Mostrando postagens com marcador Aspirações Literárias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aspirações Literárias. Mostrar todas as postagens

24 de out. de 2016

Versinho bobinho profundinho – pense um pouquinho…


full-moon-in-capricorn

A noite desce, a Lua aparece,
O homem esquece, faz uma prece,
Adormece…
Todavia, desaparece!
Amanhece,
Um novo dia acontece…






A noite desce, a Lua aparece, o homem esquece, faz uma prece, adormece… Todavia, desaparece!
Amanhece, um novo dia acontece…
---/---

30 de jan. de 2015

Fulano de Tal

Fulano de Tal

Fulano de Tal nasceu em algum lugar em certo dia de certo mês de determinado ano. Filho de seu pai e de sua mãe, nasceu em um lar de classe média baixa. Foi um neném comum, como todos encheu o saco de seus pais com manhas, cólicas, fazia cocô em horas impróprias…

Na infância frequentou um colégio estadual, sentava na turma do fundão da classe, reprovou no 4º ano, mas como não podia reprovar, passou de ano… Aprendeu muitos palavrões e sua mãe colocava pimenta em sua boca, denunciou a mãe ao Conselho Tutelar, que deu uma espinafrada na mãe. Xingou a mulher do Conselho Tutelar, levou uma bordoada… não tinha pra quem reclamar. Teve sarampo, catapora, rubéola, caxumba e bronquite. Foi vacinado contra um monte de coisa, e sempre berrava muito na hora da vacina.

Chegou na puberdade, estranhou seu corpo mudando, perguntou para seu pai, o qual disse que é assim mesmo. Um amiguinho ensinou a manipular certas partes, gostou muito. Caiu da bicicleta, quebrou o braço. Descobriu que existem meninas, as quais são chatas.

Na adolescência começou a fumar escondido. Chegava tarde em casa nas noites de sábado, levava esporro do pai, mas não dava a mínima porque não podia ser castigado. Continuou no mesmo colégio. Descobriu que as meninas não são tão chatas, afinal. Aprimorou as técnicas de manipulação de certas partes, agora pensando em meninas.

Acabou o Curso Médio, fez o ENEM, foi mal em redação, em matemática, em história, em geografia, em tudo.  Acabou em faculdade particular no curso de Direito, trancou matrícula porque era chato e o pai achava caro, foi estudar computação em um desses cursos avulsos, quebrou o computador do pai, levou esporro, mas não deu a mínima. Voltou para a faculdade, acabou o curso, conseguiu uma dessas bolsas do governo, não passou no exame da OAB, arrumou emprego numa loja, foi demitido porque chegava atrasado sempre e faltava. Continuou vivendo de mesada do pai. Nunca devolveu o dinheiro da bolsa do governo. Ficou com CPF sujo, mas e daí?

O pai e a mãe se separaram, teve de ficar morando com a mãe, porque o pai se mandou com uma garota e foi morar em outra cidade. Não tinha mais mesada, mas recebia pensão do pai. Arrumou um emprego, mas ainda dependia da mãe. A mãe se ajeitou com um antigo amigo do pai.

Conheceu a Rosinha, menina vivida pacas, fez um filho nela, acabou casando e foi morar na meia-água no fundo da casa dos pais dela. Brigava com a sogra, levou porrada do sogro, arrumou emprego em uma oficina mecânica e acabou se mudando para um bairro na periferia, abandonando a Rosinha, o sogro, a sogra e o filho. Rosinha arrumou um outro cara.

Parou de fumar por causa da bronquite, mas continuou bebendo, “socialmente”, dizia.

Virou sócio da oficina. Acabou ganhando um bom dinheiro, comprou uma casa em conjunto habitacional e trouxe a Juliana para morar com ele, ela e seus três filhos de pais desconhecidos. Adotou os moleques.

Um dia, bebeu mais que podia, e ao voltar para a casa, foi vítima de uma bala perdida, que depois a polícia descobriu que não era tão perdida, mas tinha a ver com uma briga de uns dois anos antes, e um lance de certos pacotinhos dos quais ele não prestou contas.  Foi levado às pressas para o hospital.

Morreu antes de chegar lá. Juliana foi buscar o corpo no IML, e fez o enterro.

Fulano morreu assim, em certo dia de certo mês de certo ano, pelas três da madrugada.  Foi pro céu? Não sei, era ateu.
===/===

18 de set. de 2013

A estranha rotina de um sujeito estranho

Notívago, ele nunca se deita antes das cinco horas da manhã, nem levanta-se antes de meio dia. Ao levantar-se, toma seu desjejum, sempre o mingau de aveia, o café preto com bolachas água e sal, sem manteiga, e a maçã, ou a pera, que se alternam nos dias da semana. Aos domingos, dispensa o café e as bolachas, contenta-se com o mingau e uma boa porção de mamão com creme de leite.

Após o café, todos os dias, exceto sábado e domingo, telefona para o seu administrador geral e informa-se da situação dos seus investimentos: imóveis, ações, uma grande fazenda de gado, uma indústria média de auto-peças. Quase raramente visita a sede do escritório geral da holding, onde tem à sua disposição uma enorme sala com decoração austera, de muito bom gosto. A Secretária chega em sua mansão religiosamente às 14 horas, de segunda à sexta-feira. Ela traz relatórios e a correspondência. Após lê-los de forma diagonal, dita algumas cartas e despacha a secretária nunca depois das 17 horas.

