Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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7 de mar de 2012

A Borboleta

lagartaDurante a maior parte de sua vida, ela foi uma lagarta. Como tal, nem mesmo percebia o mundo; sua vida era apenas alimentar-se e crescer. Ela não percebia bem onde estava, sabia apenas que onde estava havia comida; aliás, ela habitava na própria comida. Sabia que haviam outras como ela, mas essas outras, como ela, apenas comiam e portanto era melhor que cada uma ficasse no seu canto, cuidando da comida à sua volta, para que outra não viesse fartar-se em seu território.

Sem que ela realmente entendesse o porquê, de repente seu corpo não quis mais comida, mas queria que ela saísse de lá e procurasse um outro local, para fazer o quê, exatamente, ela não sabia. Assim foi que achou um galho, e colou-se nele. Ao mesmo tempo, ela começou a tecer algo com um fio que saia dela mesma. Aquilo que ela construía foi envolvendo ela mesma de forma que em certo momento seu corpo estava totalmente dentro daquilo e não havia mais por onde sair. Ela se tornara um casulo! e um enorme sono se apoderou dela – até então nunca dormira, apenas comera sem parar – e ela paralisou todas as atividades, ficou ali, dentro do casulo, como dormindo, enquanto seu corpo passava por tremendas transformações.

Um belo dia percebeu-se novamente. Algo exigia que ela saísse do casulo. Sentia-se diferente, o corpo era outro, um corpo novo! Apareceram pernas, antenas, e uma coisa esquisita toda dobrada.E ela estava imersa em algo gosmento, estava como molhada. Percebeu que havia um lugar no casulo que ela poderia forçar e sair. Não sabia porque, tinha de sair dali.

Quando conseguiu passar sua parte da frente pela fenda aberta, ela se assustou. Ela viu algo que nunca vira, até porque nunca tinha visto coisa alguma até aquele momento. Havia muita coisa além dela, nada que lembrasse o mundo de comida onde crescera… Havia movimento em volta dela, e ela se percebeu presa em um galho, como que pairando no ar; o casulo balançava muito… havia vento, brisa, movimento.

Borboleta 1Sentiu medo! Um medo terrível! fora do casulo, o totalmente desconhecido. Bom seria ficar ali dentro do casulo, mas ele balançava muito e, afinal, acabaria caindo sabe-se lá onde! Ao mesmo tempo, uma força interior a forçava sair… com dificuldade, conseguiu colocar seu corpo todo fora do casulo, e tinha de aprender a usar as pernas, as antenas e os olhos… e aquela coisa dobrada esquisita que de repente começa a mover-se – ela tinha de mover aquilo de um certo jeito – e logo descobriu que aquilo era enorme e ela podia abrir e fechar…

Rapidamente começou a secar da gosma que envolvia seu corpo, começou a sentir-se firme nas pernas e acabou sendo soprada pela brisa. Algo fantástico aconteceu… aquela coisa que ela podia abrir e fechar, de repente se abriu e ela movendo aquilo, parou de cair; logo percebeu que podia ir para o lado que quisesse… estava voando.

Conseguiu ver mais sobre onde estava. Haviam coisas coloridas que balançavam ao vento… e de repente, haviam seres voando como ela e ela se deu conta que eram iguais a ela… Mas também haviam outros seres por ali, assustadores, e ela viu um desses seres assustadores engolir um outro igual a ela.

Bonito, mas assustador… melhor voltar para o casulo… lá dentro não há perigo… e tentou voltar, mas não cabia mais lá dentro. Ao mesmo tempo, sentia uma força enorme a impelindo para voar, para ir onde as iguais a ela estavam…

A borboleta se deu conta que estando viva, não podia fazer outra coisa senão lançar-se na vida, na vida nova que se abria para ela, e que apesar de todas as ameaças, havia um lindo jardim… e outras iguais a ela… e então… ela voou e apostou na vida, apesar de todos os riscos.

borboletasE logo encontrou outras como ela, e experimentou com elas uma comunhão profunda…percebeu que tinha de dar continuidade à Vida, e assim, na comunhão com outra igual a ela – não tão igual, afinal – acolheu em si alguma coisa; pouco depois, descobriu aquilo que antes era a comida, e lá deixou pequenas bolinhas que saíram de dentro dela… e feito isso, voou intensamente, pousou em muitas coisas coloridas, até que lentamente toda a luz terminou.

Das bolinhas que saíram de seu corpo, pouco depois, pequenas lagartas começam a se mover e a comer… e a borboleta se manteve viva na geração seguinte… e percebeu-se ligada a todas as gerações de borboletas antes dela… e depois dela! Pouco antes da luz finalmente apagar, ela entendeu que sair do casulo era o que tinha de fazer para ser plenamente o que ela nascera para ser: uma borboleta!

Para Simone, uma borboleta!

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Um comentário:

  1. A simple text, but at the same time deep and mysterious as the sea, as the muse inspiring. Thanks, my dear.

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