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21 de jun. de 2026

O SENTIDO DA VIDA (III – Sobre Vaidade e Conclusão)

 (continuação >>> veja antes: I - Sobre Ciência e Universo  e  II - Sobre Vida e Ser Humano.

Vaidade

O livro bíblico Eclesiastes me impressiona desde que o conheci, por volta dos 15 anos. Sinceramente, se há algo útil e profundo no Antigo Testamento, é esse livro. Não desprezo outros, mas o Eclesiástico é profundamente honesto, sem apelações “espirituais” (de certa forma, profundamente materialista), e responde à pergunta pelo “sentido da vida”.

Com frieza impressionante, demonstra que tudo é vaidade, ou seja, nada tem sentido! Implode com o maniqueísmo que permeia a Bíblia, e nega a meritocracia salvadora após a morte, sempre repetida pelos pregadores da “palavra de deus”. Apenas constata o vazio da existência.

O Capítulo 9 do Eclesiástico é um primor de ironia e, ao mesmo tempo, denunciador das ilusões que infestam a vida humana.

Conclusão

¹ Dediqueime a tudo isso e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, bem como o seu trabalho, estão nas mãos de Deus, mas ninguém sabe o que o espera, seja amor, seja ódio. ² Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não os oferece. O que acontece com o homem bom acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos acontece com quem teme fazêlos. ³ Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: o destino de todos é o mesmo. Além do mais, o coração dos homens está cheio de maldade; a loucura o domina enquanto vive, e, por fim, eles se juntam aos mortos.  ⁴ Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto! ⁵ Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não há mais recompensa, porque a sua memória cai no esquecimento. ⁶ Para eles o amor, o ódio e a inveja há muito desapareceram; nunca mais terão parte em nada do que acontece debaixo do sol. ⁷ Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho com o coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. ⁸ Esteja sempre vestido de roupas brancas e unja sempre a sua cabeça com óleo. ⁹ Desfrute a vida com a mulher que você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois esta é a sua recompensa na vida pelo trabalho que você realizou com esforço debaixo do sol. ¹⁰ Tudo o que vier às suas mãos para fazer, façao com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria. (Eclesiastes 9:1-10 | NVI)

Pensar sobre  o sentido da vida é pura vaidade, porque não há sentido para a vida. Ela é uma consequência das leis físicas e químicas que fazem o Universo ser o que é. Vaidade e idiotice! No contexto do Universo, a vida é uma consequência de determinadas coincidências simultâneas, apenas isso!

Portanto, na nossa insignificância diante do Todo, a busca pelo Transcendente nos leva a imaginar um criador porque tudo deve ter tido um início. Essa afirmação é filosoficamente idiota, porque se nada pode ser eterno (sem início) a pergunta se volta sobre o tal criador: Se tudo teve de ser criado, quem criou o criador? Se responder que o Criador não foi criado, a afirmação nega a si mesma...(a falácia da lógica religiosa!).

Concordo com o Eclesiastes. “7 Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho com o coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. ⁸ Esteja sempre vestido de roupas brancas e unja sempre a sua cabeça com óleo. ⁹ Desfrute a vida com a mulher que você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois esta é a sua recompensa na vida pelo trabalho que você realizou com esforço debaixo do sol. ¹⁰ Tudo o que vier às suas mãos para fazer, façao com toda a sua força, pois na sepultura, para onde você vai, não há atividade nem planejamento, não há conhecimento nem sabedoria.

Quando isso não for mais possível, não há mais comida saborosa e vinho, não há mais roupas brancas, não há mais óleo, não há mais a(s) mulher(s) amada(s), e não há mais nada que se possa fazer de útil até porque falta força, resta seguir o rumo caótico do Universo, deixar vir a morte para que a vida continue surgindo (como sempre) a partir da morte.

Por isso, sempre há o momento de seguir rumo a Narayama, este é o sentido final para a vida. A última vaidade! Porque, com você ou sem você o Universo continua, e a idiotice humana permanece.

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29 de mai. de 2026

O SENTIDO DA VIDA (II – Sobre Vida e Ser Humano)

(continuação >>> veja antes: I - Sobre Ciência e Universo

Vida

A probabilidade de existir vida fora do nosso planeta é considerada alta pela maioria dos cientistas. As estimativas são de quase 100% de probabilidade para existência de vida microbiana simples (micro organismos – vegetal ou animal), devido a vastidão do universo. Em tal vastidão, estima-se a existência de trilhões de planetas com as mesmas condições para a existência de vida, isto é, planetas com características iguais ou semelhantes à Terra (não cabe aqui explicar as tais características).

A possibilidade de vida inteligente (como presumimos que sejamos) existe, mas é incerta, isto é, dependendo dos parâmetros utilizados os resultados diferem significativamente., Nada que se conhece comprova se existe ou não vida inteligente no Universo, além da Terra. Talvez nunca saibamos.  

Em resumo, a probabilidade de existirem microrganismos ou vida simples além da Terra é alta, enquanto vida complexa ou inteligente é debatida, mas considerada possível. Nesse sentido, a discussão e estudos do Paradoxo de Fermi nos levam a considerações muito curiosas e surpreendentes. Talvez haja vida inteligente além do nosso planeta, ou talvez existiram civilizações no universo antes mesmo do surgimento do nosso sistema solar, mas já estão extintas. Sugiro que o leitor pesquise sobre isso (Paradoxo de Fermi), se for uma daquelas pessoas que ainda tenha curiosidade, neste mundo modernoso (moderno e horroroso) onde a imbecilidade cresce exponencialmente a cada dia (claro, pelo interesse das elites diabólicas que nos dominam, quer gostemos ou não).

Aqui estamos falando de vida como nós a entendemos em nosso planeta. Na verdade, não se tem certeza do que exatamente a vida é... tampouco se ela poderia existir de maneira diferente daquilo que chamamos vida. Porém avançar nessas especulações não serve para o objetivo deste artigo. Vamos nos concentrar na vida que existe na Terra, mas também admitindo que pode haver outros modos da vida ser e existir, seja em nosso planeta, seja no resto imensurável do Universo.

Ser Humano

Considerando o tamanho e a idade do Universo, nós somos efêmeros e não temos relevância. Nosso tempo de vida e o tempo da nossa História como espécie, é ridiculamente minúsculo diante do Universo. Pensar nisso e constatar isso é, de certa forma assustador e angustiante, pois nos descobrimos irrelevantes e absolutamente inúteis, cuja existência nada significa.

Diante do Universo, nossa vida, nossa História, nossa existência não tem qualquer significado. O Universo continua existindo quer estejamos presentes, quer não. Não temos nenhuma influência ou controle sobre isso.

Essa sensação de sermos irrelevantes diante do Universo é presente na humanidade desde seus primórdios. Ao mesmo tempo, nos sentimos atraídos por algo além dessa realidade, algo que dê sentido e significado ao fato de existirmos.

De certa forma nossa mente necessita perceber algo além da nossa imanência. Intuímos a transcendência, sem ter claro exatamente o que isso seja. Inventamos a Religião: há Algo, há Alguém, além da realidade tangível cuja existência justifica e explica tudo (eu diria, quase tudo, mas não tudo absolutamente; tal compreensão depende do nível de conhecimento que cada pessoa tem sobre o Universo). 

As propostas existentes, a respeito disso, são bem aceitas pela maioria simplista e o senso comum (que geralmente erra!), mas são questionáveis pelas mentes mais inquietas... afinal, a Filosofia também surge da mesma sensação que gera a Religião, embora não formule respostas conclusivas – como na Ciência, na Filosofia não há certezas dogmáticas.

A busca pelo sentido da vida é uma busca inútil! Diante do Universo, ela não tem sentido, até porque a vida (a nossa vida) não tem nenhuma importância objetiva no contexto do Universo. Ele funciona independente de cada um de nós.

Até mesmo a Ciência, como vimos antes, não dá resposta a isso. A Ciência aprofunda ainda mais o abismo existencial, à medida em que avança a partir da dúvida e da incerteza. E todo o avanço que alcançamos em nada nos garante melhor compreensão e caminhos de busca.  A soberania do Universo e a nossa insignificância permanece sempre igual.

Sinto muito pelo pessimismo, mas melhor ser pessimista que ufanista do vazio!

