Então as pessoas saberão que Deus é esse revelado em Jesus Cristo!

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11 de jan. de 2026

QUE DEUS É ESSE? (2. A Busca pela Transcendência)

(continuação >>> veja antes: Que Deus é esse? parte 1)

Restringindo-me ao Cristianismo, e aqui me refiro exclusivamente ao Cristianismo no Brasil, há dois polos básicos distintos que se excluem mutuamente: de um lado, uma perspectiva cristã que se apresenta ecumênica, inclusiva,  reconhece e respeita as diferenças, atua de forma cidadã e  defende princípios éticos na política; todavia, não responde às questões existenciais mais simples e não consegue consolar, animar a esperança... perde-se no ativismo inconsequente.

De outro lado, temos o cristianismo dogmático, fundamentalista, cheio de regras e preconceitos, que se preocupa com o “espiritual” (sem deixar claro o que isso seja) e transforma a imanência da vida (a realidade, o “mundo”) em inimigo a ser negado e derrotado. Consegue trazer conforto a custa da alienação absoluta e da domesticação da inteligência através da moral exigente, para garantir uma “vida eterna” após a morte, sem se importar com a vida que a maioria das pessoas vive, cujos problemas e sofrimentos  são considerados "provação" que deve ser aceita "com fé" para merecer o amor de deus, o seu deus cruel e pagão de sempre. 

Entre os dois polos, está a religiosidade popular, que se manifesta em muitos  matizes diferentes, vinculados à cultura popular, ao folclore. É onde se encontra a maioria da população. São as crenças religiosas populares, herdeiras de uma catequese pobre e superficial para cumprir os ritos iniciáticos, seja no Catolicismo Romano, seja nas diferentes linhas do Protestantismo. Com isso, o povo vai levando a vida, com sua fé e honestidade, sempre na perspectiva de “agradar a Divindade” para receber seus favores, como no Paganismo! Promove a separação entre a vida cotidiana (profano) e os momentos de reza, culto, devoção (sagrado); recebe grande influência do Kardecismo e tradições africanas, criando sincretismos religiosos. Em muitos sentidos é uma expressão do conservadorismo e facilmente se alia aos grupos mais dogmáticos e fundamentalistas.

As facilidades de comunicação disponíveis atualmente, revelaram outros modelos religiosos e  muita gente foi buscar tais alternativas, mas a grande maioria ainda permanece no tradicional coquetel religioso da cultura brasileira.

O Islamismo, com suas diferentes nuances e ênfases, tem sido uma alternativa para pessoas cansadas do dogmatismo tradicional cristão, mas defrontam-se logo com um dogmatismo semelhante, além do que o Islã pressupõe uma disciplina que é estranha à cultura brasileira. 

Percebo no Budismo uma alternativa onde a Divindade não é necessária, e tem se tornado um caminho de espiritualidade para algumas pessoas que abandonaram o Cristianismo.  Para elas, especialmente aquelas com formação superior, o Budismo aparece como uma filosofia de vida sem necessidade de doutrinas sofisticadas e práticas rituais complexas. Por não estar centrado em uma Divindade específica, o Budismo permite maior liberdade de pensamento.

Para a pequena parte da população que ainda consegue pensar de forma independente, não há muitas alternativas. Talvez isso explique o ressurgimento do Deísmo, fruto do Iluminismo, divulgado por pensadores como Voltaire, por exemplo, e sendo radical no pensamento de Baruc Spinoza (que era judeu) sobre Deus. Em outras palavras, Deus existe, mas não se envolve. A vida humana transcorre sem necessitar que Deus faça qualquer coisa.

A partir das últimas décadas do século passado, surgem novas perspectivas de busca da transcendência, de certa forma similares ou próximas ao Deísmo. 

Movimentos unitários, que se apresentam pouco preocupados com sistematização doutrinária, tentam formulações consistentes a partir das tradições religiosas, especialmente a partir do modelo monoteísta judaico-cristão. A ênfase não é no sistema de crença, mas no convívio e partilha da vida, suas dores e alegrias, na solidariedade e compaixão, em busca da transcendência. Evitam a linguagem religiosa tradicional, mas mesmo assim têm um discurso religioso sutil. Tem atraído os desigrejados, gente que procura viver a fé sem se vincular à instituições e padrões.

Particularmente, desconfio disso pois seus missionários têm vindo dos EUA. Todavia, se caracteriza por pequenos grupos (pelo menos por enquanto) que se reúnem para compartilhar, orar, estudar, enfim, experimentar o convívio comunitário de forma saudável e sem imposições de usos e costumes. Ainda é um movimento inicial no Brasil, mas provavelmente, caso avance, acabará se institucionalizando (já está institucionalizado nos EUA, o que me causa incômodo, pois se assemelha a "mais uma igreja",  sutilmente proselitista, que usa uma linguagem diferente para afirmar-se como "nova forma de espiritualidade").

Na mesma direção, mas sem identidade estado-unidense, está a Fé Bahá'i, que vem crescendo no Brasil. Sua ecumenicidade notável, sua organização, tem reunido pessoas de bom senso e desigrejadas, desiludidas com o Cristianismo. 

A busca pela transcendência continua. A sensação de que há algo além da realidade tangível inquieta e exige que se pense nisso e se busque alternativas. Infelizmente, o Cristianismo,  como tem sido construído desde  o século II após o Cristo, acabou deixando de ser uma alternativa saudável para a maioria das pessoas que não se contentam com o senso comum. A Boa Nova acabou silenciada de tal forma que não é mais perceptível ao ser humano ocidental neste século XXI.

===/=== (continua >>> veja postagem seguinte)

7 de jan. de 2026

A BALADA DE NARAYAMA – O Direito de morrer direito 2

 Na postagem anterior (O Direito de Morrer Direito – Reflexões iniciais sobre a morte com dignidade) fiz referência ao filme do diretor Shohei Imamura, lançado em 1983, “A Balada de Narayama”. O filme, na verdade, é uma versão da primeira novela do escritor Schiro Fukazawa, a qual narra a antiga lenda sobre uma aldeia onde os mais idosos eram deixados em uma montanha (Narayama) para morrer, a partir de certa idade. Uma análise interessante do filme é o artigo “A Balada de Narayama e a condição humana”, de Thiago B. Mendonça.

Eu estava com 34 anos, quando o assisti pela primeira vez. Fiquei impactado a ponto de não sair do cinema quando terminou a sessão, para assistir de novo (naquele tempo você podia ir ao cinema e ficar lá assistindo quantas vezes quisesse sem pagar outro ingresso). Foi quando comecei a refletir sobre a questão da morte consentida

A lenda de Narayama conta sobre uma senhora idosa que, diante da miséria de sua família, insiste em ser levada para a montanha, mas seu filho se nega fazer. Mas, finalmente, face às circunstâncias duras da realidade, o filho concorda em seguir a tradição da aldeia, e leva sua mãe para a montanha.

O que me impactou no enredo foi que aquela senhora decidiu dar sua vida em benefício de sua família, pois seria uma boca a menos para alimentar. Lembrei de João 15.12-13 (“O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros, assim como eu os amei. Ninguém tem amor maior do que este: de alguém dar a própria vida pelos seus amigos”). 

