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24 de dez. de 2025

FELIZ NATAL? SIM! FELIZ NATAL!

Tratava-se de uma festa pagã, um culto ao Sol. Após Constantino, o Movimento de Jesus passa a ser controlado, amordaçado e se torna instituição, passa a ser instrumento do Império (hoje diríamos “aparelho do Estado”). Afinal, a religião é uma expressão de poder: o controle (e manipulação) das consciências.

É o começo da Cristandade, quando o “Cristianismo”, a nova religião oficial, se associa ao Império já decadente e começa a absorver sua base estrutural. Conversões em massa, disfarçadas de “missão”. são incentivadas a partir do poder imperial Os antigos santuários pagãos vão se transformando em “santuários cristãos”; os antigos deuses e deusas são substituídos por santos, santas, e a Mãe de Jesus, o próprio Jesus se torna ídolo. O paganismo ganha um novo nome: Igreja Católica, no Oriente e no Ocidente Imperial, desenvolvendo lutas internas pelo poder (como acontece em toda instituição e em todo império) e as disputas doutrinárias pelo controle da “verdade”. O Movimento não se move, perde sua originalidade, se torna um bloco sólido, em nome da unidade monolítica de afirmações doutrinárias inspirada na filosofia, perde noção da novidade e do desafio que representa o Evangelho. A Boa Nova deixa de ser boa, e nova; se reveste do mesmo de sempre com roupas remendadas.

A cultura popular vai absorvendo e assumindo as mudanças religiosas impostas; faz sua releitura, mas não adere ao Movimento de Jesus, o qual continua no pequeno mundo oculto das comunidades de fé. O movimento das pequenas e corajosas comunidades iniciais vai se transformando na massa que se chama Cristandade; mas a semente ainda permanece viva. Assim é o processo histórico da humanidade – a eterna tensão entre Movimento e Instituição.

De certa forma, isso acontece até os dias de hoje. O Império caiu (Impérios não são eternos), mas sua marca, sua essência, se manteve na cultura de boa parte mundo e na instituição eclesiástica, independentemente de sua denominação. No processo de expansão do poder europeu, a “missão” se confunde com o colonialismo.

Todavia, o Movimento de Jesus ainda existe, sempre existiu desde o tempo dos Apóstolos e Apóstolas de Jesus. O Movimento existe dentro da Instituição, existe dentro da massa, da mesma forma que o fermento está contido na massa – exatamente como Jesus havia dito. Em qualquer unidade da Instituição sempre há um pequeno núcleo de comunidade de fé, envolvido - mas não dirigido - pela massa da religiosidade supersticiosa.

De tempos em tempos, acontecem momentos de reforma e de mudança, e assim, o Movimento continua, embora acabe absorvido e reinterpretado pela Instituição; mas continuam a surgir núcleos de resistência! Porque movimento é ação do Espírito, que se move e vai aonde quer. Assim, dentro de toda denominação dita cristã, há o núcleo e o germe da Igreja de Cristo, há o Evangelho, a herança da primeira comunidade de pessoas que conheceram, e seguiram, Jesus, as primeiras testemunhas e guardiãs da Boa Nova.

Portanto, apesar do deus Mercado, que tornou o Natal uma festa ateia, apesar das hipocrisias festivas, apesar da pressão cultural e social, há sentido em celebrar o Natal, a Páscoa, as datas de memória do Movimento de Jesus. Pelo menos para os núcleos de comunidade que existem por aí, dentro e fora das Instituições Religiosas. O eclesial permanece apesar das tentativas do poder eclesiástico em controlá-lo.

Então, que se celebre o Natal! Com humildade, mansidão e misericórdia, se aceite a sinceridade das pessoas simples, que não conhecem a História, que foram ensinadas e convencidas pela religião a pensar e a manter suas crendices disfarçadas de Tradição. Há muita sinceridade apesar de tudo, há muita gente que não se esconde na hipocrisia. Há muita gente que, ao dizer “feliz natal!”, não está fingindo ou cumprindo um “dever social de boa educação”. O abraço é sincero, o presente é dádiva, e a tal da ceia, a festa, é momento de comunhão, não necessariamente religiosa, mas afetiva.

Olhe ao seu redor, talvez você veja o Logos Encarnado semeando o Mundo Novo que chamamos de Reino de Deus! Porque, como diz a música do Flávio Irala,

O cativeiro ficará apenas na memória 
dos povos de boa vontade numa nova história 
pois, um dia, uma estrela caiu num curral...
É Natal! È Natal!


Feliz Natal!

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16 de ago. de 2025

SOBRE MISSÃO: 11 - As Cinco Marcas e a Nova Forma da Igreja

      Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

Não se trata de fundar uma nova denominação. Novas denominações surgem todos os dias, a maioria delas como formas de exaltação de egos pessoais, busca de poder, iniciativas financeiras, e muitas outras razões que em nada se identificam com o Movimento de Jesus; de alguma maneira se inspiram nos paradigmas da Cristandade. A Nova Forma a que me refiro se fundamenta no abandono dos paradigmas da Cristandade.

No caso da Comunhão Anglicana eu ouso dizer que as Cinco Marcas da Missão trazem em si mesmas uma ruptura com aqueles paradigmas; entretanto, a Cristandade está tão interiorizada na cultura ocidental que acabamos interpretando as Cinco Marcas com base nos velhos paradigmas, e assim reproduzimos as mesmas coisas sempre, fantasiadas de novos conceitos. Ou seja, continuamos querendo expandir a Instituição sem criar as condições para a expansão do Movimento.

a)   O paradigma fundamental: a Primeira Marca

A Primeira Marca da Missão é proclamar as boas novas do reinado de Deus. Isso não significa fazer a Igreja crescer! Significa simplesmente proclamar, ou seja, anunciar e, consequentemente, como fizeram os discípulos e discípulas no início do Movimento, testemunhar. Todas as demais Quatro Marcas se desenvolvem a partir da Primeira; por isso, qualquer ação missionária precisa acontecer dentro do contexto da proclamação e não da propaganda!

Se realmente focarmos na Proclamação do Reinado de Deus ao invés do crescimento da membresia, mudaremos de paradigma, porque não confundiremos o Reino de Deus com a Instituição.

b)   A Segunda Marca

A Segunda Marca da Missão é ensinar, batizar e nutrir os novos crentes. Veja bem: novos crentes, não necessariamente novos membros! Novos crentes, aqueles e aquelas que motivados pela proclamação, se aproximam e buscam o Reinado de Deus; por isso recebem o ensino e o batismo, recebem acolhida pela comunidade de fé, e assim, no fraterno convívio comunitário, recebem a nutrição que fortalecerá o caminho da busca e da percepção do Reino de Deus.

c)   As Três Marcas seguintes

As demais Marcas são consequência das duas anteriores. É através delas que a Comunidade de Fé (a Igreja) se faz presente no mundo, evangelizando, proclamando, anunciando e testemunhando. Afinal, essas três marcas são o Evangelho em Ação!

Responder às necessidades humanas com amor é o que chamamos de Diaconia. É o significado da comunhão do Povo de Deus entre si e com todas as pessoas. Sem perguntas e sem proselitismo, acolher e cuidar daqueles que sofrem no corpo e na alma, as vítimas da injustiça que permanece no mundo, o enfrentamento do diabólico que faz da vida sofrimento inútil.