===/=== >>> continua na postagem seguinte

27 de mai. de 2026

O SENTIDO DA VIDA (I - Sobre Ciência e Universo)

Ciência

Antes de tudo, é necessário um esclarecimento sobre o que é Ciência, corrigindo os equívocos que são intencionalmente proclamados pela deseducação planejada pelas elites e bem divulgadas pela mídia por elas controladas.

A Ciência não se preocupa em afirmar verdades!  Sempre fomos levados a acreditar que “tal e tal coisa está cientificamente provada”. Isso é uma enorme asneira, pois há pouca coisa provada cientificamente, e não é objetivo da ciência afirmar verdades categóricas e dogmáticas. Ciência não é Religião!

Para a Ciência, algo que é provado ser verdade, denomina-se “Fato Científico”. Por exemplo, a Gravidade é um fato científico! Sua existência é provada, e conseguimos demonstrar  como ela funciona e até podemos - de certa forma - usá-la em nosso benefício. Porém, sobre o que ela é, de fato, há várias Teorias, contraditórias entre sim em diversos aspectos; ou seja, não sabemos exatamente o que é a Gravidade, mas sabemos como ela atua e como lidar com ela. Aliás, a Gravidade é uma prova de que o planeta não é plano, mas tridimensional e esferoide. Lamento informar aos fanáticos que a Teoria da Terra Plana já nasceu destruída e sobrevive graças à idiotice e propostas políticas cruéis e insanas; nem mesmo é Teoria! kkkk!

Quando a Ciência apresenta uma Teoria, não está proclamando uma verdade absoluta; está apenas afirmando que é, no presente momento, a melhor e mais consistente explicação para determinado fenômeno observado. É preciso provar que a Teoria está absolutamente correta para que ela se torne um Fato Científico. Porém, muitas teorias não podem ser confirmadas em definitivo com todo conhecimento que acumulamos até hoje; continuam teorias e como tal são utilizadas, Muitas delas, inclusive, jamais poderão ser provadas de forma definitiva, e são úteis até que surja outra mais consistente, Se há uma "confissão de fé" para um cientista, pelo menos para mim, é a "Confissão de Sócrates" - tudo que sei é que nada sei!

A maior parte do trabalho científico é lidar com as teorias, seja tentando prová-las, seja tentando derrubá-las, ou apenas utilizando-as como base para novas pesquisas. O que move a ciência não é a busca pela verdade, mas a dúvida! A busca pela verdade, se é que isso existe, é problema da Filosofia e não da Ciência, embora a Ciência precise da Filosofia para ser consistente. Mas a própria Filosofia se recusa a dar respostas absolutas. É a Religião que faz afirmações absolutas, que afirma "certezas definitivas".

Universo

Nós costumamos pensar o Universo de forma ingênua. De fato, observado a partir de onde vivemos, o céu noturno sempre causou admiração e medo aos seres humanos, desde sua origem. Milhares de pontos luminosos cintilantes na abóbada escura, as fases da Lua, tudo isso em movimento lento e constante. Aos poucos fomos criando uma visão idílica sobre o Universo: é lindo, é harmonioso, é maravilhoso... 

Todavia, quem realmente estuda e compreende o Universo sabe que não é assim! Na verdade, é caótico! Um constante movimento de criação e destruição, de vida e morte; nada é permanente, nada é estático, nada é perfeitamente equilibrado; tudo é aleatório, ou seja, regido por probabilidades e não certezas absolutas,

Podemos compreender, até certo ponto, as leis que regem o funcionamento do Universo. Hoje em dia podemos até enxergá-lo nos seus pontos mais distantes com a tecnologia que dispomos. Isso significa enxergar como o Universo era no passado, porque tudo que vemos fora da Terra, é passado; as luzes que vemos no céu noturno (e diurno) demoraram, cada uma, um tempo para chegar até nós. Quando vemos o Sol, por exemplo, o vemos como estava há aproximadamente oito minutos atrás; quando olhamos a estrela Sirius, vemos a luz que de lá saiu há 6 anos... e assim por diante. Hoje vemos estrelas que já não existem, mas sua luz, emitida há muito tempo, continua chegando até nós.  E há partes do Universo que não vemos, porque sua luz ainda não nos atingiu; há estrelas surgindo hoje, que jamais veremos... fantástico, não é? 

Nós, humanos, somos seres que se entendem inteligentes; conseguimos elaborar um discurso consistente sobre o que observamos, e tentamos dar um sentido para a existência. Porém, vivemos em um minúsculo planeta que orbita uma insignificante estrela, a qual está dentro de uma galáxia que é parte de um grupo galáctico, o qual junto com outros forma um supergrupo... e assim infinitamente. Isso nos causa espanto permanente e provoca nossa inteligência. Assim nasceu a Ciência, e - também - a Religião (sei que isso é afirmação simplista, mas cabível aqui, ou teria de escrever outro artigo a respeito).

O que chamamos de Universo, segundo uma grande parte dos cientistas, existe há pouco mais de 13 bilhões de anos – uma quantidade de tempo que nem mesmo conseguimos imaginar sua real dimensão. 

Ainda, segundo tais cientistas, o Universo surgiu a partir de um evento extraordinário, denominado “Big Bang” (os que se opõem a essa Teoria, jocosamente, o denominam de “Estrondão”). Outra Teoria, que vem crescendo entre os cientistas é a afirmação que o Universo sempre existiu. Eu me sinto mais à vontade nesse segundo ponto de vista, enquanto físico e matemático, até porque a Teoria que afirma o Big Bang começa a ser seriamente contestada pelas mais recentes descobertas feitas com o uso dos modernos telescópios espaciais, e avanços recentres no desenvolvimento da Física e da Astrofísica..

Tudo que afirmamos sobre o Universo, as diferentes teorias, tudo isso, é sempre provisório! Novas observações, novas pesquisas, podem fazer desmoronar conceitos, formulações, e mesmo Teorias, até então aceitas. Mas nenhum cientista perde o sono por causa disso. Ser cientista é não duvidar da dúvida!

Como afirmei acima, a Ciência se move pela dúvida; Ciência não é fé!  Ciência não é Religião, embora muita gente, hoje em dia, faça da Ciência um tipo de "crença", seja para afirmá-la, seja para combatê-la.

===/=== >>> continua na postagem seguinte.


14 de jan. de 2025

A omelete do Joãozinho – uma fábula moderninha

omelete-simples
Joãozinho é um sonhador, e se acha um empreendedor. Daquele tipo de gente que  julga “pensar grande”! Tudo que Joãozinho se propõe a fazer, ele começa com muita vontade!

Joãozinho herdou um bom dinheiro, e resolveu que iria criar galinhas e vender ovos. Não seriam ovos quaisquer, mas “ovos de primeira”.  Para isso teria de criar “galinhas de primeira”, e tais galinhas não poderiam ficar soltas por ai no quintal, mereciam um galinheiro.

Não qualquer galinheiro! Mas um galinheiro especial, também “de primeira”.
_ “Eu penso grande e vejo longe, meu amigo, tenho uma grande experiência!”, costuma dizer Joãozinho sempre que inicia um novo empreendimento. E com muito ânimo expõe suas ideias e projetos, embora nunca tenha, de fato, mostrado um projeto a alguém!

Como dizíamos, Joãozinho anunciou que iria criar “galinhas de primeira” para produzirem “ovos de primeira”. Decidiu que teria de construir um galinheiro diferente desses que “andam por ai”. Contratou um arquiteto para fazer o projeto do galinheiro, mas acabou jogando fora o trabalho entregue porque achou que o arquiteto não havia entrado “no clima”; assim, ele mesmo desenhou o galinheiro, comprou os materiais e construiu o galinheiro, que dado à “complexidade” do projeto, demandou um bom tempo para ficar pronto. Joãozinho faz tudo, porque não consegue trabalhar em equipe.

Quando encontra os amigos, Joãozinho fala de seu “empreendimento”, e anuncia  que, no dia da inauguração, com a primeira postura de ovos, oferecerá uma grande omelete para o pessoal, para todos verem a grandeza de sua iniciativa.
Joãozinho pensou mais longe e pensou que, além de criar “galinhas de primeira” para produzir “ovos de primeira”, poderia também abrir o primeiro restaurante especializado em omeletes.  Isso mesmo, iria construir o restaurante ali, no terreno onde estaria o galinheiro. Já imaginava o anúncio luminoso: “Omeletaria Joãozinho – omeletes feitas com ovos colhidos na hora!”

