Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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27 de fev de 2010

A mosca

Jurisvaldo é uma mosca; ou melhor um mosco, já que é um macho de sua espécie. Um macho novo, não no tempo, uma vez que já viveu sua fase de larva e de pupa e eclodiu há pouco para a última fase da vida. Assim, no conceito de tempo moscal, Jurisvaldo é um ancião; todavia, seu organismo pulsa como o de um adolescente… está na fase reprodutiva e tudo que Jurisvaldo deseja é encontrar uma mosca fêmea para, com ela, dar sua contribuição à continuidade de sua espécie.

Jurisvaldo enxerga o mundo com seus olhos de mosca; não faz nenhum julgamento, nenhuma análise uma vez que não teve outros olhos para ver e, então, comparar.  E ele nem quer saber de analisar nada, de entender nada; ele voa atento em busca da fêmea. Esse é seu dever e a sua natureza.

Então ele a vê, pousada, esfregando as patas traseiras nas asas. Jurisvaldo não a acha feia nem bonita, nem atraente ou gostosa. Ele não tem tais conceitos. Ele só sabe que é uma fêmea, há pouco eclodida da pupa como ele, e deve estar também em busca do macho para a reprodução.

Ele pousa à distância adequada e faz os movimentos certos para atrair a mosquinha. Ele não sabe que movimentos são esses, nem porque os faz, mas sabe que tem de executar essa dança. A mosquinha fica estática, olhando-o com seus olhos de mosca.  E move as asas na forma que deve mover.

De repente Jurisvaldo percebe que ela assume outra postura, fica atenta e sai voando rapidamente. Ele não tem tempo para pensar. Sente um forte vento e de repente está todo molhado. Mas estranhamente, esse molhado lhe deixa tonto, vai perdendo os sentidos, suas pernas estão estranhas, ele cai no vácuo. Jurisvaldo morre! Morre sem completar sua tarefa. Um banho de algo que vem com um vento forte e ele morre.

“_  Pronto, mamãe! Joguei o inseticida mas uma das mosconas azuis fugiu, a outra, morreu!” diz a mocinha de vestido florido.

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19 de fev de 2010

O cãozinho preto

Naquela manhã ele levantou diferente. Pela janela viu que seria daqueles dias cinzas, de garoa fina e vento frio. “Nada animador para um sábado!”, pensou e foi ao banho.

Ao sair do quarto, lá estava o Fred – como sempre. Mas, diferente de sempre, o cão estava cabisbaixo, triste, nem moveu o rabo;  inusitadamente, mordeu a ponta de sua calça, como que puxando-o de volta ao quarto. 

_ “Pare com isso, Fred! já chega!”, e moveu a perna com força.  O cãozinho abaixou a cabeça e o seguiu lentamente.

Não havia café pronto. A empregada ainda não chegara. Ele custou a achar o filtro de papel e o coador, e descobriu que não havia fósforos ao lado do fogão; o acendedor elétrico há muito estava quebrado. Voltou à sala em busca do isqueiro. Lembrou-se que os cigarros estavam na mesa do estúdio, e com eles, o isqueiro. Assim, subiu as escadas já com a certeza que seria um péssimo dia. Quando voltou, o cãozinho estava sentado ao pé da escada.

Novamente o cãozinho pegou a ponta da calça! desta vez estava grunhindo.

_ “O que você tem, Fred? deixa de ser chato!” – fez um carinho na cabeça do cãozinho, que ficou choroso e o olhava muito triste.

Pegou o jornal que estava à porta, e foi para a cozinha. Finalmente fez o café, descobriu que não havia leite. “Merda! café puro me dá azia!” – mas tomou assim mesmo, enquanto lia as manchetes do dia. Logo passou aos quadrinhos e às palavras cruzadas, que hoje estavam mais difíceis que o costume, além do que custou a achar uma esferográfica que prestasse. A empregada chegou, desculpando-se pelo atraso devido à chuva, “mas também é sábado, não é costume vir aos sábados, vim porque o senhor pediu”.  Ele agradeceu o esforço da parte dela em vir no sábado.

_ “O senhor viu a fatura do cartão de crédito? chegou ontem pelo correio, deixei sobre o móvel da sala. Também ligaram do banco! aquele cheque… disseram que  o senhor precisa resolver na segunda-feira sem falta!”

