Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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15 de fev de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (III)

[continuação – veja antes as postagens abaixo Educação Teológica e Formação Pastoral (I) e (II)]
O Clero: pessoas chamadas e separadas para servir à e na Igreja
Como disse no texto anterior (Educação Teológica e Formação Pastoral II – vide abaixo), quero agora prosseguir dentro da perspectiva da minha identidade confessional, ou seja, enquanto episcopal-anglicano, falando com o olhar para a minha Igreja no Brasil, a Tradição por ela herdada e recebida, sua doutrina e rito.  Espero que, de alguma forma, os que estejam lendo mas têm outra identidade denominacional, procurem fazer as equivalências possíveis para refletirem sobre a sua própria comunidade confessional e tradição.
Na tradição episcopal-anglicana, o título “Pastor” é atribuído ao Bispo; as pessoas que pastoreiam as comunidades o fazem na comunhão com seu Bispo (ou Bispa) e são chamadas de Presbíteros(as).  Nesse sentido, o anglicanismo e o episcopalismo seguem a tradição Patrística, focando no Episcopado a totalidade e a unidade da Igreja.

O povo da Igreja trata a nós do clero, de forma carinhosa e respeitosa, pelo título de “Reverendo” ou “Reverenda”, e raramente de “Pastor” ou “Pastora”. Em poucos lugares no Brasil, mas comum nos países de língua inglesa, os presbíteros são chamados de “Padre” (Father) – da mesma forma que o clero católico-romano – e as presbíteras,  “Madre” (Mother).
Não se pode esquecer, jamais, que as Sagradas Ordens de Presbítero e de Bispo são dadas sobre a Sagrada Ordem de Diácono. Todo Presbítero, e todo Bispo, é antes de tudo Diácono. Portanto, receber a ordenação presbiteral ou a sagração episcopal não é honra, nem mérito, mas – exclusivamente – encargo de serviço dado a alguém que já fora separado da e na Comunidade para servir a essa Comunidade e, com a Comunidade, ser – para o mundo – o sinal do amor de Deus, em nome de Jesus Cristo. 
Assim, ninguém é Presbítero ou Bispo por si e para si mesmo, mas para toda a Igreja de Cristo – não só entendida como instituição religiosa, mas principalmente como comunidade de comunhão, proclamação e serviço, obediente a Deus, em Jesus Cristo, o Verbo Encarnado. E, com a Igreja, denunciar o Príncipe deste mundo, proclamar o Evangelho da Salvação e testemunhar ao mundo a graça amorosa oferecida por Deus em Jesus Cristo.
É preciso ter claro que o clero é formado por pessoas que já não são mais iguais às outras da comunidade. Isso pode parecer estranho nestes tempos de “democratismos” e “inclusividades”. Mas assim o é, de fato. Na minha geração, no seminário, gostávamos de afirmar que os clérigos são pessoas comuns, iguais às outras, em nada especiais ou diferentes. Isso fazia parte de nossa ideologia libertária diante de um mundo cheio de exclusão e opressão, como é ainda hoje. Todavia hoje sei que afirmar as pessoas do clero como diferentes não significa colocá-las acima ou abaixo das demais, não significa negar sua humanidade e fraqueza, nem significa  diminuir em dignidade as pessoas que não sejam parte do clero. Significa, sim, compreender a diversidade de dons e ministérios na Igreja.
O Espírito Santo concede à Igreja, ou melhor, às pessoas batizadas que compõem a Comunidade Confessante, uma grande variedade de dons e ministérios. Isso já era compreendido pela Igreja Primitiva, e o Apóstolo Paulo dá muita ênfase nisso, sendo quem primeiro sistematizou tal compreensão. É muito importante compreender que os dons são dados ao mesmo tempo que o chamado ao exercício de um ministério. Nenhum dom é dado para a pessoa em si, para seu próprio benefício, mas para que ela o empregue a serviço e para o bem das demais. Nesse sentido, todas as pessoas são chamadas e separadas para servirem umas às outras no amor e na comunhão com Jesus Cristo.