Com o dinheiro que ainda existia, comprou o terreno do vizinho e construiu o restaurante, quero dizer, a Omeletaria, claro, com “tudo de primeira!”  O enorme galinheiro ficaria ao lado, cercado por um jardim e um parquinho para as crianças, filhas dos clientes, brincarem e observarem as galinhas… seria uma forma de desenvolver o senso ecológico nas crianças, contato direto com a natureza, essas coisas todas. Afinal, os empreendimentos de Joãozinho eram projetos de grande significado e engajamento social.

Ao mesmo tempo que a omeletaria e o galinheiro são construídos, Joãozinho fala a toda gente da grande inauguração com omeletes artesanais. Para garantir a qualidade das omeletes, Joãozinho contratou um “Chef” francês, vindo diretamente de um famoso restaurante em Paris, que chegará à cidade dias antes da inauguração, cuja data já está definida e amplamente anunciada. Divulgou a notícia que, após longas negociações, conseguiu a promessa de alguns capitalistas, seus conhecidos, que ajudariam a ampliar o “projeto” para uma rede de franquias, omeletarias com o mesmo formato, o mesmo modelo de galinheiro e as mesmas espécies de galinhas poedeiras, “tudo de primeira”, dizia sempre.

Pelo menos é o que Joãozinho anuncia: parceiros do exterior que estariam se envolvendo no empreendimento. Graças a negociações, pagou para estar presente em um famoso Talk Show na TV, onde afirmou que, no mês entrante, no dia tal, com o Chef vindo de Paris, “vamos inaugurar a primeira omeletaria da “Joãozinho’s  Eggs and Omelets” e que logo em seguida a rede estaria se desenvolvendo nas principais cidades do país e com compromissos já acertados de franquias na Europa e nos Estados Unidos, graças aos grandes parceiros, “meus amigos pessoais” dizia Joãozinho; afinal, em suas viagens ao exterior para conhecer modelos de galinheiros, ele fez muitos bons amigos, alguns até já estiveram aqui para visitar o projeto, quando pôde explicar melhor os detalhes do empreendimento.

Claro, nem tudo saiu de maneira perfeita. Joãozinho explica que algumas complicações surgiram com os recursos que viriam dos investidores estrangeiros, mas nada que impedisse a grande omeletada de inauguração; aliás, um deles – proprietário de uma grande rede de Fast Food nos Estados Unidos, ficou adoentado, mas garantiu que logo enviaria o dinheiro, faltando apenas assinar o convênio de parceria. Os demais estavam ainda em conversações finais para resolver pequenos detalhes. Talvez, por isso, o lançamento da franquia demoraria mais um ou dois meses.

Naturalmente, uma ou outra coisinha ainda não estaria pronta, mas a omeletaria abriria as suas portas na data e hora já anunciada. Afinal, o Chef vindo de Paris já havia chegado e estava provisoriamente instalado em um hotel (“nada de luxo, porque não podemos jogar dinheiro fora!”) até que sua casa esteja pronta, pois será construída no terreno recém adquirido de outro vizinho.

Joãozinho afirma sempre que pretende inspecionar pessoalmente o serviço, desde a compra da ração para as galinhas até a omelete servida à mesa do cliente. “Não abro mão da qualidade e estarei cuidando rigorosamente que tudo saia nos conformes!”, ele diz. “Aliás, a Adega já está abastecida com vinhos chilenos, portugueses, franceses e italianos”.

Chegou o grande dia  esperado! Pela manhã a imprensa local já está mobilizada para a cobertura do grande evento, a primeira e única omeletaria do país, que produziria sua primeira omelete exatamente ao meio-dia. “Como eu disse, e repito, as primeiras 250 omeletes serão gratuitas! um carinho reservado aos meus inúmeros amigos e parceiros!”

Pouco antes das onze chegaram alguns telegramas e correios eletrônicos, do país  e do exterior, com justificativas de ausência. “É natural”, diz Joãozinho, “são pessoas muito ocupadas e nem sempre se consegue ajustar a agenda, não é mesmo?”

Às onze e meia, estando já as pessoas presentes, cerca de 30% dos convidados, Joãozinho estourou a Champanhe e começou um emocionado discurso, que foi interrompido por um auxiliar de cozinha informando que “Le Monsieur” (assim era tratado o Chef) exigia a presença de Joãozinho na cozinha.

Joãozinho disse, interrompendo o discurso, “Estou sendo chamado à cozinha, naturalmente para a prova da primeira omelete!”. Com toda a pompa e circunstância, entra na cozinha, estando todos os cozinheiros e ajudantes perfilados e “ Le Monsieur”, afilando o bigode, perguntou:
“Monsieur Joansino! où sont les oeufs? Je suis allé au poulailler pour les obtenir, mais je ne trouve pas même les poulets!”.

Foi quando Joãozinho se deu conta que não havia comprado as galinhas! Olhou para seu contador geral, que explicou:
“Como eu havia prevenido ao senhor, os recursos dos parceiros do exterior não chegaram, então não tivemos mais dinheiro para comprar as galinhas!”

Moral da estória: não anuncie a omelete antes de ter as galinhas!
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NOTAS: 
1 .Qualquer semelhança com pessoas ou instituições não é coincidência. Veste a carapuça quem acha que lhe serve!
2. O original foi publicado em junho 2015. Texto revisado nesta data de republicação;

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30 de jan. de 2015

Fulano de Tal

Fulano de Tal

Fulano de Tal nasceu em algum lugar em certo dia de certo mês de determinado ano. Filho de seu pai e de sua mãe, nasceu em um lar de classe média baixa. Foi um neném comum, como todos encheu o saco de seus pais com manhas, cólicas, fazia cocô em horas impróprias…

Na infância frequentou um colégio estadual, sentava na turma do fundão da classe, reprovou no 4º ano, mas como não podia reprovar, passou de ano… Aprendeu muitos palavrões e sua mãe colocava pimenta em sua boca, denunciou a mãe ao Conselho Tutelar, que deu uma espinafrada na mãe. Xingou a mulher do Conselho Tutelar, levou uma bordoada… não tinha pra quem reclamar. Teve sarampo, catapora, rubéola, caxumba e bronquite. Foi vacinado contra um monte de coisa, e sempre berrava muito na hora da vacina.

Chegou na puberdade, estranhou seu corpo mudando, perguntou para seu pai, o qual disse que é assim mesmo. Um amiguinho ensinou a manipular certas partes, gostou muito. Caiu da bicicleta, quebrou o braço. Descobriu que existem meninas, as quais são chatas.

Na adolescência começou a fumar escondido. Chegava tarde em casa nas noites de sábado, levava esporro do pai, mas não dava a mínima porque não podia ser castigado. Continuou no mesmo colégio. Descobriu que as meninas não são tão chatas, afinal. Aprimorou as técnicas de manipulação de certas partes, agora pensando em meninas.

Acabou o Curso Médio, fez o ENEM, foi mal em redação, em matemática, em história, em geografia, em tudo.  Acabou em faculdade particular no curso de Direito, trancou matrícula porque era chato e o pai achava caro, foi estudar computação em um desses cursos avulsos, quebrou o computador do pai, levou esporro, mas não deu a mínima. Voltou para a faculdade, acabou o curso, conseguiu uma dessas bolsas do governo, não passou no exame da OAB, arrumou emprego numa loja, foi demitido porque chegava atrasado sempre e faltava. Continuou vivendo de mesada do pai. Nunca devolveu o dinheiro da bolsa do governo. Ficou com CPF sujo, mas e daí?

O pai e a mãe se separaram, teve de ficar morando com a mãe, porque o pai se mandou com uma garota e foi morar em outra cidade. Não tinha mais mesada, mas recebia pensão do pai. Arrumou um emprego, mas ainda dependia da mãe. A mãe se ajeitou com um antigo amigo do pai.

Conheceu a Rosinha, menina vivida pacas, fez um filho nela, acabou casando e foi morar na meia-água no fundo da casa dos pais dela. Brigava com a sogra, levou porrada do sogro, arrumou emprego em uma oficina mecânica e acabou se mudando para um bairro na periferia, abandonando a Rosinha, o sogro, a sogra e o filho. Rosinha arrumou um outro cara.

Parou de fumar por causa da bronquite, mas continuou bebendo, “socialmente”, dizia.