Procurar a transformação das estruturas injustas da sociedade, desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação é a consequência da ação diaconal. Não basta socorrer, é preciso enfrentar e combater tudo que, diabolicamente, cria a massa de sofredores, de injustiçados, as vítimas da crueldade humana que se manifesta devido a ganância, a sede de poder absoluto, o egoísmo – as consequências nefastas do pecado que se manifesta através da vontade de ser “igual a Deus” (cf. Gênesis 3). Isso implica em se envolver politicamente! Diaconia não é apenas “fazer caridade”, mas realmente cuidar das vítimas e ao mesmo tempo combater o que causa o enorme número de vítimas neste mundo cruel e devastado por aqueles que se julgam “iguais a Deus”.

Esse atender as necessidades humanas implica também no cuidado com a Criação. Afinal o ser humano é herdeiro da Criação, herdeiro do Jardim criado por Deus, não para reinar nela, mas para cuidar dela, ser cooperador da Criação. A Quinta Marca da Missão está intimamente relacionada às demais, é consequência direta delas.


Assim, eu entendo e ouso propor que a Nova Forma da Igreja deve ser pensada e projetada a partir destas Cinco Marcas, mas reinterpretadas a partir da proposta clara do Movimento de Jesus – o Reinado de Deus. Não mais a expansão institucional viciada em cuidar de si mesma, contraditoriamente estruturada de forma a impedir o avanço da Missão. É necessário uma nova perspectiva teológica, uma nova eclesiologia para não andar em círculo, reinventando o modelo que já está fracassado, pois foi inspirado nos Impérios, os quais, exatamente pelo próprio conceito, se tornam a mentira da Serpente (Gênesis 3.4-5): se acham iguais a Deus e, assim, sobrevêm a morte sobre a vida.

Necessitamos de uma Eclesiologia verdadeiramente Revolucionária: o significado de revolução é a mudança radical de paradigmas!

Precisamos redescobrir o que realmente significa encarnação do Logos, Aquele que – encarnado - habita entre nós (cf. João 1.1-16)!

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Interrompo aqui esta série de postagens sobre Missão, que - na verdade - são partes de um único artigo, publicadas em picadinhos, para incentivar a leitura. 

A sequência do texto fica para uma "segunda temporada"; afinal, eu gostaria de escrever sobre outros temas, manter a diversidade destes Pirilampos e Pintassilgos.  Neste tempo de aguardo da "segunda temporada", espero que os poucos que leram os textos reflitam sobre o conteúdo, questionem, sejam críticos (e autocríticos) e - quem sabe - possam apresentar propostas para a "segunda temporada".

Sinceramente, eu não acredito que a Teologia Acadêmica possa, de fato, criar uma nova perspectiva teológica para a Encarnação, embora na Comunhão Anglicana costumamos nos definir como "Igreja Encarnada".  Eu acredito que a nova forma para a Igreja de Cristo é ser, realmente, encarnada, e isso significa romper com velhos conceitos sobre si mesma! É o desafio que deixo aqui com esta série de postagens, agora encerradas provisoriamente.

Que o Santo Espírito nos abençoe e inspire!

Amém!

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4 de ago. de 2025

SOBRE MISSÃO: 10 - Os Paradigmas Anglicanos

 Esta postagem é sequência das anteriores e faz parte de um texto maior, sobre MISSÃO; cujas partes estão publicadas aqui a partir de  9 de junho de 2025. O texto completo foi dividido em várias pequenas postagens para facilitar a leitura. Sugiro que você leia antes as postagens anteriores (a partir de 9 de junho) para ter a visão completa do conteúdo até o momento.

A Comunhão Anglicana contemporânea tem – pelo menos – três paradigmas que caracterizam sua identidade, o seu ethos, construídos através de sua história.

a)   O Quadrilátero Chicago-Lambeth

O Quadrilátero de Chicago-Lambeth representa o consenso mínimo (e amplo) sobre sua forma de expressar e viver a fé cristã – os pontos básicos de sua forma de crer e viver.  A origem do Quadrilátero é o livro The Church Idea, an Essay Toward Unity (A Ideia da Igreja, um Ensaio em Direção à Unidade, em tradução livre) de William Reed Huntingdon, publicado em 1870. A proposta de Huntingdon foi acolhida pela Convenção Geral da Igreja Episcopal dos EUA (Chicago, 1986) e adotada com modificações pela Conferência de Lambeth (1888).[1]

b)   As Cincos Marcas da Missão

Quanto à Missão da Igreja, há um paradigma aceito unanimemente pelas Igrejas da Comunhão Anglicana, apresentado como As Cinco Marcas da Missão:

“Em 1984, reunido em Badagry, na Nigéria, o Conselho Consultivo Anglicano adotou Quatro Marcas de Missão (a quinta seria adicionada posteriormente). O Relatório Oficial da reunião deixa clara sua origem nos Evangelhos: “O Evangelho segundo São João coloca a Grande Comissão nessas simples palavras; ‘Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio’ (João 20:21), dizia o relatório. Deliberadamente e precisamente Jesus fez de sua missão o modelo de nossa missão ao mundo. Por esse motivo, nossa compreensão da missão da Igreja deve ser deduzida da nossa compreensão do que Jesus considerava ser a sua missão." [2]

As Cinco Marcas são:

1. Proclamar as boas novas do reinado de Deus; 
2. Ensinar, batizar e nutrir os novos crentes;
3. Responder às necessidades humanas com amor;
4. Procurar a transformação das estruturas injustas da sociedade, desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação;
5. Lutar para salvaguardar a integridade da Criação, sustentar e renovar a vida da terra. [3]

As Cinco Marcas orientam as iniciativas missionárias das Igrejas da Comunhão Anglicana em todo mundo e apresentam um conceito amplo de Missão, muito além e distinto daquele que herdamos da Cristandade. De certa forma, essas marcas representam a quebra de paradigmas que estão acontecendo desde meados do século XX, a partir da reflexão teológica diante do desafio imposto pela secularização massiva do ocidente após II Guerra Mundial, seguido pelo neoliberalismo e, recentemente, o retorno da ideologia nazifascista promovido pelas redes sociais.

Todavia, é necessário ter claro algumas coisas sobre as Marcas da Missão. Em primeiro lugar elas não são absolutas e imutáveis, não são dogmas. A prova disso é, por exemplo, a inclusão da frase “desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação” no texto original da quarta marca, pelo Conselho Consultivo, em sua reunião de 2012, realizada em Auckland, Nova Zelândia.

Em segundo lugar, como tudo que se cria nas instâncias consultivas da Comunhão, elas devem ser analisadas e implementadas pelas Igrejas em seus contextos específicos. Não são, portanto, um “Projeto Missionário Mundial”, mas uma proposta ampla de ação que indica caminhos novos e desafios a serem enfrentados.

Todavia, existe sempre o risco das Cinco Marcas se tornarem “credos”, isto é, serem repetidas inconsequentemente, como se o falar nelas significa já realizá-las (ou seja, se tornarem um produto palatável e simpático para o Mercado).

Pior ainda, é o risco de cristalizá-las em um projeto fechado, imposto de cima para baixo, totalmente deslocado das realidades distintas de cada comunidade, uma vez que as comunidades seriam o agente missionário adequado no seu contexto próprio (e não a Instituição burocrática), em fidelidade e obediência às palavras de Jesus “Assim como o Pai me enviou...” (João 20,21).

c)   O Conceito de Autoridade Dispersa e Compartilhada

Um terceiro paradigma que identifica o anglicanismo contemporâneo, é sua perspectiva ideal de autoridade: dispersa e compartilhada; digo ideal porque não é um fato consumado, mas uma proposta e uma busca permanente, um desafio de nadar contra a corrente aos padrões de autoridade normalmente aceitos pelas sociedades ocidentais. O tema, por si só merece um estudo profundo e eu o apresentei em dia de estudos promovido pelo Centro Anglicano de Estudos Teológicos da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro, em 2016.[4]

 

São exatamente estes três paradigmas[5] que caracterizam o ethos anglicano que permitem e provocam a esperança de profundas mudanças na Igreja Episcopal em terras brasileiras. Por serem paradigmas, não são dogmas, nos ajudam a repensar a Igreja e sua ação missionária, criando horizontes para a relação dialética entre Instituição e Movimento.