A fatura do cartão de crédito… há dois anos que não o usava, havia estourado o limite por causa daquela sirigaita, estavam cobrando juros altos. Tentou negociar duas vezes, não aceitaram. Parou de pagar, que se dane o banco! Aliás, que se dane o mundo! e aquela merda de cheque! tudo porque o Joel não depositou o salario no dia certo, esculhambou todo o fluxo de cheques pré-datados.

Serviu mais uma xícara de café.

_ “O que tem esse cachorro? está choramingando desde que cheguei!” – o comentário da empregada o trouxe de volta, pois sua mente estava distante, lembrando daquela filha-da-puta que o havia enganado e se aproveitado do dinheiro enquanto tinha. “Mas pelo menos era gostosa e boa de cama…”

_ “Não sei, dona Marta! ele está é muito chato hoje! Vou sair, buscar leite, pão e dar uma volta! Se telefonarem, diga que estou viajando, inventa qualquer coisa, não quero falar com ninguém hoje!”

_ “Ninguém vai telefonar hoje! Afinal, é sábado! os bancos não abrem hoje, quase ninguém trabalha hoje! só ligam para cá fazendo cobrança, então hoje ninguém vai ligar. Olha, esqueci, vão cortar o telefone se não pagar até terça! ”

“Foda-se o telefone também”, ele pensou em dizer, mas não disse.

Fred ficou muito agitado quando percebeu que ele iria sair. Latiu forte, segurou de novo a ponta da calça, agitadíssimo!

_ “Não Fred! Não vou levar você, está chovendo! e fica quieto!”

Mas o cãozinho não ficou quieto! Continuou a latir, a pegar na ponta da calça, de tão agitado acabou esbarrando no console do telefone e tudo veio ao chão.

_ “Até parece que ele não quer que o senhor saia!”

Mas ele saiu! Deixou o Fred latindo desesperado, e a empregada arrumando o console e o telefone. A chuva havia aumentado, ele fechou melhor a japona e abriu o guarda chuva. Era uma boa caminhada até a padaria. Um caminhão entrou na rua vindo da esquina à frente.

(…)

O padre encerrou o ofício e disse algumas palavras – jargões de sempre. Afinal, não havia muita gente naquela manhã.  Um acidente estranho, um caminhão desgovernado… a dona Corina disse que havia sido suicídio, que perdeu a cabeça por causa daquela mulher, e outras versões sobre o mesmo tema. “Isso é conversa de velha fofoqueira”. O fato é que quase ninguém foi ao enterro, o vizinho e a empregada perderam quase todo o domingo para liberar o corpo no IML, nem houve um velório decente;  já chovia há dois dias, uma garoa fina, e estava frio. Os coveiros cuidaram logo de tapar a cova e as pessoas saíram rapidamente. O gerente do banco deu a eles uma gorjeta.

Ninguém reparou naquele cãozinho preto que estava atrás de uma lápide. Quando todos saíram, o cãozinho se aproximou, sentou sobre a terra úmida e começou a uivar…

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18 de fev de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (IV)

(conclusão; para melhor entendimento, leia antes as postagens abaixo Educação Teológica e Formação Pastoral I, II e III)
As alternativas para a Igreja
Diante do quadro e das reflexões apresentadas nas três postagens anteriores, resta agora analisar as várias alternativas que, ao meu entender, são oferecidas à Igreja para definir o projeto de formação pastoral sem abrir mão da educação teológica de qualidade, e garantir que o clero futuro (nas três Ordens do Sagrado Ministério) tenha a competência necessária para apoiar e fortalecer as comunidades na Missão, cujos desafios são cada vez mais complexos.
Aqui vou dedicar minha reflexão particularmente à Igreja que eu amo e da qual faço parte, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB). Peço a compreensão dos leitores e leitoras membros de outras Igrejas, na esperança que, de alguma forma, estas reflexões sejam úteis também para elas. 
A IEAB precisa definir e adotar, com urgência,  uma nova política para a formação e capacitação do seu clero, incluindo ai a revisão dos critérios canônicos para as Ordenações e, principalmente, o reconhecimento de Ordens e recepção de clérigos advindos de outras confissões.