O mesmo conceito aparece em 1João 3.16-17 (“Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; portanto, também nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Ora, se alguém possui recursos deste mundo e vê seu irmão passar necessidade, mas fecha o coração para essa pessoa, como pode permanecer nele o amor de Deus?”). O único recurso disponível para aquela senhora era a sua vida, e ela a deu pelo bem da sua família! Portanto, naquilo que lhe foi possível, permaneceu no amor de Deus! Morte consentida em favor de outros. Aliás, não foi isso que o Cristo fez? Penso que há situações limites em que alguém se sacrifica por amor e pela vida de outras pessoas. 

Um paroquiano, certa vez, me disse – referindo-se à sua idade avançada e seu precário estado de saúde – que a melhor coisa para sua família seria ele morrer, e colocou a justificativa para tal percepção: a despesa – segundo ele, inútil – com seu tratamento cessaria; sua aposentadoria seria uma renda nova para a família ao se tornar pensão para sua esposa; a trabalheira, que todos na casa tinham para cuidar dele, cessaria. Nas palavras dele, “... eu descansarei e, principalmente eles todos descansarão. Por isso, reverendo, não ore pela minha saúde, mas peça a Deus que me conceda a graça da morte, a mim e aos meus queridos”. Parece que Deus atendeu o seu pedido, pois faleceu alguns dias depois em um acidente doméstico! Mas ouvi comentários sussurrantes sobre suicídio.

Ele não foi a primeira, nem a última pessoa idosa ou gravemente enferma que me disse algo parecido e eu sempre lembro da senhora de Narayama. Preferir a morte para que a vida de outros seja menos sofrida.

Minha mãe dizia que a esperança é a penúltima que morre, porque a última morte é de quem perdeu a esperança. Em determinadas situações, subir para Narayama é a única possibilidade de ainda fazer algo em benefício de quem se ama.

A questão permanece: seria ético fazer tal escolha? Volto aos mártires cristãos dos primeiros séculos: morte consentida em defesa de uma ideia! Qual a diferença?

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27 de dez. de 2025

O DIREITO DE MORRER DIREITO - Reflexões iniciais sobre a morte com dignidade

Quando eu era criança minha mãe acompanhava pelo rádio uma novela diária, chamada “O Direito de Nascer”. Anos depois, a novela passou na TV, no tempo que não havia videoteipe, era tudo em estúdio. Havia falhas, caia cenário, era engraçado, apesar do enredo ser um drama. A TV brasileira estava engatinhando.

De fato, todos os seres vivos têm o direito a ficarem vivos. Se nasceram, o bom senso diz que merecem permanecer vivos, enquanto essa vida durar.  O problema é a que vida se tem direito?

Hoje em dia fala-se muito em qualidade de vida, embora quase ninguém me explicou o que isso realmente significa. Afinal, o que é qualidade de vida? Como medir isso? É de fato possível uma vida de qualidade em uma sociedade impulsionada pela competição, exaltação do ego, individualismo exacerbado, exploração do trabalho, ganância, avareza, disputa pelo poder a qualquer preço,  enfim, a qualidade de vida tão falada é realmente para todas as pessoas ou só para a minoria que controla tudo?

Ficar entubado em uma UTI, enquanto estiver no prazo permitido pelo plano de saúde ou pelo SUS, vítima de uma doença terminal e incurável, é qualidade de vida? Ou seria apenas uma receita garantida para o sistema de “saúde” (que vive às custas da doença) e em nome de uma medicina que se sente no dever de “preservar a vida”? Este é só um exemplo do problema ético que raros pensadores se animam a discutir, mas que a moralidade tacanha e hipócrita dita “cristã” dogmatiza e atribui ao seu “deus” o direito exclusivo de decidir sobre a duração da vida.

Há, portanto, uma questão teológica, além de ética, a ser analisada, questão essa que exige muita coragem para enfrentar, porque os “donos da verdade” andam à espreita caçando “bruxas” (tudo que coloca em risco seu dogmatismo).

Sou a favor do direito de decidir morrer, por uma pessoa consciente, madura e que percebe que a vida vai caminhar para um final de sofrimento, dor, solidão, abandono, e ainda por cima, ficar à mercê da ganância que move a maioria dos serviços de saúde (prefiro dizer de “serviços pela doença”). A possibilidade de ter a morte assistida, ou resolver por si mesmo, de forma rápida e segura (no sentido de não falhar), dar fim à uma vida que já não tem perspectiva de ser realmente vida que valha a pena viver.

Em algumas culturas antigas essa possibilidade existia. Por exemplo, o filme “A Balada de Narayama”  do diretor Shohei Imamura, fala sobre a tradição em uma vila onde idosos são levados à montanha para morrer aos 70 anos, devido à trágica realidade econômica. Não era algo compulsório, e as famílias resistiam o mais possível para não descartar seus idosos. Porém, o enredo foca em uma senhora que, vendo a pobreza e a falta de alimentação para a família, insiste que se cumpra a tradição. De certa forma, ela está oferecendo sua vida em benefício do resto da família.

Tradições antigas do povo Inuíte (esquimós) falam de uma festiva celebração em que as pessoas idosas – a partir de determinada idade – se despedem da aldeia alegremente e partem rumo à escuridão ártica do Inverno recém iniciado. Há uma nova geração nascida e os recursos são limitados. Assim, uma geração se entrega para garantir a vida de outra

Posso entender o choque que representa para nossa cultura afirmar que alguém tem o direito de encerrar sua vida; mas isso é apenas moralismo, que se justifica a partir das convenientes interpretações religiosas.

Ao mesmo tempo, a moralidade dita cristã se contradiz, por exemplo, quando exalta os mártires da fé que deram testemunho através da morte consentida. Sim, consentida! Porque morrer foi uma decisão: permanecer vivo era o prêmio por negar o senhorio de Cristo e submeter-se às leis religiosas do Império (e à opressão decorrente - o culto ao Imperador); caso contrário, seria a morte. Muitos mártires optaram pela morte. Um tipo de suicídio. Claro que outros mártires não tiveram tal oportunidade de escolha. Foram mortos de forma imediata e cruel sem oportunidade de defesa, de escolha ou fuga.

Nossa cultura julga sem misericórdia o suicida. Algumas igrejas ditas cristãs negam os ritos de sepultamento – o suicida já é condenado a priori.  Outros grupos religiosos afirmam que a pessoa não aceitou seu “karma”, seja lá o isso seja, e assim está condenada.

Também aceitamos e tratamos como heróis os militares que morrem na guerra. São obrigados a ir para a guerra, e aqueles que morrem, se tornam “heróis da pátria”.

Na raiz dessas ideias nada misericordiosas está a crença em um deus que impõe condições severas para que ame alguém: cumprir sua “santa” vontade, cumprir a suas regras e que o tal deus respeita o livre arbítrio da pessoa - o seu amor não é incondicional, precisa ser merecido. Arvora-se a esse deus o poder absoluto sobre a vida e a morte. Não creio nesse deus!

A proposta de permitir o direito de morrer direito (a morte sem sofrimento, etc. e tal, como disse acima) tem crescido nos últimos tempos e há sérias reflexões éticas (e teológicas) sobre em que condições esse direito poderá ser reconhecido. 

Neste ensaio manifesto minhas primeiras reflexões sobre o assunto. Há muito a ser dito e muita reflexão ainda a ser feita. Rever velhos paradigmas, rever certas concepções da fé.

