Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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13 de mar de 2010

O Avião e o Evangelho

É muito conhecida a regra da “máscara do avião”.  Aquela orientação sobre como colocar a máscara de oxigênio em caso de despressurização: “coloque a máscara primeiro em si e depois na criança”.

É bastante lógica tal providência, porque é preciso que você esteja adequadamente oxigenado para prestar socorro a alguém.  Tendo passado os últimos 13 anos da minha vida dentro de aviões, mais de uma vez vivi a experiência de “em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão do teto, etc.”  E de fato elas caem mesmo.  E no caso de passageiros sozinhos no assento que tenham alguma dificuldade, a tripulação está lá para ajudar. Interessante que a máxima “coloque primeiro a máscara em si mesmo” não vale para a tripulação.

Esse princípio de “colocar a máscara primeiro em si mesmo”  virou mais uma dessas afirmações idiotas do senso comum da auto-ajuda e, o que mais me deixa impressionado, é que se tornou também um pressuposto adotado por muitos terapeutas.  A falsa lógica que se oculta atrás desse princípio objetivo, em termos existenciais, é a seguinte: você só pode ajudar alguém SE estiver bem, se não precisar de ajuda – se você estiver mal, não vai conseguir ajudar outrem.

Acontece que a vida não é uma viagem de avião.  Não tem uma tripulação treinada, embora haja um exército de pessoas “treinadas” nas escolas de saúde mental (cujos serviços são muito mais caros que uma passagem área) e um arsenal enorme de propostas para auto-ajuda, que de fato ajudam muito os que as patentearam.  De certa forma, é mais uma forma de promover o individualismo, e reduzir a sensibilidade para ações solidárias.

Olha, eu sinto muito que você esteja passando por isso, lamento, mas eu também não estou bem, preciso cuidar de mim, compreende? é como o lance da máscara do avião!” – tenho ouvido isso em demasia nos últimos tempos. O suficiente para entender que não posso contar com a maioria das pessoas que eu conheço e considerava como amigas. De fato, é uma gentil maneira de dizer “Lamento, mas não encha o saco. Foda-se!

Outra “filosofia barata” que tenho ouvido muito é “a gente tem de assumir o resultado das nossas escolhas”. Ou seja, se você se fudeu, a culpa é sua mesmo porque fez opções erradas.  Na verdade, é uma outra maneira de dizer: “Foda-se”.  Essa afirmação vem sempre seguida de outra – também uma pérola: “O importante agora é seguir em frente”; mas ninguém diz para onde…

Para quem se sente à beira de um abismo, essa frase é realmente muito consoladora. Não importa se você fez uma opção porque alguém te iludiu: a culpa é sua! Não importa se você fez uma opção porque seguiu o que achava ser eticamente correto: foda-se! Não importa se a sua opção foi movida pelo senso de responsabilidade profissional: você escolheu, dane-se! Não importa se você acreditou em pessoas ou instituições que te traíram: você foi bobo, agora lasque-se!

O resultado disso é criar para nós a sensação de que todo mundo está se lascando e tendo de ajudar a si mesmo; além disso, há a intenção ideológica de eximir de responsabilidade as pessoas, as instituições, o estado, ou seja, o sujeito é o único culpado de ser o que é.  “Logo”, assim pensará quem começa a vida, “o importante é eu me sentir bem, eu cuidar de mim e procurar só meus interesses para fazer as melhores escolhas para mim mesmo!” É o liberalismo capitalista levado ao extremo.

Hitler sentia-se muito bem em exterminar judeus e tinha certeza que fazia o melhor para a Alemanha. Portanto, é um absurdo ele ser julgado por um mundo que prega exatamente a filosofia do “fazer o que é melhor para mim”.  Para a maioria dos jovens paupérrimos que vivem na periferia das grandes cidades, conseguir um emprego com o crime organizado é realmente a melhor escolha que eles tem, diante de nenhuma outra. Portanto, a polícia deveria respeitar a liberdade deles em fazer tal escolha, afinal é a única opção de ganharem algum dinheiro e se sentirem bem… 

Já que todo mundo está primeiro colocando a mascara em si mesmo, ninguém poderá realmente fazer nada para mudar a situação… e assim vamos criando o mundo do “eu sozinho faço as escolhas que sejam melhores para euzinho – e o mundo que se foda!”

Quando eu chego à absurda situação de ouvir essas coisas “cuidar de si mesmo antes dos outros” (e conselhos semelhantes) ditas por pregadores do Evangelho, por pastores e pastoras, e por gente que se diz cristã, fico numa dúvida angustiante: ou eu realmente não entendi o Evangelho de Cristo ou estamos mesmo em tempos do Anticristo!

