Pequenas luzes, simplicidade

Este blogue é destinado a pessoas que gostam de pensar sem as limitações impostas pelos modismos e pelas instituições sejam quais forem; que conseguem rir de si mesmas e de tudo, sem sentir culpa; que conseguem olhar além do próprio umbigo.
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Este não é um blogue acadêmico, nem jornalístico, não é um blogue temático e não é politicamente correto (modismo idiota americano)! Este blogue pretende ser um espaço de idéias sem a formalidade acadêmica, livre, de conteúdo variado, sem nenhum compromisso temático, ideológico, partidário, étnico, religioso, essas bobagens todas. Ou seja, é politicamente pentelho! e cheio de contradições! como eu! Quem espera respostas prontas e uma enxurrada de racionalidade, que vá ler Kant!
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3 de fev de 2010

Conto sem nome

O sábado amanheceu chuvoso e frio, apesar do verão.

Pontualmente, às seis horas, ele acorda e rapidamente levanta; faz os quinze minutos de ginástica matinal;  toma  banho; escolhe cuidadosamente a cueca, veste uma camisa cinza de seda e calça de veludo nos mesmos tons e deixa seus aposentos. Claro, os sapatos marrons, esportivos, mas sóbrios.

O mordomo o recebe à entrada da sala de refeições, como em todas as manhãs, às sete horas e quinze minutos; e o conduz até a mesa posta, onde também está o jornal do dia, dobrado em quatro, com o caderno de esportes em destaque. 

Ele recusa o leite, mas aceita o chá, com pouco açúcar;  antes decidiu que o mamão cairia bem. Segundo o mordomo, havia chegado ao mercado durante a madrugada e fôra especialmente escolhido pelo Pheedeas para o desjejum do senhor.  De fato, está saboroso e doce. Come, em seguida, um pequeno “croissant”  com o chá, enquanto passa os olhos sobre os temas esportivos do final de semana. “Nada de interessante…”, pensa. Ao levantar, ordena ao mordomo que dispense o chofer:

“_ Que tire o final de semana livre, mas antes traga o Rover à porta, pois pretendo sair, dirigindo eu mesmo. Alias…”, diz, voltando-se ao mordomo, “dispense toda a criadagem hoje para o fim de semana. Não estarei na Vila. Mantenha apenas os serviços essenciais. Imagino que você irá visitar sua mãe! dê-lhe minhas recomendações!”.

O mordomo faz a vênia costumeira, diz uma breve palavra de agradecimento, e o acompanha até a sala de estar, quando é dispensado com um gesto. 

O mordomo não se surpreende com o final de semana de folga. Já esperava isso, e tinha seu plano feito; não era exatamente visitar sua mãe...  Afinal tem sido assim cada quinze dias, nos últimos oito anos. Um leve sorriso aparece no rosto do mordomo, que bem sabe onde irá o senhor. “Quanto a mamãe”, pensou, “ele esquece que ela está morta há dois meses!”

Pontualmente às oito e quarenta e cinco, ele sai dirigindo o Rover; estaciona no pátio da Igreja, e dirige-se ao edifício lateral, que tem o nome de seu avô, onde acontece a reunião semanal do Conselho Paroquial. E, de fato, encontra todos os Conselheiros reunidos com o Pároco e seu Coadjutor.

Todos se erguem respeitosamente à sua entrada. Rapidamente, após a saudação formal, informa ao Conselho que aceita patrocinar a reforma da Vestiaria, desde que fosse mantida a decoração interior, doada por seu antepassado no século XI, a mesma exigência feita por seu pai há vinte anos e por seu avô há quarenta e cinco anos. Também doará, de bom grado, como fizera seu pai e seu avô, novas alfaias para o Altar e paramentos para o clero, encarregando o Pároco de tais providências.

O cheque vos será enviado pelo meu administrador na próxima quarta-feira, incluindo tudo. Apenas recordo aos senhores a necessidade do recibo formal, mas esses detalhes tratem diretamente com o senhor Andreas!” 

Tendo dito isso, retira-se, não sem antes despedir-se cordialmente de todos e do Pároco, que o acompanha até o carro, comentando sobre o clima daquela manhã, cheio de mesuras e vênias. “É um cínico ganancioso!”, pensou, mas manteve o sorriso aceitando a bajulação do clérigo.