Por agora, é assim que tenho pensado nestes anos de velhice e diante da percepção de que a vida só será pior no futuro, dadas as condições de hoje! Até já sei a maioria das objeções que virão... os chavões religiosos de sempre. Talvez nem venham! Afinal em nossa sociedade, os velhos não são considerados!

===/=== (continua) >>> veja postagem seguinte


24 de dez. de 2025

FELIZ NATAL? SIM! FELIZ NATAL!

Tratava-se de uma festa pagã, um culto ao Sol. Após Constantino, o Movimento de Jesus passa a ser controlado, amordaçado e se torna instituição, passa a ser instrumento do Império (hoje diríamos “aparelho do Estado”). Afinal, a religião é uma expressão de poder: o controle (e manipulação) das consciências.

É o começo da Cristandade, quando o “Cristianismo”, a nova religião oficial, se associa ao Império já decadente e começa a absorver sua base estrutural. Conversões em massa, disfarçadas de “missão”. são incentivadas a partir do poder imperial Os antigos santuários pagãos vão se transformando em “santuários cristãos”; os antigos deuses e deusas são substituídos por santos, santas, e a Mãe de Jesus, o próprio Jesus se torna ídolo. O paganismo ganha um novo nome: Igreja Católica, no Oriente e no Ocidente Imperial, desenvolvendo lutas internas pelo poder (como acontece em toda instituição e em todo império) e as disputas doutrinárias pelo controle da “verdade”. O Movimento não se move, perde sua originalidade, se torna um bloco sólido, em nome da unidade monolítica de afirmações doutrinárias inspirada na filosofia, perde noção da novidade e do desafio que representa o Evangelho. A Boa Nova deixa de ser boa, e nova; se reveste do mesmo de sempre com roupas remendadas.

A cultura popular vai absorvendo e assumindo as mudanças religiosas impostas; faz sua releitura, mas não adere ao Movimento de Jesus, o qual continua no pequeno mundo oculto das comunidades de fé. O movimento das pequenas e corajosas comunidades iniciais vai se transformando na massa que se chama Cristandade; mas a semente ainda permanece viva. Assim é o processo histórico da humanidade – a eterna tensão entre Movimento e Instituição.

De certa forma, isso acontece até os dias de hoje. O Império caiu (Impérios não são eternos), mas sua marca, sua essência, se manteve na cultura de boa parte mundo e na instituição eclesiástica, independentemente de sua denominação. No processo de expansão do poder europeu, a “missão” se confunde com o colonialismo.

Todavia, o Movimento de Jesus ainda existe, sempre existiu desde o tempo dos Apóstolos e Apóstolas de Jesus. O Movimento existe dentro da Instituição, existe dentro da massa, da mesma forma que o fermento está contido na massa – exatamente como Jesus havia dito. Em qualquer unidade da Instituição sempre há um pequeno núcleo de comunidade de fé, envolvido - mas não dirigido - pela massa da religiosidade supersticiosa.

De tempos em tempos, acontecem momentos de reforma e de mudança, e assim, o Movimento continua, embora acabe absorvido e reinterpretado pela Instituição; mas continuam a surgir núcleos de resistência! Porque movimento é ação do Espírito, que se move e vai aonde quer. Assim, dentro de toda denominação dita cristã, há o núcleo e o germe da Igreja de Cristo, há o Evangelho, a herança da primeira comunidade de pessoas que conheceram, e seguiram, Jesus, as primeiras testemunhas e guardiãs da Boa Nova.

Portanto, apesar do deus Mercado, que tornou o Natal uma festa ateia, apesar das hipocrisias festivas, apesar da pressão cultural e social, há sentido em celebrar o Natal, a Páscoa, as datas de memória do Movimento de Jesus. Pelo menos para os núcleos de comunidade que existem por aí, dentro e fora das Instituições Religiosas. O eclesial permanece apesar das tentativas do poder eclesiástico em controlá-lo.

Então, que se celebre o Natal! Com humildade, mansidão e misericórdia, se aceite a sinceridade das pessoas simples, que não conhecem a História, que foram ensinadas e convencidas pela religião a pensar e a manter suas crendices disfarçadas de Tradição. Há muita sinceridade apesar de tudo, há muita gente que não se esconde na hipocrisia. Há muita gente que, ao dizer “feliz natal!”, não está fingindo ou cumprindo um “dever social de boa educação”. O abraço é sincero, o presente é dádiva, e a tal da ceia, a festa, é momento de comunhão, não necessariamente religiosa, mas afetiva.

Olhe ao seu redor, talvez você veja o Logos Encarnado semeando o Mundo Novo que chamamos de Reino de Deus! Porque, como diz a música do Flávio Irala,

O cativeiro ficará apenas na memória 
dos povos de boa vontade numa nova história 
pois, um dia, uma estrela caiu num curral...
É Natal! È Natal!


Feliz Natal!

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17 de mar. de 2020

Céu e Inferno

     Os cristianismos têm muitas contradições. Uso “cristianismos” porque existem vários. Não estou falando da Fé em Jesus Cristo, mas das diversas modalidades da religião chamada Cristianismo. Algumas dessas contradições são comuns a todas modalidades do cristianismo; outras se aplicam a algumas modalidades.  Não identificarei as modalidades neste artigo, pois seria emitir julgamento sobre modalidades que não conheço em profundidade, embora eu conheça várias; caberá ao leitor fazer tal identificação se sentir habilitado para isso.Vou falar de uma dessas contradições.
     O cristianismo é dualista; afirma a dualidade “Bem” e “Mal”, e define dois “lugares” para a “vida” após morte, a “vida eterna”: 
   O chamado Céu, “lugar” onde Deus habita, é reservado às pessoas que em vida cumpriram a vontade de Deus, arrependeram-se de seus pecados, etc.; um prêmio. 
O Inferno, todavia, é o “lugar” onde o Diabo vive e preside, é o lugar do castigo; lá Deus não está. 
Em outras palavras, isso se baseia em merito – os bons vão para o céu, os maus para o inferno – a cada um o que merece! Parece um critério de justiça humana… 
     Afirmam, a maioria dos pregadores e catequistas, que – segundo as Sagradas Escrituras – no “final dos tempos” (entendido como “final do mundo”) Deus estabelecerá seu Reino definitivamente. Lá viverão os fiéis, ressuscitados em um corpo excepcional, os que praticaram o bem e aceitaram a salvação através da morte e ressurreição de Jesus, reconhecendo-O como Senhor e Salvador.  Já os maus, os que recusaram a Salvação (e ai se enquadram todos os fiéis de outras religiões, inclusive), viverão para sempre no fogo eterno do Inferno.
     Algumas tradições, originárias da Idade Média, afirmam ainda que existem mais dois “lugares” onde ficam as almas que não foram para o Céu, nem para o Inferno, por diversas razões: o Purgatório – reservado para as almas dos que não tendo sido muito bons, precisam ainda sofrer penalidades para serem limpos (purgados) e ganharem o céu – e  o Limbo, onde ficam as almas dos nascituros não batizados (cujo único pecado é o herdado por serem humanos), os bons ateus e fiéis de outras religiões que se comportaram de acordo com os princípios morais cristãos.
     Embora “Purgatório” e “Limbo” não fossem reconhecidos pela Reforma, hoje, onde fazem parte da doutrina, não estão mais sendo citados… estão sendo abandonados mas não desmentidos!

