Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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11 de out de 2011

Inclusividade ou Diversidade?

Este texto pretende ser um ensaio inicial para partilhar algumas reflexões que tenho feito nestes últimos dois ou três anos. Trata-se portanto de uma reflexão em aberto, onde eu mesmo não tenho muita certeza do que estou dizendo. Aliás, alguém tem certeza de alguma coisa na pós-modernidade? ou “certeza” é um conceito cartesiano cada vez mais distante da realidade líquida que vivemos neste tempo?
Com  efeito, em certos setores da sociedade, a palavra “inclusividade” está na moda. Na Igreja Episcopal, onde exerço o ministério pastoral, a palavra suscitou e suscita muitas discussões teológicas e algumas nada teológicas. Nós, de tradição anglicana, gostamos de nos definir como uma Igreja inclusiva, e na minha opinião isso é apenas arrogância retórica para passar uma ideia que somos algo que, na verdade, não somos! pelo menos da maneira ufanista como certos grupos na Igreja enfatizam.
Eu acho que quem é inclusivo não precisa dizer que é! basta ser! é o excluído que se sente acolhido e incluído quem deve dizer que somos inclusivos; mas isso virou uma espécie de propaganda ufanista. Se setores de vanguarda da Igreja realmente compreendem o significado de “inclusividade” e adotam posturas de acolhimento e simpatia ao diferente, a maioria da Igreja – o povo das nossas pequenas congregações – não tem clareza do que isso significa, e até mesmo olha com estranheza certas práticas que acontecem em uma ou outra comunidade.
O que estou dizendo é que, embora setores teológicos e clericais da Igreja tenham discutido o tema da inclusividade – especialmente a questão homoafetiva – essa discussão não chegou às bases da Igreja para afirmar-se que a Igreja como um todo adota a inclusividade (a reflexão está chegando agora, pela pressão dos acontecimentos e por isso mesmo nem sempre é bem orientada).
Na verdade, o fenômeno não é que a Igreja se tornou inclusiva, mas que grupos com identidade diferenciada do padrão, até o passado recente, mantinham tal qualidade em oculto e raramente demonstravam com clareza sua “identidade diferente”, exatamente para não serem excluídos. Entretanto, em muitas situações, tal condição era de fato conhecida e reconhecida pela comunidade, mas não precisava ser explicitada. Isso é verdade tanto para a Igreja Episcopal quanto para todas as outras denominações religiosas, cristãs ou não, no mundo ocidental.
O que acontece hoje é que os “diferentes” afirmam publicamente sua diferença, defendendo o seu direito de serem como são, e diante disso cada pessoa, cada grupo, tem de posicionar-se para relacionar-se com esses “diferentes”.
O grande mérito da Igreja Episcopal, a meu ver, não é  ser uma Igreja inclusiva, mas assumir a discussão perante o público interno e o público externo, enfrentando abertamente e com coragem a questão, mesmo pagando um alto preço por isso internamente e diante das demais denominações cristãs, em uma sociedade marcada pelos ideais burgueses do séc. XVIII, presa a uma moralidade imutável e, por isso mesmo, excludente de tudo que dela discorde ou difere. O que para muita gente parece ser um afrouxamento moral, é na verdade uma mudança radical de paradigma ético!
Há uma distância temporal entre a reflexão e a prática, considerando-se a Igreja como um todo. Como afirmei acima, setores de vanguarda da Igreja já adotam uma prática inspirada em um novo paradigma ético (a inclusividade em seu sentido maior), mas a reflexão mal começou em nível das comunidades, do povo da Igreja. Assim, há uma estranheza porque a maioria das pessoas comuns não percebe ainda a mudança de paradigma. E aqui sim, eu penso, a Igreja falhou e tem falhado no que se refere ao “aspecto pedagógico” da questão. Falta uma estratégia de formação para a superação de velhos paradigmas.
Eu penso que primeiro é necessário que as pessoas compreendam a diversidade humana – percebam que não há uniformidade, mas diversidade de costumes, de hábitos, de pontos de vista (a diversidade humana existe exatamente como diversidade cultural), e também percebam que conceitos como “verdadeiro” ou “falso” não se aplicam mais diante da diversidade explícita que surge com a rapidez da informação no mundo que se tornou uma aldeia onde os habitantes primam pela diversidade. Não há mais lugar para dogmatismos! mas há – é necessário que haja – lugar para valores a partir de novos paradigmas éticos.
A questão é muito mais profunda do que parece, porque toda a nossa formulação religiosa, herdada do mundo helenista e marcada pelo cartesianismo, fundamenta-se em um conceito dogmático de verdade – por ser dogmático, exclui tudo que com ele discorda ou dele difere.
Para os anglicanos de formação, o conceito de diversidade não é tão estranho. Afinal a principal característica de nossa identidade é exatamente a diversidade da Igreja em suas formulações e ênfases. A identidade fundamental dos anglicanos é que não há um padrão anglicano, mas o anglicanismo é exatamente essa diversidade de padrões. Aliás, essa abertura à diversidade é marca característica da forma anglicana de fazer missão: não se trata de pregar a nossa Igreja para que ela exista em outro lugar, mas anunciar o Evangelho para que a Igreja nasça em comunhão conosco em outro lugar: não a nossa Igreja, mas a Igreja daquele lugar! Nisso nós conseguimos manter o jeito da Igreja Apostólica, cuja unidade não vinha de um padrão, mas da comunhão: a Igreja dos primeiros séculos era na verdade diferentes Igrejas unidas em comunhão. Nesse sentido, a Igreja nunca foi única, mas sempre foi una! Esse é o ideal anglicano.
Assim, eu acredito que ao invés de darmos ênfase na inclusividade, deveríamos ajudar as pessoas compreenderem a riqueza da diversidade como obra de Deus, perceber que a Encarnação de Cristo se deu nessa diversidade e a maior prova disso é que o ministério apostólico do anúncio do Evangelho se abriu desde o início à diversidade característica do mundo conhecido de então.
Eu acho que a narrativa de Pentecostes, em Atos 2 é exatamente isso: os Apóstolos anunciam o Evangelho de forma compreensiva para todos os diferentes povos daquele mundo! O Concílio de Jerusalém (Atos 15), diante do testemunho de Pedro sobre os hábitos estrangeiros e o testemunho de Paulo sobre as Igrejas dos gentios, reconheceu a diversidade da Igreja nascente e não a condenou!
Reconhecendo a diversidade humana, é mais fácil ser inclusivo, porque se pode ver o outro, o diferente, não mais como um estranho, mas um igual a mim porém diferente, amado por Deus e redimido por Cristo, como eu!
Só mais uma palavrinha neste já longo artigo: é preciso refletir muito para que o discurso da diversidade não se torne uma apologia do relativismo. Também é necessário reformular conceitos como salvação, revelação, pecado... Tudo isso tem de ser analisado a partir da teologia bíblica até chegar às formulações e práticas pastorais. A Igreja Episcopal e as demais Igrejas têm ai o grande desafio para o pessoal da Teologia e para os pastoralistas cuja missão é tornar tudo isso acessível às pessoas para enriquecer e fortalecer sua fé, influenciando de forma concreta sua visão de mundo e atitudes de vida enquanto filhas e filhos de Deus, discípulos e discípulas de Cristo.
Caso contrário, ficaremos apenas em um ativismo “liberal”, sem conteúdo, um relativismo vazio de significado, um prato cheio para fortalecer as correntes fundamentalistas que primam em manter a velha e permanente ordem das verdades absolutas. Além disso, se a pastoral da inclusividade focar apenas o incluir os excluídos, acabará excluindo os antes incluídos, ou seja, permanece o gueto da exclusão. As pessoas continuarão separadas por simples classificações e perderão a percepção da unidade maior que é o fato de sermos humanos. A verdadeira inclusão só acontece quando percebemos que, apesar das diferenças, somos de fato todos irmãos e irmãs em comunhão pela Graça de Deus, Quem  por si mesmo se revela como Diversidade (Trindade).
Como eu disse, é uma reflexão ainda cheia de pontos de interrogação… mas estou falando de fé e de ética, por isso continuo não incluindo, e nem tolerando, aquela corja de safados a que me referi no artigo anterior (abaixo). !!!!
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4 comentários:

