Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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6 de fev de 2011

O Juazeiro

juazeiro
Josivaldo é professor de Biologia em uma escola no sertão pernambucano. Gosta muito de botânica e pesquisa sobre a flora da caatinga. Em uma aula, distribuiu aos alunos um texto que achou na internet:
“O Juazeiro (Zizyphus Joazeiro) ou juá, joá, laranjeira-de-vaqueiro é uma espécie de árvore abundante no Nordeste brasileiro. Possui copa larga e alta. Planta que gosta de clima quente, vive em terras semi-úmidas  […]” veja mais  em  (http://www.focadoemvoce.com/caatinga/arvore/juazeiro.php)
Raimundo é boiadeiro; vive no sertão paraibano, trabalha em uma pequena fazenda de gado; o gado é magro, tempo de seca… Raimundo, montado em seu jegue, acompanha quatro vacas pelo solo seco da caatinga, o sol das dez já é intenso. Em meio à vegetação seca e espinhuda, ele vê um juazeiro; dirige as vacas e o jegue para lá e logo estão gozando a delícia da sombra da árvore, verdadeiro alívio em meio ao calor da caatinga. Raimundo apeia do jegue e deixa o animal descansar. Senta-se à sombra, toma um gole d’água da cabaça que traz à cintura, e relaxa. Pensa na sua vida, nos amores… lembra os versos de Luiz Gonzaga:
Juazeiro, juazeiro, me arresponda por favor.
Juazeiro, velho amigo, aonde anda o meu amor?
Ai,juazeiro, ela nunca mais voltou..
Por onde andará Mariana, de quem roubou um beijo na festa do padroeiro da vila? Dois dias depois ela se foi para a capital e há mais de quinze anos não se tem notícias dela…

O sol está cada vez mais forte e Raimundo sabe que precisará ficar à sombra do juazeiro até pelas quatro da tarde, quando o sol começar a baixar. Ainda faltam algumas léguas para chegar ao pasto novo que o patrão arrendou… No bornal, pega um pedaço de rapadura e o resto do cuzcuz que trouxe do rancho. E mais um gole d’água. E agradece aos céus e ao bom padim Padre Ciço por ter encontrado água no riacho  quase seco pouco antes de avistar o juazeiro; pelo menos as vacas do patrão e o jegue não estão com sede, e a cabaça está cheia de água meio barrenta, mas dá pra beber; as vacas e o jegue puderam aproveitar o capim ainda verde nas margens. E agradece também ao padim Padre Ciço pelo juazeiro, em cuja sombra ele, o jegue e as vacas estão protegidos do sol escaldante… como esse bezouro que está andando por ai, entre as folhas secas ao pé da árvore, embaixo das quais o chão tem umidade reconfortante.

Eleutério é um besouro, está andando entre as folhas secas sob o juazeiro, procurando fungos pequenos para comer, e divide o espaço com algumas formigas do formigueiro que fica do outro lado da árvore, com o jegue, com as vacas e com Raimundo. Eleutério não tem medo deles; afinal, há um acordo natural de todos se respeitarem sob a sombra do juazeiro. Na maneira de pensar dos besouros, Eleutério sabe do acordo… 

Barril é o jegue; ganhou esse nome por causa de sua barriga arredondada, que ficou assim com a idade. Está solto, um pouco afastado das vacas e de Raimundo, mas nem pensa em fugir; é um jegue, mas não é burro em sair correndo pela caatinga uma hora dessas, sob o sol… e afinal, o Raimundo cuida bem dele… Bem que queria um pasto, mas tem um pouquinho de capim por ali perto; com certeza, quando o sol se inclinar, o Raimundo vai dar um tempo para ele mastigar um pouco aquele capim meio seco… o problema vai ser que as vacas também vão querer… Mas ele está com a pança mais ou menos cheia porque aproveitou o capim que estava à beira do riacho quando pararam para tomar água.

Mimosa é uma vaca; deitada à sombra do juazeiro, ela rumina ainda o mato que conseguiu pegar na beira do riacho quando foi beber água. Ela sabe que não deve sair debaixo da árvore e assim, fica ali curtindo a sombra, com as suas outras amigas, o jegue, o Raimundo, um besouro que anda por ali, umas formigas e tudo mais que existe à sombra do juazeiro.

A aula do Josivaldo está terminando. Ele, como a maioria dos seus alunos, sertanejos que são, sabe que o juazeiro é uma bênção para quem precisa andar pela caatinga. Seu avô Nonato  lhe contava,  quando era criança, os casos do tempo em que foi vaqueiro no sertão da Paraíba, e como a sombra do juazeiro era a salvação de quem tinha de andar por ali. 

Josivaldo lembra do seu avô Nonato falando do acordo da sombra do juazeiro, e termina a aula relatando aos seus alunos sobre o acordo: “O mundo tinha de ser como a sombra do juazeiro: todas as vidas lá estão juntas, se desenvolvendo graças ao juazeiro… ninguém quer matar ninguém, a sombra é de todo mundo!” 

Josivaldo deixa a classe com lágrimas nos olhos. Ele não contou aos alunos, para não estragar o  clima da aula, mas quando tinha oito anos, seu pai, Raimundo, morreu numa sombra de juazeiro, assassinado por uns cabras maus, que roubaram seu jegue e quatro vacas que ele trazia para um pasto novo: “Só gente mesmo para não respeitar o acordo da sombra do juazeiro…

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2 comentários:

  1. Maninho, conto bem surrelista, não é? mas gostei... Bjs

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  2. Muito legal, Maninho... vc continua espirituoso e criativo, que bom!
    Beijos meus e de Herman.

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