Virou sócio da oficina. Acabou ganhando um bom dinheiro, comprou uma casa em conjunto habitacional e trouxe a Juliana para morar com ele, ela e seus três filhos de pais desconhecidos. Adotou os moleques.

Um dia, bebeu mais que podia, e ao voltar para a casa, foi vítima de uma bala perdida, que depois a polícia descobriu que não era tão perdida, mas tinha a ver com uma briga de uns dois anos antes, e um lance de certos pacotinhos dos quais ele não prestou contas.  Foi levado às pressas para o hospital.

Morreu antes de chegar lá. Juliana foi buscar o corpo no IML, e fez o enterro.

Fulano morreu assim, em certo dia de certo mês de certo ano, pelas três da madrugada.  Foi pro céu? Não sei, era ateu.
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18 de set. de 2013

A estranha rotina de um sujeito estranho

Notívago, ele nunca se deita antes das cinco horas da manhã, nem levanta-se antes de meio dia. Ao levantar-se, toma seu desjejum, sempre o mingau de aveia, o café preto com bolachas água e sal, sem manteiga, e a maçã, ou a pera, que se alternam nos dias da semana. Aos domingos, dispensa o café e as bolachas, contenta-se com o mingau e uma boa porção de mamão com creme de leite.

Após o café, todos os dias, exceto sábado e domingo, telefona para o seu administrador geral e informa-se da situação dos seus investimentos: imóveis, ações, uma grande fazenda de gado, uma indústria média de auto-peças. Quase raramente visita a sede do escritório geral da holding, onde tem à sua disposição uma enorme sala com decoração austera, de muito bom gosto. A Secretária chega em sua mansão religiosamente às 14 horas, de segunda à sexta-feira. Ela traz relatórios e a correspondência. Após lê-los de forma diagonal, dita algumas cartas e despacha a secretária nunca depois das 17 horas.

Então, lhe é servido, a título de almoço (ou jantar, fica a critério do leitor), uma salada bem temperada, uma carne assada (que varia entre carne bovina, frango, ou pato); nas sextas-feiras é sempre um peixe ou frutos do mar. Após a refeição, ele caminha por trinta minutos pelo jardim da mansão, dá orientações ao jardineiro que já o espera ao lado da fonte luminosa (no inverno já está acesa, pois o sol se põe muito cedo).

Às vinte horas está devidamente vestido para a noite: um dos seus ternos escuros, que variam entre o tradicional preto ao azul marinho, as camisas sociais bem passadas sempre em tons de azul, a gravata de seda sempre em tons vinho, sem estampas; meias escuras e sapatos em cromo alemão, sempre pretos.

Nas segundas-feiras vai ao cinema, como sempre fez desde a adolescência. Nas primeiras terças-feiras de cada mês participa da reunião do Conselho de Curadores do Museu Municipal, do qual é o Presidente há mais de dez anos e grande benfeitor; nas demais, visita o Clube de Xadrez onde joga uma ou duas partidas. Nas segundas quartas-feiras de cada mês, preside a reunião do Conselho de Administração da Sociedade de Amigos da Catedral. Nas demais quartas-feiras, costuma convidar alguém para jantar, sempre no restaurante do Palace Hotel, onde dispõe de uma suíte sempre reservada. Nas quintas-feiras, vai ao teatro. 

Nas sextas-feiras não é bem clara sua agenda. Ele simplesmente sai de casa, dispensa o motorista e dirige seu carro ou chama um taxi. Nunca diz onde vai. Seja qual for o compromisso da noite, ele nunca retorna à casa depois de uma hora da madrugada. O mordomo lhe serve uma ceia simples e então fica lendo em sua biblioteca até a hora de dormir. Todavia, algumas sextas-feiras ele costuma chegar bem mais tarde, entre quatro e cinco horas; o mordomo é instruído para não esperá-lo nas sextas-feiras. 

Não usa computador, não tem endereço eletrônico, nem participa de redes sociais. Todavia é sempre bem informado. O mordomo comenta que, nas madrugadas, o senhor lê os jornais e revistas, além de algum livro.

Aos sábados, após o desjejum, veste um terno claro,  em tons de bege combinado com as meias e os sapatos que, aos sábados nunca são pretos. Então vai a um cemitério, onde, sobre um túmulo simples, deposita um maço de tulipas holandesas, que são entregues na mansão sempre às 10 horas da manhã de cada sábado. Permanece no cemitério por meia-hora diante do túmulo e depois caminha lentamente pelas alamedas. Às cinco horas ele assiste o ofício das vésperas cantadas na Catedral. Após o ofício sempre há alguma programação musical ou estudos bíblicos, dos quais participa com entusiasmo. E termina a noite sempre convidando o Deão e esposa para jantar em sua casa. Algumas vezes convida também um ou outro cônego. Raramente convida o Bispo… No sábado, recolhe-se mais cedo, por volta das duas horas da manhã, dispensando o lanche frugal uma vez que o mordomo já está no gozo de sua folga semanal, bem como os demais empregados da mansão, que terminam o serviço após o jantar com o Deão e só retornam na manhã de segunda-feira.

Domingo é um dia diferente. Ele acorda mais cedo, prepara seu próprio café, veste-se e dirigindo seu carro participa da Missa Solene na Catedral ao meio-dia, geralmente presidida pelo Bispo, ou pelo Deão, com a presença de todo o Cabido devidamente paramentado. Após a Missa, almoça em um restaurante próximo à Catedral, compra flores da mesma florista na praça para uma senhora idosa residente em uma Casa de Repouso luxuosa que fica em um recanto na periferia da cidade. Passa lá toda a tarde. Ao anoitecer, visita a mesma confeitaria fina, onde saboreia um Chá completo, com biscoitos. Então, vai à casa de Sara, para, com ela, jantar na suíte do Palace. Chega em casa impreterivelmente à uma hora da manhã, e dedica-se à leitura.

No verão sempre faz um cruzeiro, acompanhado de Sara e da senhora idosa que vive na Casa de Repouso. Cada ano escolhem um roteiro diferente. No inverno, passa uma semana esquiando com Sara na Cordilheira.

E assim foi sua vida nos últimos dez anos. No outono, a senhora idosa morreu, um infarto fulminante.

Agora passava as tardes de domingo caminhando pelas alamedas do Parque Municipal. No inverno, Sara decidiu não esquiar, e assim, ele passou a semana de folga em sua fazenda. Ao retornar, soube que Sara havia deixado a cidade, sem informar para onde.

Decidiu então vender todos os seus bens, inclusive a mansão. Colocou todo o dinheiro apurado em um fundo à disposição do Cabido da Catedral para manter a Escola e o Orfanato, deixando também um quinto para o Museu.

Retirou-se para a Abadia, professou os votos da Regra de São Bento, e lá viveu seus últimos anos, vindo a falecer com 86 anos de idade. A Escola da Catedral recebeu seu nome, assim como a praça. Seu corpo foi sepultado no cemitério da Abadia.
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21 de dez. de 2012

O Fim do Mundo (2)

andre_mansur_fim_do_mundoEstava tudo bem planejado, o cronograma definido para o mega evento.

O Calendário Maia estava bem aferido, testado que foi pela NASA que comparou os átomos de carbono e os isótopos 14, e dava uma margem de erro de 0,004 nano segundos. Em vários países do Hemisfério Norte cidadãos abastados construíram abrigos subterrâneos enganados pela falsa propaganda que garantia a sobrevivência em caso do mundo acabar (o que é uma asneira, pois acabando o mundo acabam também os abrigos subterrâneos, mas como novos ricos geralmente são idiotas e compram qualquer merda, um monte deles comprou abrigos subterrâneos). Apóstolos, super-evangelistas, mega-pastores, e outros picaretas do tipo, encheram o bucho de dinheiro fácil vendendo passes de salvação para os incautos de sempre.

Após uma ferrenha concorrência, a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar o Grande Impacto que daria início ao fim-do-mundo. A Prefeitura do Rio, com apoio do Governo do Estado e do Governo Federal (afinal alianças políticas servem para essas coisas) construiu três fim-do-mundródomos, porque várias pendengas judicias impetradas por diferentes grupos de interesse, determinavam que o evento deveria acontecer em locais diferentes.