O Quadrilátero de Chicago-Lambeth é tema permanente na Comunhão Anglicana, com centenas de artigos sobre ele, por isso, não vou comentar sobre ele neste artigo.

Chamo a atenção que a Primeira das Cinco Marcas explicita claramente a Boa Nova do Reinado de Deus – exatamente o paradigma missionário da Igreja Primitiva, e o de Jesus!

O conceito de Autoridade Dispersa e Compartilhada anima a reflexão sobre o modelo institucional e sua reformulação para que seja realmente eficaz como infraestrutura para a ação missionária, ou seja, a Instituição como agente do Movimento ao invés de enfraquecê-lo; é a semente da Nova Forma de ser Igreja neste momento histórico.

Qual deve ser a dinâmica institucional para que as Cinco Marcas sejam realmente a diretriz missionária da Igreja em terras brasileiras?


[1] Cf. Neil, Stefen - Anglicanism – Baltimnore, Penguim Books, 1965. 

[2] Drake, Gavin  - As Cinco Marcas da Missão da Comunhão Anglicana: uma introdução. In https://www.anglicannews.org/news/2020/02/as-cinco-marcas-da-missao-da-comunhao-anglicana-uma-introducao.aspx -  acesso em 26 de julho de 2025.

[3] A quinta marca foi incluída pelo Conselho Consultivo Anglicano em sua reunião de 1990, acontecida no País de Gales.

[4] O Episcopado – Texto apresentado no 6º Seminário do CAET, 30/03/2016 - disponível em https://drive.google.com/drive/folders/1l0yRSQ8iwwgq4TLdm2LqKMhciIl6rfB9

[5] Para entender o que chamo de “paradigma” neste texto, sugiro a leitura do artigo Velhos Paradigmas fantasiados de Novos, no meu blogue Pirilampos e Pintassilgos:  https://pirilampos-pintassilgos.blogspot.com/2012/04/velhos-paradigmas-fantasiados-de-novos.html

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8 de dez. de 2018

O Pai Nosso Ecumênico. Ecumênico???

Eu não uso o tal Pai Nosso ecumênico. Tenho meus motivos.

1) "Que todos sejam um como Eu e o Pai somos um!” (João 17.21). Ao dizer isso, Jesus não quis dizer que todos sejam iguais! Até porque Ele e o Pai não são iguais. Quem gosta de uniformidade para garantir a unidade não entende o que é unidade. A mesma coisa é uma coisa só, é solidão e padronização. Ora, o Espírito Santo promove a diversidade:  a diversidade de dons, de línguas e, inclusive, de comunidades de fé (Igrejas). É exatamente o mover na diversidade que deve ser o mover ecumênico, não a padronização.  Porque não haveria relação ecumênica se não houvesse diversidade. Quem confunde acreditar em dogma com fé, não pode ser, de fato, ecumênico. Faz de conta que é… mas no fundo tem horror à diversidade porque não consegue conviver com os que têm a experiência da fé diferente de seus dogmas, os quais, por serem dogmas, são absolutos – são padronizados. Todo mundo tem de acreditar igual ou é anátema! Bem, acho que sou anátema!!!😈

2) A Oração Dominical dita "Ecumênica" é fruto do Ecumenismo Institucional, algo que na verdade não é Ecumenismo, mas o "faz de conta que a gente se gosta", pois seu horizonte é que "todos sejam uma única Instituição!" 
Interessante que antes da Igreja Romana se apresentar como "Ecumênica" (vários Papas consideraram o Ecumenismo um erro) entre o povo ecumênico protestantew, nós - episcopais - já dizíamos "perdoa nossas dívidas assim como nós também perdoamos...", nunca houve problemas nas celebrações ecumênicas, onde inclusive se celebrava a Ceia do Senhor!
Aliás, depois da chegada da Igreja de Roma, não se podia mais realizar a Santa Eucaristia de maneira ecumênica, ou seja, ecumenismo é só "amizade", não comunhão! (que coisa mais anti-ecumênica!) Antes de Roma chegar, o ecumenismo era um movimento a partir de pessoas das Igrejas Protestantes, as quais primam pela diversidade. O movimento foi se estruturando e acabou sendo institucionalizado na ótica das Igrejas. Ora, instituições não gostam de "diferenças" ou "diversidade", porque foge ao controle e quebra o "ser absoluto" da instituição - ameaça instâncias de poder! 

3) Além do mais, dizer “perdoa as nossas ofensas” é, para mim, supor que Deus é um sujeito egocêntrico e orgulhoso, o Qual fica ofendido pelos pecados de suas criaturas – aliás, as únicas criaturas de Deus capazes de pecar são os seres humanos, cridos à Sua imagem, segundo a Sua semelhança, aqueles a quem Deus deu o mundo para ser cuidado. Uma forma de serem parceiros na criação.  Mas que, inspirados pelo diabólico, desejaram ser mais que parceiros, desejaram ser iguais ao Criador, quebrando assim a relação única que Deus estabeleceu com eles ao serem criados.

4) Esse mesmo Deus, que se mostra profundamente amoroso, não ficou ofendido, mas triste com o pecado humano. Tivesse ficado ofendido (uma característica exclusivamente humana, porque pressupõe orgulho) não sairia buscando-nos para reatarmos a relação com Ele. E nessa busca, Deus experimentou a ira e a misericórdia, mas sempre permitia que a misericórdia superasse, porque sua grande obra é a Graça.  Centenas de exemplos na Bíblia, especialmente nos Livros Proféticos mostram isso. Deus é o Deus de toda a Graça, aquele que nos dá o que não merecemos. Deus não é adepto da meritocracia! Por isso, o que temos em relação a Deus é uma enorme e impagável dívida devido à sua gratuidade.

5) Quando os episcopais dizem "... assim como nós também perdoamos os nossos devedores", não estão propondo uma "teologia da retribuição", mas lembrando que o perdão entre nós deve ser uma prática decorrente do perdão de Deus. Não pelo mérito, mas por gratidão! A "teologia da retribuição" é heresia que contradiz tudo que o Apóstolo Paulo afirma sobre  Graça, porque se fundamenta exclusivamente na Lei.

6) A ditra "Oração Dominical Ecumênica" é validada por haver sido criada, desenvolvida e aceita no âmbito de um Conselho de Igrejas - de Instituições! Meia dúzia de teólgos indicados pelas respectivas Igrejas, criam uma forma de mostrar "unidade" através da "uniformidade" e alegam que o problema é de "tradução". Não é! é teológico. O que está por trás disso é um agradinho na instituição mais forte no Conselho e do universo cristão, a qual não reconhece - de fato - a GFraça de Deus, pois confunde sua própria instituição e dogmas como sendo o "Reino de Deus" anunciado por Jesus o Cristo.  Pior que isso, monopolizam a "graça" ao definirem quem a merece ou não a merece e se afirmam no poder de perdoar pecados, os quais são definidos pela sua Lei Canônica.

Por isso, eu me recuso, motivo de consciência e íntima convicção, a usar o tal “Pai Nosso Ecumênico” porque evita falar no poder da Graça e no chamado que recebemos de Cristo de sermos portadores (não donos) da Graça para o Mundo. Mas para quem, de fato, tem sentido devido sua experiência de fé, que o use, mas não me obrigue!