O ministério clerical é dado às pessoas chamadas para serem servos dos servos na Comunidade de Cristo e, com a Comunidade de Cristo, servirem a todas as pessoas. Assim, o clero é chamado ao ministério especialmente para o benefício da Igreja, para fortalecê-la na Fé através da pregação, do ensino e dos sacramentos, como sinal e símbolo da presença permanente do Senhor no seio de Sua Santa Igreja. A percepção desta identidade especial do clero é que faz o povo conceder aos clérigos e clérigas, e só a estes, o título carinhoso, porém afirmando a vocação específica de serviço, de “Reverendo”, “Reverenda”.
Por isso o Clero, quando no exercício formal de seu ministério perante a comunidade reunida, usa vestes próprias, os chamados paramentos.
Os paramentos não servem para a glorificação de quem os veste, mas para recordar, em primeiro lugar a tal pessoa, que ela está revestida do poder e da autoridade de Cristo que lhe foi delegada pela Comunidade quando a ordenou às Sagradas Ordens (o Sacerdócio é único e pertence a Cristo; é patrimônio concedido à Comunidade por Cristo, através da comunhão com Ele; é dado como encargo para alguns a fim de ser exercido para o benefício de todos). Por isso, quem coloca as vestes litúrgicas deve vestí-las em oração, para evitar a tentação de glorificar-se a si mesmo.
Em segundo lugar, os paramentos recordam à comunidade o Senhorio de Cristo. Quem veste os paramentos, naquele momento, não é mais a pessoa, mas o sinal e símbolo da presença amorosa e da presidência de Jesus Cristo, o único sacerdote e Sumo Sacerdote, o bom Pastor.
Por isso, é importante que seminaristas, aqueles e aquelas chamados para o ministério clerical, desenvolvam essa compreensão durante o período em que se preparam para isso. É importante que vejam a vida clerical além de uma carreira profissional dentro de uma instituição, que poderá trazer glória e sucesso futuro. Caso contrário, se tornarão escravos das ideologias e valores do mercado, e farão da Igreja o seu negócio particular. É fazendo tal reflexão que alguém poderá avaliar com segurança se tal é a sua Vocação ou não.
Tal compreensão jamais  será desenvolvida na academia teológica secularizada.
Profecia, Sacerdócio e Teologia
Penso que as duas características que marcam, nas Tradições Episcopaliana e Anglicana, o exercício do Presbiterado (e do Episcopado – não esqueçamos que Bispos e Bispas são, também, Presbíteros e Presbíteras) é que, nós – presbíteros e presbíteras – servimos à Igreja enquanto Profetas e Sacerdotes.
O ministério profético se manifesta através da denúncia, do anúncio e do testemunho. Esse ministério, aliado ao serviço (diakonia), é o ministério fundamental da Igreja, é a síntese de sua Missão, da Igreja como um todo: a Igreja é comunidade profética, a serviço no mundo, em nome de Jesus Cristo
Mas cabe aos encarregados do cuidado pastoral serem, eles mesmos, profetas para a comunidade, através da pregação e do ensino, além de seu testemunho de vida – vida de pecador movido pelo arrependimento e pela certeza da misericórdia de Deus.  Nesse sentido, cada pastor, cada pastora, deve ser o teólogo, a teóloga, para a comunidade, não como um acadêmico, mas como quem fornece à comunidade as chaves de entendimento e compreensão para avaliar o momento histórico presente, situando-a e instrumentalizando-a para o exercício do ministério profético, fortalecendo a comunhão e o espírito diaconal.
Por isso, o estudo da Teologia enquanto conhecimento é importante para o clero, não como mera formalidade, mas como instrumental para o exercício de seu próprio papel e ministério.  Não só o estudo, mas também a produção de uma teologia adequada ao momento e à realidade da comunidade. Essa produção é o que se espera no momento litúrgico da Pregação e também nas reuniões de estudo e formação da comunidade, ou pelo menos na formação dos catequistas e docentes da comunidade. Assim, a Teologia é uma ferramenta que fortalece o ministério profético do clero.
Na tradição herdada pelo Anglicanismo, o sacerdócio é parte do múnus pastoral.  Tal sacerdócio não é entendido pela Igreja como “intermediação” da Graça. Nesse sentido, o Anglicanismo segue a Tradição da Reforma Protestante do século XVI.  Os presbíteros e presbíteras anglicanos exercem o sacerdócio universal de todos os crentes em Cristo, como serviço à comunidade. Isso lhes é delegado como encargo pela própria comunidade ao separá-los, recomendá-los e apresentá-los para a Ordenação, cerimônia da qual a comunidade participa e afirma seu compromisso para com o ordinando e este afirma, solenemente, seu compromisso para com a Igreja. 
