27 de dez. de 2025

O DIREITO DE MORRER DIREITO - Reflexões iniciais sobre a morte com dignidade

Quando eu era criança minha mãe acompanhava pelo rádio uma novela diária, chamada “O Direito de Nascer”. Anos depois, a novela passou na TV, no tempo que não havia videoteipe, era tudo em estúdio. Havia falhas, caia cenário, era engraçado, apesar do enredo ser um drama. A TV brasileira estava engatinhando.

De fato, todos os seres vivos têm o direito a ficarem vivos. Se nasceram, o bom senso diz que merecem permanecer vivos, enquanto essa vida durar.  O problema é a que vida se tem direito?

Hoje em dia fala-se muito em qualidade de vida, embora quase ninguém me explicou o que isso realmente significa. Afinal, o que é qualidade de vida? Como medir isso? É de fato possível uma vida de qualidade em uma sociedade impulsionada pela competição, exaltação do ego, individualismo exacerbado, exploração do trabalho, ganância, avareza, disputa pelo poder a qualquer preço,  enfim, a qualidade de vida tão falada é realmente para todas as pessoas ou só para a minoria que controla tudo?

Ficar entubado em uma UTI, enquanto estiver no prazo permitido pelo plano de saúde ou pelo SUS, vítima de uma doença terminal e incurável, é qualidade de vida? Ou seria apenas uma receita garantida para o sistema de “saúde” (que vive às custas da doença) e em nome de uma medicina que se sente no dever de “preservar a vida”? Este é só um exemplo do problema ético que raros pensadores se animam a discutir, mas que a moralidade tacanha e hipócrita dita “cristã” dogmatiza e atribui ao seu “deus” o direito exclusivo de decidir sobre a duração da vida.

Há, portanto, uma questão teológica, além de ética, a ser analisada, questão essa que exige muita coragem para enfrentar, porque os “donos da verdade” andam à espreita caçando “bruxas” (tudo que coloca em risco seu dogmatismo).

Sou a favor do direito de decidir morrer, por uma pessoa consciente, madura e que percebe que a vida vai caminhar para um final de sofrimento, dor, solidão, abandono, e ainda por cima, ficar à mercê da ganância que move a maioria dos serviços de saúde (prefiro dizer de “serviços pela doença”). A possibilidade de ter a morte assistida, ou resolver por si mesmo, de forma rápida e segura (no sentido de não falhar), dar fim à uma vida que já não tem perspectiva de ser realmente vida que valha a pena viver.

Em algumas culturas antigas essa possibilidade existia. Por exemplo, o filme “A Balada de Narayama”  do diretor Shohei Imamura, fala sobre a tradição em uma vila onde idosos são levados à montanha para morrer aos 70 anos, devido à trágica realidade econômica. Não era algo compulsório, e as famílias resistiam o mais possível para não descartar seus idosos. Porém, o enredo foca em uma senhora que, vendo a pobreza e a falta de alimentação para a família, insiste que se cumpra a tradição. De certa forma, ela está oferecendo sua vida em benefício do resto da família.

Tradições antigas do povo Inuíte (esquimós) falam de uma festiva celebração em que as pessoas idosas – a partir de determinada idade – se despedem da aldeia alegremente e partem rumo à escuridão ártica do Inverno recém iniciado. Há uma nova geração nascida e os recursos são limitados. Assim, uma geração se entrega para garantir a vida de outra

Posso entender o choque que representa para nossa cultura afirmar que alguém tem o direito de encerrar sua vida; mas isso é apenas moralismo, que se justifica a partir das convenientes interpretações religiosas.

Ao mesmo tempo, a moralidade dita cristã se contradiz, por exemplo, quando exalta os mártires da fé que deram testemunho através da morte consentida. Sim, consentida! Porque morrer foi uma decisão: permanecer vivo era o prêmio por negar o senhorio de Cristo e submeter-se às leis religiosas do Império (e à opressão decorrente - o culto ao Imperador); caso contrário, seria a morte. Muitos mártires optaram pela morte. Um tipo de suicídio. Claro que outros mártires não tiveram tal oportunidade de escolha. Foram mortos de forma imediata e cruel sem oportunidade de defesa, de escolha ou fuga.

Nossa cultura julga sem misericórdia o suicida. Algumas igrejas ditas cristãs negam os ritos de sepultamento – o suicida já é condenado a priori.  Outros grupos religiosos afirmam que a pessoa não aceitou seu “karma”, seja lá o isso seja, e assim está condenada.

Também aceitamos e tratamos como heróis os militares que morrem na guerra. São obrigados a ir para a guerra, e aqueles que morrem, se tornam “heróis da pátria”.

Na raiz dessas ideias nada misericordiosas está a crença em um deus que impõe condições severas para que ame alguém: cumprir sua “santa” vontade, cumprir a suas regras e que o tal deus respeita o livre arbítrio da pessoa - o seu amor não é incondicional, precisa ser merecido. Arvora-se a esse deus o poder absoluto sobre a vida e a morte. Não creio nesse deus!

A proposta de permitir o direito de morrer direito (a morte sem sofrimento, etc. e tal, como disse acima) tem crescido nos últimos tempos e há sérias reflexões éticas (e teológicas) sobre em que condições esse direito poderá ser reconhecido. 

Neste ensaio manifesto minhas primeiras reflexões sobre o assunto. Há muito a ser dito e muita reflexão ainda a ser feita. Rever velhos paradigmas, rever certas concepções da fé.

Por agora, é assim que tenho pensado nestes anos de velhice e diante da percepção de que a vida só será pior no futuro, dadas as condições de hoje! Até já sei a maioria das objeções que virão... os chavões religiosos de sempre. Talvez nem venham! Afinal em nossa sociedade, os velhos não são considerados!

===/=== (continua) >>> veja postagem seguinte


4 comentários:

  1. Como médico compreendo seu ponto de vista. Aqui na Alemanha, o assunto tem sido ventilado, mas não se pode ignorar o poder da Igreja da Alemanha (e a de Roma também). Todavia, creio que vc está falando mais além da ética... há um tom de pessoal nisso, eu percebo (somos amigos há uns 40 anos, desde que fui seu aluno na pós graduação).

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  2. Claro que tem. Não é um "artigo científico".

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  3. Como o senhor, sou um sacerdote cristão. Acho relevante colocar a questão em pauta, mas receio que resultará apenas em fortalecimento do moralismo religioso, exceto para quem o pensamento religioso não tem qualquer relevância. Concordo que a questão é o problema ético, pois discutir Moral na sociedade contemporânea é perda de tempo. A Moral é, como o senhor deixa bem claro, dogmática. Obrigado por colocar o tema.

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  4. Chega um dia em que a ideia de morte ja nao assusta tanto assim, no fim acabamos que precisamos de mais coragem para viver do que para morrer. Eu ainda tenho o meu questionamento, qual e o sintido de nascermos se um dia morreremos? De que adinta trabalharmos tanto, se eu dia jogaram terra em cima de nos? Aonde estava deus o missericordioso quando uma criança passar por abuso? Aonde esta deus quando uma criança passa fome? Que deus missericordioso e esse que permitr tanta dor e sofrimento no mundo?

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