Que o Senhor nos livre do Maligno, o qual nos faz esquecer aquilo que verdadeiramente separa as pessoas: a má compreensão de poder e nos lança no mundo sem-Graça da instituição, que acaba se tornando, muitas vezes, des-Graça!

(texto revisado em 31 de julho de 2019)
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28 de fev. de 2017

Pensamentos Heréticos!?!?

dedo-no-nariz-iiTrês advertências:  a) eu disse HERÉTICOS, não eróticos. Pode ser que você esteja no blogue errado! Se for me mandar para a fogueira, mande pelo motivo certo!  b) se você é daquelas pessoas que não consegue ler um texto maior que meia página, não comece a ler. Ele é muito maior que isso! Mas se você é daquelas que gosta de ler e refletir, mas não tem tempo para isso agora, salve o artigo ou copie seu link temporariamente nos “favoritos do teu navegador” e retorne ao texto quando tiver disponibilidade para ler e refletir. Como sou matemático não confundo síntese com resumo, nem acredito em síntese sem análise.   c) este texto é, essencialmente, parte de um processo de auto crítica a que estou voluntariamente me submetendo há alguns anos. Não pretende ser uma manifestação de oposição (embora será assim interpretado) às instituições eclesiásticas, mas um convite à reflexão, uma partilha do que tenho pensado ultimamente, na esperança de ajudar a encontrar caminhos novos, embora eu saiba, por experiência, que vão arrumar mil justificativas para dizer que não mereço ser levado a sério (não sou doutor em teologia – nenhum dos Doze o era) ou que “quero tomar o poder”... rsrsrsrs! Estas e outras são justificativas dos insensatos que se julgam o máximo, ou melhor, defendem seus interesses pessoais!
Há muito anos, um teólogo conhecido meu disse que “Ortodoxia é a Heresia de quem ganhou!” Eis ai uma grande verdade, se formos olhar cruamente a História Eclesiástica (que muita gente confunde com a História da Igreja).  Portanto, de acordo com o Cálculo de Predicados (para os menos versados em Matemáticas e Linguística, significa simplesmente Lógica), conclui-se que Heresia seria a Ortodoxia caso seus adeptos fossem maioria em alguma Reunião Conciliar (que por ser “conciliar” devia buscar o consenso e não a vontade da maioria, que muitas vezes é burra!). Como quase sempre sou ignorado pela Ortodoxia vigente, me considero um herético teimoso e frustrado.
Bem, este é o primeiro pensamento herético:a Ortodoxia não é absoluta, mas como é Tradição, deve estar em permanente avaliação! .
Com o Imperador Constantino, a Instituição Eclesiástica nasceu de fato e se globaliza; apesar de algumas oposições no Império, foi se fortalecendo a ponto de se auto definir como a Igreja de Cristo! À medida que o Império se esfacelava e decaia, a Instituição Eclesiástica vai assumindo funções que a identificam mais como continuidade do Império do que com o Movimento de Jesus. Tanto no Oriente quanto no Ocidente, a Instituição Eclesiástica foi assumindo a burocracia, o modelo do Direito e a ideologia de poder do Império. E isso continua até nossos dias. Nesse sentido, a Reforma Protestante e outras reformas foram essencialmente reformas da Instituição, (e por isso repetiram os mesmos erros) mas não foram,  necessariamente ou exclusivamente, avanços do Movimento de Jesus. 
É claro que todo movimento se destina a institucionalizar-se ou não sobrevive. Afinal, institucionalização é algo inerente à vida humana que é uma vida em coletividade e não em cavernas isoladas. Basta existirem duas pessoas reunidas para termos uma situação institucional: regras são definidas explicita ou implicitamente, decisões de “consenso” (geralmente não é tão consenso assim, mas…)  são assumidas de forma imediata, quase que de forma inconsciente. Surge a Cultura, que dá significado a estas institucionalizações. A vida em coletividade precisa, assim, de limites e definições de conduta e formas de comunicação, que acabam sendo impostas por quem domina a coletividade. Por isso o poder é erótico! E acaba se tornando pornográfico quando se torna fim em si mesmo![i]
É obvio que o movimento iniciado a partir de Jesus de Nazaré por seus discípulos, teria de se institucionalizar, não havia outra alternativa, até mesmo para preservar sua identidade dentro da diversidade do mundo onde surgiu. Mas institucionalizar-se é um risco muito grande! Necessita constante vigilância! Porque a Instituição é assassina de movimentos. Instituição tem forte senso de auto preservação e aspira pela perpetuidade! Movimento, pelo contrário, é sempre movimento histórico, e abertura para a mudança, superar temores e construir pontes para atravessar precipícios. Instituições se pretendem estáticas, só admitindo mudanças que na verdade não alterem seu “status quo”. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mateus 26:41)
Eu me pergunto se a Igreja de hoje (falo de todas as instituições eclesiásticas, não de uma específica) ainda tem alguma identidade com o Movimento de Jesus, ou seja, se ainda pode ser entendida como a Igreja do Senhor ou Igreja de Deus (Ekklesia tou Kyrius ou Ekklesia tou Theou). Felizmente, eu acredito que sim! apesar de tudo, ainda permanece o Espírito que move o Movimento. Tanto é que a Igreja vive hoje sobre uma enorme pressão de desconfiança, da falta de recursos financeiros, da ausência de membros (e membras, para agradar as feministas) conscientes e testemunhais, da crise de autoridade, e do seu significado no mundo em pleno século XXI. E isso é obra do Espírito Santo! É um anúncio de que alguma coisa saiu errado nessa história… 
Este é o segundo pensamento herético: a crise da Igreja como obra do Espírito Santo![ii]
Sempre é bom lembrar que muitas tentativas de reformar a Igreja aconteceram na História, e muitas delas eram contrárias ao status quo institucional. O Movimento Monástico, por exemplo, foi uma dessas ações de protesto contra a institucionalização. Porém, a força da Instituição (de qualquer instituição) é tão forte que acaba contaminando e cooptando os movimentos de renovação. Hoje, o movimento monástico não é movimento, mas uma instituição a serviço da instituição eclesiástica maior, exceto naquelas “Ordens” que não buscaram nem pretendem buscar seu “reconhecimento” ou legitimação pela instituição eclesiástica (sim elas existem, tanto no Ocidente quanto no Oriente). Movimentos “carismáticos” estão hoje totalmente sob o controle das respectivas instituições eclesiásticas… Movimentos de Renovação e Avivamento idem… em alguns casos, esses movimentos acabaram “tomando o poder” na Instituição e com isso se tornaram tão absolutos quanto era a Instituição tomada.[iii]
Eu desconfio (é cutucar com vara curta dizer “tenho certeza”!) que a maioria das Eclesiologias são, na verdade, doutrinas que buscam justificar as normas institucionais, e garantir sua preservação. Acabam se tornando “doxa”, ou seja, dogma, e assim se tornam absolutas e incontestáveis. Como fazem muitas linhas de pensamento teológico, busca-se nas Escrituras justificativas para a manutenção daquilo que surgiu por necessidade histórica e não por determinação absoluta do Senhor. Tais modelos se consideram identidade institucional e são confundidos com a Tradição construída pelo caminhar do movimento.[iv]
Com isso, está aqui o terceiro pensamento herético: muita coisa da doutrina sobre a Igreja é justificativa ideológica para que as decisões e modelos institucionais se tornem padrões absolutos e perpétuos!
Não sou ingênuo a ponto de propor que joguemos tudo pro alto, fechemos as instituições eclesiásticas e vivamos um “cristianismo anárquico”. Mas eu acredito piamente, e já defendi essa ideia muitas vezes, que temos o dever histórico de mudar os paradigmas que estão orientando a Igreja desde meados do século XVII, o advento da modernidade. A modernidade está morrendo em alta velocidade e, com isso, os paradigmas por ela inspirados têm prazos de validade vencidos, e alguns já venceram há muito tempo!
Não defendo que liquidemos com tudo para criar o novo, até porque não seria novo! “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol!(Eclesiastes 1:9). Tenho muito respeito por todas essas coisas pois são construções históricas, têm seu mérito e foram desenvolvidas para atender necessidades específicas do Movimento de Jesus. O que não defendo é que sejam absolutas e definitivas, porque o Espírito Santo não é propriedade de qualquer modelo institucional, e – me parece – nunca foi muito simpático a essas coisas (por isso, um exemplo, Jesus não foi da classe sacerdotal, nem se dava bem com ela).
A Igreja do século XXI carrega uma herança pesadíssima, acumulada pelos os séculos, herança hoje que tem mais valor – digamos – afetivo e sentimental do que uma objetividade útil para a sua Missão (no significado do Evangelho, não dos promotores de planejamentos estratégicos). Herdamos uma estrutura caríssima e sem sentido além da preservação e perpetuação de esquemas de poder e de modelos institucionais como absolutos. O processo histórico institucional fez do Movimento de Jesus uma “religião de massa” ao invés de uma experiência de espiritualidade e comunhão com Deus que constrói comunidades solidárias e de testemunho diante do mundo, pessoas regeneradas pela graça de Deus em Jesus o Cristo.
Muitos recursos humanos, financeiros e de tempo são gastos exclusivamente para a manutenção de uma instituição que – pela sua forma – já não tem sentido no mundo contemporâneo, uma instituição que perdeu o rumo e o conteúdo da mensagem que lhe foi dada a proclamar e que se fechou ao redor do próprio umbigo e da autopreservação, e fica inventando modismos vanguardistas para tentar se mostrar relevante.
Pensando agora a partir da minha denominação, da Igreja onde procuro vivenciar comunitariamente a minha fé e o meu chamado, o episcopalismo (está bem, aceito dizer “anglicanismo”), eu me pergunto se realmente precisamos ser como somos e manter tudo que consideramos como parte de nossa Tradição. Vem ai meu quarto pensamento herético!
Será que precisamos mesmo do Episcopado (êpa!)? ou de um extenso manual de cânones? Ou de um livro de liturgia muitas vezes idolatrado? Ou de tantas instituições internas, departamentos, mantidas a um custo financeiro e de recursos humanos altíssimo? Será que precisamos, realmente, de grande templos, construções de custo caríssimo que se deterioram por falta de recursos para sua manutenção, quando não são irresponsavelmente alienados para “fazer caixa” a fim de manter a instituição por mais um tempo? Será que ainda cabe, ou caberá em futuro próximo, termos um clero de dedicação exclusiva, cuja tarefa acaba se tornando mais burocrática que pastoral?
Três ideias para aprofundamento da “heresia”:
1) No caso do clero, imagino que algum dia chegaremos à obrigação do clero masculino ou feminino ao celibato, caso seja de dedicação exclusiva, para reduzir custos de manutenção e sustento... ou cairemos na esparrela dos “pastores de sucesso” que vendem bênçãos e sacramentos, sobrevivendo (alguns até muito bem!) a custa de seu carisma personalista.
2) No caso do Episcopado, sou Episcopal, certo? Não vejo uma Igreja Episcopal sem Bispos e Bispas. Mas será que o Episcopado precisa ser um cargo meramente administrativo, cada vez mais gerencial e menos pastoral? Não há outras formas de exercer o Episcopado, até mesmo mais de acordo com nossa visão e sonho utópico de autoridade compartilhada e dispersa? O Episcopado é uma concentração de poder ou uma dimensão maior de serviço? Não há outra forma de administrar a instituição religiosa, aquela que seja realmente relevante, sem oprimir o Episcopado com tal encargo?
3) No caso da estrutura eclesiástica, onde realmente acontece a Missão? Nos escritórios das dioceses ou das províncias? ou, de fato, no cotidiano das comunidades? Como colocar toda a estrutura institucional como infraestrutura para que as comunidades possam realmente executar a Missão? “Quem faz ovelha é ovelha”, disse certa vez um professor do Seminário. Eu completaria: o gerente da fazenda pode até comprar ovelhas, mas fazê-las, não; mas pode criar as condições de crescimento do rebanho de forma natural e garantir boa nutrição, de forma que as ovelhas continuem gerando ovelhas de qualidade. E sempre é preciso que os gerentes se recordem que o Dono da fazenda é um Outro!