Setores ligados à FIFA e à CNBB (um acordão envolvendo a bancada evangélica em off) impetraram mandato de segurança para que o evento acontecesse no novíssimo Maracanã (cujo projeto final foi aprovado pela Sagrada Comissão Ecumênica da Volta de Jesus); todavia, outros mandatos de segurança e liminares determinavam que seria em frente ao Copacabana Palace onde ficariam hospedadas as autoridades mundiais que celebrariam o acordo internacional do fim-do-mundo, perdoando as dívidas externas de todos os países, inclusive a dos EUA, uma vez que sendo o fim-do-mundo ninguém ia pagar mesmo e se pagassem, os que recebessem não teriam onde gastar; esse era o Projeto Original da Prefeitura que contaria com o patrocínio exclusivo da Petrobrás, do Eike Batista e do Bradesco (o Banco  oficial do Fim-do-Mudo). 

Um terceiro grupo, liderado pelo lobby das Escolas de Samba exigia que o evento acontecesse na Praça da Apoteose após o desfile da União Geral de Grêmios Recreativos e Escolas de Samba do Rio de Janeiro (um mega desfile juntando todas as escolas de todos os grupos); esse grupo tinha o apoio de vários ministros do STF, que alegando o excesso de trabalho devido ao Mensalão, não pode julgar tudo que estava rolando sobre o fim-do-mundo; assim até dia 15 de dezembro, não estava judicialmente decidido o local do impacto.

Para não perder a oportunidade política, a Presidenta da República consultou o Ministério da Ciência e Tecnologia sobre a possibilidade de se conseguir mais dois asteroides, de forma que o evento aconteceria nos três locais  simultaneamente, e seria assim um evento popular onde todos poderiam participar; a Presidenta assinou Medida Provisória definindo recursos para que o INPE providenciasse dois asteroides em caráter de urgência urgentíssima em benefício do interesse público. Todavia, graças a rápida manobra política, a Oposição conseguiu  bloquear a MP no Congresso alegando que os recursos extraordinários fariam falta aos setores de saúde e educação do país; para garantir, os Partidos de Oposição, com a cobertura da mídia empresarial, impetraram mandato de segurança no STF, apesar das explicações do Ministro Presidente do Egrégio Tribunal informar que o Mandato só poderia ser apreciado pela Casa duas semanas ou três após o fim-do-mundo.

Fora do Brasil, na ONU, com a Assembleia Geral reunida, povos de outras culturas e religiões contestavam, através de seus diplomatas, a realização do fim-do-mundo em um país cristão, uma vez que ninguém além dos cristãos esperam a volta de Jesus, e que isso não poderia ser imposto; assim, o mundo não poderia acabar com a volta de Jesus pois seria uma afronta aos povos de outros credos. O representante dos EUA informou que seu país não vai tolerar ingerências terroristas no fim-do-mundo e já colocou todo seu aparato militar em prontidão de alerta laranja, pronto para invadir qualquer país que se oponha ao fim-do-mundo na forma que foi definida, a fim de garantir a liberdade e a democracia mundial mesmo no fim-do-mundo.

Grupos ativistas de todas as cores, do mundo inteiro, especialmente ambientalistas e promotores dos direitos humanos, decidiram realizar um fim-do-mundo alternativo, que aconteceria no Aterro do Flamengo, com o slogan “Um outro fim-do-mundo é possível!”, determinando que o mundo terminaria não por um impacto de asteroide, que danificaria o meio ambiente, mas de forma bem natural, convocando a humanidade inteira e todos os animais a darem um tremendo peido coletivo à hora marcada, alterando rapidamente a atmosfera para o mundo acabar pela falta momentânea de oxigênio, o qual seria rapidamente reposto pelos vegetais em menos de dois séculos através da fotossíntese. O Peido do Novo Mundo foi estampado em camisetas, bandeiras, cartazes… e foram distribuídos à toda humanidade feijões pretos, repolhos e bata-doce, a fim de garantir o evento.

Apesar desses contratempos todos, o Governo Brasileiro garantiu o fim-do-mundo oficial no dia e hora marcada.

De fato, à hora prevista, no dia 21 de dezembro, três enormes asteroides entram na atmosfera da terra, mas se desintegram em poucos segundos, dando como resultado um miserável chuvisco de meteoros, que mal foi visto devido à intensa luz do sol. As autoridades no Copacabana Palace mantiveram o sorriso cínico como se nada realmente tivesse acontecido (e realmente, nada aconteceu). 

No Maracanã, para disfarçar, organizou-se um joguinho amistoso entre Corinthians e Flamengo com as bênçãos do Papa  (que daria a Bênção Final Urbi et Orbi no centro do gramado); enquanto isso, na Praça da Apoteose, terminado o desfile, e nada tendo acontecido, uma briga entre as baterias animou o pessoal sendo que até o momento em que escrevo essas linhas, o pau continua comendo solto por lá.

No Aterro do Flamengo, todavia, o Fim-do-Mundo alternativo também não deu certo: não conseguiram sincronizar o horário do Grande Peido Mundial, de forma que uns peidaram muito cedo, outros mais tarde mas isso não foi suficiente, e ainda tem gente peidando pelo mundo todo…

A Globo, pouco depois do fracasso dos asteroides, colocou no ar o Boal, com as chamadas para o Big Brother Brasil e o Jornal Hoje informou que a CIA suspeita que terroristas albaneses conseguiram danificar o asteroide oficial quando ainda estava por trás da Lua, por isso ele falhou, mas não emitiu nenhum parecer sobre a falha dos dois asteroides brasileiros  extras. Seja como for, uma frota norte-americana estacionou no litoral da Albânia, e logo em seguida o Iran anunciou seu apoio ao valente povo albanês.

No elevador do Copacabana Palace, a Primeira Ministra Alemã comenta com o Rei da Suécia: “Eu bem avisei àquela senhora Dilma que encomendar asteroides chineses não era a coisa mais adequada, mas eles ganharam a concorrência e deu no que deu!”.

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3 de dez. de 2012

Quando não havia o videoteipe, nem o Jô.

Indio da TupyNo final dos anos 50 e início dos 60 do século passado, a TV brasileira engatinhava. Não havia videoteipe, tudo era feito “ao vivo e em preto&branco” e a improvisação era a grande arte! Não havia a baixaria dos programas religiosos, claro.

Lembro que as propagandas eram feitas em estúdio, com uma moça, chamada garota propaganda, apresentando os produtos. Essas moças pagavam muito mico: ela mostrava o novíssimo liquidificador Arno e picava banana, maçã, colocava leite, mostrava como era “fácil fazer uma deliciosa vitamina de frutas”; então girava o botão para ligar o incrível equipamento e nada acontecia! Ela dava um sorriso, girava o botão de novo. Sempre sorrindo, ela tenta novamente, nada! então aparece um sujeito por trás da cena e liga alguma coisa na tomada, era o liquidificador que não estava “plugado”. E então o aparelho começava a funcionar e a tampa saia fora e a pobre “garota propaganda” tomava um banho de vitamina! A imagem saia do ar, entrava o indiozinho da Tupi. Eu me dobrava de rir! Outra vez, a moça estava mostrando um incrível sofá-cama, grande novidade. Ela vai mostrar como é fácil armar a cama, ergue o assento do sofá, o dito cujo escorrega para trás, derruba a parede do cenário, uma confusão danada, novamente a imagem sai do ar e aparece o indiozinho…

Capitão 7

A garotada se amarrava nas Aventuras do Capitão 7, que passava na TV Record de São Paulo, o Canal 7 , onde também havia um programa que a gente curtia muito às 6 horas da tarde: Pullman Junior e depois a Turma dos 7. O Capitão 7 era o nosso super-herói, e fazia sucesso ao lado do Vigilante Rodoviário.  Legal mesmo era o Pullman Junior: crianças se inscreviam para participar, e ficavam lá comendo bolo Pullman, tomando Guaraná Antártica e vendo desenho animado. Uma vez eu participei junto com meu irmão Ricardo. Mamãe ficou dias tentando pelo telefone a nossa inscrição (telefone naquela época era mais complicado que celular da TIM). Conseguiu, era um programa especial de carnaval e fomos fantasiados de palhaço, eu e o Ricardo (nós havíamos ganho um prémio de originalidade no baile infantil naqueles dias, e mamãe estava orgulhosa das fantasias que ela mesma havia confeccionado!).

