Pequenas luzes, simplicidade

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5 de jul de 2010

O paralisado de Betesda

Lemos no Evangelho de São João:

Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu para Jerusalém.   Ora, existe ali, junto à Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco pavilhões.  Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos  [esperando que se movesse a água. Porquanto um anjo descia em certo tempo, agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse]. 

Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos.   Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, perguntou-lhe: Queres ser curado?   Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.

Então, lhe disse Jesus: ‘Levanta-te, toma o teu leito e anda’.   Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar. E aquele dia era sábado.

Por isso, disseram os judeus ao que fora curado: Hoje é sábado, e não te é lícito carregar o leito.   Ao que ele lhes respondeu: O mesmo que me curou me disse: Toma o teu leito e anda.   Perguntaram-lhe eles: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda?   Mas o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, por haver muita gente naquele lugar.  

Mais tarde, Jesus o encontrou no templo e lhe disse: ‘Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior’.  O homem retirou-se e disse aos judeus que fora Jesus quem o havia curado.  E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado”.  (João 5.1-16 ; Almeida, Revista e Atualizada).

I. Sobre o Evangelho de João

Não sei porque a maioria das edições da Bíblia em Português costuma colocar o título “Cura de um paralítico” para essa perícope.  Pessoalmente não gosto de títulos no texto bíblico porque já induzem uma interpretação, mas compreendo que tal providência ajuda em muito a localização de perícopes. Mas, por ser escolha do editor, o título (que não é parte do texto sagrado) traz em si uma interpretação. Do ponto de vista da leitura litúrgica da Bíblia, é errado ler-se o título porque não é parte da Palavra a ser proclamada, anunciada, estudada e compreendida.

No caso da perícope acima, o título é totalmente errado e induz o leitor a ver algo que não está no texto: um milagre: “um paralítico é curado”.  Todavia, o que o texto fala não é de um milagre, mas de um sinal que Jesus faz e que vai mais uma vez colocá-lo em confronto com as autoridades religiosas e os interpretes oficiais da Escritura judaica.

Em primeiro lugar, no texto joanino inteiro a palavra “milagre”  aparece pouquíssimo e nunca para descrever algum feito narrado. Note, leitor que me refiro aos textos originais gregos aceitos pela tradição cristã. Em algumas péssimas traduções para o Português, a palavra “milagre” em João aparece muito, como má tradução de um termo grego cujo significado mais concreto e teológico é “SINAL”. Em João, Jesus não faz milagres, mas  sinais!

Isso se deve ao contexto histórico gerador do texto joanino.  As comunidades onde surge o texto de João são comunidades de judeus-cristãos na Diáspora, pessoas fiéis ao judaísmo tradicional, todavia tendo recebido Jesus como o Messias esperado; estas comunidades estavam espalhadas pela Ásia Menor – as sete Igrejas da Ásia referidas em Apocalipse.  No ano 90 d.C. houve um grande concílio rabínico na cidade de Jamnia, hoje situada na Faixa de Gaza.  Nesse concílio, os mestres judeus declararam o anátema sobre quem aceitasse Jesus como o Messias, dentre outras decisões.  Ou seja, os judeus-cristãos foram expulsos das sinagogas e não eram mais contados como povo de Israel de Deus.

As comunidades judaico-cristãs perderam assim sua identidade básica: “Se não somos mais parte do Povo de Israel , o que somos?”  essa é a pergunta que ficou em suas mentes e em seus corações.  O Evangelho de João vem responder à essa pergunta, mostrando Jesus em permanente conflito com as autoridades religiosas do Judaísmo, denunciando-os como usurpadores da Lei e dos Profetas, e – portanto – ao recusarem o Messias, estavam se recusando a aceitar o que Deus havia determinado. Em outras palavras, as autoridades religiosas judaicas perderam sua autenticidade e legitimidade.  A partir de Jamnia, a identidade cristã se separa em definitivo da identidade judaica.

Assim, o texto de João não está preocupado em mostrar que Jesus de Nazaré é o Messias enviado por Deus, como por exemplo Mateus – que cita os profetas e os salmos permanentemente; antes, João foi escrito para os que já aceitaram Jesus como Messias, e quer denunciar o erro daqueles judeus – e das autoridades religiosas – que o recusaram, mostrando  o Messias em confronto com tais autoridades e desautorizando-as através de argumentos e sinais. 

O texto de João, do capítulo 2 até o 12 tem uma estrutura bem determinada; alterna sempre as seguintes situações: há um sinal de Jesus, uma palavra de Jesus, um debate com os mestres de Israel, uma segunda palavra de Jesus fechando o assunto e derrotando os argumentos dos doutores da Lei.  Essa sequencia varia, mas estes elementos estão sempre presentes.  Em alguns momentos há ainda o testemunho dos discípulos. A partir do capítulo 13 até o 17, o texto é essencialmente a palavra de Jesus aos discípulos, uma espécie de resumo doutrinário que dá identidade aos discípulos. Então segue-se a narrativa da Paixão onde deixa claro que a morte de Jesus foi provocada pelos principais judeus.  O Evangelho termina com os eventos da Ressurreição e os encontros com o Ressuscitado. Chamo a atenção que, em João, não há referência à Ascensão, Jesus está permanentemente junto aos seus discípulos e discípulas.