Tais “pensamentos heréticos” são apresentados como mais uma contribuição pessoal em uma reflexão que a Igreja vem adiando sempre, e sobre a qual tenho chamado a atenção há quase dez anos!
Como toda a Instituição, a Igreja adora pegar novas ideias para, através de subterfúgios inconscientes (e às vezes conscientes!), incorporar sua forma adequando o conteúdo à manutenção do status quo. Igrejas, ou melhor, Instituições Eclesiásticas, são mestres em transformar o novo na mesmice.
Que o Espírito Santo nos guie apesar das Instituições! Amém!
 

[i] Estou falando em “coletividade”  e não em “sociedade” porque o conceito de sociedade não é muito claro, especialmente nestes tempos onde a individualidade ultrapassa os limites do bom senso e da vivência solidária. As “sociedades” humanas de hoje são, na verdade coletividades, onde as pessoas apenas estão juntas, se aturam e vivem, cada uma, sua vidinha individualista e escrava de si mesma! Falar em comunidade, então, nem pensar! A grande maioria das instituições, sejam eclesiásticas ou não, estão contaminadas pelo individualismo, pela luta pelo poder (efêmero, mas profundamente erótico!) e a lógica de que “os fins justificam os meios”; estão tomadas por moralidades e perderam o senso da Ética.  O coletivo humano hoje é o Império do Mercado, e que se dane o resto, porque tudo que contraria os interesses do Mercado, é heresia e pecado.
[ii] Se de fato acreditamos na Palavra e promessa de Jesus que as “portas do Inferno” não poderão vencer a Igreja de Cristo (cf. Mateus 16.18 – que não se refere a dar poder ao Pedro especificamente – essa foi a interpretação da instituição), então é obvio que o Senhor da Igreja, através do Espírito Santo a estará corrigindo sempre, para defendê-la das tentações que a levariam a sucumbir diante das ”portas do inferno”! A institucionalização absoluta  e a subordinação ao Mercado são duas dessas tentações, porque pretendem enquadrar o próprio Espírito nas normas institucionais e às pressões do Mercado.
[iii] Obviamente não vou citar exemplos, pois temos visto isso acontecer especialmente hoje. Não vou citar nomes nem instituições porque já devo estar irritando muitos “sucessores de Pedro” por ai. Se você não é um bom entendedor, lamento, caro leitor.
[iv] Como já afirmei muitas vezes, Tradição não é algo absoluto, mas um reservatório de práticas e de respostas dadas pelo movimento às situações concretas na história a partir do seu senso de identidade.
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29 de jun. de 2015

Homoafetivos e Banqueiros.

Bandeira Homoafetiva

É público e notório o ódio às pessoas homo-afetivas esparramado por gente que se diz “cristã” e manipula a Bíblia para justificar esse preconceito que se torna ódio irracional.