Chegamos na TV Record, que ficava pertinho do longínquo Aeroporto de Congonhas, e era simplesmente um conjunto de barracões cheios de divisões internas (os funcionários chamavam de estúdios!). Logo na entrada, um saguão, estavam três senhoras sentadas conversando. Reconheci uma delas rapidamente, era a esposa do Palhaço Pimentinha, que era companheiro do Arrelia, no Circo do Arrelia. Essa senhora era uma espécie de faz tudo: atuava no circo, fazia às vezes de garota propaganda, fazia número em programas que tinham de apresentar pequenos auditórios, etc. Ela olhou para mim e disse: “Olha só, se ele fosse magrinho, seria igual ao Pimentinha!” e todo mundo caiu na gargalhada, eu fiquei vermelho de vergonha! Fomos para o estúdio do Pullman Junior e foi quando descobri que era apenas um canto, onde haviam algumas mesas, um monte de criança sentada nas mesas comendo bolo; a gente mal podia ver o desenho animado, porque a televisão ficava por trás. Havia uma menina que apresentava o programa naquele tempo, acho que era a Débora Duarte!!! ela veio me entrevistar e eu fiquei todo orgulhoso: eu estava falando com a Débora, a menina que perturbava meus colegas de ginásio!!! eu tinha 11 anos!

TURMA DOS SETEFoi ai que alguém da TV Record me achou! Havia um programa muito legal, chamado Turma dos Sete, as aventuras de sete crianças, amigos e vizinhos. Um desse personagens se chamava Bolão e era gordinho. O menino que fazia papel de Bolão estava já muito “velho” para o elenco e estavam procurando outros. O sujeito que se apresentou como Produtor da Record gostou de mim… minha mãe, claro, ficou toda cheia de si, e lá foi o Luiz Caetano fazer semanas de testes, decorar texto, até que finalmente eu fui ao ar!!! Putz! Minha mãe passou dias no telefone avisando todos os parentes, inclusive os primos de segundo, terceiro e quarto grau, as vizinhas das cunhadas das primas, etc. que o Luiz Caetano ia estrear na TV no dia tal, ia ser o Bolão da Turma dos Sete, e claro, “ele tem talento, eu sempre soube disso, está muito bem e o diretor gosta muito dele!”. Pobre mamãe! como toda senhora jovem pequeno-burguesa vivia das fantasias do mercado…

Dona Renata, mamãe, deve ter elevado muito o Ibope da Turma do Sete naquele dia, se isso já existisse. Naquele tempo não tinha FACEBOOK, nem Twitter, então não tinha como “compartilhar”, o negócio era telefonar pra todo mundo mesmo. Não tinha videoteipe. A gente entrava no ar e a coisa tinha de rolar na marra! se saísse errado, a gente tinha de improvisar… era divertido!

Durou pouco meu tempo de TV. Meu pai cismou, no que foi plenamente apoiado pelo Diretor do Colégio Nossa Senhora da Glória, o Irmão Expedito Leão (Marista), que aquele negócio de trabalhar na TV e estudar não dava certo. E com seu jeito de pai mansinho, ele convenceu minha mãe e eu simplesmente tive de deixar o programa. Acho que fiz uns três programas, estava em fase de teste ainda.

Por isso é que o Lima Duarte, o Francisco Cuoco e o Tarcísio Meira fizeram sucesso! Meu pai bloqueou minha carreira na TV!!! mas tive meus dias de glória na telinha! e nem precisei escrever livro, virar presidente de qualquer coisa, nem pagar para aparecer no Jô para isso! E ainda ganhei uma graninha, que meu pai usou para comprar minha bicicleta Caloi aro 24, com a qual eu finalmente ganhei do Marcelo (que tinha uma Monark aro 24) nas corridas de bicicleta que a criançada da vizinhança fazia na Jackson de Figueiredo, bairro da Aclimação, São Paulo.

Se naquela época tivesse o FACEBOOK eu teria compartilhado com amigos, grupos, páginas, etc.  É o modesto charme da burguesia!  e vamo que vamo!

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26 de out. de 2012

Propostas em favor de “minorias oprimidas”…

Uma vez que a nossa sociedade é repleta de políticas afirmativas, quotas e bolsas por conta do Estado, e que o politicamente correto é hoje a ditadura da mediocridade, me atrevo a apresentar algumas sugestões de políticas afirmativas em defesa de alguns grupos sociais ainda não privilegiados, já que este é o país dos direitos sem deveres. 

1. Quota para alun@s obes@s no Ensino Superior:  veja bem, o sujeito/a sujeita é gordinh@, estuda em escola pública, mas é branc@, não tem afro-antepassad@, e por isso – por ser gordinh@ – disputa vestibular em desvantagem flagrante diante dos saudáveis mauricinhos e patricinhas que frequentam academias. Veja só: o/a infeliz  gordinh@ tem de subir e descer escadas no colégio, o que no seu caso, o/a faz chegar mais cansad@ que @s demais na sala de aula, geralmente com dor nas pernas e no pé, e isso afeta seu aprendizado, pois já sofreu um estresse antes de começar a aula. Considere-se que normalmente gordinh@s caminham mais devagar e por isso acabam chegando atrasad@s à escola devido a terem de caminhar desde o ponto de ônibus… Portanto, nada mais justo que se ofereça uma quota para gordinh@s a fim de que possam cursar uma faculdade e disputarem o mercado de trabalho de camelô com os demais estudantes magr@s. E é muito simples caracterizar um/uma gord@: basta olhar! Não precisa trazer documento, árvore genealógica, retrato editado no Photoshop, etc. O/A funcionári@ que receber a inscrição, olha bem o/a candidat@ e, como tem fé pública, atesta imediatamente que o/a candidat@ é gord@.

2. Assentos especiais para hemorreicos/hemorriecas: isso é importantíssimo, pois é assunto de saúde pública! Quem tem hemorroidas sabe (não é meu caso, mas eu penso muito n@s coitadinh@s). O/a infeliz vai ao cinema, teatro, restaurante, pega ônibus, taxi, metrô, trem urbano, viaja de avião, vai na escola, e mais uma porrada de coisas, onde tem de se sentar (claro que no caso do transporte público, é preciso que ele/ela tenha sorte em achar um banco vazio). E então, sentar-se é um suplício! Por isso, tudo que seja local onde hajam assentos, deve haver um percentual de assentos especiais para os infelizes, com um vazio no meio a fim de possibilitar a esses/essas coitad@s um conforto. Ainda não resolvi como o/a sujeit@ prova que tem direito a usar o tal assento e exigir que o/a adolescente boca-aberta, que adora usar os assentos reservados, desocupe o acento furado reservado ao/à portador(a) de hemorroidas (que seria politicamente mais correto chamar de trabalhador(a) com necessidades especiais para sentar-se, a fim de não ser pejorativo). Não será necessário desenvolver nenhuma tecnologia especial, basta equipar os locais com uma percentagem de cadeiras cujo assento seja uma tábua de privada, que é baratinho no mercado (não precisa ser almofadado, porque ai já seria um luxo e o governo não vai subsidiar isso!). Atenção: alguns locais públicos já reservam assentos especiais para obes@s, então tem de lembrar que alguns obes@s são também trabalhadores(as) com necessidades especiais para sentar-se apesar da bunda grande.

3. Faixa exclusiva para motoboy/motogirl em todas as ruas e avenidas e vielas: é realmente aterrador ver os/as trabalhadores(as) motoboys/girls oprimid@s pelo transito e pel@s desalmad@s motoristas que insistem em não dar brecha para eles/elas passarem, obrigando-os/as a sofrerem colisões nas solas dos pés contra espelhos retrovisores externos, por exemplo. É preciso lembrar que motoboy/girl ganha por produção, por isso, não pode perder seu precioso tempo em engarrafamentos, nem perder sua concentração em chegar logo por causa de pedestres mal intencionad@s que surgem por trás de carros e ônibus, inclusive nas faixas de pedestre com sinal aberto para os tais. Com a faixa exclusiva em qualquer via pública, os motoboys/girls não precisariam machucar os pés com retrovisores, nem fazerem uma ginástica danada para passar entre veículos parados em congestionamentos. Veja bem: qualquer pedestre tem faixa exclusiva que se chama calçada; por que os motoboys/girls não têm sua faixa exclusiva? isso é uma opressão burguesa contra os/as pobres rapazes/rapazas de capacete em duas rodas.