II . A perícope em questão.

A luz dessas informações, vamos refletir sobre a perícope  João 5.1-16.

A piscina de Betesda é parte de uma religiosidade popular da antiga Jerusalém, como bem explica o texto de João. Havia a crença que um certo Anjo agitava as águas uma vez ao dia e assim a água adquiria o poder de curar quem primeiro nela mergulhasse.  Não vamos discutir esses detalhes aqui, deixemos para outra oportunidade. Por agora, vamos assumir essa crença como um fato dado pelo texto em estudo.

O texto não fala de um paralítico, mas de um enfermo que está ali, a espera de uma cura, há 38 anos – para aquele tempo, quase a duração de uma vida humana.  O enfermo lamenta-se que não conta com uma pessoa para levá-lo ao tanque e que quando lá chega, alguém já havia conseguido mergulhar antes. Em outras palavras, esse enfermo está paralisado diante de sua espera pela cura.

Jesus, talvez tomado de grande compaixão por aquele homem, lhe pergunta se ele quer  ser curado. Ao invés de responder à pergunta, o homem justifica-se e lamenta sua situação.  Então Jesus, sem invocar a Deus, sem orar, sem impor as mãos sobre o homem, apenas lhe diz:  “Levanta-te, toma o teu leito e anda” ! E o homem se levantou e foi embora, levando consigo o seu leito.  Não há ai nenhum elemento que caracterize um “milagre” , apenas a palavra de Jesus é suficiente, uma palavra imperativa que o homem enfermo obedece sem argumentar. [de fato, a Palavra – o Logos – é uma das características fundamentais da teologia joanina].

Este homem era alguém paralisado pela sua própria esperança de cura. Crente em uma tradição popular, perdia o tempo de sua vida esperando por algo que lhe era impossível conseguir. Todavia, Jesus lhe ordena que simplesmente vá embora levando consigo o leito de sua enfermidade.  Jesus liberta esse homem de uma falsa esperança e o faz perceber que podia ele mesmo carregar seu leito e andar e cuidar de sua vida! Sem depender de ninguém que o carregasse ou de qualquer anjo que viesse.

Sei que para a maioria dos leitores essa interpretação parecerá muito racional e pouco espiritual. Mas, acredite se puder, eu faço tal afirmação movido por um profundo sentimento místico: o Cristo que nos liberta de vãs esperanças e crendices, afirmando a cada um de nós que somos capazes de carregar nós mesmos os fardos de nossas vidas, sem precisarmos viver em lamentações e expectativas de que alguém ou os anjos façam algo por nós.

Mas o assunto não termina aqui. No contexto de João, o que se segue é mais importante. Os judeus, vendo o homem carregando o leito em dia de sábado, fiéis ao seu uso e costume e à sua forma de interpretar a Lei, repreenderam o homem por estar desobedecendo a lei.  Para os que estão presos à letra da lei, pouco importa a libertação experimentada por aquele homem, pouco importa a alegria diante de uma nova vida… importa apenas cumprir o texto da Lei.

Dai para a frente, João narra a discussão sobre o sábado, desmascarando a forma institucionalizada de interpretação da Lei. O conselho dado ao homem, “não peques mais” parece alertá-lo sobre a Lei… (deixo ao leitor a tarefa de meditar sobre isso).

III. Concluindo

O texto estudado é muito rico e nos leva a muitas reflexões. O Evangelho de João é um dos mais complexos livros da Bíblia e é parte de um conjunto que inclui o Apocalipse e as Cartas Joaninas. É uma literatura própria dentro do Novo Testamento e traz em si uma teologia bem específica resultado da reflexão das Comunidades Joaninas, ainda hoje objeto de pesquisa e estudo por parte dos exegetas.

Mas dessa simples perícope podemos pelo menos tirar duas lições:

a. O Cristo nos anima a enfrentarmos com coragem as nossas próprias limitações e a viver com elas (carregar o leito), sem ficarmos paralisados à espera de que algo venha resolver a vida para nós;

b. Mais importante que obedecer a normas morais (não carregar o leito no sábado), é a perspectiva da ética libertadora (carregar o leito já que se está liberto)!

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4 comentários:

  1. Lí há alguns meses o livro de um teólogo católico romano basco, não recordo o nome, onde ele fala exatamente isso sobre os "sinais" em contraposição aos "milagres". O livro é sobre o Evangelho de São João.
    Muito oportuna a reflexão que você nos presenteia. Obrigada.

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  2. Olha, muito legal isso que você diz, Mano. Todavia, há momentos em que a gente se esquece dessas coisas, não é? Bjs.

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  3. Gostei! Raro ver uma reflexão sobre um texto joanino sem as apelações "espiritualistas". Você deve publicar mais coisas sobre João (incluindo as Cartas e o livro da Revelação). Obrigada por esse estudo! Bjs.

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  4. Amado irmão,
    fantástica sua exegese bíblica. Digna de "curvar algumas raposas do Vaticano", rsrsrsrs

    Queira Deus manter-se pairando sobre sua mente pelo Santo Espírito para que possamos sempre beber à essa fonte de edificantes palavras.

    PAZ E Bem!

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