O Rover avança rapidamente pela avenida principal, e entra na Rota 23, rumo ao sudeste. Logo a paisagem urbana é substituída pelo verde do campo e o movimento está excepcionalmente calmo, apesar de ser julho. “É essa garoa”, pensa, “ninguém se anima a sair de casa! melhor assim! chegarei logo”.

De fato, não eram ainda onze horas quando entra na pequena aldeia, dirigindo-se à casa de tons verdes, à esquerda da rua principal, quase na pequena praça onde uma igrejinha de pedra ocupa o centro sem movimento.

Estaciona o Rover bem à frente da casa, e repara, sorrindo,  nas cortinas das casas vizinhas  movendo discretamente, indicando a bisbilhotice alheia. Ao entrar no pequeno jardim, a porta da casa se abre discretamente, e quem passa por ali vê que, ao cruzar a porta, braços femininos  envolvem  seu corpo; mas a porta é logo fechada, com delicadeza,  escondendo o que se segue.

O tempo passa, chega a noite e amanhece o domingo sem chuva, mas cinzento. O sino da igrejinha chama para a missa, mas na casa de tons verdes, quase na esquina da rua principal, não há movimento. As janelas permanecem fechadas com as cortinas, ocultando seu interior dos olhares curiosos dos passantes, que reconhecem o Rover estacionado à porta. Nada anormal, assim tem sido a cada quinze dias, há anos.

O marasmo da aldeia é quebrado às dezoito horas, com o ruído do Rover saindo, enquanto da janela esquerda da casa de tons verdes, uma mulher não jovem acena carinhosamente.

A Rota 23 continua sem movimento, logo ele está na avenida principal e se dirige à Vila. O mordomo já o aguarda à porta com o motorista, que leva o Rover para a garagem. Dispensa o jantar e o mordomo, retira-se rapidamente para seus aposentos particulares. Veste o pijama, olha-se no espelho satisfeito e deita na cama larga de colchão macia, lembrando que ela data do século XVII e é feita de madeira vinda das Américas.

O sono chega rápido e ele dorme profundamente.
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* Escrevi este conto em 1964, destinado ao Concurso Literário do Grêmio Estudantil do Colégio Nossa Senhora da Glória, em São Paulo. Para minha surpresa, ele foi premiado com o prêmio extra- concurso de criatividade. Achei o original, manuscrito em papel ofício duplo pautado (alguém se  lembra disso?), em uma caixa-arquivo fechada há anos e decidi publicar para partilhar com vocês meu único prêmio literário. Fiz uma pequena correção de estilo (afinal eu tinha 14 anos), mas o texto original está praticamente mantido.

7 comentários:

  1. Muito legal e supreendente! Gostei mesmo!

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  2. Querido irmão !!! Que alegria, apesar de vc não aceitar minha opinião (rarara), perceber teu talento para a literatura. Eu sei; sabemos.
    Escrever é todo um universo... Há "coisas" (transpiração, ofício, trabalho), mas como não ver em tuas palavras TALENTO !
    Verdade. Eu sei... sabemos.
    Gostoso ler tuas palavras em estado de arte; saborear teu estilo !
    Parabéns, irmão.

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  3. E o cordão dos pucha sacos, cada vez aumenta mais!

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  4. Entendi... a mulher não jovem, que acena da janela esquerda da casa de tons verdes, é a mãe do mordomo, que não morreu, mas tem um caso com o senhor do Rover. Enquanto isso, o mordomo, que é gay, tinha um encontro com o Coadjutor da Paróquia rsrsrs sutil, cara, gostei! É claro que tudo isso se passa na Inglaterra, não é? rsrsrsr.
    Bjs. segue, vc escreve legal.

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  5. Não tinha pensado na possibilidade do mordomo gay! Mas convenhamos que em 1964 (êta ano, né?) nem poderia mesmo pensar em gay, a gente nem usava essa palavra, era outra.... rsrsrs.

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  6. Talvez o Peregrino fosse um Templário a caminho de Jerusaçém, pois não? huahuahua!

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