Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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18 de fev de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (IV)

(conclusão; para melhor entendimento, leia antes as postagens abaixo Educação Teológica e Formação Pastoral I, II e III)
As alternativas para a Igreja
Diante do quadro e das reflexões apresentadas nas três postagens anteriores, resta agora analisar as várias alternativas que, ao meu entender, são oferecidas à Igreja para definir o projeto de formação pastoral sem abrir mão da educação teológica de qualidade, e garantir que o clero futuro (nas três Ordens do Sagrado Ministério) tenha a competência necessária para apoiar e fortalecer as comunidades na Missão, cujos desafios são cada vez mais complexos.
Aqui vou dedicar minha reflexão particularmente à Igreja que eu amo e da qual faço parte, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB). Peço a compreensão dos leitores e leitoras membros de outras Igrejas, na esperança que, de alguma forma, estas reflexões sejam úteis também para elas. 
A IEAB precisa definir e adotar, com urgência,  uma nova política para a formação e capacitação do seu clero, incluindo ai a revisão dos critérios canônicos para as Ordenações e, principalmente, o reconhecimento de Ordens e recepção de clérigos advindos de outras confissões.

É responsabilidade da Igreja, especialmente do Episcopado, permitir e criar condições para que cada pessoa vocacionada possa refletir e compreender com clareza as implicações do Ministério Ordenado em sua vida; e também decidir com clareza pelo ministério ordenado nesta Igreja – com nossa identidade e especificidade, ou seja, nossa Tradição, nossa Doutrina, nosso Rito e nossa Disciplina, valores que considero inegociáveis sob o risco de perda da identidade (sobre isso espero em breve publicar um artigo, já em preparo, neste blog).
Por isso, lanço aqui, mais uma vez, o desafio que tenho proposto em várias ocasiões: a IEAB precisa urgente de uma Pastoral de Vocações, uma linha de trabalho pastoral voltada especialmente para as pessoas vocacionadas, ou que se sentem vocacionadas, ao Sagrado Ministério, ou que venham de outras denominações aspirando o exercício do Sagrado Ministério nesta Igreja. Não me refiro a mais uma esfera burocrática; para isso já temos as Comissões de Ministério em diversas dioceses. Falo de uma ação pastoral adequadamente planejada e sob supervisão direta dos Bispos, aproveitando a experiência dos clérigos mais antigos, muitos já aposentados mas ainda com capacidade física, mental e espiritual para atuarem pastoralmente. Temos de recuperar o conceito de ancestralidade e de respeito pela sabedoria dos antigos, sabedoria esta que não vem das academias mas da vida.
Quanto às alternativas para a educação teológica e formação pastoral, percebo, para a IEAB, as seguintes possibilidades:
1. Criar sua própria Academia Teológica – A(s) Faculdade(s) de Teologia da Igreja.
É uma alternativa possível, de lenta construção e com efeitos a longo prazo,  exigindo um investimento financeiro considerável. Mas vejo sérios inconvenientes para tal solução, além da questão dos recursos financeiros a serem investidos:
  1. A Igreja teria de cumprir uma enormidade de exigências burocráticas do Estado, sem ter a infra-estrutura adequada para atender a isso;
  2. A Igreja teria de entender e aceitar que um empreendimento dessa monta precisa ser assumido como empreendimento empresarial e comercial; assim, teria de atender às demandas do mercado, que não são necessariamente compatíveis com a demanda específica da Igreja; isso significa, ainda, que o curso de Teologia terá de ser aberto e não exclusivamente confessional; e o empreendimento terá de ser administrado profissionalmente, de acordo com as regras dinâmicas do mercado, ou seja, eticamente estéril; no mundo do mercado, as regras são duras e aéticas, oscilando conforme as tendências dos modismos e das demandas.
  3. A Igreja não dispõe de quadros suficientes com a capacitação acadêmica exigida pela legislação – teria de descobrir vocações para isso e investir em sua capacitação técnica e acadêmica ; além disso, a Igreja teria de concentrar geograficamente esse pessoal, dificultando assim as possibilidades de integração entre o mundo acadêmico e o mundo eclesial da nossa realidade enquanto Igreja brasileira e parte de uma Comunhão Mundial;