15 de fev de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (III)

[continuação – veja antes as postagens abaixo Educação Teológica e Formação Pastoral (I) e (II)]
O Clero: pessoas chamadas e separadas para servir à e na Igreja
Como disse no texto anterior (Educação Teológica e Formação Pastoral II – vide abaixo), quero agora prosseguir dentro da perspectiva da minha identidade confessional, ou seja, enquanto episcopal-anglicano, falando com o olhar para a minha Igreja no Brasil, a Tradição por ela herdada e recebida, sua doutrina e rito.  Espero que, de alguma forma, os que estejam lendo mas têm outra identidade denominacional, procurem fazer as equivalências possíveis para refletirem sobre a sua própria comunidade confessional e tradição.
Na tradição episcopal-anglicana, o título “Pastor” é atribuído ao Bispo; as pessoas que pastoreiam as comunidades o fazem na comunhão com seu Bispo (ou Bispa) e são chamadas de Presbíteros(as).  Nesse sentido, o anglicanismo e o episcopalismo seguem a tradição Patrística, focando no Episcopado a totalidade e a unidade da Igreja.

10 de fev de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (II)

(Continuação - sugiro que você leia antes o texto Educação Teológica e Formação Pastoral (I), postado mais  abaixo)
Que tipo de teologia está formando o clero do futuro?
Essa reflexão é importante para o contexto evangélico brasileiro; tenho visto, inclusive nas faculdades mais renomadas, estudantes que fazem a separação entre sua formação teológica e a sua vocação, quase exclusivamente entre os estudantes evangélicos e protestantes.
Várias vezes, conversando com estudantes de teologia que se destinam ao pastorado, ouvi coisas assim: “Eu estudo teologia porque a Igreja exige, para me ordenar! mas depois eu só preciso dos 66 livros da Bíblia e do Espírito Santo”. Também me surpreende muito existirem entre os estudantes de teologia, aberrações conceituais como “teologia da prosperidade”, “crescimento numérico da Igreja por qualquer meio” e “fundamentalismos cruéis” (vi em muitos carros parados nos estacionamentos das faculdades aquele famoso decalque: “em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado”), além, é claro, do pensamento fascista de excluir ou querer “converter” o diferente.
Além de blasfemo e herético, este estado de coisas me preocupa muito, pois temo pelo futuro das Igrejas no Brasil.  Temo que o futuro das Igrejas seja a multidão de consumidores de um sagrado adaptado às massas, cristianismo sem conversão, sem adesão à Pessoa de Jesus Cristo; um protestantismo – generalizado como “povo evangélico” – decadente, que nega sua própria origem, e faz da religiosidade popular manipulada a superstição disfarçada de doutrina e consolo. Não seria isso a forma contemporânea da venda de indulgências e de lugares no “céu”?
Ou seja, há uma diferença entre o conteúdo dos estudos,  a compreensão da vocação e o significado de missão.

Educação Teológica e Formação Pastoral (II)

(Continuação - sugiro que você leia antes o texto Educação Teológica e Formação Pastoral (I), postado mais  abaixo)
Que tipo de teologia está formando o clero do futuro?
Essa reflexão é importante para o contexto evangélico brasileiro; tenho visto, inclusive nas faculdades mais renomadas, estudantes que fazem a separação entre sua formação teológica e a sua vocação, quase exclusivamente entre os estudantes evangélicos e protestantes.
Várias vezes, conversando com estudantes de teologia que se destinam ao pastorado, ouvi coisas assim: “Eu estudo teologia porque a Igreja exige, para me ordenar! mas depois eu só preciso dos 66 livros da Bíblia e do Espírito Santo”. Também me surpreende muito existirem entre os estudantes de teologia, aberrações conceituais como “teologia da prosperidade”, “crescimento numérico da Igreja por qualquer meio” e “fundamentalismos cruéis” (vi em muitos carros parados nos estacionamentos das faculdades aquele famoso decalque: “em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado”), além, é claro, do pensamento fascista de excluir ou querer “converter” o diferente.
Além de blasfemo e herético, este estado de coisas me preocupa muito, pois temo pelo futuro das Igrejas no Brasil.  Temo que o futuro das Igrejas seja a multidão de consumidores de um sagrado adaptado às massas, cristianismo sem conversão, sem adesão à Pessoa de Jesus Cristo; um protestantismo – generalizado como “povo evangélico” – decadente, que nega sua própria origem, e faz da religiosidade popular manipulada a superstição disfarçada de doutrina e consolo. Não seria isso a forma contemporânea da venda de indulgências e de lugares no “céu”?
Ou seja, há uma diferença entre o conteúdo dos estudos,  a compreensão da vocação e o significado de missão.