Então, lhe é servido, a título de almoço (ou jantar, fica a critério do leitor), uma salada bem temperada, uma carne assada (que varia entre carne bovina, frango, ou pato); nas sextas-feiras é sempre um peixe ou frutos do mar. Após a refeição, ele caminha por trinta minutos pelo jardim da mansão, dá orientações ao jardineiro que já o espera ao lado da fonte luminosa (no inverno já está acesa, pois o sol se põe muito cedo).

Às vinte horas está devidamente vestido para a noite: um dos seus ternos escuros, que variam entre o tradicional preto ao azul marinho, as camisas sociais bem passadas sempre em tons de azul, a gravata de seda sempre em tons vinho, sem estampas; meias escuras e sapatos em cromo alemão, sempre pretos.

Nas segundas-feiras vai ao cinema, como sempre fez desde a adolescência. Nas primeiras terças-feiras de cada mês participa da reunião do Conselho de Curadores do Museu Municipal, do qual é o Presidente há mais de dez anos e grande benfeitor; nas demais, visita o Clube de Xadrez onde joga uma ou duas partidas. Nas segundas quartas-feiras de cada mês, preside a reunião do Conselho de Administração da Sociedade de Amigos da Catedral. Nas demais quartas-feiras, costuma convidar alguém para jantar, sempre no restaurante do Palace Hotel, onde dispõe de uma suíte sempre reservada. Nas quintas-feiras, vai ao teatro. 

Nas sextas-feiras não é bem clara sua agenda. Ele simplesmente sai de casa, dispensa o motorista e dirige seu carro ou chama um taxi. Nunca diz onde vai. Seja qual for o compromisso da noite, ele nunca retorna à casa depois de uma hora da madrugada. O mordomo lhe serve uma ceia simples e então fica lendo em sua biblioteca até a hora de dormir. Todavia, algumas sextas-feiras ele costuma chegar bem mais tarde, entre quatro e cinco horas; o mordomo é instruído para não esperá-lo nas sextas-feiras. 

Não usa computador, não tem endereço eletrônico, nem participa de redes sociais. Todavia é sempre bem informado. O mordomo comenta que, nas madrugadas, o senhor lê os jornais e revistas, além de algum livro.

Aos sábados, após o desjejum, veste um terno claro,  em tons de bege combinado com as meias e os sapatos que, aos sábados nunca são pretos. Então vai a um cemitério, onde, sobre um túmulo simples, deposita um maço de tulipas holandesas, que são entregues na mansão sempre às 10 horas da manhã de cada sábado. Permanece no cemitério por meia-hora diante do túmulo e depois caminha lentamente pelas alamedas. Às cinco horas ele assiste o ofício das vésperas cantadas na Catedral. Após o ofício sempre há alguma programação musical ou estudos bíblicos, dos quais participa com entusiasmo. E termina a noite sempre convidando o Deão e esposa para jantar em sua casa. Algumas vezes convida também um ou outro cônego. Raramente convida o Bispo… No sábado, recolhe-se mais cedo, por volta das duas horas da manhã, dispensando o lanche frugal uma vez que o mordomo já está no gozo de sua folga semanal, bem como os demais empregados da mansão, que terminam o serviço após o jantar com o Deão e só retornam na manhã de segunda-feira.

Domingo é um dia diferente. Ele acorda mais cedo, prepara seu próprio café, veste-se e dirigindo seu carro participa da Missa Solene na Catedral ao meio-dia, geralmente presidida pelo Bispo, ou pelo Deão, com a presença de todo o Cabido devidamente paramentado. Após a Missa, almoça em um restaurante próximo à Catedral, compra flores da mesma florista na praça para uma senhora idosa residente em uma Casa de Repouso luxuosa que fica em um recanto na periferia da cidade. Passa lá toda a tarde. Ao anoitecer, visita a mesma confeitaria fina, onde saboreia um Chá completo, com biscoitos. Então, vai à casa de Sara, para, com ela, jantar na suíte do Palace. Chega em casa impreterivelmente à uma hora da manhã, e dedica-se à leitura.

No verão sempre faz um cruzeiro, acompanhado de Sara e da senhora idosa que vive na Casa de Repouso. Cada ano escolhem um roteiro diferente. No inverno, passa uma semana esquiando com Sara na Cordilheira.

E assim foi sua vida nos últimos dez anos. No outono, a senhora idosa morreu, um infarto fulminante.

Agora passava as tardes de domingo caminhando pelas alamedas do Parque Municipal. No inverno, Sara decidiu não esquiar, e assim, ele passou a semana de folga em sua fazenda. Ao retornar, soube que Sara havia deixado a cidade, sem informar para onde.

Decidiu então vender todos os seus bens, inclusive a mansão. Colocou todo o dinheiro apurado em um fundo à disposição do Cabido da Catedral para manter a Escola e o Orfanato, deixando também um quinto para o Museu.

Retirou-se para a Abadia, professou os votos da Regra de São Bento, e lá viveu seus últimos anos, vindo a falecer com 86 anos de idade. A Escola da Catedral recebeu seu nome, assim como a praça. Seu corpo foi sepultado no cemitério da Abadia.
---/---

30 de jul. de 2012

A Coisa

O despertador tocou às 6h00, como todos os dias; João levantou-se abriu a veneziana e contemplou a rua, aspirando o ar fresco. Estranhou o pouco movimento, mas deu-se conta que era sábado; já os bem-te-vis e os pardais faziam a costumeira arruaça matinal. “Eles não têm sábado, nem domingo, eles não estão presos às convenções do tempo”, e esse pensamento fez surgir um sorriso no rosto de João. Tomou banho, lavou a dentadura, fez gargarejo com o Listerine, vestiu-se, desceu até a cozinha, bebeu os dois copos de água que o médico recomendou, e saiu para comprar o pão na padaria da praça, ali perto, e pegar o jornal na banca do Reinaldo, para depois fazer o café e ver o que o editor do jornal queria que ele ficasse sabendo. Tudo como sempre fazia desde que se aposentou.