1. Contradições
    Os conceitos acima relacionados provocam várias contradições. Vejamos algumas:
1.1 – Empate: se sobrarão o Céu dos bons e o Inferno dos maus, o jogo da história terminará empatado: Deus com seu reino celestial e o Diabo com seu reino infernal. Ninguém ganhou! Será traçado uma linha divisória entre os dois reinos… um abismo… de modo que quem está em um não poderá passar para o outro. O Bem e o Mal permanecem para sempre! Venceu a meritocracia, Deus e o Diabo estão felizes…
1.2 – Onipresença de Deus: se Deus não está no Inferno, então não é Onipresente, como afirmam os catecismos. Há um “lugar” onde Deus não está!
1.3 – Almas perdidas: o que acontece com o Purgatório e o Limbo, no final dos tempos? Em relação ao Purgatório, parece fácil: os que sobraram lá não completaram a purgação, portanto vão para o Inferno. Quanto ao Limbo, ou ele permanece (ficaria um terceiro lugar no final dos tempos) ou as almas ficam em lugar nenhum, perdidas sei lá onde. Fica a pergunta: Deus estaria lá ou não? Se sim, então as alminhas iriam para  Céu, não precisava do Limbo; se não, então as alminhas iriam para o Inferno, também não precisaria do Limbo… que confusão!
     Fiz tais perguntas quando tinha 11 ou 12 anos, em uma aula de religião no colégio dos Irmãos Maristas onde estudei. Realmente, eu estava muito preocupado com essas alminhas, pois havia perdido um irmão que morreu antes de nascer. O bom Irmão que lecionava a matéria disse que isso ficaria por conta da misericórdia de Deus e seria um mistério….
     Ainda bem que os Reformadores do século XVI recusaram aceitar tais conceitos …
2. Afinal, o que é Inferno?
     A palavra “inferno” deriva do latim “infernum”, que significa “as profundezas”, o “mundo interior”.  Deriva de “inferus” no latim pré-cristão, significando “lugares baixos”.
    Essa palavra latina  foi utilizada como tradução da palavra grega “Hades”, lugar dos mortos, nome também da divindade pagã que o governa, o deus Hades (Plutão dos romanos), entendido como local escuro e insalubre.
    Por sua vez, Hades foi a palavra grega que traduziu o termo hebraico “sheol” – lugar dos mortos, cuja origem é incerta, com hipótese de ter origem nas línguas dos acádios e sumérios. A Bíblia Hebraica usa o termo sheol (65 vezes) para se referir ao submundo dos mortos retratado como um profundo e escuro abismo. Na Bíblia o termo está estritamente relacionado a abismo e sepultura. Segundo o pensamento israelita antigo, o “sheol” seria um abismo escuro e silencioso situado nas profundezas da terra, para onde todas as pessoas iam depois de morrer. “Sheol” é também a “sepultura” ou “morada de todos os mortos indistintamente”. Não é um local desejável de se ir, exceto quando preferível a um grande sofrimento aqui na terra dos vivos.
    Na Bíblia Hebraica, bem como em sua tradução grega (Versão dos LXX), e no Novo Testamento (onde aparece como Hades) não há o ensino de que era um local de fogo e tormento dos maus como na ideia medieval (e atual) de inferno. Em alguns textos do Antigo e do Novo Testamento, Sheol (no NT grego, quando não traduzido por Hades) também se refere o local onde era jogado o lixo das cidades, permanentemente ardente de fogo por motivos óbvios de saneamento. Talvez venha daí a ideia medieval de inferno, que perdura até hoje. 
3. Penas Eternas e Maniqueísmo
    Por se recusarem a aceitar o conceito de “penas eternas” muitas pessoas foram classificadas como hereges e foram punidas pelas respectivas denominações. Por isso, para não dar margem aos oportunistas que não gostam de mim, afirmo que CREIO nas penas eternas… (será mesmo? rsrsrsrsrs)
    A dicotomia Bem e Mal é antiquíssima: vem do mundo persa, do Zoroastrismo; em resumo simples, afirmava haverem duas divindades: a divindade do Bem e a divindade do Mal. Também dai derivam os fundamentos para o conceito de Salvação, comum a vários credos religiosos desde a antiguidade, passando pelo judaísmo e pelo cristianismo, incluindo o pensamento mulçumano e as especulações Kardecistas.
    No meio cristão esse dualismo é conhecido como Maniqueísmo, devido ao ensino de Manes (ou Maniqueu), filósofo persa do século III, que associou  o Bem a Deus e o Mal ao Diabo. Manes juntou conceitos do zoroastrismo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo, considerando Zoroastro, Buda e Jesus como "pais da Justiça", e pretendia, através de uma revelação divina, purificar e superar as mensagens individuais de cada um deles, anunciando uma verdade completa1.
    Embora repudiado como pensamento herético, o maniqueísmo se firmou de forma sutil no pensamento cristãos, servindo de referencial ainda hoje, e – inspirando interpretações da bíblia – acabou criando, no cristianismo, o triste conceito dualista de sagrado e profano, vida do mundo e vida do espírito, e ainda hoje muitos cristãos e cristãs se afirmam fugir do mundo para não se contaminar por ele… (contradição: Jesus orou ao Pai para não nos tirar do mundo, mas nos livrar do Maligno! – João 17).
    O pensamento maniqueísta gera um conceito de justiça significando castigo para os maus, criando assim uma escala de valores que hoje seria chamada de meritocracia. Nesse conceito, é justo que os maus sofram para sempre (sentimento de vingança!) e os bons sejam premiados. E o cristianismo foi criando uma enorme diversidade de “quem é mau”: os que não obedecem à Lei de Deus os que não aceitam Jesus Cristo, os que morrem em “estado de pecado” (quem define o que é pecado?), os crentes de outros credos, ateus, quem foge da “moral sexual”, e por ai…
    Assim, como Deus é justo, Ele pune os maus de forma cruel! sem misericórdia! Em total contradição com o significado de Justiça apregoado na Bíblia, que é sempre paralelo ao de misericórdia e  de graça. Quando ouço certos pregadores fazendo a apologia do inferno, especialmente condenando quem pensa ou se comporta diferente, penso cantar o Hino: “Tu é cruel, Senhor, meu Pai Celeste…” ao invés de “Tu és fiel…” Nesse caso, Deus não se diferencia do Diabo, o qual, aliás, seria mais bondoso, pois “premia” sem exigências…
     Na lógica maniqueísta, se os maus não forem castigados, que adianta fazer o bem?
4. Então, vai todo mundo para o Céu?
    Não penso assim! aliás, não penso nisso!
    Creio em Jesus Cristo e vejo seu Reino como horizonte utópico 2 , creio que o alegado “Tribunal de Deus” não se baseia em direito penal, mas em paternidade carinhosa e misericordiosa. Quanto aos mortos… e a vida após a morte… isso é simplesmente uma questão de fé!
    A Igreja dos primeiros séculos compreendia o “Inferno” como Hades. Assim, o Credo de Nicéia afirma que Jesus, depois de ser crucificado, desceu ao Hades (Inferno), não ao reino de Satanás, o qual foi vencido na Cruz.
    Para finalizar quero dizer que no NT há várias passagens que fala da morte eterna. em contraposição à vida eterna. Assim,  não se refere a Infernos, locais de castigo, mas simplesmente à não vida eterna. Ainda assim… parece meritocracia!
    Você dirá: se não há mérito, então por que fazer o bem? Porque, simplesmente, fazer o bem é realizar aquilo para que fomos criados por Deus: sermos bons porque Ele é bom! Fez algo mau? arrependimento, colocar-se diante do Senhor confessar e pedir perdão, quando possível, reparar o mal feito… pelo menos, pedir desculpas… e não fazer mais!
    Ah! vc é ateu? não crê em Deus? então perdeu tempo lendo este texto. I am so sorry!
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Notas:
1 - para mais esclarecimentos, pesquise ´na internet; o texto da Wikipédia é muito bom.
2u-topos: não lugar ainda; diferente de a-topos: nunca lugar.