  4. A possibilidade de desenvolver um projeto de Educação à Distância, nova tendência do mercado, não elimina a exigência de campus e corpo docente habilitado, além disso, a legislação exige que hajam disciplinas presenciais; ou seja, o investimento seria maior ainda, mas criaria a ilusão ufanista de que estaríamos atendendo a uma clientela maior. Todavia, tenho minhas dúvidas se a cultura brasileira possibilita realizar tal iniciativa com seriedade... O que tenho visto é a expansão do mercado de diplomas, com raras exceções, e não me refiro apenas à área da Teologia.
2. Fortalecer os Seminários Teológicos e os Centro Diocesanos de Teologia
No presente momento, a IEAB tem dois Seminários Teológicos: o de Porto Alegre e o de Recife, organizando a demanda por área geográfica; além deles, cada Diocese tem seu Centro de Teologia. Um desses centros, o da Diocese de São Paulo, é um sério candidato a se tornar o terceiro Seminário Teológico da Igreja, para atender as dioceses da Região Sudeste, seja pela proximidade geográfica, seja pela sua identidade cultural.
Na verdade, o modelo de Seminário Teológico vem desde o tempo dos fundadores, e embora tenha sofrido algumas mudanças no decorrer da história, o princípio é o mesmo. A criação dos centros diocesanos foi uma alternativa adotada para atender seminaristas que não poderiam deslocar-se para as cidades onde estão os seminários.
Este modelo foi enriquecido com a criação do CEA – Centro de Estudos Anglicanos, há pouco menos de 15 anos. Eu era membro da JUNET – Junta Nacional de Educação Teológica – quando o projeto do CEA foi desenvolvido (na mesma época, o Centro da Diocese de Recife foi elevado a Seminário Nacional, tirando assim a hegemonia do Seminário de Porto Alegre).  O princípio fundante do CEA, se me recordo bem, era que o Centro atuaria em duas frentes:
  • a) subsidiando os Seminários Teológicos e os Centros de Teologia para a formação específica confessional (história, teologia, doutrina, liturgia, etc.);
  • b) desenvolvendo e realizando o processo de formação permanente e atualização teológica do clero e lideranças da Igreja.
Na verdade, apesar dos poucos recursos e quase nenhuma infra-estrutura, o CEA vem desenvolvendo, e bem, a segunda frente; mas há uma dificuldade intrínseca e política para atender à primeira. O CEA é, hoje, praticamente o seu Coordenador, que demanda um esforço considerável para cumprir os programas de reciclagem do clero e capacitação da liderança leiga, além da publicação de uma revista (Inclusividade) cada vez mais reconhecida e respeitada no mundo acadêmico e não acadêmico.
Todavia, os dois Seminários, até o presente momento, seguem filosofias educacionais muito diferentes e inclusive nas respectivas opções teológicas e metodológicas. Por um lado, isso é muito bom, pois atesta a diversidade da Igreja brasileira, mas por outro lado pode ser sinal de que a igreja não tem uma política de educação teológica bem formulada. Não tenho elementos para avaliar isso com segurança.
Quanto aos Centros Diocesanos de Teologia, também não tenho elementos para uma avaliação segura, uma vez que cada um tem suas próprias características, à imagem e semelhança da própria Diocese.
O que se precisa avaliar, neste momento é se os Seminários Teológicos e os Centros Diocesanos atendem seu propósito. Com efeito, vejo aqui três dificuldades:
  1. Os Seminários Teológicos se entendem como academias teológicas da Igreja, ou seja, funcionam como se fossem faculdades. Todavia, são cursos livres, não reconhecidos, e as pessoas por eles formados não são reconhecidas como bacharéis pela legislação; para tanto, devem cumprir um curso de “convalidação” do seu diploma – o Brasil cria jeito para tudo – de custo razoável e, geralmente, de qualidade duvidosa, com notáveis exceções;
  2. Os Seminários necessitam de um corpo docente habilitado mas dispõem de poucos recursos financeiros para isso. Em outras palavras, há muita improvisação. Não falo isso de forma pejorativa – eu mesmo fui reitor do Seminário de Porto Alegre e sou muito agradecido pela dedicação, competência, espírito de voluntariado e capacidade de improvisação dos docentes e dos estudantes, pois conseguimos – como comunidade educativa – realizar muito e  com qualidade. Mas carecemos de maturidade acadêmica, e isso é uma conquista a longo prazo e pressupõe uma Congregação Docente em permanente processo de atualização e capacitação, envolvidos não só com aulas, mas com pesquisa e produção de conhecimento.