Ao sair para o pequeno jardim do sobrado, ele a viu! Estava ali, no lado esquerdo do canteiro de copos-de-leite. “Estranho”, pensou João, “que é essa Coisa ai?” La estava aquela Coisa, e João tinha certeza que ontem não estava lá.  Mas agora estava lá, solene, na terra, entre os copos-de-leite, imperiosamente ela mesma, aquela Coisa. João se aproximou para ver a Coisa mais de perto: “Que Coisa é essa?”, e ficou olhando interessado.

Nisso, passou o Garrido, com seu sorriso bonachão dando o solene “Buenos Dias” com seu sotaque portenho, e então percebeu o João entretido com a Coisa. “Que Cosa es esta?” perguntou. “Não sei, essa Coisa apareceu aqui assim, sei lá vinda de onde!”  Garrido entrou no jardim e pôs-se também a olhar a Coisa. E estavam os dois olhando a Coisa quando passou dona Severina, nordestina arretada, neta de cangaceiro  e evangélica, que ao ver a Coisa logo foi dizendo: “Essa Coisa ai não é coisa de Deus!"” e entrou para olhar a Coisa também ao mesmo tempo que repreendia a Coisa.

Logo várias pessoas da vizinhança estavam ali, olhando a Coisa, pois todos que passavam se interessavam e vinham perguntar que Coisa era aquela. E todos diziam alguma coisa sobre a Coisa. Várias hipóteses surgiram para explicar a Coisa, mas ninguém conseguia dizer que coisa a Coisa era.

Vicente, o filósofo da rua, disse que já tinha visto muita coisa, mas nunca tinha visto uma coisa como aquela Coisa. Gilberto, que estudou dois anos de engenharia na juventude, disse que talvez a Coisa tivesse relação com um tal de Bóson de Higgs (“é com agá, mas a gente fala como se fosse erre”, salientou) que alguém tinha visto na Suíça, mas foi contestado pelo Vicente dizendo que o Bóson de Higgs era outra coisa e não aquela Coisa.  “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e nada é a mesma coisa. Isso está me parecendo uma coisa estranha”, concluiu Vicente.

Dona Severina, continuava dizendo que a Coisa não era coisa de Deus, e já estava reunindo um grupo para orar pedindo a Deus que mandasse um profeta explicar o que era aquela Coisa, enquanto Gilberto, expressando seu ateísmo materialista, reclamava que a dona Severina não dizia coisa com coisa, e que aquela Coisa não tinha nada a ver com religião, uma coisa que ele não gosta.

Verinha, balzaquiana solteira, defensora dos direitos humanos, da ecologia e representante da rua na Associação do Bairro, chegou dizendo que a Coisa tinha o direito de estar lá e que ela não admitiria que alguém tentasse pegar na Coisa, e aproveitou para distribuir os panfletos sobre a próxima assembleia do bairro, que deveria tratar de várias coisas.

O fato é que todos falavam alguma coisa sobre a Coisa, e muita coisa se dizia sobre a Coisa, mas ninguém dizia realmente qualquer coisa que explicasse a Coisa. Alguém sugeriu chamar a Polícia ou os Bombeiros, mas outrem disse que isso não é coisa de Polícia, e que talvez fosse melhor deixar a Coisa como estava porque as coisas vão e vem, a vida é uma coisa assim mesmo. Verinha retrocou dizendo que não podiam ser conformistas e deviam lutar pela Coisa, porque era a coisa mais certa a fazer. “A Coisa é nossa, está na nossa rua e nós temos de cuidar da Coisa contra a manipulação política da Coisa! e só de pensar na Coisa, me dá aquela coisa, sabe, de me arrepiar toda!”

Foi então que chegou o Toninho, moleque da rua que fazia pequenos serviços para a vizinhança em troca de umas moedas para seu cofrinho de lata. Sem dar importância ao grupo que estava discutindo a Coisa, foi logo dizendo:
_“Ô seu João, ontem quando vim limpar seu jardim esqueci uma coisa… ah! está aqui!”, e pegou a Coisa.  Todo mundo ficou admirado!

Toninho já ia saindo quando o Vicente resolveu fazer a pergunta que todos queriam:
“Ô garoto! Essa Coisa é sua? que Coisa é essa?”
“Ora, é uma Coisa minha! só isso!”, e Toninho saiu correndo feliz por ter achado sua Coisa.

Pouco depois todos se deram conta que a Coisa não estava mais lá; afinal era Coisa do Toninho e ninguém tinha nada a ver com a coisa. Então, cada um foi cuidar das suas próprias coisas.

“Que Coisa!”, exclamou João, e foi direto à padaria.
===/===

7 de mar. de 2012

A Borboleta

lagartaDurante a maior parte de sua vida, ela foi uma lagarta. Como tal, nem mesmo percebia o mundo; sua vida era apenas alimentar-se e crescer. Ela não percebia bem onde estava, sabia apenas que onde estava havia comida; aliás, ela habitava na própria comida. Sabia que haviam outras como ela, mas essas outras, como ela, apenas comiam e portanto era melhor que cada uma ficasse no seu canto, cuidando da comida à sua volta, para que outra não viesse fartar-se em seu território.