4 de jul. de 2019

Traduções da Bíblia e Ética Cristã

Em muitas partes do Novo Testamento, os cristãos e cristãs são estimulados a viverem de forma diferente em relação aos incrédulos, e também em relação aos judeus, especialmente nas Cartas de Paulo. Infelizmente, costuma-se dar atenção apenas aos versículos que se referem à sexualidade, com uma interpretação limitada e repressora, como se o Apóstolo fosse um inimigo da sexualidade e da feminilidade.

Dentro de sua cultura, ele, de fato, tinha lá seus problemas e limitações, mas a mensagem que o Apóstolo deixa, a qual aceitamos como Palavra de Deus, vai muito além de uma coleção de regras do tipo “isso pode, aquilo não pode”.

Quero fazer com você um exercício antes de prosseguir o assunto. Tente traduzir para o inglês a seguinte frase: “No alto da coxilha, índio velho, montado em seu baio, contempla a estância onde está sua prenda.”

O tradutor do Google traduz assim: “At the top of the cross, old Indian, mounted on his bay, contemplate the resort where your gift is”, o que, revertido para o português, pelo próprio Google, resulta no seguinte: "No topo da cruz, índio velho, montado em sua baía, contempla o ‘resort’ onde está o teu presente". Como o Google é esperto, ele propõe uma alternativa que é: “At the top of coxilha, old Indian, astride his bay, includes the resort where is your gift”, e revertido para o português resulta:  "No topo da coxilha, velho índio montado em sua baía, inclui o ‘resort’ onde está o teu presente”.

Mais inteligente que muitos “pregadores” do Evangelho, o Google pede para você melhorar a tradução proposta, ou seja, não é um literalista.  (se vc for testar, pode ser que ele acerte: fiz a correção on line! rsrsrsrsrs)

Será que você consegue traduzir para o português mais comum? e para o inglês? Você precisa conhecer o vocabulário regional gaúcho. Só assim, você poderá verter para o inglês, desde que você também conheça a cultura e a linguagem norte-americana ou a inglesa, ou a australiana, etc. (não é tudo igual, não!).

Dependendo para quem seja a tradução, talvez ela seja diferente. No português mais comum, essa frase significa: “No alto da colina, o sujeito, montado em seu cavalo, contempla a fazenda onde vive sua namorada”. Agora o Google não vai errar; com uma pequena correção, ele traduz: "Up on the hill, a man on horseback, contemplates the farm where his girlfriend lives", que retraduzindo fica: “No alto da colina, um homem a cavalo, contempla a fazenda onde vive sua namorada.”

Em Lisboa, ouvi a seguinte frase: “Manoel, de facto, gosta de fatos mas, cá em casa, veste fato de dormir”. Você consegue colocar isso em português brasileiro? Seria assim: “Manoel, de fato, gosta de ternos mas, aqui em casa, fica de pijamas.”

Eu quero que você compreenda que fazer a tradução de uma língua para outra (ou mesmo para a mesma língua falada em regiões diferentes) não é algo tão simples. Há dialetos locais, regionalismos, expressões populares que, traduzidas ao pé da letra (at the foot of the letter ???), não fazem sentido algum em outra língua. 

Por isso, o bom tradutor faz uma versão e não uma tradução literal, pois adapta a linguagem ao contexto cultural do destinatário da tradução, sua época, sua cultura, e busca expressões que signifiquem, na tradução, o que o texto original diz.

Em outras palavras, uma tradução, ou melhor dizendo, uma versão, depende da interpretação do tradutor e seu conhecimento antropológico das culturas envolvidas, pois traduzir textos é, também, traduzir culturas.

Os textos bíblicos originalmente foram escritos em várias línguas, muito diferentes das línguas modernas, especialmente em sua estrutura gramatical: hebraico antigo, grego koiné, aramaico e em alguns casos, siríaco. Além disso, o que temos disponível como originais são coletâneas de cópias manuscritas, muitas vezes diferentes entre si. Digo diferentes em sua estrutura, em sua gramática e sintaxe, em palavras e significados de palavras que variam conforme o tempo, conforme a cultura. 

A fim de garantir fidelidade ao texto recebido, a tradução da Bíblia é revisada de tempos em tempos, sempre por equipes de pessoas cristãs, especialistas em diferentes áreas de conhecimento, para adequar a linguagem ao tempo presente. Mesmo assim, são várias versões diferentes, várias edições diferentes, dependendo da editora e sua postura teológica.

A grande maioria das traduções (versões) que se costuma usar nas Igrejas do Brasil são tendenciosas, fortemente marcadas pelo preconceito e sem considerar o contexto histórico do texto, mas olhando o passado a partir de valores positivos ou negativos do tempo em que acontece a tradução. Hoje, novas versões procuram trazer o texto mais perto de nossa realidade cultural e histórica, sem violentar as culturas onde o texto foi gerado, graças ao aprimoramento das técnicas de exegese.

Por isso, é muito importante que as comunidades de fé mantenham a prática de realizar estudos bíblicos, com a participação de pessoas que conhecem o texto e suas variações dos originais (pastores e pastoras bem formados, conhecem!). E, no estudo, olhar com honestidade o texto e seu contexto, para, a partir dai, fazer a releitura dentro do contexto presente. Assim a Palavra se revela!

Quem faz a leitura literalista da Bíblia, ao invés de buscar na Palavra de Deus uma mensagem para a vida hoje, preserva preconceitos moralistas do presente (ou do passado), manipulando a Palavra de Deus, e trazendo contradições conceituais absurdas, as quais parece não perceber ou, de má fé, força uma interpretação.

Um exemplo claro é, por exemplo, a interpretação inconsistente que muitos fazem do livro de Levíticos, onde o literalismo oportunista comete contradições descaradas quanto à “obediência da Lei”. Basta ler Levíticos e verifica-se que grande parte dele não é ensinado pelos literalistas, exceto o que se refere à sexualidade e algumas relações entre as pessoas. O resto é considerado “costumes dos judeus”, “situações que eram necessárias na vida no deserto”, e outras babaquices.. Os fariseus do tempo de Jesus eram, realmente, mais honestos, pois procuravam seguir tudo à risca.

Com essa rigidez moral, “fundamentada nas Escrituras”, perde-se o cerne da mensagem ética contida nos escritos, qual seja, a proposta de uma postura crítica diante de si mesmo e da sociedade, a partir do Amor de Deus.

É isto que torna o povo cristão distinto dos demais, não como povo superior, mas como povo obediente, que pertence a Deus, e se oferece ao mundo como anunciador da Boa Nova: Deus é justo, misericordioso e se revela como Ser Amoroso em Jesus, o Cristo, Seu Filho, o Qual fez o único, completo, perfeito e suficiente sacrifício pelo pecado de todo o mundo e nos convida a uma nova vida, a partir dos valores do Reino de Deus.