O ofício especial dos presbíteros e presbíteras é nutrir a comunidade com os sacramentos, não por um poder próprio, mas pelo poder do Espírito Santo presente na comunidade reunida em adoração e oração – na liturgia. O exercício do sacerdócio, nessa perspectiva, não existe por si mesmo, independente da comunidade. Mas é exatamente a presença da comunidade que legitima a ação do sacerdote.
Ao contrário dos sacerdotes do Antigo Testamento, eu – enquanto presbítero, e portanto, sacerdote – não ofereço sacrifícios em favor da comunidade. Não posso fazer aquilo que já foi feito uma vez por todas por Jesus Cristo: o Sacrifício Único, Perfeito, Completo e Suficiente em favor de todo o mundo. Também não celebro os sacramentos para mim mesmo; por exemplo, não tem sentido eu sozinho celebrar a Ceia do Senhor, como se tal celebração fosse eficaz por si mesma (há situações extremas em que isso não só é possível, como recomendado; mas não vem ao caso neste texto).  Também não tenho o encargo de “oferecer diariamente o sacrifício”, porque o Cristo já o fez de forma definitiva e final.
Assim, ao exercer o sacerdócio, presbíteros e presbíteras exercem o sacerdócio da Igreja e para a Igreja, sacerdócio que é de Cristo, o único Sumo-Sacerdote. Nesse sentido, o sacerdócio do clero anglicano é sinal e símbolo do sacerdócio de Cristo, é exercido com a comunidade reunida ou a partir da reunião da comunidade, porque é a Comunidade quem lhe dá legitimidade. Por exemplo, ao levar o Santo Sacramento a um doente, se o presbítero ou diácono não puder estar acompanhado por outras pessoas da comunidade, deve ter claro e expressar que tal ministração é parte daquele momento koinônico da comunidade, reunida em adoração ao Senhor sob a Presidência do mesmo Senhor.
A compreensão adequada do significado do sacerdócio e da ministração pastoral é necessária aos seminaristas, para que possam ter clareza sobre o significado de sua ordenação, seja como diáconos, seja posteriormente como presbíteros e bispos.
Essa reflexão deve ser iluminada pela Tradição própria da Igreja, e isso não é parte do conteúdo acadêmico; quando o tema surge, as diferentes tradições são estudadas como “diferentes formas de pensar” – ou seja, o tema é desvinculado da vivência comunitária e confessional do estudante, a menos que seja em uma faculdade confessional de Teologia.
Formação permanente do clero
Obviamente, a formação teológica do clero tem de ser formação permanente. Não bastam as antigas lições do curso formal, mas é preciso estar em dia com a reflexão que se realiza na academia e também com aquela teologia elaborada pelos demais clérigos em sua atividade de ministração e ensino da Palavra.
Por isso é importante que o clero se reúna com frequência para partilhar a experiência pastoral, as leituras e estudos pessoais, as dores e as alegrias do ministério de cada um e cada uma. Talvez este seja um dos maiores serviços que o Episcopado pode prestar à Igreja: propiciar aos membros de seu clero as oportunidades para estarem juntos, em comunhão e oração, partilhando o ministério, e o próprio Episcopado participando desses momentos como um primus interpares – a reunião dos diáconos, já que todo clero é formado por diáconos!!!
A atualização teológica do clero também deve ser uma tarefa permanente e formal, regida pelos padrões da academia. Por isso é fundamental para a Igreja o ministério das pessoas que se dedicam ao estudo permanente da Teologia, seja por ofício, seja pelo prazer de estudar. Teólogas e teólogos, sejam parte do clero ou do laicato, devem ver a formação e capacitação permanente do clero como um dos pontos fundamentais de seu ministério específico. Cabe ao Episcopado, por ser o colegiado dos Pastores de pastores, cuidar disso com especial atenção e carinho; se necessário, com o poder de sua autoridade, porque o que está em jogo é a qualidade da  pregação e do ensino da Igreja, ou seja, o que está em jogo é a própria qualidade da comunidade na execução de sua missão. 
(continua)
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2 comentários:

  1. Estimado Irmão Rev. Luiz!
    Excelente testo sobre a formação presbiteral.
    Estou seguindo seu Blog.
    http://www.reverendoeugenio.blogspot.com/

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