Sem que ela realmente entendesse o porquê, de repente seu corpo não quis mais comida, mas queria que ela saísse de lá e procurasse um outro local, para fazer o quê, exatamente, ela não sabia. Assim foi que achou um galho, e colou-se nele. Ao mesmo tempo, ela começou a tecer algo com um fio que saia dela mesma. Aquilo que ela construía foi envolvendo ela mesma de forma que em certo momento seu corpo estava totalmente dentro daquilo e não havia mais por onde sair. Ela se tornara um casulo! e um enorme sono se apoderou dela – até então nunca dormira, apenas comera sem parar – e ela paralisou todas as atividades, ficou ali, dentro do casulo, como dormindo, enquanto seu corpo passava por tremendas transformações.

Um belo dia percebeu-se novamente. Algo exigia que ela saísse do casulo. Sentia-se diferente, o corpo era outro, um corpo novo! Apareceram pernas, antenas, e uma coisa esquisita toda dobrada.E ela estava imersa em algo gosmento, estava como molhada. Percebeu que havia um lugar no casulo que ela poderia forçar e sair. Não sabia porque, tinha de sair dali.

Quando conseguiu passar sua parte da frente pela fenda aberta, ela se assustou. Ela viu algo que nunca vira, até porque nunca tinha visto coisa alguma até aquele momento. Havia muita coisa além dela, nada que lembrasse o mundo de comida onde crescera… Havia movimento em volta dela, e ela se percebeu presa em um galho, como que pairando no ar; o casulo balançava muito… havia vento, brisa, movimento.

Borboleta 1Sentiu medo! Um medo terrível! fora do casulo, o totalmente desconhecido. Bom seria ficar ali dentro do casulo, mas ele balançava muito e, afinal, acabaria caindo sabe-se lá onde! Ao mesmo tempo, uma força interior a forçava sair… com dificuldade, conseguiu colocar seu corpo todo fora do casulo, e tinha de aprender a usar as pernas, as antenas e os olhos… e aquela coisa dobrada esquisita que de repente começa a mover-se – ela tinha de mover aquilo de um certo jeito – e logo descobriu que aquilo era enorme e ela podia abrir e fechar…

Rapidamente começou a secar da gosma que envolvia seu corpo, começou a sentir-se firme nas pernas e acabou sendo soprada pela brisa. Algo fantástico aconteceu… aquela coisa que ela podia abrir e fechar, de repente se abriu e ela movendo aquilo, parou de cair; logo percebeu que podia ir para o lado que quisesse… estava voando.

Conseguiu ver mais sobre onde estava. Haviam coisas coloridas que balançavam ao vento… e de repente, haviam seres voando como ela e ela se deu conta que eram iguais a ela… Mas também haviam outros seres por ali, assustadores, e ela viu um desses seres assustadores engolir um outro igual a ela.

Bonito, mas assustador… melhor voltar para o casulo… lá dentro não há perigo… e tentou voltar, mas não cabia mais lá dentro. Ao mesmo tempo, sentia uma força enorme a impelindo para voar, para ir onde as iguais a ela estavam…

A borboleta se deu conta que estando viva, não podia fazer outra coisa senão lançar-se na vida, na vida nova que se abria para ela, e que apesar de todas as ameaças, havia um lindo jardim… e outras iguais a ela… e então… ela voou e apostou na vida, apesar de todos os riscos.

borboletasE logo encontrou outras como ela, e experimentou com elas uma comunhão profunda…percebeu que tinha de dar continuidade à Vida, e assim, na comunhão com outra igual a ela – não tão igual, afinal – acolheu em si alguma coisa; pouco depois, descobriu aquilo que antes era a comida, e lá deixou pequenas bolinhas que saíram de dentro dela… e feito isso, voou intensamente, pousou em muitas coisas coloridas, até que lentamente toda a luz terminou.

Das bolinhas que saíram de seu corpo, pouco depois, pequenas lagartas começam a se mover e a comer… e a borboleta se manteve viva na geração seguinte… e percebeu-se ligada a todas as gerações de borboletas antes dela… e depois dela! Pouco antes da luz finalmente apagar, ela entendeu que sair do casulo era o que tinha de fazer para ser plenamente o que ela nascera para ser: uma borboleta!

Para Simone, uma borboleta!

===/===

17 de jan. de 2012

O Tempo (I)

espaco_sideralHá uma pegadinha que todo bom professor aplica nos alunos que iniciam o estudo da Física. Apresenta-se à classe um cronômetro ou um relógio, e pergunta-se: “O que é isso?”  Sempre tem um esperto que vai responder: “Um cronômetro!” (ou “Um relógio!”). O professor prossegue: “O que ele faz?”, o esperto responde: “É um aparelho para medir o tempo”. E o professor dá o cheque-mate: “O que é tempo?”. Silêncio total… e o professor prossegue: “Pois é, não dá pra definir tempo! embora se possa medir.” (uma pérola do positivismo!)

À medida que avança seus estudos, o estudante se adapta à fatalidade de utilizar o tempo como uma variável útil nas equações. Aliás, todo mundo usa o tempo assim, sem conceituar… Nós falamos em presente, passado, futuro, ontem, hoje, amanhã, e usamos todas essas características quantificáveis do tempo.

