Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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21 de fev de 2011

Porque não quero ser politicamente correto (2)

Recebi de um amigo, médico e psiquiatra em Vitória ...
(veja também  http://pirilampos-pintassilgos.blogspot.com/2011/01/porque-nao-quero-ser-politicamente.html)

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA
Texto de: Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto.

Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.


Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil.

Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.


Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil – de deficiente vertical .. O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.


Abraços,
Luiz Antônio Simas
(Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio).
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É isso ai!
PS.: os meus amigos e amigas, bem como os irmãos e irmãs da OST podem continuar me chamando de "Gordinho"; eu não me ofendo!! sou mesmo gordinho... Viu? até que uso linguagem inclusiva... rsrsrsrs
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6 de fev de 2011

O Juazeiro

juazeiro
Josivaldo é professor de Biologia em uma escola no sertão pernambucano. Gosta muito de botânica e pesquisa sobre a flora da caatinga. Em uma aula, distribuiu aos alunos um texto que achou na internet:
“O Juazeiro (Zizyphus Joazeiro) ou juá, joá, laranjeira-de-vaqueiro é uma espécie de árvore abundante no Nordeste brasileiro. Possui copa larga e alta. Planta que gosta de clima quente, vive em terras semi-úmidas  […]” veja mais  em  (http://www.focadoemvoce.com/caatinga/arvore/juazeiro.php)
Raimundo é boiadeiro; vive no sertão paraibano, trabalha em uma pequena fazenda de gado; o gado é magro, tempo de seca… Raimundo, montado em seu jegue, acompanha quatro vacas pelo solo seco da caatinga, o sol das dez já é intenso. Em meio à vegetação seca e espinhuda, ele vê um juazeiro; dirige as vacas e o jegue para lá e logo estão gozando a delícia da sombra da árvore, verdadeiro alívio em meio ao calor da caatinga. Raimundo apeia do jegue e deixa o animal descansar. Senta-se à sombra, toma um gole d’água da cabaça que traz à cintura, e relaxa. Pensa na sua vida, nos amores… lembra os versos de Luiz Gonzaga:
Juazeiro, juazeiro, me arresponda por favor.
Juazeiro, velho amigo, aonde anda o meu amor?
Ai,juazeiro, ela nunca mais voltou..
Por onde andará Mariana, de quem roubou um beijo na festa do padroeiro da vila? Dois dias depois ela se foi para a capital e há mais de quinze anos não se tem notícias dela…

O sol está cada vez mais forte e Raimundo sabe que precisará ficar à sombra do juazeiro até pelas quatro da tarde, quando o sol começar a baixar. Ainda faltam algumas léguas para chegar ao pasto novo que o patrão arrendou… No bornal, pega um pedaço de rapadura e o resto do cuzcuz que trouxe do rancho. E mais um gole d’água. E agradece aos céus e ao bom padim Padre Ciço por ter encontrado água no riacho  quase seco pouco antes de avistar o juazeiro; pelo menos as vacas do patrão e o jegue não estão com sede, e a cabaça está cheia de água meio barrenta, mas dá pra beber; as vacas e o jegue puderam aproveitar o capim ainda verde nas margens. E agradece também ao padim Padre Ciço pelo juazeiro, em cuja sombra ele, o jegue e as vacas estão protegidos do sol escaldante… como esse bezouro que está andando por ai, entre as folhas secas ao pé da árvore, embaixo das quais o chão tem umidade reconfortante.

Eleutério é um besouro, está andando entre as folhas secas sob o juazeiro, procurando fungos pequenos para comer, e divide o espaço com algumas formigas do formigueiro que fica do outro lado da árvore, com o jegue, com as vacas e com Raimundo. Eleutério não tem medo deles; afinal, há um acordo natural de todos se respeitarem sob a sombra do juazeiro. Na maneira de pensar dos besouros, Eleutério sabe do acordo… 

Barril é o jegue; ganhou esse nome por causa de sua barriga arredondada, que ficou assim com a idade. Está solto, um pouco afastado das vacas e de Raimundo, mas nem pensa em fugir; é um jegue, mas não é burro em sair correndo pela caatinga uma hora dessas, sob o sol… e afinal, o Raimundo cuida bem dele… Bem que queria um pasto, mas tem um pouquinho de capim por ali perto; com certeza, quando o sol se inclinar, o Raimundo vai dar um tempo para ele mastigar um pouco aquele capim meio seco… o problema vai ser que as vacas também vão querer… Mas ele está com a pança mais ou menos cheia porque aproveitou o capim que estava à beira do riacho quando pararam para tomar água.

Mimosa é uma vaca; deitada à sombra do juazeiro, ela rumina ainda o mato que conseguiu pegar na beira do riacho quando foi beber água. Ela sabe que não deve sair debaixo da árvore e assim, fica ali curtindo a sombra, com as suas outras amigas, o jegue, o Raimundo, um besouro que anda por ali, umas formigas e tudo mais que existe à sombra do juazeiro.

A aula do Josivaldo está terminando. Ele, como a maioria dos seus alunos, sertanejos que são, sabe que o juazeiro é uma bênção para quem precisa andar pela caatinga. Seu avô Nonato  lhe contava,  quando era criança, os casos do tempo em que foi vaqueiro no sertão da Paraíba, e como a sombra do juazeiro era a salvação de quem tinha de andar por ali. 

Josivaldo lembra do seu avô Nonato falando do acordo da sombra do juazeiro, e termina a aula relatando aos seus alunos sobre o acordo: “O mundo tinha de ser como a sombra do juazeiro: todas as vidas lá estão juntas, se desenvolvendo graças ao juazeiro… ninguém quer matar ninguém, a sombra é de todo mundo!” 

Josivaldo deixa a classe com lágrimas nos olhos. Ele não contou aos alunos, para não estragar o  clima da aula, mas quando tinha oito anos, seu pai, Raimundo, morreu numa sombra de juazeiro, assassinado por uns cabras maus, que roubaram seu jegue e quatro vacas que ele trazia para um pasto novo: “Só gente mesmo para não respeitar o acordo da sombra do juazeiro…

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