4. Bolsa-Família para solteir@s, solitári@s e casais estéreis: nem preciso argumentar muito neste caso, pois a tal Bolsa-Família oferecida apenas a quem tenha filh@s menores é um insulto ao princípio que tod@s os/as cidadãos(ãs) são iguais perante o Estado. No que se refere às mulheres, principalmente, pois uma mãe-solteira, só por ser mãe, tem direito à bolsa família. Cabe o adendo da pergunta se pai solteiro tem o mesmo direito (embora não seja politicamente correto exigir-se direitos especiais para pessoas do gênero masculino; a menos que seja uma homossexual ativa ou devo dizer lésbica ativa? não é ofensivo?).
Estas são algumas propostas… tenho mais…

---- IMPORTANTE----
Observações sobre algumas questões semânticas que podem ser levantadas  ao ler-se  este artigo. Para evitar que os/as politicamente corret@s fiquem mais enfurecid@s que de costume, apresento a chave hermenêutica para certas palavras e expressões utilizadas no texto acima:

a) quando falo em ditadura da mediocridade, não é pejorativo. Medíocre significa median@, médi@, ou seja dentro do padrão da maioria. O/A politicamente corret@, exatamente por considerar-se corret@ (os/as diferentes são, então, incorret@s) é uma ditadura, ou seja, um totalitarismo.
b) bunda: no Brasil não é palavrão (baixo calão), mas em Portugal sim. Portugueses/as politicamente correct@s, por favor, lembrem-se que falo brasileiro.
c) mãe-solteira refere-se à mulher que tenha filhos e não é casada nem vive com um companheiro (assumindo ou não a paternidade); vale inclusive para aquelas adeptas da produção independente. Afinal, são solteiras. Isso não é pejorativo. Mas talvez fosse melhor, ao invés de mãe-solteira, referir-se às tais como “mulher emancipada que tenha prole”.  Não sei dizer se, no caso, prole seria politicamente correto. Talvez fosse melhor dizer “mulher emancipada que reproduziu parte de seu material genético com masculino oculto”.
d) se você é politicamente corret@ e ficou irritad@ com este artigo, então atingi meu objetivo.

Note que estou sendo politicamente correto ao ser idiotamente sincero.
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30 de jul. de 2012

A Coisa

O despertador tocou às 6h00, como todos os dias; João levantou-se abriu a veneziana e contemplou a rua, aspirando o ar fresco. Estranhou o pouco movimento, mas deu-se conta que era sábado; já os bem-te-vis e os pardais faziam a costumeira arruaça matinal. “Eles não têm sábado, nem domingo, eles não estão presos às convenções do tempo”, e esse pensamento fez surgir um sorriso no rosto de João. Tomou banho, lavou a dentadura, fez gargarejo com o Listerine, vestiu-se, desceu até a cozinha, bebeu os dois copos de água que o médico recomendou, e saiu para comprar o pão na padaria da praça, ali perto, e pegar o jornal na banca do Reinaldo, para depois fazer o café e ver o que o editor do jornal queria que ele ficasse sabendo. Tudo como sempre fazia desde que se aposentou.


Ao sair para o pequeno jardim do sobrado, ele a viu! Estava ali, no lado esquerdo do canteiro de copos-de-leite. “Estranho”, pensou João, “que é essa Coisa ai?” La estava aquela Coisa, e João tinha certeza que ontem não estava lá.  Mas agora estava lá, solene, na terra, entre os copos-de-leite, imperiosamente ela mesma, aquela Coisa. João se aproximou para ver a Coisa mais de perto: “Que Coisa é essa?”, e ficou olhando interessado.

Nisso, passou o Garrido, com seu sorriso bonachão dando o solene “Buenos Dias” com seu sotaque portenho, e então percebeu o João entretido com a Coisa. “Que Cosa es esta?” perguntou. “Não sei, essa Coisa apareceu aqui assim, sei lá vinda de onde!”  Garrido entrou no jardim e pôs-se também a olhar a Coisa. E estavam os dois olhando a Coisa quando passou dona Severina, nordestina arretada, neta de cangaceiro  e evangélica, que ao ver a Coisa logo foi dizendo: “Essa Coisa ai não é coisa de Deus!"” e entrou para olhar a Coisa também ao mesmo tempo que repreendia a Coisa.

Logo várias pessoas da vizinhança estavam ali, olhando a Coisa, pois todos que passavam se interessavam e vinham perguntar que Coisa era aquela. E todos diziam alguma coisa sobre a Coisa. Várias hipóteses surgiram para explicar a Coisa, mas ninguém conseguia dizer que coisa a Coisa era.

Vicente, o filósofo da rua, disse que já tinha visto muita coisa, mas nunca tinha visto uma coisa como aquela Coisa. Gilberto, que estudou dois anos de engenharia na juventude, disse que talvez a Coisa tivesse relação com um tal de Bóson de Higgs (“é com agá, mas a gente fala como se fosse erre”, salientou) que alguém tinha visto na Suíça, mas foi contestado pelo Vicente dizendo que o Bóson de Higgs era outra coisa e não aquela Coisa.  “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e nada é a mesma coisa. Isso está me parecendo uma coisa estranha”, concluiu Vicente.

Dona Severina, continuava dizendo que a Coisa não era coisa de Deus, e já estava reunindo um grupo para orar pedindo a Deus que mandasse um profeta explicar o que era aquela Coisa, enquanto Gilberto, expressando seu ateísmo materialista, reclamava que a dona Severina não dizia coisa com coisa, e que aquela Coisa não tinha nada a ver com religião, uma coisa que ele não gosta.

Verinha, balzaquiana solteira, defensora dos direitos humanos, da ecologia e representante da rua na Associação do Bairro, chegou dizendo que a Coisa tinha o direito de estar lá e que ela não admitiria que alguém tentasse pegar na Coisa, e aproveitou para distribuir os panfletos sobre a próxima assembleia do bairro, que deveria tratar de várias coisas.

O fato é que todos falavam alguma coisa sobre a Coisa, e muita coisa se dizia sobre a Coisa, mas ninguém dizia realmente qualquer coisa que explicasse a Coisa. Alguém sugeriu chamar a Polícia ou os Bombeiros, mas outrem disse que isso não é coisa de Polícia, e que talvez fosse melhor deixar a Coisa como estava porque as coisas vão e vem, a vida é uma coisa assim mesmo. Verinha retrocou dizendo que não podiam ser conformistas e deviam lutar pela Coisa, porque era a coisa mais certa a fazer. “A Coisa é nossa, está na nossa rua e nós temos de cuidar da Coisa contra a manipulação política da Coisa! e só de pensar na Coisa, me dá aquela coisa, sabe, de me arrepiar toda!”

Foi então que chegou o Toninho, moleque da rua que fazia pequenos serviços para a vizinhança em troca de umas moedas para seu cofrinho de lata. Sem dar importância ao grupo que estava discutindo a Coisa, foi logo dizendo:
_“Ô seu João, ontem quando vim limpar seu jardim esqueci uma coisa… ah! está aqui!”, e pegou a Coisa.  Todo mundo ficou admirado!

Toninho já ia saindo quando o Vicente resolveu fazer a pergunta que todos queriam:
“Ô garoto! Essa Coisa é sua? que Coisa é essa?”
“Ora, é uma Coisa minha! só isso!”, e Toninho saiu correndo feliz por ter achado sua Coisa.

Pouco depois todos se deram conta que a Coisa não estava mais lá; afinal era Coisa do Toninho e ninguém tinha nada a ver com a coisa. Então, cada um foi cuidar das suas próprias coisas.

“Que Coisa!”, exclamou João, e foi direto à padaria.
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7 de mar. de 2012

A Borboleta

lagartaDurante a maior parte de sua vida, ela foi uma lagarta. Como tal, nem mesmo percebia o mundo; sua vida era apenas alimentar-se e crescer. Ela não percebia bem onde estava, sabia apenas que onde estava havia comida; aliás, ela habitava na própria comida. Sabia que haviam outras como ela, mas essas outras, como ela, apenas comiam e portanto era melhor que cada uma ficasse no seu canto, cuidando da comida à sua volta, para que outra não viesse fartar-se em seu território.