Os físicos relativistas vão mais além. Como lidam com grandezas enormes, e bota enormidade nisso, eles utilizam o tempo também como medida de distância (simplificando ao extremo, é isso ai), e falam em espaço-tempo. Espaço-tempo é uma coisa muito engraçada.

Olhe para o céu noturno. Você verá um monte de estrelas, se a poluição não atrapalhar. Escolha uma estrela, por exemplo, Sirius, uma estrela brilhante, a mais brilhante do nosso céu, que fica perto do Órion.  A luz de Sirius que está chegando aos teus olhos AGORA (presente), saiu (passado) da estrela há aproximadamente seis anos. Os astrônomos dizem que Sírius está há seis anos-luz da Terra, o que significa que sua luz, para percorrer a distância que a separa de nós, demora seis anos! Isso significa que a luz que você está vendo no seu presente é o passado da estrela.  Há coisas no céu que estão há milhares e milhões de anos-luz de nós. Quando olhamos para eles, estamos olhando para um passado muito distante, que é nosso presente. Vemos astros que não estão mais no lugar que vemos, e muitos nem mais existem!

Há corpos celestes mais distantes de Sírius que os seis anos-luz que nos separam dela. Digamos que haja um corpo celeste que está há oito anos-luz de Sírius.  A luz de Sírius que você está vendo ainda não chegou lá. Ou seja, o passado da estrela, que para você é presente, para um observador no outro corpo celeste ainda é futuro!

Olha só que coisa maluca! quando você olha o céu noturno (seu presente), você está olhando ao mesmo tempo para o passado e para o futuro! Tudo depende do seu PONTO-DE-VISTA, ou seja, de sua posição no espaço-tempo.

O Sol, que a gente não pode olhar diretamente, mas com ajuda de um filtro escuro, está há 8 minutos-luz da Terra; isso significa que sua luz leva oito minutos para chegar aqui. Vamos supor que os americanos resolvam parar de encher o saco do pessoal no oriente médio e resolvam ocupar o Sol com uma das naves da NASA (acho meio difícil porque derreteria tudo, mas como os americanos pensam que são deuses, pode até ser que inventem algo para pousar no Sol). O astronauta diria pelo rádio: “Pousamos no Sol”. Oito minutos depois, alguém em Huston, ouviria a mensagem.  Como é um técnico, ele daria a notícia: “Eles pousaram no Sol há oito minutos!”. Imediatamente, digamos 30 segundos depois, o Presidente dos United States falaria aos astronautas sua mensagem demagógica e ufanista, falando da paz mundial e outras baboseiras. Oito minutos e trinta segundos depois, a mensagem do Presidente, levada pelas ondas de rádio, chegaria ao Sol… mas ninguém ouviria, porque não há mais nenhum vestígio da nave, dos astronautas e da bandeira americana que tentariam colocar no solo [?!] solar! tudo virou Hidrogênio e Hélio.

Com muita pena dos astronautas, o que quero dizer é que até a luz que a gente recebe da nossa estrela vem do passado. E essa mesma luz ainda é futuro para um observador (o robozinho americano) em Marte.

“Pois é, meu caro” – como diria o meu velho professor de Física, o Dr.Fragoso – “estamos mergulhados em uma enorme sopa de passado, presente e futuro”.

Tá confuso? eu também! e tem coisa pior… mas por agora chega! já deu pra gente pirar por algum tempo, né? Tempo? êpa!