Até há 60 anos atrás, nos Estados Unidos (já que a maioria dos brasileiros é fascinado por aquela nação) cristãos brancos exibiam descaradamente seu ódio às pessoas negras, fossem elas cristãs ou não. Claro, justificavam suas posições usando a Bíblia… De fato, a Bíblia pode justificar qualquer coisa  quando usada de má fé e de forma ignorante, aliás, como a ciência.

Há alguns anos, eu atuava como Secretário Regional do CLAI* para o Brasil, fui convidado para apresentar uma palestra em evento nacional de uma das igrejas membros do Conselho. O tema, até mesmo devido à minha função, era Relações Ecumênicas e Cooperação. Terminei a palestra, cerca de 25 minutos, e convidei ao plenário apresentar perguntas.  Para minha surpresa, recebi três perguntas por escrito, as três com o mesmo teor, que pode ser resumido assim: “Parece que a sua Igreja tem discutido o tema da homossexualidade, pode explicar como tem sido isso?”  Entendi, então, porque eu havia sido convidado e que o assunto preocupante para aquelas pessoas era a questão da homossexualidade na Igreja, e não necessariamente as relações ecumênicas...

Não fugi do assunto. Pelo contrário, expliquei que a Igreja Episcopal estava dando início à discussão sobre o tema de maneira pública, a exemplo do que vinha acontecendo em outras Igrejas da Comunhão Anglicana. Informei que a Igreja estava ainda em fase de debates teológicos sobre o tema, e ao mesmo tempo colhendo subsídios através de outros campos do conhecimento humano, mas que a discussão evoluiria até chegar ao nível das comunidades locais, as Dioceses e suas paróquias e missões; informei ainda que mais detalhes de como andam as discussões e documentos já produzidos poderiam ser obtidos com a Secretaria Geral da Igreja ou com o Centro de Estudos Anglicanos.

Seguiu-se então um tremendo debate. Muitos pastores se pronunciaram contrários, e alguns que eu sabia serem favoráveis temiam manifestar-se.  Eu apenas ouvia os comentários, distribuindo a palavra a quem pedia. Resolvi não me pronunciar porque percebi que aquele era um tema que estava criando possibilidades de divisão da Igreja. Mas eu não resisti comentar a fala de um jovem pastor que afirmou estar no início de seu ministério.

Demonstrando uma certa ira, ele esbravejou contra as pessoas homoafetivas, citando a bíblia a torto e a direito, especialmente pedaços de versículos, e reparei que ele estava usando uma versão da bíblia de péssima tradução, muito antiga e hoje em dia irrelevante.

Em certo momento ele afirmou categoricamente e apresentando até uma certa arrogância: “Eu jamais darei a Santa Ceia a um homossexual!”. Eu não resisti, o interrompi e larguei a pergunta:  “Você daria a Santa Ceia a um banqueiro?” . 

Ele respondeu que sim, se fosse um banqueiro cristão, claro que poderia receber a Ceia. Então eu respondi a ele:  “Interessante a tua postura pastoral e teológica. Você esbravejou versículos bíblicos fora de contexto, até mesmo modificou o sentido de alguns, para justificar que não daria a Ceia a uma pessoa homossexual. Todavia um banqueiro vive de usura, e a Bíblia, ai sim, está cheia de afirmações condenatórias da usura e do usurário. Então, eu não entendo teu critério de ler a bíblia.”

Acabei de dizer isso, o plenário explodiu em aplausos de pé e o rapaz se retirou cabisbaixo…

Pois é, caro leitor. E você, daria a comunhão, ou a tomaria ao lado de um banqueiro? Tomaria a comunhão das mãos de um pastor preconceituoso e semeador de ódio aos diferentes?

A quem, afinal, tu serves, ó cristão? ao preconceito ou ao Cristo?
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* CLAI – Conselho Latino-Americano de Igrejas.
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30 de nov. de 2012

Comunidade ou clientela?

Rev. FulanoMuitas vezes aparecem pessoas visitando a São Paulo Apóstolo, e travam comigo ou com alguém um diálogo assim:

“_ Esta igreja aqui é a mesma do Rev. Fulano, lá de (cidade)? a gente é de lá, frequenta lá. É que disseram que é a mesma!”

“_ Sim, é a mesma Igreja, somos parte da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil”

“_ Não sei se é essa, mas é a mesma coisa né? porque a gente gosta muito do Rev. Fulano, sabe, né, ele é muito bom, faz muita coisa boa!”

“_ Sim, eu sei…”

“_ Mas é tudo igual à igreja de lá, né?”

“_ Vocês são Episcopais Anglicanos?”

“_ É, acho que é isso, Anglicana, né? mas é a igreja do Rev. Fulano, em (cidade). A gente gosta muito dele, sabe? ele fala bonito, muito espiritual, e faz muita coisa boa pros outros…”

“_ Sei…”

“_ Aqui não tem muita gente, né? é que lá todo mundo gosta do Rev. Fulano… muita gente vai lá… ele é muito conhecido, né? Inclusive ele casou o Vice Síndico do meu prédio e batizou o filho da amiga da minha prima de segundo grau, foi assim que a gente conheceu ele.”

“_ Sei… mas vocês são bem vindos, em nome do Senhor Jesus Cristo!”

“_ Como é mesmo o seu nome? é que a gente quer telefonar lá pra Igreja do Rev. Fulano para ter certeza que é a mesma coisa; é que não é igual, sabe? lá não tem aquela coisa ali na mesona…” (ou “não tem vela”, ou “tem muito mais vela”, ou “tem a foto da avó do Rev. Fulano com ele no colo quando bebezinho, no lado do altar” – coisas desse tipo).

Já ouvi isso em outras comunidades onde trabalhei, e mesmo no meio ecumênico, gente que se refere à uma Igreja ou uma Denominação se referindo a um determinado pastor (vi isso em diferentes denominações).

Uma das coisas que sempre peço a Deus em meu ministério é que a Paróquia onde sirvo não venha a ser conhecida como a Igreja do Rev. Caetano, para que eu não peque por Soberba ou Orgulho. Eu pretendo servir ao Povo de Deus em Cristo, na comunidade episcopaliana onde esteja servindo e exercendo meu ministério, em comunhão com o Bispo Diocesano, e não a uma clientela que me idolatre! Eu tento sempre apontar ao Senhor, não a mim mesmo.

É o Espírito Santo de Deus quem deve fazer a Igreja, não a minha simpatia pessoal ou as sugestões do meu personal promoter, ou a minha enorme capacidade de bajular quem aparenta ser “pessoa de bem” (bens!).

É claro que as pessoas têm no pastor sua primeira referência, especialmente se são novos na comunidade. Mas o convívio com a comunidade acolhedora, a pregação, o ensino e – principalmente o não ter pressa para confirmar ou receber formalmente em comunhão uma pessoa a fim de mostrar crescimento estatístico – deve fazer aos poucos  que as pessoas se identifiquem com a Comunidade, e com a denominação. 

Que Deus me ajude! e que Deus salve a Igreja dos que se autopromovem usurpando o nome do Senhor! daqueles que, ao divulgarem a si mesmos, pensam estar divulgando a Igreja e o Evangelho, nas relações pessoais e, principalmente na mídia.