  1. Vc devia colocar isso em inglês e mandar para algumas pessoas nos EUA e no Canadá...
    Muito oportuno esse artigo!

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  2. Novamente, obrigado pela excelente e lúcida reflexão, Caetano. Sobretudo, pelo acento prático e pastoral que a conduziu do início ao fim. Beijo na face. Seu amigo, Handall.

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  3. Caríssimo Caetano, muito oportuna reflexão. Como todo pensamento da hora, pulsante, colado ao que está acontecendo, sempre ficam pontos sem nó. Um deles é como equacionar o que você chama de crise da certeza na "pós-modernidade" e a crítica ao relativismo. Acho que corremos dois riscos nessa tarefa: um é o de tomar a pós-modernidade como um dado, uma nova época, uma forma de sociedade que vai substituindo a modernidade. Se for assim, vamos ficar presos a descrições do que constitui a tal pós-modernidade e se a falta de certeza ou a ilegitimidade de "ter certeza" forem características desse suposto novo tempo, lutar contra o relativismo será inútil, até quixotesco. Segundo risco: se a crítica ao relativismo se faz em nome de valores, temos que ser capazes de assumir com coragem porque esses (os nossos) valores, aqui e agora, podem oferecer alguma resistência ou alternativa ao "vale-tudo" relativista. Não vejo muito como escapar: assumir os valores é uma forma de "certeza". Mesmo que admitamos, como bons pluralistas, que nossos valores não são os únicos, nem os definitivos, são os nossos e temos boas razões para defendê-los publicamente, argumentar em seu favor e mostrar os efeitos de práticas animadas por eles. Isso é um antídoto contra o relativismo.
    Mas o caminho aberto por sua reflexão é bom e promissor. Uma das coisas que ele pode nos ajudar a discernir é que algumas vozes pela inclusividade são apenas velhas formas de vanguardismo autoritário e potencialmente "golpista": menosprezam a "verdade" predominante na comunidade a que se dirigem, em termos de seus valores, práticas e instituições, mas quererão invocá-las para sacramentar sua certeza quando os "fatos criados" lhes conferir o poder para, ironicamente, enquadrar os derrotados (os "desincluídos").

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  4. Caro Joanildo, muito obrigado pelas considerações. Concordo plenamente no que se refere aos riscos e à necessidade de assumirmos os valores que temos, mesmo sabendo que não são absolutos em si mesmos, mas são significantes para nossa própria identidade. Obrigado pelo alerta quanto aos vanguardimos! Acho que você tocou exatamente o ponto que me inquieta...
    Abração!

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