  3. Quanto aos Centros Diocesanos, segundo percebo, lhes faltam recursos, corpo docente adequado e geralmente dependem, exclusivamente, de um(a) coordenador(a) que, apesar do imenso esforço, da boa vontade e dedicação, nem sempre é uma pessoa realmente habilitada profissionalmente para atuar em Educação.
A grande vantagem dos Seminários (e por extensão, dos Centros Diocesanos) é que podem ser espaço adequado para a formação clerical e laica dentro dos padrões da nossa identidade e confessionalidade, e também espaço para o desenvolvimento de uma espiritualidade vocacional.  A grande desvantagem é que, para atenderem com qualidade e competência à sua finalidade, o custo de manutenção – tal como hoje funcionam – é muito alto e além das possibilidades reais da Igreja.
3. A solução híbrida – proposta para ser melhor discutida e aprofundada
A questão, no fundo é: como poderia a Igreja manter controle sobre a formação do seu clero futuro e formação permanente do clero existente, sem prejudicar a qualidade da educação teológica? Para mim, a solução seria fazer uma distinção operacional entre educação teológica e formação pastoral.
Assim, a Igreja deveria selecionar no mercado boas Faculdades de Teologia, dentro das regiões diocesanas, por exemplo, e criar meios para que os seminaristas possam cumprir ali sua formação teológica com qualidade.  Ao mesmo tempo, os Centros Diocesanos e os Seminários poderiam cumprir com a exclusiva tarefa da formação pastoral e denominacional, além de estimular a reflexão pessoal e a espiritualidade de cada seminarista. Ao mesmo tempo, os nossos seminaristas poderiam conviver em um espaço de discussão acadêmica de qualidade e dentro da diversidade cristã. O custo de bolsas de estudos em boas faculdades é, com certeza, bem menor que a manutenção de uma instituição teológica própria que seja competente e eficaz, e cumpra as exigências legais para um curso superior.
Há muitas possibilidades para uma solução desse tipo. Várias Faculdades de Teologia, por exemplo, possibilitam a criação do “Departamento da Igreja”, que sob os auspícios desta, daria a formação teológica exclusiva da denominação aos seus seminaristas, através de balanceamento com a grade curricular padrão. Ainda assim, a formação pastoral e a espiritualidade vocacional ficaria a cargo dos Centros e Seminários, ou seja, dentro da Igreja.
Deveria haver uma integração entre o CEA, os Seminários Regionais e os Centros Diocesanos, penso até mesmo em uma equipe multidisciplinar que atuaria nacionalmente ou regionalmente dentro de uma grade curricular e conteúdos padronizados para a formação específica do nosso clero, dos que chegam de outras denominações e mesmo das lideranças leigas.  A médio prazo teríamos uma equipe de bons teólogos e teólogas, de fato episcopais- anglicanos, atuando em nível nacional e integrados com as diferentes realidades regionais e diocesanas.
Não tenho respostas prontas, apenas estas idéias que necessitam ser aprofundadas, e discutidas pela Igreja. É neste espírito de colaboração que deixo aqui estas reflexões livres, sem formalismos acadêmicos, apenas tentando dar alguma luz com simplicidade, como o vôo de pirilampos e de pintassilgos.
Quaresma, 2010.
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2 comentários:

  1. Li com muita atenção os quatro artigos, e de facto tens muita razão quando dizes da necessidade de cuidados especiais para a formação dos pastores da Igreja. Hoje sentimos falta de curas d'almas, pessoas capazes de ajudar-nos na elevação do espírito. e na percepção da Vontade de Deus nosso Senhor. Há muito comércio na religião hoje em dia. Espero que os senhores Bispos da tua Igreja vejam o que escreveste. Beijinhos.

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  2. Caro Caetano,

    Concordo firmemente com vc. E acredito que "nossa" diocese poderia adotar este modelo tranquilamente, porque temos aspirantes e postulantes com esta características e só precisam de uma imersão em anglicanismo que não se faz com um curso mas o vivendo.
    Até incentivo vc a propor isto no Sínodo deste ano.
    Abraços,
    do seu amigo Daniel Rangel.

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