Este é um bom resumo da Ética cristã. A Ética que nasce a partir do Evangelho e não de uma moralidade tida como absoluta e moldada por regras de controle e repressão. A ética que propicia a organização da Lei Moral moldada na perspectiva do Amor, que gera partilha, relações saudáveis, vida em comunidade, sinalizando o Reinado de Deus e não em um código de usos e costumes, comportamentos regidos pelo medo da punição. É a Lei da Liberdade, da qual nos fala Tiago (cf. Tiago 1.22-25).

A Ética Cristã não se limita a um código moral, mas resulta do confronto da Palavra de Deus com a realidade do mundo onde estamos inseridos. A Ética de quem ouve e pratica a Palavra de Deus, não em cega obediência, mas como fruto de uma reflexão consciente e um desejo de colocar-se diante de Deus e, a partir daí, adotar atitudes consistentes diante de si mesmo e da sociedade.

A Ética da Liberdade e do Amor é a postura diante do mundo a partir da nossa vivência pessoal com Cristo, praticando a Palavra revelada..
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8 de jun. de 2019

Novo Tempo em tempos obscuros

A música popular brasileira, no tempo da minha juventude, significou para muita gente o mesmo que o Apocalipse de São João significou (e significa) para as comunidades da Igreja sob dura perseguição do Império de Roma: a afirmação da certeza de um Novo Tempo, de um Novo Mundo no horizonte da História.
A fé cristã era politicamente criminosa
Ao contrário do que muita gente pensa, o Império Romano não perseguiu discípulos e discípulas de Jesus, as pequenas comunidades da Igreja nascente, por razões religiosas, mas por razões políticas. É puro idealismo romântico achar que os mártires foram mártires por causa de sua “religião”; eles morreram por causa da sua fé, que –  em certo sentido – ameaçava o poder do Império.e as bases de seu alicerce ideológico.
Lamento se você é daquelas pessoas que pensam que fé e política não se misturam. Lamento mesmo! Porque, goste você ou não, elas se misturam e muito! Especialmente a fé que afirma a Encarnação de Deus na História Humana para criar uma nova humanidade a partir da própria humanidade.
O Império Romano tinha, como um dos alicerces de seu imenso e absoluto poder, o conceito de divindade imperial, ou melhor, do senhorio absoluto do Imperador, a encarnação do Império. Ao Imperador era dado o título exclusivo de “Senhor” (no grego, “Kyrios”) significando que o Imperador é o Senhor Absoluto. Sua autoridade era divina, e muitas vezes eles mesmos se autodenominavam divinos e eram homenageados nos templos de todas as religiões do Império. 
Aliás, o Império Romano foi o espaço da liberdade religiosa absoluta, desde que o Imperador fosse considerado o Pontífice Máximo, o Sumo Sacerdote, de todas elas.  Nenhum ser humano poderia receber o título de Kyrios a não ser o Imperador, que era “supra-humano”.
Ora, eis que, de repente, um bando de pessoas simples, e até mesmo pessoas importantes da sociedade, começaram a dizer, aqui e ali, que um tal de Jesus – um galileu que fora condenado à morte em Jerusalém, acusado pela liderança judaica de ser inimigo de César – é o Kyrios. Isso não podia ser tolerado! Dai as perseguições que aconteciam em diferentes regiões do Império e as grandes perseguições gerais que aconteceram em todo o território imperial. E, verdade seja dita, muita gente abandonava a fé por causa do medo (não os julguemos! já vi muito “corajoso” se calar diante da injustiça, por medo! e muito “religioso” que não se interessa por política – por burrice ou medo mesmo!).
Os juízes romanos não exigiam que cristãos negassem sua fé, mas que negassem o senhorio de Jesus, o Cristo. Podiam crer da forma que quisessem, desde que respeitassem o poder absoluto do Imperador; ao afirmarem o senhorio (poder maior) de Jesus, cometiam um crime político, pois tal afirmação significava, na lógica do Império, que havia um senhor maior que Cesar.

O Apocalipse como mensagem de esperança
É nesse contexto que surge o Livro da Revelação, que nós conhecemos por Apocalipse (apocalipse é uma palavra grega que significa exatamente revelação). Uma mensagem de esperança que afirma a presença de Deus na História, que Ele não está ausente, mas está comprometido com Seu povo até o fim do tempo. (1)

A esperança em tempos de resistência
Quando o poder da opressão é grande, gera medo e obediência servil, paralisando o pensamento de muita gente.  A frase “é melhor obedecer para evitar problemas!” é ouvida nesses tempos, como conselho sábio e prudente.
Mas o Espírito Santo sempre toca em pessoas que não decidem por emoções imediatas, mas ousam refletir sobre a realidade e se indignam diante da opressão e do poder colocado como absoluto por um grupo ou uma elite.
Nesses tempos a resistência se manifesta, geralmente, pela arte: a literatura, a música, e até mesmo artes plásticas.  Porque a linguagem da Arte é incompreensível para aqueles que, do alto de suas certezas absolutas, não enxergam nada além de sí mesmos e seus interesses mesquinhos ou os mesquinhos interesses de quem os manipula.  Como não compreendem, ou censuram ou consideram “coisa boba”.
Assim, as cópias manuscritas do Livro da Revelação, texto riquíssimo em simbologia e linguagem do Antigo Testamento,  circulavam livremente entre as comunidades, sem risco de serem compreendidas pelos “guardiães” do Império.  Afinal, pensavam as elites romanas, “é um texto cheio de visões de algum alucinado, nada que possa nos ameaçar!”
No tempo da minha juventude, em meio à minha militância política como cidadão e como cristão, a Arte falava o que não podia ser dito livremente, e os órgãos de segurança eram burros o suficiente para não perceberem a resistência se manifestando. A Música, o Teatro, o Cinema eram portadores das mensagens de esperança e de luta, eram a resistência agindo.

A esperança em tempos de incertezas e medo
Quando pensávamos que os tempos de obscurantismo haviam terminado e não voltariam mais, ei-los de volta. As elites tacanhas encontraram a brecha que procuravam para trazer de volta tudo aquilo que lhes convém: os interesses do grande Capital, a gestão da Educação manipulada para aumentar a ignorância e a burrice ( e a dependência servil), a derrubada dos direitos conquistados pela luta popular, o fechamento do mercado para os mais pobres, o descompromisso do Capital com o Trabalho, e tudo que temos visto neste país (e neste continente) desde os últimos  anos.
Espero que a Arte desperte para ser, novamente a voz da resistência. Espero que uma nova geração de artistas independentes se manifeste com a mesma criatividade e inteligência daqueles dos anos '60 e '70 do século passado.
Enquanto isso, vamos nos ajudando a sobrevier com aquelas músicas. Uma delas me agrada muito, e deixo aqui com você, leitor, para animar e fazer renascer a esperança, ‘pra nos socorrer, pra sobreviver’:

Novo Tempo
Vitor Martins / Ivan Lins
No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos
De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
De todos os pecados, de todos enganos, estamos marcados
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
Não perca a esperança, resista de forma inteligente!
Não se deixe levar pela “coxinhagem” que permeia o país; ela está ficando cada vez mais fraca, porque – convenhamos – há coxinhas inteligentes…
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(1) - Se você quer conhecer mais sobre o Livro do Apocalipse,   acesse diretamente os estudos em  ESTUDOS ÍBLICOS.
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3 de jan. de 2019

O Deus de Toda a Graça e a Meritocracia

Jesus e PedroVamos lembrar três importantes conceitos que sempre temos ressaltado nos nossos textos e pregações: Justiça é dar a cada um o que merece; Misericórdia é não dar a cada um a punição que merece; Graça é dar a cada um o que não merece.