===/===

28 de dez. de 2011

Recordações Natalinas…

Esta época do ano acaba evocando recordações, especialmente as recordações da infância, que sempre brotam já relidas e adaptadas pelo nosso inconsciente, mas são as lembranças que temos…
Claro que logo recordo dos natais da minha infância, na casa de algum tio ou mesmo em minha casa, com a reunião da família ampliada (especialmente a família da minha mãe, porque a do papai estava no Rio e nós morávamos em São Paulo). 
Como bons italianos, ou filhos de, meus tios e tias tinham de discutir sobre tudo, e assim a famosa reunião de organização da festa natalina era um show de discussões sem sentido: quem vai dar (pagar) o peru? e o tender? (não pode faltar!). Tia Beatriz, sempre nervosinha, mas com uma calma impressionante nessas horas, resolvia logo sua parte: ela traria o pudim de caramelo, sua única especialidade.. Minha mãe era a responsável pela lasanha, com molho a chocolat, sua especialidade. Tia Lídia, claro, o pernil e os doces, mas mamãe também era encarregada das rabanadas!!! Os três tios mais ricos (os três médicos!!!) bancavam as coisas mais caras, e faziam questão, porque com certeza fazia bem para o ego deles. Uma vez, meu pai (que teve um momento de ganhar muita grana mas perdeu muito também) resolveu fazer a festa na nossa casa e bancou tudo ou quase tudo. O tio que fazia questão de mandar o peru, mandou e assim aconteceu de termos dois perus na mesa!!! (e isso rolou muita encrenca antes e depois do Natal, coisas de italianos… embora meu pai não fosse italiano, tinha sangue português e por isso, era birrento quando queria – quase nunca queria, graças a Deus).
E tinha o lance do Papai Noel. Era um funcionário do tio Mário, mas uma vez o cara não apareceu e eu, o primo gordo, tive de fazer a coisa… foi um saco aguentar os priminhos novos, filhos das primas mais velhas… mas acho que consegui dar conta.
Fantásticas mesmo eram as festas de Natal na casa do tio Acchiles, acho que o mais rico de todos até ser superado pelo seu irmão caçula… às vezes alternava com o tio Mário, um sujeito muito divertido e boa praça! Tinha direito a som de helicóptero antecipando a chegada do Papai Noel  (não sei se era um truque ou o velho Acchiles alugava mesmo um helicóptero para fazer a cena…).
Haviam alguns personagens que eram sensacionais. Personagens não, gente real, mas que pareciam não existir. Lembro de alguns.
O Francesco, companheiro da tia Beatriz, um metalúrgico (politizado pacas, e de esquerda, descobri isso depois) que me divertia muito com suas brincadeiras de mágico; ele fazia isso meio discretamente, porque era tímido, sempre ficava meio de lado (depois entendi que sendo de esquerda, não se sentia bem no meio daquele ambiente burguês de classe média ajeitada).
Um casal que eu gostava muito: o “Seo” José e sua esposa, a dona Êudice (o nome é esse mesmo, pelo menos assim o pessoal falava). Ela sempre muito elegante e conversadeira; o José, um sujeito bonachão, sempre sorridente e bom garfo; meu pai gostava dele. Eram sogros de uma das primas mais velhas. Mas o casal era uma figura e eu me divertia muito olhando eles de longe, os trejeitos da dona Êudice e o sorriso conformado do José.
E o tio Ricardo, o tio legal, o pobre da família, mas sempre de bom humor e cheio de piadas. Tinha mania de ser ufólogo e sempre contava suas incríveis observações de disco voador sobre São Paulo. Um sujeito sensacional, me ensinou a jogar xadrez e tinha inclusive o título de Mestre…
A tia Bicce (Beatriz) era um caso a parte. Tinha manias muito engraçadas e sempre queria agradar todo mundo… adorava uma boa fofoca (e com mamãe e tia Lídia, as três sempre tinham assunto pra semana seguinte – aliás, sempre tinham assunto!).
Não podia faltar o famoso retrato do vovô Caetano e da vovó Concetta, em um quadro enorme, enfeitado, no salão principal da festa. Quem trazia o quadro era o tio Acchiles, onde quer que fosse a festa. Quando dava meia noite, exatamente antes de começar a ceia, o pessoal todo se reunia sob o retrato dos avós e entre choros (italiano que não chora nessas horas está morto) e rezas, estouravam o champanhe e começava a comilança, logo depois de todo mundo se abraçar e dizer “Feliz Natal” uns aos outros.
Pelos 19 anos, eu aparecia na festa já na madrugada; naquele tempo eu ia na missa da meia-noite; havia tido minha experiência pessoal com Jesus e, assim, o Natal passou a ser, para mim, um momento essencialmente litúrgico.
Um dia dois tios brigaram e a coisa foi feia; naquele ano um deles não veio para o Natal, e a partir dai quando um vinha, o outro não vinha. Não sei bem até hoje porque brigaram, mas ouvi uma fofoca que foi por causa de umas pílulas…
Anos depois, o tio Mário faleceu exatamente na véspera do Natal, cuja festa seria na casa dele! Foi uma coisa terrível… a ceia pronta e o velório acontecendo…
A partir de então, acabou o natal dos Grecos. Cada núcleo familiar começou a fazer seu próprio programa…
O mundo ainda andava devagar, e as pessoas curtiam mais o Natal sem o excessivo consumismo… as famílias se reuniam mais e, apesar das encrencas, todo mundo se emocionava muito…
===/===

14 de mai. de 2011

O passarinho.

Recebi essa estorinha em um e-mail, há muitos anos. Na verdade era apresentada em quadrinhos, bem desenhados; perdi o original mas lembro bem do texto. Repasso agora o texto.

Passaro-na-Neve_127127pp

Em pleno inverno, de manhã, em meio à forte geada, um passarinho tremendo de frio se aproxima de umas vacas que estão ruminando, tentando se aquecer. Mas não deu certo, porque as vacas são altas e ele muito pequenino.

Entretanto, uma vaca viu o passarinho, se aproximou e deu uma tremenda cagada em cima dele. O que parecia ser uma agressão, acabou se revelando uma coisa boa: o calor da merda aqueceu o passarinho e ele ficou muito confortável e tão alegre que começou a piar, agradecendo.

Acontece que por ali perto estava um gato faminto; ouvindo o piar do passarinho, se aproximou, tirou o passarinho da merda, limpou e o comeu.

Essa estória nos ensina quatro lições importantes:

1. Nem todo mundo que te põe na merda te quer mal;

2. Estar na merda, às vezes, é bom;

3. Nem todo mundo que te tira da merda te quer bem;

4. (importantíssima) – quem tá na merda, não pia!