Sem que ela realmente entendesse o porquê, de repente seu corpo não quis mais comida, mas queria que ela saísse de lá e procurasse um outro local, para fazer o quê, exatamente, ela não sabia. Assim foi que achou um galho, e colou-se nele. Ao mesmo tempo, ela começou a tecer algo com um fio que saia dela mesma. Aquilo que ela construía foi envolvendo ela mesma de forma que em certo momento seu corpo estava totalmente dentro daquilo e não havia mais por onde sair. Ela se tornara um casulo! e um enorme sono se apoderou dela – até então nunca dormira, apenas comera sem parar – e ela paralisou todas as atividades, ficou ali, dentro do casulo, como dormindo, enquanto seu corpo passava por tremendas transformações.

Um belo dia percebeu-se novamente. Algo exigia que ela saísse do casulo. Sentia-se diferente, o corpo era outro, um corpo novo! Apareceram pernas, antenas, e uma coisa esquisita toda dobrada.E ela estava imersa em algo gosmento, estava como molhada. Percebeu que havia um lugar no casulo que ela poderia forçar e sair. Não sabia porque, tinha de sair dali.

Quando conseguiu passar sua parte da frente pela fenda aberta, ela se assustou. Ela viu algo que nunca vira, até porque nunca tinha visto coisa alguma até aquele momento. Havia muita coisa além dela, nada que lembrasse o mundo de comida onde crescera… Havia movimento em volta dela, e ela se percebeu presa em um galho, como que pairando no ar; o casulo balançava muito… havia vento, brisa, movimento.

Borboleta 1Sentiu medo! Um medo terrível! fora do casulo, o totalmente desconhecido. Bom seria ficar ali dentro do casulo, mas ele balançava muito e, afinal, acabaria caindo sabe-se lá onde! Ao mesmo tempo, uma força interior a forçava sair… com dificuldade, conseguiu colocar seu corpo todo fora do casulo, e tinha de aprender a usar as pernas, as antenas e os olhos… e aquela coisa dobrada esquisita que de repente começa a mover-se – ela tinha de mover aquilo de um certo jeito – e logo descobriu que aquilo era enorme e ela podia abrir e fechar…

Rapidamente começou a secar da gosma que envolvia seu corpo, começou a sentir-se firme nas pernas e acabou sendo soprada pela brisa. Algo fantástico aconteceu… aquela coisa que ela podia abrir e fechar, de repente se abriu e ela movendo aquilo, parou de cair; logo percebeu que podia ir para o lado que quisesse… estava voando.

Conseguiu ver mais sobre onde estava. Haviam coisas coloridas que balançavam ao vento… e de repente, haviam seres voando como ela e ela se deu conta que eram iguais a ela… Mas também haviam outros seres por ali, assustadores, e ela viu um desses seres assustadores engolir um outro igual a ela.

Bonito, mas assustador… melhor voltar para o casulo… lá dentro não há perigo… e tentou voltar, mas não cabia mais lá dentro. Ao mesmo tempo, sentia uma força enorme a impelindo para voar, para ir onde as iguais a ela estavam…

A borboleta se deu conta que estando viva, não podia fazer outra coisa senão lançar-se na vida, na vida nova que se abria para ela, e que apesar de todas as ameaças, havia um lindo jardim… e outras iguais a ela… e então… ela voou e apostou na vida, apesar de todos os riscos.

borboletasE logo encontrou outras como ela, e experimentou com elas uma comunhão profunda…percebeu que tinha de dar continuidade à Vida, e assim, na comunhão com outra igual a ela – não tão igual, afinal – acolheu em si alguma coisa; pouco depois, descobriu aquilo que antes era a comida, e lá deixou pequenas bolinhas que saíram de dentro dela… e feito isso, voou intensamente, pousou em muitas coisas coloridas, até que lentamente toda a luz terminou.

Das bolinhas que saíram de seu corpo, pouco depois, pequenas lagartas começam a se mover e a comer… e a borboleta se manteve viva na geração seguinte… e percebeu-se ligada a todas as gerações de borboletas antes dela… e depois dela! Pouco antes da luz finalmente apagar, ela entendeu que sair do casulo era o que tinha de fazer para ser plenamente o que ela nascera para ser: uma borboleta!

Para Simone, uma borboleta!

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19 de fev. de 2012

O fim do mundo !

Fim do mundoDe tempos em tempos aparecem por ai os profetas do fim do mundo, evento que deverá acontecer em dia determinado e alguns – mais sofisticados – dizem até a hora… No momento, a data é dezembro deste ano, embora alguns discordem da data exata, por isso eu não a menciono. O oráculo da moda é o famoso calendário do povo Maia, uma civilização sensacional, que viveu – e ainda vive – na hoje chamada América Central e México.

De fato, dizem os cientistas, o nosso planeta terá um fim, muito provavelmente quando a nossa estrela central, chamada Sol, explodir daqui uns 4 ou 5 bilhões de anos. Segundo a teoria mais aceita, a Terra será engolida pelo Sol em expansão e assim tudo que há aqui será transformado em plasma estrelar, aliás, a matéria de onde tudo veio!

Mas isso não quer dizer que a vida vai acabar com a Terra. Provavelmente acabará antes! porque as transformações que o sistema solar vai experimentar antes do evento final, tornarão nosso planeta estéril.

Um monte de crente acredita que o fim do mundo é aquilo descrito no livro do Apocalipse, palavra grega que significa Revelação, embora o autor do livro não tivesse a pretensão de ser tão exato assim, ele estava mais preocupado com o Império Romano que perseguia os cristãos. O Apocalipse não fala do fim do mundo, mas do Reinado de Deus, quando o Céu vem para a Terra: um novo Céu e uma nova Terra (Apoc 21); vai ser meio chato porque diz o texto que não haverá mar, portanto, não vamos ter praia no Reino de Deus (os surfistas ficarão frustrados, assim como todo esse pessoal que curte praia).

Certa vez, há muitos anos, um famoso pastor batista fluminense, que terminou seus dias acusado de corrupção, e que estava em vias de comprar a TV-Rio, antigo canal 13, explicou que o povo evangélico tinha de ter uma rede mundial de TV para cumprir a profecia de que “todo olho verá” a volta de Jesus. Ele justificava que como a Terra é redonda, Jesus chegaria por um lado e quem estivesse do outro lado só poderia ver a grande volta pela TV, para cumprir a profecia; assim ele tentava convencer o povo a contribuir com dinheiro para o fechamento do negócio.

Devemos reconhecer que, ao menos, esse velho pastor era mais criativo que os atuais “pastores”, “bispos”, “apóstolos”, “vice deuses”, que são donos de redes “evangélicas” de TV… e que o pessoal católico romano que também está no mercado da mídia televisiva brasileira.

Então Jesus vai voltar! resta saber de onde! Vejamos: a considerar a narrativa da Ascensão de Jesus como um fato físico, e supondo que Jesus subiu na velocidade da luz (o que faria dele energia pura, seja lá o que seja isso),  ele estaria hoje há quase 2 mil anos luz da Terra, ainda dentro da Galáxia… então, considerando que Jesus vai voltar no fim do mundo, pelo menos mais 2 mil anos teremos até que ele chegue de volta… os crentes não precisam ficar preocupados, e tratem de pagar suas prestações em dia, porque não vai ser possível dar calote em nome do fim do mundo.

Se considerarmos o texto sobre a Ascensão de Jesus como uma narrativa mítica e mística, a gente vai ver que ele não se foi… ficou oculto por uma nuvem… então Jesus não vai voltar, porque ficou por aqui mesmo, oculto na nuvem!!! êpa! então o fim do mundo pode acontecer a qualquer momento! vixe! Prefiro acreditar que tudo isso se refere a um novo Céu e a uma nova Terra: a afirmação de que um novo mundo é possível e desejado por Deus….

Fora do universo cristão há outros mitos sobre o fim do mundo, mas ficaria extenso a gente comentar aqui. O fato é que a percepção de fim pode ser um instrumento de esperança – um mundo novo é possível, ou a base de um absoluto niilismo – se tudo vai acabar, nada vale a pena.

Prefiro ficar com a Química e a Lei de Lavoisier: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, conhecida como Lei da conservação da massa ou da matéria, que falando bem claro, diz: “nada começa, nada acaba, tudo muda”.

Eu sei que essa afirmação deixa você, leitor, cheio de indagações: não tem um começo? não vai ter um fim?  Meu objetivo é esse: apenas provocar! não leve tudo isso a sério! afinal, a vida é a vida, tendo começo e fim, seja lá o que isso seja!

Bom carnaval filosófico!
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