Como disse o Apóstolo São Paulo, “ […] de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. (1. Cor 3.7)

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3 de out. de 2012

Unidade e Diversidade, a nossa Identidade Episcopaliana

S. Pedro e São Paulo: A Igreja Judáica e a Igreja Gentílica se abraçam!Uma dificuldade que as pessoas hoje têm de compreender o sentido de unidade da Igreja de Cristo deve-se ao fato de haverem muitas denominações cristãs, diferentes Igrejas. Entretanto, essa diversidade é salutar!
A gente precisa entender bem essa questão da “divisão” da Igreja. Não é verdade que a Igreja Primitiva era uma coisa só. Não era! Havia uma variedade na forma de organização, na teologia em construção e na liturgia.
Desde do início da expansão missionária a partir da Igreja de Antioquia, que envia Paulo e Barnabé em Missão por ordem do Espírito Santo (cf. Atos 13.1-3), o cristianismo começou a dialogar com culturas e povos diferentes daquele ambiente nativo dos primeiros apóstolos.  Nesse sentido, o Apóstolo Paulo logo compreendeu que a grandeza do Evangelho não se limitava aos preceitos do judaísmo, e que o Evangelho é de fato uma Boa Nova para todos os povos. A expansão do Evangelho entre os povos pagãos do Império Romano, especialmente no ambiente marcado pelo helenismo, obrigou a Igreja em Jerusalém rever suas posições em relação às práticas judaicas; tal revisão aconteceu no que chamamos de Concílio de Jerusalém, narrado em Atos dos Apóstolos (15.1-33), provocada pela própria Igreja de Antioquia, a grande igreja missionária que, movida pelo Espírito Santo, deu início à evangelização do mundo gentílico: as comunidades que surgem a partir do movimento de Antioquia já não eram formadas apenas por pessoas de tradição judaica, mas também por gentias, ou seja, não judias.

Assim, cerca de 40 anos após a Ressurreição de Jesus já haviam “duas igrejas”: a Igreja de Jerusalém e suas comunidades filhas, de forte orientação judaica, que se confundia inclusive com as sinagogas; e a  Igreja Gentílica, cujos procedimentos, especialmente em relação aos usos e costumes, eram bem distintos. Todavia, não eram “duas igrejas” mas uma única Igreja, com características diferentes. Por volta do ano 90 uma terceira Igreja vem dar origem à literatura Joanina, com outro enfoque e distinto dos Evangelhos Sinóticos.
Nem sempre o convívio entre as duas (ou três) correntes era pacífico. Haviam, naturalmente, escaramuças, mas o senso de unidade era assegurado pela relação afetiva e companheira entre os apóstolos (não só os 12, mas todos aqueles que pregavam o Evangelho sendo testemunhas da Ressurreição). Varias fontes não bíblicas, mas reconhecidamente validadas pela Historiografia, relatam o surgimento de comunidades cristãs fora do Império Romano, no interior da Ásia e até na Índia. Isso amplia muito nossa percepção da diversidade da Igreja ao final do primeiro século cristão.
Ao final do séc. III e início do IV, a Igreja estava organizada, pelo menos dentro do Império Romano, com as ordens clericais e a divisão territorial das dioceses (uma unidade territorial do Império), sendo que os Bispos das cidades maiores eram chamados Arcebispos ou Metropolitas, e a eles se subordinavam, de forma afetiva e pastoral os bispos das cidades menores circunvizinhas; em caso de discordância doutrinária, por exemplo, os Metropolitas serviam como árbitros e convocavam concílios regionais para acertar o passo.

A Igreja do Ocidente
Com a derrocada do Império no ocidente, a Igreja se tornou a única instituição estável dentro do caos social e político que se criou. Os Metropolitas ganharam força política e o Metropolita da antiga Capital Imperial, Roma, acabou se tornando o mais importante. A agregação hierárquica a partir do Bispo de Roma acabou se consolidando em meados do século VI, e a Igreja Ocidental foi se tornando cada vez mais monolítica e padronizada. Vários concílios foram consolidando as formas estruturais e o corpo doutrinário, fixando a identidade da Igreja Latina, que hoje conhecemos como Igreja Católica Romana.
No Oriente, onde ainda sobrevivia o Império, a Igreja se manteve dentro do antigo padrão dos Patriarcados organizados em arquidioceses e dioceses interdependentes, mas distintos. O Patriarca Romano se tornou, todavia, o Chefe absoluto da Igreja Ocidental assumindo a Igreja o papel político de polo unificador do Ocidente retalhado em feudos.
Todavia, no Ocidente, essa concentração hierárquica vertical e o corpo doutrinário fechado, não foi bem acolhida entre os diferentes povos que então ocupavam, de forma autônoma, o antigo território imperial. No seio das dioceses havia o descontentamento e movimentos de defesa da autonomia, bem como diferentes formas de pensar teológico, nem sempre fiéis à dogmática imposta.
Assim, por exemplo, a antiga Igreja dos Celtas, na Grande Bretanha, submeteu-se sob a força dos exércitos saxões ao Bispo de Roma, mas manteve em seus porões sua antiga tradição que provinha da Igreja do Oriente, mesclada com a cosmovisão da Antiga Religião. O mesmo aconteceu entre os povos da Gália (hoje parte da França), e no interior da Europa Central, que ao contrário dos eslavos a nordeste e sudeste, não foram evangelizados pelos Orientais (essa a origem da Igreja Ortodoxa Russa, por exemplo).
No decorrer da Idade Média houveram muitos movimentos de reforma da Igreja Ocidental. A Reforma do século XVI foi a que obteve maior êxito, criando novas formas de ser Igreja: a Igreja Evangélica (alemã) e a Igreja Reformada (suíça). É preciso ter claro que tais Igrejas não saíram da comunhão com Roma, mas foram excomungadas por Roma, criando assim a divisão que perdura até hoje no Ocidente.
Todavia, as diferentes Igrejas que, a partir dai, surgiram, de cunho nacional e/ou étnico, sempre tiveram a consciência de serem partes da Igreja Una, Santa, Católica(no sentido de ser de todo o mundo = ecumênica = oikomene)  e Apostólica de Jesus Cristo.