===/===

29 de nov. de 2010

O Peru do Júlio

A comunidade estava celebrando o Advento, ocasião em que – como de costume – realiza-se um almoço comunitário. Desta vez, havia uma novidade: os homens fariam a comida! E assim foi, os homens chegaram trazendo, cada um seu prato, feito por ele mesmo! A maioria dos pratos era salgado, mas haviam também alguns doces.
O almoço transcorreu descontraído e alegre. Durante a sobremesa, a Reverenda sugeriu que cada um apresentasse seu prato, e contasse como foi a preparação, e se fosse o caso, poderia até dar a receita. No início, um pouco inibidos, tiveram de ser animados pelas suas companheiras para falar.
Um deles confessou que – na verdade – não fez tudo sozinho. Sua esposa ajudou bastante, cabendo a ele a enorme tarefa de abrir as latas de atum e de ervilhas para a salada que trouxe.  Outro, que disse gostar de cozinhar, comentou a receita que herdou de sua mãe, e assim foi indo, cada um contando sobre a preparação do prato que havia trazido. Foi muito divertido.
Mas a melhor narrativa foi a do Júlio, que gabava-se de ter trazido o peru assado desfiado – de fato, delicioso.
Eu fui para compras no supermercado, pensando o que levaria no almoço da comunidade. Então tive a idéia de levar um peru desfiado, segundo a velha receita da mamãe. Como é época natalina, já havia, no setor de congelados, imensos perus e chesters em oferta. Escolhi um bem grande!
Quando cheguei em casa, fui ler as instruções para descongelar o peru, que estava duro de tão gelado, e com surpresa, dizia no rótulo que precisaria de 72 horas para o descongelamento adequado. Fiquei apavorado, não daria tempo, pois era sábado e o almoço seria no dia seguinte. Não tive dúvida, vai para o micro-ondas descongelar.
Ai começou a complicação. O peru era grande e não entrava. Tive de forçar as coxas para entrar, e acabou entrando, mas conforme girava  o peru lá dentro as coxas abriam  e ele saia para fora, e eu tinha de forçar de novo. O peru não cabia lá dentro. Mas com muito jeito e paciência, consegui o intento: o peru descongelou e ficou mais mole, e assim pude passar o tempero nele.
Chegou a hora de colocar no forno. O meu forno é novinho em folha, tinha acabado de comprar, então, com o peru na mão abri a porta e tentei acender em baixo da grelha. Mas não dava certo. Eu com o peru na mão, temperado e pronto e não conseguia ligar o forno. Liguei para o serviço de atendimento ao cliente da fábrica e expliquei para a moça que eu estava com o peru pronto mas não conseguia assar, porque não acende o forno. Ela me explicou que há um botão redondinho no painel que devidamente posicionado e apertado acenderia o forno. Ela ainda perguntou se o peru era grande, para sugerir a melhor configuração e tempo que o peru devia ficar lá dentro. Sugeriu também que eu deixasse esquentar antes de colocar o peru pra dentro.
Desliguei o telefone, e fiquei apertando o tal botão redondinho. De fato funcionou, e esperei aquecer. Depois que estava quente, abri a tampa e com as duas mãos coloquei o peru pra dentro, ajeitando a melhor posição. O formo é dos bons, porque logo o peru saiu assado! Depois foi só desfiar o peru, usando a faca adequada e aqui está ele, aliás, vocês já o comeram”
De fato, o peru do Júlio foi o sucesso da festa!
---/---

1 de jul. de 2010

Do Tudo e do Nada: ensaio de filosofia ilógica

I. Tudo sobre o Nada

                                                                             .”

II. Nada sobre o Tudo

 

                                                                                                     .”

III. Conclusão

Quando falamos tudo sobre o Nada e nada sobre o Tudo, falamos exatamente a mesma coisa, ou seja, NADA!

Isso prova que o NADA, não só existe, como é absoluto enquanto existência, ou seja, Tudo é Nada? na verdade, Nada é Tudo!

===/===

27 de fev. de 2010

A mosca

Jurisvaldo é uma mosca; ou melhor um mosco, já que é um macho de sua espécie. Um macho novo, não no tempo, uma vez que já viveu sua fase de larva e de pupa e eclodiu há pouco para a última fase da vida. Assim, no conceito de tempo moscal, Jurisvaldo é um ancião; todavia, seu organismo pulsa como o de um adolescente… está na fase reprodutiva e tudo que Jurisvaldo deseja é encontrar uma mosca fêmea para, com ela, dar sua contribuição à continuidade de sua espécie.

Jurisvaldo enxerga o mundo com seus olhos de mosca; não faz nenhum julgamento, nenhuma análise uma vez que não teve outros olhos para ver e, então, comparar.  E ele nem quer saber de analisar nada, de entender nada; ele voa atento em busca da fêmea. Esse é seu dever e a sua natureza.

Então ele a vê, pousada, esfregando as patas traseiras nas asas. Jurisvaldo não a acha feia nem bonita, nem atraente ou gostosa. Ele não tem tais conceitos. Ele só sabe que é uma fêmea, há pouco eclodida da pupa como ele, e deve estar também em busca do macho para a reprodução.

Ele pousa à distância adequada e faz os movimentos certos para atrair a mosquinha. Ele não sabe que movimentos são esses, nem porque os faz, mas sabe que tem de executar essa dança. A mosquinha fica estática, olhando-o com seus olhos de mosca.  E move as asas na forma que deve mover.

De repente Jurisvaldo percebe que ela assume outra postura, fica atenta e sai voando rapidamente. Ele não tem tempo para pensar. Sente um forte vento e de repente está todo molhado. Mas estranhamente, esse molhado lhe deixa tonto, vai perdendo os sentidos, suas pernas estão estranhas, ele cai no vácuo. Jurisvaldo morre! Morre sem completar sua tarefa. Um banho de algo que vem com um vento forte e ele morre.

“_  Pronto, mamãe! Joguei o inseticida mas uma das mosconas azuis fugiu, a outra, morreu!” diz a mocinha de vestido florido.

---

19 de fev. de 2010

O cãozinho preto

Naquela manhã ele levantou diferente. Pela janela viu que seria daqueles dias cinzas, de garoa fina e vento frio. “Nada animador para um sábado!”, pensou e foi ao banho.

Ao sair do quarto, lá estava o Fred – como sempre. Mas, diferente de sempre, o cão estava cabisbaixo, triste, nem moveu o rabo;  inusitadamente, mordeu a ponta de sua calça, como que puxando-o de volta ao quarto. 