8 de fev de 2010

Educação Teológica e Formação Pastoral (I)

Introdução
Durante muito tempo, quando fui seminarista por exemplo, estas duas expressões eram sinônimas. Afinal, o Seminário era a “escola de profetas” ou seja, preparava-nos para sermos pregadores da Palavra e pastores do Povo de Deus. Por maior ou menor que fosse o nível acadêmico, a formação era centrada no pastorado.
Haviam exceções, por exemplo, algumas instituições de ensino teológico fortemente influenciadas (e patrocinadas) pelas igrejas protestantes do norte europeu. Que eu me recordo, só a Escola dos luteranos (sinodais) em São Leopoldo era realmente uma academia teológica e não um seminário, mas posso estar equivocado. Também me parece que o ISEDET (uma instituição interdenominacional), em Buenos Aires, tinha esse caráter quase exclusivamente acadêmico. Naquele tempo, as distâncias geográficas eram realmente distâncias e as possibilidades de contato eram raras e caras.

7 de fev de 2010

Conto rapidinho

A tempestade é violenta, a noite sem lua. O vento, soprando forte, dobra os altos cedros que formam a grande floresta. Mas o carvalho, imponente e forte, apenas permite que seus galhos mais finos dancem ao sabor da ventania.
Ao pé da serra cercando a floresta pelo sul, há um castelo. Um castelo muito antigo, de nobres cuja descendência se desconhece. Um castelo abandonado, com partes em ruínas.
Um raio ilumina a noite. O peregrino que, ao longe, segue rápido pela trilha  apesar da tempestade, olha assustado para trás. No castelo, à luz do raio, cujo lampejo entra pela janela, uma aranha, em sua teia no canto do teto de um cômodo, observa baratas, vermes e ratazanas devorarem os restos de um corpo de mulher…
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Concurso literário de texto curto, 1978, F.F.C.L. Oswaldo Cruz, São Paulo, SP - 1º lugar.
Esse concurso foi um desafio dos professores de Língua Portuguesa aos estudantes de Exatas, se eram capazes de escrever literariamente de forma simples, objetiva e sucinta, contando uma estória completa... os três primeiros lugares foram do pessoal da Matemática! he!he!he!he!
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5 de fev de 2010

Conversando com Deus sobre a Vocação


Senhor, estou aqui diante de Ti porque, enfim, não tenho mesmo com quem falar sem ser interrompido com análises, comentários, interpretações, justificativas e, até mesmo, observações cínicas. Afinal, sou um ser humano e Tu és o Criador; Tu me conheces melhor que eu mesmo, então não vais ficar fazendo especulações ou interpretações com base nos modismos e tendências interpretativas do coração e da mente humana. Posso falar livremente, sem preocupar-me com hermenêuticas, porque Tu já sabes mesmo do que se trata antes de eu dizer-Te. Na verdade, falar-Te é importante para mim, não para Ti que, pacientemente,  vais ouvir-me e até dizer-me o que dizer quando eu perder as palavras.

3 de fev de 2010

Conto sem nome

O sábado amanheceu chuvoso e frio, apesar do verão.

Pontualmente, às seis horas, ele acorda e rapidamente levanta; faz os quinze minutos de ginástica matinal;  toma  banho; escolhe cuidadosamente a cueca, veste uma camisa cinza de seda e calça de veludo nos mesmos tons e deixa seus aposentos. Claro, os sapatos marrons, esportivos, mas sóbrios.

O mordomo o recebe à entrada da sala de refeições, como em todas as manhãs, às sete horas e quinze minutos; e o conduz até a mesa posta, onde também está o jornal do dia, dobrado em quatro, com o caderno de esportes em destaque. 

Ele recusa o leite, mas aceita o chá, com pouco açúcar;  antes decidiu que o mamão cairia bem. Segundo o mordomo, havia chegado ao mercado durante a madrugada e fôra especialmente escolhido pelo Pheedeas para o desjejum do senhor.  De fato, está saboroso e doce. Come, em seguida, um pequeno “croissant”  com o chá, enquanto passa os olhos sobre os temas esportivos do final de semana. “Nada de interessante…”, pensa. Ao levantar, ordena ao mordomo que dispense o chofer:

“_ Que tire o final de semana livre, mas antes traga o Rover à porta, pois pretendo sair, dirigindo eu mesmo. Alias…”, diz, voltando-se ao mordomo, “dispense toda a criadagem hoje para o fim de semana. Não estarei na Vila. Mantenha apenas os serviços essenciais. Imagino que você irá visitar sua mãe! dê-lhe minhas recomendações!”.

O mordomo faz a vênia costumeira, diz uma breve palavra de agradecimento, e o acompanha até a sala de estar, quando é dispensado com um gesto. 