Acho que posso eliminar a primeira hipótese. Afinal, não poderia viver iludido por mais de 40 anos em relação ao Evangelho.  Havendo duas alternativas mutuamente exclusivas, diz o Cálculo de Predicados (Lógica Formal Matemática), a negação de uma significa a afirmação da outra. Assim concluo que estamos em tempos do Anticristo.

Entretanto, se a vida não é uma viagem de avião, também não é regida pelo Cálculo de Predicados – ele só se aplica dentro da objetividade racional das ciências matemáticas  (ainda escreverei um artigo mostrando que a Matemática não é tão objetiva e racional quanto a maioria das pessoas pensa, mas fica para outro momento). E a mente humana (portanto, a história humana) não é só racionalidade: ela é profundamente subjetiva, a ponto de criar a arte! E se temos a Mente, também temos Coração e Espírito: sentimos (e podemos refletir sobre o que sentimos ou seja, o sentir é uma ação consciente) e buscamos algo que nos transcenda.

Apesar de tudo, tenho visto coisas que mantém minha esperança no Evangelho. Por exemplo, neste tempo difícil que estou vivendo, recebi muita solidariedade objetiva (não palavrinhas de consolo, como Jó recebeu de seus “amigos”), de gente que eu não esperava receber alguma coisa por que não eram tão próximos a mim (nunca tinham dito que eram meus amigos). Tais pessoas são para mim os Anjos que Deus tem enviado para me manter em pé e – apesar de tudo – suportar a dor e evitar o desespero absoluto.

Ainda há gente que não obedece a regra da máscara do avião… ainda há pessoas capazes de estender a mão e colocar a máscara em você, independente de como estejam. Ainda há aquelas pessoas que sabem que seguir a Cristo é seguir com a cruz, dando suporte uns aos outros, como disse o Apóstolo Paulo à Igreja em Éfeso (Ef 4.2).

Se os tempos forem do Anticristo, pelo menos ainda há os que seguem o Cristo. Portanto, ainda há esperança para o mundo, embora a maioria das pessoas esteja viajando de avião, cuidando de si mesmas para ficarem melhor e depois ajudarem outros.

Um detalhe: há 10 anos, em uma viagem de avião – São Paulo/Quito via Manaus – um vôo sempre com poucos passageiros, eu salvei a vida de uma senhora de 70 anos que estava sozinha  no assento da janela no lado oposto ao que eu estava. Só eu percebi que a máscara dela não funcionava. Ela estava já com sinais de cianose (pele azulada) e debatia-se muito.  Tirei minha máscara, prendi a respiração, sentei ao lado dela, tirei a máscara dela, coloquei outra, e depois coloquei a terceira em mim, e ela ficou de mãos dadas comigo até o pouso.  A comissária, que não tinha como ver a situação da senhora, me deu esporro pelo sistema de som, mas eu tinha plena consciência que a senhora morreria se eu não a ajudasse rápido.  Foi o meu gesto que fez com que outro passageiros dissesse: “alguém está mal”, e ai vieram prestar socorro, mas já não precisava. Eu poderia ter chamado a tripulação (afinal são treinados para isso), mas na hora era mais rápido eu mudar de lugar que esperar por alguém “habilitado”.

Não sou adepto da “regra do avião” para a vida. Se eu amo alguém, prefiro morrer abraçado a quem amo, que vê-ló morrer em total solidão! Eu acho que é isso que diz no Evangelho (João 15.13)… e é isso que eu obedeço.  

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4 comentários:

  1. Gostei, maninho. Bem apropriado! Lembre-se do que você mesmo disse: "Os Anjos de Deus surgem de onde menos esperamos!"

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  2. Olá querido Mestre, Paz e Bem!
    Estou com saudades de ti meu amado.
    Como vai você? Resolveu a sua situção?

    Parabéns pela postagem, está ótima como sempre.

    Parabéns pelo gesto de salvar a "velhinha", além de ter sido um gesto de amor, foi típico do seu caráter e testemunho de vida cristã.
    Conheço muitos "evangélicos" que pensariam primeiro na própria vida, depois nas regras (legalistas), e, por último, nem se importariam com a "senhorinha", talvez ela não "estava 'SALVA' mesmo". Ainda bem que você é CRISTÃO.

    Um grande abraço! Dê notícias (não some não, apesar de eu estar sumido. Ando bastante ocupado)

    O Senhor te abençoe e te guarde, hoje e sempre.
    A graça e a Paz sejam contigo!
    Bjs!!!

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  3. Querido, gostei muito. Em tempos de racionalidade dracônica, é preciso que alguém fale em solidariedade amorosa!

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  4. De facto, a vida não é uma viagem de avião, embora haja viagens de avião durante a vida hihihi. Todavia tua reflexão é oportuna diante dos factos que assistimos todos os dias, quando as pessoas não têm mais tempo para cuidarem-se uma das outras.

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