A origem da Igreja Episcopal
Quando, por razões de Estado, a Igreja da Inglaterra se torna autônoma em relação ao Papado, o processo de sua reorganização só se consolida no reinado de Elizabete I, formando-se assim a Igreja Nacional e Estatal que é, até hoje, a Church of England, acolhendo em seu seio as diversas tonalidades cristãs que existiam na Inglaterra, e ao mesmo tempo permitindo a organização de “Igrejas Livres” (sem a tutela do Estado), dando origem por exemplo, às Igrejas Congregacionais e às Igrejas Batistas.  Assim, se em seu início a Igreja da Inglaterra era muito marcada pela diversidade teológica, também preservou a riqueza litúrgica herdada da Igreja Latina, mas com as adaptações decorrentes da Tradição Celta que, de certa forma, veio do Oriente.
Na Escócia, a Igreja lá existente no século XVI era profundamente influenciada pelo calvinismo. Assim, organiza-se a Igreja Presbiteriana, que ficou sendo chamada de Igreja da Escócia (The Church of Scotland) . Todavia, nem todos aceitaram uma organização presbiteriana-congregacional e adotaram o episcopado histórico. Surge assim a Igreja Episcopal da Escócia (The Scottish Episcopal Church ou na língua original, Eaglais Easbaigeach na h-Alba), fortemente marcada pela teologia de Genebra, mas também buscando manter seu laço com o episcopado histórico, a exemplo da Igreja da Inglaterra.  Essa Igreja acaba adotando o Livro de Oração Comum escrito pelo Arcebispo Laud, o qual contém muito do Livro original elaborado pelo Arcebispo Cranmer e se afasta do modelo presbiteriano definitivamente. Todavia, ainda hoje na Escócia, as duas Igrejas Nacionais convivem e em muitas situações se articulam de forma conjunta.
Quando as Colônias Inglesas na América do Norte se tornam independentes, dando origem aos Estados Unidos da América, houve a preocupação de organizar-se uma Igreja Protestante Nacional, porém não dependente do Estado recém fundado. Naquele tempo, nos territórios coloniais, haviam diferentes denominações cristãs, traduzindo, de certa forma a mesma diversidade que existia na Metrópole. Houve um movimento procurando unir tais diferentes denominações em uma Igreja Nacional, e chegou-se ao consenso de adotar-se o modelo episcopal, mas manteve-se a liberdade dos grupos que não aceitaram unir-se à Igreja Nacional nascente.
Uma vez decidido que a Igreja Nacional teria um governo episcopal, necessário foi buscar a sagração de seu primeiro bispo de modo a garantir o Episcopado Histórico à nova Igreja. Naturalmente, isso foi buscado junto à Igreja da Inglaterra, mas devido às circunstâncias da Independência e o fato da Igreja inglesa ser estatal – isto é, vinculada à Coroa Britânica e ao Parlamento – os norte-americanos foram aconselhados a buscar o Episcopado Histórico entre os escoceses, sendo prontamente atendidos. Assim, o primeiro bispo da Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos da América foi sagrado por bispos escoceses. Mas o segundo e o terceiro bispo já foram sagrados por ingleses, de forma que conseguiu-se manter uma certa unidade de comunhão apostólica entre a nova Igreja e a Igreja da antiga metrópole, e também com a Igreja escocesa. Ai está a gênese da Comunhão Anglicana, que se consolida no século XX!
Como a Igreja da Inglaterra, a Igreja Episcopal dos Estados Unidos nasceu com uma rica diversidade de formas e compreensões teológicas em seu seio, pois incorporou diversas tendências teológicas e litúrgicas, decorrentes do processo de união da qual nasceu. Sua unidade, como na Igreja da Inglaterra, é fundamentada no Livro de Oração Comum como manual litúrgico aberto (uma diversidade de formas cerimoniais para executar seu conteúdo ritual) e no pacto estabelecido no século XIX conhecido como Quadrilátero de Lambeth-Chicago; tal unidade garante a diversidade, que se torna parte de sua própria identidade.  Hoje essa Igreja Nacional (mas não estatal) dos Estados Unidos, é chamada The Episcopal Church (TEC).
Há várias formas de expressão dentro da Igreja Episcopal. Há os evangélicos, os evangelicais, os mais conservadores, os mais liberais, os mais litúrgicos, os teologicamente mais próximos de Roma, os mais próximos da Tradição Reformada e todas os possíveis entrelaçamentos dessas expressões. Sempre houveram tensões entre as diferentes ênfases; não é de hoje, e isso às vezes causou rupturas na unidade, através de cismas e formação de novas denominações. Outras vezes grupos se deligaram da Igreja mas decorrido o tempo de uma ou duas gerações retornaram… essa dinâmica é própria de uma Igreja que se recusa adotar posturas dogmáticas e depender de uma hierarquia absolutista verticalizada.
É essa Igreja que chegou ao Brasil em 1890, através de Morris e Kinsolving, dando origem à Igreja Protestante Episcopal no Rio Grande do Sul, depois Igreja Episcopal Brasileira, depois Igreja Episcopal do Brasil e agora Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, que é autóctone, autônoma e independente de sua Igreja Mãe (The Episcopal Church) ou de sua Igreja Avó (The Scottish Episcopal Church) ou ainda de sua Igreja Tia-Avó (The Church of England). É parte da Comunhão Anglicana; é uma Igreja Nacional que incorpora a cultura brasileira, e um espaço de diversidade e liberdade de pensamento que acolhe todas as pessoas que buscam a fé sem negar sua inteligência.

O momento presente da Igreja do Brasil
O mundanismo da pós modernidade vem invadindo a Igreja nos últimos tempos. O personalismo e o generalismo (em lugar da erudição e conhecimento) começa a minar o senso de identidade e de unidade da Igreja. As ênfases e tendências que garantem a diversidade começam a apresentar-se como “partidos” que disputam espaço e poder institucional.
Por estar inserida na sociedade brasileira, a Igreja sofre o mesmo fenômeno de “emburrecimento” das novas gerações decorrentes de um sistema escolar deficiente e organizado para não educar. Ao mesmo tempo, há um pragmatismo dogmático de formar mão-de-obra, como no mundo secular, sem conhecimento real, apenas prático.  A formação do clero se torna cada vez mais deficiente, seguindo o modelo da sociedade, e estuda-se a Teologia em termos acadêmicos, mas dissociada da prática pastoral e principalmente do estímulo à piedade pessoal. O estudo da Teologia passa a ser uma formalidade a ser cumprida; a piedade pessoal é descuidada em nome de uma pretensa secularização de “imersão no mundo”; o convívio vocacional não existe e assim os membros do clero se entendem como “colegas” e muitas vezes concorrentes entre si.
Há uma histérica necessidade de afirmar uma “identidade” anglo-isso, anglo-aquilo; o que eu vejo é muita gente se preocupando com detalhes da forma sem aprofundar conteúdo, uma coisa do tipo “garantir espaço”, “marcar território”.  Perde-se o senso da eclesiologia e da catolicidade da Igreja quando o Episcopado se torna alvo de disputas de poder institucional sem a perspectiva real do pastorado e do serviço – o péssimo estilo brasileiro de fazer política se torna comportamento na Igreja quando há a necessidade de uma eleição episcopal – o poder pelo poder!

Perspectivas de esperança
O Apóstolo Paulo, escrevendo aos Efésios, diz:
Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo,
um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme a medida repartida por Cristo.
(Efésios 4:1-7 – Nova Versão Internacional)
É necessário suportar uns aos outros, não como tolerância, mas como suporte, sustentação uns dos outros.
É urgente retornarmos ao convívio da oração coletiva, do estudo da Bíblia e da partilha pastoral, não só nas comunidades, onde isso ainda acontece, mas entre o clero e as lideranças leigas.
É urgente que reestabeleçamos a formação teológica vinculada à formação pastoral e ao desenvolvimento da piedade e disciplina pessoal.
É urgente que deixemos a administração dos negócios financeiros e patrimoniais da Igreja nas mãos de pessoas realmente competentes e profissionais, de preferência leigos, e que a hierarquia e o clero se submetam às recomendações técnicas de saneamento econômico da Igreja. É urgente que nossos Bispos e o clero se dediquem mais ao Pastorado, à Missão, à Evangelização, ao Ensino e à Cura de almas que à administração institucional; que liderem o caminhar do Povo de Deus e não da instituição humana.
É fundamental que se invista em infraestrutura (comunidades locais e dioceses) que em estruturas (provinciais e diocesanas).
É fundamental o fortalecimento do laicato, não só nos serviços ministeriais, mas também como poder autônomo na Igreja, atuando como espaço crítico-reflexivo que possa ajudar o clero e o episcopado a perceber as tendências do mundo e, assim, produzirem a reflexão teológico-pastoral adequada aos desafios do tempo presente. Nesse sentido, o ministério dos Diáconos ganha um significado importantíssimo!
Tais buscas, se realmente começarem a acontecer, me darão a esperança que minha Igreja ainda está viva e consciente de sua dependência do Espírito Santo de Deus e subordinada em obediência ao Senhor Jesus Cristo.
[Nota: comentários com a devida correção de detalhes e imprecisões históricas ou de interpretação da história serão muito bem vindos, pois o artigo foi escrito sem uma pesquisa profunda, baseada apenas nos meus poucos conhecimentos adquiridos no decorrer dos anos]
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