_ “Pare com isso, Fred! já chega!”, e moveu a perna com força.  O cãozinho abaixou a cabeça e o seguiu lentamente.

Não havia café pronto. A empregada ainda não chegara. Ele custou a achar o filtro de papel e o coador, e descobriu que não havia fósforos ao lado do fogão; o acendedor elétrico há muito estava quebrado. Voltou à sala em busca do isqueiro. Lembrou-se que os cigarros estavam na mesa do estúdio, e com eles, o isqueiro. Assim, subiu as escadas já com a certeza que seria um péssimo dia. Quando voltou, o cãozinho estava sentado ao pé da escada.

Novamente o cãozinho pegou a ponta da calça! desta vez estava grunhindo.

_ “O que você tem, Fred? deixa de ser chato!” – fez um carinho na cabeça do cãozinho, que ficou choroso e o olhava muito triste.

Pegou o jornal que estava à porta, e foi para a cozinha. Finalmente fez o café, descobriu que não havia leite. “Merda! café puro me dá azia!” – mas tomou assim mesmo, enquanto lia as manchetes do dia. Logo passou aos quadrinhos e às palavras cruzadas, que hoje estavam mais difíceis que o costume, além do que custou a achar uma esferográfica que prestasse. A empregada chegou, desculpando-se pelo atraso devido à chuva, “mas também é sábado, não é costume vir aos sábados, vim porque o senhor pediu”.  Ele agradeceu o esforço da parte dela em vir no sábado.

_ “O senhor viu a fatura do cartão de crédito? chegou ontem pelo correio, deixei sobre o móvel da sala. Também ligaram do banco! aquele cheque… disseram que  o senhor precisa resolver na segunda-feira sem falta!”

A fatura do cartão de crédito… há dois anos que não o usava, havia estourado o limite por causa daquela sirigaita, estavam cobrando juros altos. Tentou negociar duas vezes, não aceitaram. Parou de pagar, que se dane o banco! Aliás, que se dane o mundo! e aquela merda de cheque! tudo porque o Joel não depositou o salario no dia certo, esculhambou todo o fluxo de cheques pré-datados.

Serviu mais uma xícara de café.

_ “O que tem esse cachorro? está choramingando desde que cheguei!” – o comentário da empregada o trouxe de volta, pois sua mente estava distante, lembrando daquela filha-da-puta que o havia enganado e se aproveitado do dinheiro enquanto tinha. “Mas pelo menos era gostosa e boa de cama…”

_ “Não sei, dona Marta! ele está é muito chato hoje! Vou sair, buscar leite, pão e dar uma volta! Se telefonarem, diga que estou viajando, inventa qualquer coisa, não quero falar com ninguém hoje!”

_ “Ninguém vai telefonar hoje! Afinal, é sábado! os bancos não abrem hoje, quase ninguém trabalha hoje! só ligam para cá fazendo cobrança, então hoje ninguém vai ligar. Olha, esqueci, vão cortar o telefone se não pagar até terça! ”

“Foda-se o telefone também”, ele pensou em dizer, mas não disse.

Fred ficou muito agitado quando percebeu que ele iria sair. Latiu forte, segurou de novo a ponta da calça, agitadíssimo!

_ “Não Fred! Não vou levar você, está chovendo! e fica quieto!”

Mas o cãozinho não ficou quieto! Continuou a latir, a pegar na ponta da calça, de tão agitado acabou esbarrando no console do telefone e tudo veio ao chão.

_ “Até parece que ele não quer que o senhor saia!”

Mas ele saiu! Deixou o Fred latindo desesperado, e a empregada arrumando o console e o telefone. A chuva havia aumentado, ele fechou melhor a japona e abriu o guarda chuva. Era uma boa caminhada até a padaria. Um caminhão entrou na rua vindo da esquina à frente.

(…)

O padre encerrou o ofício e disse algumas palavras – jargões de sempre. Afinal, não havia muita gente naquela manhã.  Um acidente estranho, um caminhão desgovernado… a dona Corina disse que havia sido suicídio, que perdeu a cabeça por causa daquela mulher, e outras versões sobre o mesmo tema. “Isso é conversa de velha fofoqueira”. O fato é que quase ninguém foi ao enterro, o vizinho e a empregada perderam quase todo o domingo para liberar o corpo no IML, nem houve um velório decente;  já chovia há dois dias, uma garoa fina, e estava frio. Os coveiros cuidaram logo de tapar a cova e as pessoas saíram rapidamente. O gerente do banco deu a eles uma gorjeta.

Ninguém reparou naquele cãozinho preto que estava atrás de uma lápide. Quando todos saíram, o cãozinho se aproximou, sentou sobre a terra úmida e começou a uivar…

---

18 de set. de 2009

Perguntas... perguntas...

Quem sabe como será o nosso futuro?
Sabe como será o nosso futuro?
Como será o nosso futuro?
Será o nosso futuro?
O nosso futuro?
Nosso futuro?
Futuro?
?

?
Futuro?
Nosso futuro?
O nosso futuro?
Será o nosso futuro?
Como será o nosso futuro?
Sabe como será o nosso futuro?
Quem sabe como será o nosso futuro?
Luiz Caetano, março, 2004.
[infelizmente, os recursos de edição do Blogger não permitem que esteja na formatação original - ou então eu não sei usar essa coisa aqui! - mas consegui chegar perto do que eu havia bolado... ]
=====