O mordomo não se surpreende com o final de semana de folga. Já esperava isso, e tinha seu plano feito; não era exatamente visitar sua mãe...  Afinal tem sido assim cada quinze dias, nos últimos oito anos. Um leve sorriso aparece no rosto do mordomo, que bem sabe onde irá o senhor. “Quanto a mamãe”, pensou, “ele esquece que ela está morta há dois meses!”

Pontualmente às oito e quarenta e cinco, ele sai dirigindo o Rover; estaciona no pátio da Igreja, e dirige-se ao edifício lateral, que tem o nome de seu avô, onde acontece a reunião semanal do Conselho Paroquial. E, de fato, encontra todos os Conselheiros reunidos com o Pároco e seu Coadjutor.

Todos se erguem respeitosamente à sua entrada. Rapidamente, após a saudação formal, informa ao Conselho que aceita patrocinar a reforma da Vestiaria, desde que fosse mantida a decoração interior, doada por seu antepassado no século XI, a mesma exigência feita por seu pai há vinte anos e por seu avô há quarenta e cinco anos. Também doará, de bom grado, como fizera seu pai e seu avô, novas alfaias para o Altar e paramentos para o clero, encarregando o Pároco de tais providências.

O cheque vos será enviado pelo meu administrador na próxima quarta-feira, incluindo tudo. Apenas recordo aos senhores a necessidade do recibo formal, mas esses detalhes tratem diretamente com o senhor Andreas!” 

Tendo dito isso, retira-se, não sem antes despedir-se cordialmente de todos e do Pároco, que o acompanha até o carro, comentando sobre o clima daquela manhã, cheio de mesuras e vênias. “É um cínico ganancioso!”, pensou, mas manteve o sorriso aceitando a bajulação do clérigo.

O Rover avança rapidamente pela avenida principal, e entra na Rota 23, rumo ao sudeste. Logo a paisagem urbana é substituída pelo verde do campo e o movimento está excepcionalmente calmo, apesar de ser julho. “É essa garoa”, pensa, “ninguém se anima a sair de casa! melhor assim! chegarei logo”.

De fato, não eram ainda onze horas quando entra na pequena aldeia, dirigindo-se à casa de tons verdes, à esquerda da rua principal, quase na pequena praça onde uma igrejinha de pedra ocupa o centro sem movimento.

Estaciona o Rover bem à frente da casa, e repara, sorrindo,  nas cortinas das casas vizinhas  movendo discretamente, indicando a bisbilhotice alheia. Ao entrar no pequeno jardim, a porta da casa se abre discretamente, e quem passa por ali vê que, ao cruzar a porta, braços femininos  envolvem  seu corpo; mas a porta é logo fechada, com delicadeza,  escondendo o que se segue.

O tempo passa, chega a noite e amanhece o domingo sem chuva, mas cinzento. O sino da igrejinha chama para a missa, mas na casa de tons verdes, quase na esquina da rua principal, não há movimento. As janelas permanecem fechadas com as cortinas, ocultando seu interior dos olhares curiosos dos passantes, que reconhecem o Rover estacionado à porta. Nada anormal, assim tem sido a cada quinze dias, há anos.

O marasmo da aldeia é quebrado às dezoito horas, com o ruído do Rover saindo, enquanto da janela esquerda da casa de tons verdes, uma mulher não jovem acena carinhosamente.

A Rota 23 continua sem movimento, logo ele está na avenida principal e se dirige à Vila. O mordomo já o aguarda à porta com o motorista, que leva o Rover para a garagem. Dispensa o jantar e o mordomo, retira-se rapidamente para seus aposentos particulares. Veste o pijama, olha-se no espelho satisfeito e deita na cama larga de colchão macia, lembrando que ela data do século XVII e é feita de madeira vinda das Américas.

O sono chega rápido e ele dorme profundamente.
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* Escrevi este conto em 1964, destinado ao Concurso Literário do Grêmio Estudantil do Colégio Nossa Senhora da Glória, em São Paulo. Para minha surpresa, ele foi premiado com o prêmio extra- concurso de criatividade. Achei o original, manuscrito em papel ofício duplo pautado (alguém se  lembra disso?), em uma caixa-arquivo fechada há anos e decidi publicar para partilhar com vocês meu único prêmio literário. Fiz uma pequena correção de estilo (afinal eu tinha 14 anos), mas o texto original está praticamente mantido.