O Antigo Testamento revela o Deus da Justiça e da Misericórdia. O Deus que estabelece o pacto com um povo mediante uma Lei e por tal Lei julga, castiga ou age com misericórdia. Os Profetas e Profetizas foram os porta vozes desse Deus de Justiça, e ao mesmo tempo que anunciavam o julgamento, também falavam que a misericórdia divina é sem limites.

Herdeira da cultura Greco-Romana e dos princípios do Judaísmo tardio, nossa cultura se fundamenta nos princípios do Direito, ou seja, da Justiça, a qual deve ser executada e garantida pelo Estado. Nossa visão de sociedade se define a partir da Justiça e da Lei. Nada de mal quanto a isso, embora, ao contrário do Deus do Antigo Testamento, a Misericórdia quase não é exercida nem pelo Estado, nem pela maioria das pessoas, que buscam, muitas vezes, na Justiça o sentido oculto de vingança...

Todavia, o Novo Testamento traz uma nova revelação sobre Deus, que se manifesta em Jesus, o Cristo, o próprio Deus que se torna ser humano abrindo mão de todas as prerrogativas e sendo humano até na morte e morte de cruz (cf. Filipenses 2.5-8). O Novo Testamento, e a Igreja dos Apóstolos, fala de um conceito novo e estranho ao seu tempo (e inclusive ao nosso tempo): o Deus que se revela em Jesus o Cristo é o Deus da Graça. O Deus que oferece a Vida em plenitude não mais pela obediência à Lei, mas pela infinitude de Seu amor; o Deus que julga com misericórdia e pela Graça concede a Vida em abundância (cf. João 10.10b) a todos que se abrem à Sua Graça.


Deus escolhe quem não merece
Já no Antigo Testamento vemos sinais disso, que Deus não atua em função do mérito, mas em função de sua inigualável bondade: Deus não escolheu pessoas especiais, mas escolheu pessoas comuns e muitas vezes consideradas más pessoas: escolheu Jacó que enganou seu pai Isaac e roubou a primogenitura de seu irmão Esaú; escolheu Salomão, filho de um adultério e um assassinato; escolheu Oséias, um homem amargurado pela esposa adúltera porém muito amada; marcou Caim, fratricida, com um sinal para que ninguém o perseguisse; escolheu Davi, um pirralho por quem ninguém dava nada; escolheu Moisés, homem gago e foragido, como seu porta-voz diante do Faraó; e muitos outros casos podemos ver examinando o texto sagrado.

Essas escolhas imerecidas de Deus continuam no Novo Testamento: chamou Maria, jovem prometida em casamento a um homem idoso, que vivia em um vilarejo longe de tudo e na Galiléia, local considerado de segunda categoria pelos judeus; revelou-se aos magos do oriente, gentios e pagãos, que cultuavam deuses siderais, e revelou-se aos pastores, homens rudes e ignorantes; mas não se revelou ao rei Herodes, ou ao governador romano, e tampouco aos religiosos daquele tempo; entre os antepassados de Jesus havia uma prostituta; Jesus escolheu como discípulos, um pecador público (Mateus), pescadores simples e iletrados como Pedro, Tiago e João, um guerrilheiro zelote (Simão); confiou a Saulo de Tarso, que participou do assassinato de Estevão e matava cristãos, a tarefa de ser Seu anunciador aos povos fora da Palestina...

Em outras palavras, tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus escolheu pessoas que não tinham nenhum mérito, nenhuma qualidade apreciável, ninguém considerado uma pessoa respeitável e de confiança. Deus não dá pelota para a meritocracia! Mas todas as pessoas que foram escolhidas e chamadas por Ele se tornaram merecedoras do respeito e da admiração até os dias de hoje.

A Graça Operante
Todas as pessoas tocadas por Deus deixam sua zona de conforto, abandonam sua visão estreita do mundo e se abrem para uma dimensão maior, a dimensão iluminada pelo Espírito Santo.
Deus age pela Graça! Movido pelo Seu imensurável Amor, e Seu coração Misericordioso, Deus não mede as pessoas pelo mérito, mas pela misericórdia de Seu inefável coração.
Sob o ponto de vista da Justiça, a Graça é injusta, pois dá a cada pessoa o que não merece. Por isso, quem ouve a voz de Deus e atende ao Seu chamado, não é mais deste mundo. Seus valores são outros! A solidariedade não é dever legal, mas demonstração de gratidão pelo que recebemos, sem merecer, de nosso Pai Materno. A Lei não mais impera, mas impera o referencial ético do Evangelho que não se limita a certo ou errado, mas à questão do que convém e não convém em cada momento (cf. 1 Coríntios 6.12), a partir do critério da Graça, não do mérito.

Consequência
Abrir-se à Graça de Deus é reconhecer que nada poderá fazer para merecer o Amor que Deus oferece. É reconhecer que recebemos o perdão e por isso perdoamos; é reconhecer que de graça recebemos e por isso, de graça damos. É permitir e reconhecer que Deus está no controle, cabe a Ele, e somente a Ele, definir Sua relação com cada pessoa; por isso, não julgamos, nem buscamos ver o pecado nas outras pessoas u avaliar o mérito para que recebam a salvação.

O Deus da Graça abomina a meritocracia. A meritocracia é contrária ao Seu agir! Porque é diabólica, divide as pessoas em categorias excludentes.
Portanto, meu irmão ou minha irmã, se você acha que merece algo, então, pode esquecer, porque acabou de desmerecer. Seja teu mérito a obediência à Palavra de Deus e a sua vida de oração e serviço em Nome do Senhor. Você, desde que aceitou a soberania de Deus em sua vida, deixou de ser deste mundo, embora continue nele, mas você está aqui para testemunhar e proclamar a Graça de Deus e não para receber reconhecimento dos valores mundanos.
Você não merece, mas Deus lhe dá! Agradeça e em tudo daí graça.
E o Deus de toda a graça, que em Cristo os chamou à sua eterna glória, depois de vocês terem sofrido por um pouco, ele mesmo irá aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar vocês. A ele seja o domínio para sempre. Amém! (1 Pedro 5.10-11)
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PS – Aproveita esta oportunidade: como exercício, busque na Bíblia os exemplos de pessoas chamadas por Deus imerecidamente. É uma oportunidade para você gastar um tempo examinando as escrituras, e perceber que todas as pessoas merecem a Graça. Basta aceita-la!
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8 de ago. de 2017

Recusando as datas de mercado

No próximo domingo, 13 de agosto, celebra-se a data comercial do Dia dos Pais, e para isso a mídia nos entope de propaganda para “homenagear o papai com carinho”, sendo que o carinho é o produto do anunciante….

Em muitas igrejas, faz-se uma celebração especial para os pais, como fazem também para as mães no Dia das Mães, outra data que vem sendo manipulada pelo mercado. E o mesmo vale para Natal, Páscoa, dia das Crianças, datas que o deus mercado (Mamona) tomou para si e seu arsenal publicitário quer nos fazer crer que “felicidade” é “presente comprado”.

Pessoalmente, eu não gosto de celebrar dia disso ou daquilo na Igreja. E mesmo as festas do calendário cristão eu não gosto de vê-las como mais um argumento de compra e estourar cartões de crédito. E agora já inventaram o Dia do Vovô, dia da Vovó, e logo vem o Dia do Titio, o Dia da Titia, e, porque não, o Dia do Vizinho, o Dia do Corrupto (ah! claro, não precisa, é todo dia!)…  e tudo isso criando o “dever” de “comprar presente” que, pode ser acompanhado por umas palavrinhas bobas e um abraço que sempre falta outros dias.

Assim prefiro celebrar o Dia da Maternidade e da Paternidade; prefiro celebrar a Semana da Paixão, ao invés da Semana Santa (cheia de pacotes de viagens); a Ressurreição do Senhor Jesus ao invés de Páscoa com seu coelho safado; a Natividade do Senhor ao invés do Natal cheio de “paz e alegria forjadas em um novo tempo que vai chegar”, mas que desaparecem no dia 26 de dezembro, quando a amizade, a solidariedade e a paz voltam para o lixo. Não gosto de dar Feliz Ano Novo, ou Feliz Natal, ou Feliz Páscoa, porque não sei bem o que isso significa em uma sociedade marcada pela hipocrisia e pelas fantasias sobre felicidade…
A
ssim, neste domingo, quero celebrar o Dia da Paternidade, que é muito mais que Dia dos Pais… porque a Paternidade é uma decisão que se toma, um dever que se assume, enquanto ser pai, muitas vezes é fruto de um acaso infeliz… Nem todo pai exerce a paternidade, assim como nem toda mãe exerce a maternidade, que é também um dever que se assume, nunca o resultado de uma ocasião errada.

Restaria ainda falar das “datas nacionais”, aquelas que neste país foram inventadas pela elite dominante, e fundamentadas em mentiras históricas e heróis inventados… mas isso fica para uma outra vez, um papo com quem estuda de fato História e não lê livrinhos formadores de ideologia a serviço da classe dominante.
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24 de fev. de 2016

A Quaresma na minha infância

Eu me lembro do tempo de catecismo e das práticas católico-ramanas da minha mamãe. Meu papai não era lá um fiel católico, era meio chegado na Umbanda carioca, apesar de vivermos em São Paulo,  mas toda sexta-feira ele acendia um treco muito fedorento, que ele chamava de defumador; ele nunca interferiu na vida religiosa da mamãe (nem ela na dele) e no que ela me ensinava sobre religião. Já pelos 50 anos ele se tornou cristão (católico romano) e foi militante até sua morte. Tanto ele quanto mamãe se tornaram ativos no Movimento Familiar Cristão e nos Cursilhos de Cristandade até a morte. Quando me tornei episcopaliano, bem mais tarde, eles não se incomodaram com isso, pelo contrário, sempre incentivaram minha ação na Igreja e depois, minha vocação.
Minha mamãe e o padre do catecismo, me ensinaram, quando criança, que a Quaresma, os 40 dias que antecedem a Páscoa, é o tempo que Jesus está no deserto, em jejum e lutando contra o Diabo.  Eu perguntava: por que Jesus não acabava logo com o Diabo, ao invés de todo ano ter de ir ao deserto para brigar com ele? Eu achava que a coisa acabava em empate sempre.
Também me ensinaram, na infância, que a Quaresma é um tempo de penitência e arrependimento. Então, eu perguntei se quando não era Quaresma não precisava me arrepender dos meus pecados e fazer penitência. Disseram-me que o arrependimento e a penitência precisam ser feitos sempre! então, eu pensei, não tem sentido dizer que a Quaresma é um tempo de arrependimento e penitência se a gente tem de se arrepender e fazer penitência o tempo todo.
Além disso, me ensinaram, na infância, que eu não podia comer carne nas sextas-feiras da Quaresma, um sacrifício para Jesus, além aguentar o defumador do papai (fosse ou não Quaresma). Não podia comer carne de boi, de frango, de porco, nem sanduíche com presunto ou mortadela –  só de queijo podia.  Isso era muito respeitado em minha família, e a gente comia uma enorme bacalhoada ou uma peixada até estourar! Então eu perguntei que sacrifício era aquele, já que era uma delícia comer peixe do jeito que a mamãe preparava.  Na Sexta-Feira Santa, então, era uma coisa incrível.  Eu tinha de fazer jejum (nem café da manhã eu tomava), ir com minha mãe em sete igrejas diferentes para visitar o Cristo Morto, e finalmente, à noite, acabar o jejum sem comer carne... Eu não entendia porque a gente tinha de ir a sete velórios diferentes de Jesus Cristo, se era o mesmo defunto – ainda por cima não era gente, era uma estátua, a maioria delas com uma cara assustadora! E ainda tinha a Procissão do Enterro de Jesus (mas era uma estátua e nunca enterraram de fato. Sai da Igreja e voltava para a Igreja... então, não era enterro).
Minha mamãe explicava que o jejum, o não comer carne, o não rir, a procissão, tudo isso era um sacrifício, para pagar os nossos pecados, e o bom e severo Padre Saturnino, da Paróquia Santa Margarida Maria no Jardim da Glória, repetia os mesmos ensinamentos no catecismo, e nos sermões da missa de domingo, que eu ia quando meu pai não inventava de a gente sair para almoçar fora de São Paulo...
Ah! ia me esquecendo. No colégio dos Irmãos, onde eu estudava, além de ouvir as mesmas coisas, durante a Quaresma a gente não podia rir... é mole? Ainda bem que a maioria dos Irmãos do colégio não levavam isso a sério! Mas no catecismo, e na minha casa, sempre havia uma pequena reprimenda quando eu ria, ou contava piada... Era falta de respeito com Jesus.
No colégio dos Irmãos, sempre, em todas as classes, em todas as salas, no banheiro e no pátio,  placas com letras grandes dizendo “Deus me vê”!  
Confesso que eu achava Deus um sujeito chato e nada simpático. Ele era um bisbilhoteiro que ficava “de olho” na gente o tempo todo para tomar nota dos pecados, e se Ele não estava olhando, tinha um tal de Anjo da Guarda que contava tudo pra Ele.  Disseram-me que tinha de chamar Ele de Pai, mas meu pai era um cara legal e Deus não...
Uma coisa que eu curtia muito era "malhar o Judas" no Sábado de  Aleluia. Algumas vezes meu papai fazia o boneco usando roupas velhas, outras vezes era um vizinho ou nõs mesmos, a molecada, e depois a gente "descia o cacete" no boneco e botava fogo. Era uma farra na rua!
Ainda hoje, muitas dessas coisas estão na cabeça do povo, embora a Igreja Romana, após o Vaticano II, corrigiu, e muito, as práticas e a própria maneira de entender a Quaresma.
Quando descobri o Protestantismo, e logo depois me tornei episcopaliano, comecei a ver a Quaresma de outra maneira, e entender que certas práticas podem ser entendidas e vividas de outra maneira, dentro de uma piedade saudável e profundamente consistente. Mas isso é assunto para outro artigo.
Quanto a meus pais, depois que se tornaram militantes cristãos e católicos, começaram a estudar a Bíblia (eu dava uma ajudinha) e minha mamãe foi deixando de lado muito daquele catolicismo popular que nunca fez a minha cabeça!
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